Carta-resposta: homem pode chorar?

Texto de Bruna Klöppel.

Maicon Tenfen, gostaria de fazer alguns comentários acerca da sua coluna no Jornal de Santa Catarina do dia 06/04/2011 – quarta-feira, em que comentou uma entrevista da pedagoga Tânia Brabo para a Folha de S. Paulo.

“Hoje começo com uma pergunta destinada apenas às leitoras mulheres: vocês suportariam por muito tempo um marido ou namorado chorão? Antes que vocês respondam, deixem-me tecer algumas considerações. Não me refiro aos homens que choram só de vez em quando, já que todo homem, se for homem de verdade, perde o equilíbrio a cada quatro anos (durante as copas, por causa das vitórias ou das derrotas da nossa seleção). Refiro-me, isso sim, aos homens que choram o tempo todo, principalmente naqueles instantes em que, diante das comoventes e autorizadas lágrimas femininas, deveriam manter a compostura para fazer de conta que as coisas não estão tão ruins assim. Dito isto, minhas caras leitoras, repito a pergunta: vocês suportariam por muito tempo um marido ou namorado chorão?”

Vou começar também com uma pergunta, querido Maicon. Você suportaria por muito tempo uma esposa ou namorada chorona? Digo isto porque, não sei, mas parece que o adjetivo “chorão/chorona” é considerado negativo para a maior parte das pessoas. E é muito diferente de “poder chorar”, que é a pergunta que o senhor coloca no início do texto.

Quando você coloca a expressão “homem de verdade” no texto, o que quer dizer, exatamente? Que existem homens de mentira? Ou que o senhor estabeleceu um padrão do que é ser homem? Ou seja, aqueles que choram com uma freqüência maior que a cada quatro anos (todos com quem me relacionei, seja pai, irmão, namorado ou marido, devo ter muita sorte ou azar, não sei) não são homens de verdade?

Você presume também que todas as mulheres choram com bastante freqüência e que a postura ideal dos homens é “fazer de conta que as coisas não estão tão ruins assim”. Qual seria o propósito dessa postura, Maicon?

“Insisto na pergunta por causa do palavrório repetitivo das feministas. Para a pedagoga Tânia Brabo, por exemplo, que recentemente concedeu uma entrevista à Folha de S. Paulo, a escola é o berço do sexismo porque rapazes e moças NÃO recebem tratamento igualitário. Para ela, as aulas de Educação Física deveriam ser sempre conjuntas (mesmo se o esporte for pugilismo) e, desde a mais tenra infância, eles e elas precisam brincar tanto com bonecas quanto com carrinhos.  Tudo isso é muito edificante, mas a nossa pedagoga, bem como as feministas nas quais se baseia, esquece o importante detalhe de que, se as pessoas são diferentes umas das outras, os sexos também o são. Alguém aí colocaria uma menina de 50 quilos para lutar contra o Mike Tyson? Se existem categorias de peso que separam os atletas masculinos nas competições, por que não haveria nas aulas de Educação Física, para separar certas atividades praticadas com tensão diferente entre meninas e meninos?”

Maicon, você quer mesmo comparar a diferença entre uma menina de 50 quilos (ou um menino do mesmo peso) e o Mike Tyson lutando com um menino e uma menina de 10 anos com a mesma altura e peso, por exemplo? Acredito que se for o caso das escolas ensinarem pugilismo, as duplas poderiam ser divididas por tamanho e peso, e não por sexo. Mesmo porque também não acharia justo uma menina de 1,70 com 60kg lutar com um menino de 1,50 com 50kg. Sem contar que a entrevistada critica o fato de que os dois sexos não só são separados nas mesmas atividades, como também aprendem atividades diferentes. Qual a lógica? Pessoas com vagina fazem vôlei? E pessoas com pênis futebol? Por quê?

“Do mesmo modo, não há provas concretas de que os brinquedos prejudiquem a formação das identidades de gênero. Meninas brincam com bonecas, crescem e se tornam motoristas melhores do que muitos homens; meninos brincam com carrinhos, crescem e se tornam babás mais carinhosas do que muitas mulheres.”

Concordo contigo, Maicon. Realmente, não há provas concretas de que os brinquedos prejudiquem a formação das identidades de gênero. Pelo contrário. Os brinquedos ajudam a formar as identidades de gênero. Porque o próprio conceito de gênero, segundo Joan Scott, diz respeito às “origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres”. Ou seja, aquilo que é ensinado, apreendido durante a vida em sociedade. Um dos jeitos de se aprender é brincando. Ainda bem que não é o único, senão pouquíssimas mulheres saberiam dirigir. Mas vamos lá. Quantos homens babás (nem vou dizer carinhosas) existem em Blumenau? Por que será que são tão poucos? Será que porque pessoas com pênis não gostam de ser babás ou porque não são educadas para gostarem? Por que ainda são poucos os homens que dividem as tarefas domésticas, e quando o fazem apenas “ajudam”, como se não fosse também uma obrigação sua?

“Que fique claro: não estou falando de direitos, apenas de diferenças. A luta contra a discriminação feminina deve continuar, especialmente nas folhas de pagamento. De resto, parece que todo mundo finge engolir a mentirinha de que os sexos são iguais. Hoje as mulheres não hesitam em afirmar que “homem também pode chorar”, mas aposto que a maioria respondeu que não dividiria a cama com um chorão por muito tempo. A maioria das sinceras, quero dizer.“

A questão, Maicon, é que é claro que há diferenças biológicas entre homens e mulheres, e elas devem ser respeitadas. Mas por que não deixar essa diferenciação restrita aos casos em que ela é realmente necessária. Depois, o senhor termina com um argumento no mínimo desleal, não acha? “Aqueles que não concordam estão mentindo”.

Foto de Adam White no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Porém, vou dizer ainda algo a mais. Concordo que provavelmente a maioria das mulheres responderia que não. Porém também acredito que a maioria dos homens responderia que não à pergunta que fiz no início. E mais: as mulheres adultas que hoje estão aqui, em sua maioria, foram educadas de uma maneira sexista, ou seja, reproduzem exatamente aquilo que a pedagoga pretende mudar propondo uma educação não excludente (seja para homens e para mulheres). Uma luta contra o sexismo é libertadora não só para as mulheres, mas também para os homens. Porque lamento muito se o senhor só chore a cada quatro anos. E lamento por todos os homens que se sentem mal ao chorar; lamento o fato de quão presos a estereótipos eles estão.

Por fim, acredito que um mundo em que os homens possam chorar sem serem reprimidos nem pelos homens e nem pelas mulheres (porque ambos são sexistas) seria um mundo melhor. E pra esse mundo acontecer, é necessário que a educação seja diferente.

Cordialmente, Bruna.

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Bruna Klöppel vive em uma mudança tão constante do eu para o não-eu e escreve no blog Espaço B.