O ativismo materno para além do parto

Texto de Silvia Badim com colaboração de Liliane Gusmão.

Atualização em 26/12/2013: retiramos do texto o termo “página do facebook” para deixar claro que nesse texto não estamos falando de nenhuma página ou blog especificamente, mas sim de uma conjunto de impressões que as autoras tem sobre um determinado tipo de ativismo.

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Eu apoio a humanização do parto, e todo o movimento por dignidade para parir. E eu apoio por um motivo: respeito à autonomia e ao direito da mulher dispor sobre seu corpo. Apoio como parte de um movimento feminista maior, que luta pelo direito da mulher dar para quem quiser e como quiser. Pelo aborto seguro e legal. Pela liberdade de sair com a roupa que quiser e não ser violentada por isso. Pelo fim de toda e qualquer forma de violência ao corpo mulher, da qual a violência obstétrica é parte, um grave desdobramento da misoginia e do machismo da sociedade.

Outro dia, navegando na internet me peguei refletindo sobre o termo “mulheres empoderadas”. Curiosa, folheio páginas virtuais que pregam coisas como parir naturalmente, amamentar livremente, não interferência no corpo da mulher durante o parto. Há mulheres que se intitulam “empoderadas” porque defendem e vivem a autonomia da mulher para parir e amamentar como desejarem. Não, péra… Como quiser, não. Para parir naturalmente de cócoras, na piscina, sem intervenções médicas e, para amamentarem no peito, seus filhos, onde bem quiserem. São causas nobres das quais me solidarizo. Mas… Mulher empoderada é isso?

Desculpem a discordância, mas para mim uma mulher empoderada (se é que isso existe numa sociedade machista e opressora como a nossa), vai muito, mas muito além de parir. Muito, muito além da maternidade. Inclusive, passa pelo direito de não querer ser mãe, nem agora nem nunca, mesmo com um óvulo fecundado na barriga. Pelo direito de ser mulher com um pau no meio das pernas. Pelo direito de nascer mulher e não querer, ou não poder mais sê-lo. Pelo direito de nunca parir e mesmo assim ser mãe: de um bebê, de uma ideia, de uma planta, de um projeto.

O empoderamento feminino, a meu ver, não pode ser deslocado da luta feminista. É possível falar em empoderamento feminino e não ser a favor do aborto? É possível ser uma mulher empoderada e achar que outra mulher não tem direito de dispor sobre o corpo dela, como ela bem entender? Tantas mulheres ditas empoderadas sem autonomia para sairem sozinhas e fazerem o que quiserem. Tantas mulheres ditas empoderadas sofrendo em casamentos ruins, que não gozam gostoso há anos. Tantas mulheres ditas empoderadas que acham um absurdo a Ísis Valverde ter comido o marido da outra atriz global. Tantas mulheres empoderadas que julgam a saia curta das “biscates”. Desculpe-me, mas para mim não se trata de empoderamento feminino se não for por inteiro.

Parir te traz poder? O poder biológico presente no corpo da mulher? Poder político? Traz satisfação, beleza, concordo. Traz o poder de contestar a medicalização da sociedade. Poder escolher como parir é um direito da mulher, e eu brigo por ele! Como brigo pelos seios de fora para amamentar livremente, e pelos seios de fora em qualquer ocasião que se queira. Brigo pela mãe amamentando o filho no MASP, sem blusa ou paninho para esconder seus seios (nada mais incômodo que aquele paninho), como brigo pela mulher de blusa de fora nas passeatas feministas, ou tomando sol na praia, ou onde for.

Foto de Stacey Shintani no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Stacey Shintani no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Brigo pela autonomia das mulheres em suas casas, em toda e qualquer relação de saúde, em toda e qualquer relação no mundo do trabalho, na rua, nas escolas, nas academias, em qualquer lugar. Mas, não. Não creio nesse poder aí. Nesse pretenso poder político de mulheres autônomas, que são autônomas única e exclusivamente porque trazem seus filhos ao mundo sem intervenções médicas. Esse é um pequeno passo de autonomia feminina. E ainda tem tanto.

E também, politicamente, acho temerário o culto exacerbado ao lugar da “mulher mãe”, a que volta para casa e larga tudo para poder cuidar dos filhos em tempo integral, ou para trabalharem pouco, de casa, reinventando profissões. Individualmente, claro, cada um faz o que quer, e as escolhas devem ser sempre respeitadas. Mas, como bandeira política acho complicado. Porque, né? O mundo é machista pra cacete, ou alguém discorda disso?

Se você tem a sorte de ter um marido bacana que paga todas as contas e te respeita com autonomia, parceiro de vida e de mundo, isso não faz de você regra ou lastro para uma sustentação geral. Será que todas as mulheres que optam por ficar em casa cuidando dos filhos tem autonomia de escolha? se fizermos uma comparação com a falsa autonomia e falsa informação que as mães de cesárea muitas vezes tem ao parir, diria que é parecida.

Quantas mulheres estão em condição de consciência para poder optar por ficarem em suas casas, ao invés de se desenvolverem de muitas outras formas? Ou condições culturais, psíquicas e afetivas para darem conta disso, desse lugar reinventado, sem sucumbirem aos padrões machistas da sociedade e da própria família? E para chegar aí, antes, devemos segurar as pontas de um feminismo que quer, para além de parir, buscar a autonomia geral da mulher.

Ademais, pelo que tenho percebido, e claro que posso estar enganada, o parto humanizado no Brasil, atualmente, está limitado a um recorte de mulheres que, a meu ver, é delimitado por alguns requisitos: informação sobre os procedimentos padrão de hospitais e maternidades; informação sobre os tipos de procedimentos de parto e a desmitificação de alguns deles; disponibilidade financeira e acesso a profissionais envolvidos com procedimentos de parto não-padronizados e não disponíveis amplamente, nem na rede pública nem na rede privada de saúde. E, situação geográfica ou mais especificamente, a proximidade dos grandes centros.

Além disso, tenho visto outra situação temerária, que me incomoda. Recorrentemente, a mulher grávida é responsabilizada pela busca de informação, pela busca de profissionais, pela busca de ajuda financeira que viabilizem um atendimento humanizado. Se não possuem toda informação, grana e contatos com as equipes que fazem partos humanizados, já vi comentários do tipo: essas mulheres se deixaram enganar, não se esforçaram o suficiente para dar o que é o melhor para os bebes que carregam. Mais uma vez, a culpa imputada à mulher. Julgamento, dedos em riste. E um discurso mesquinho e culpabilizador desses não é o que espero de um movimento que se propõe a informar e acolher. Porque o feminismo é mais, é autonomia feminina para muito além de ser mãe.

Autor: Silvia Badim

É santista morando em Brasília. Gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Com auxílio dos Mutantes digo: meu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água.

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