“Desejo a todas inimigas vida longa”: as funkeiras e o recalque

Texto de Bárbara Araújo.

Foto de divulgação da música “Beijinho no Ombro” de Valesca Popozuda. Fonte: Página oficial de Valesca Popozuda no Facebook.
Foto de divulgação da música “Beijinho no Ombro”. Fonte: Página oficial de Valesca Popozuda no Facebook.

Quero começar esse texto dizendo que estou bem longe de ser uma pessoa super entendida de funk. Não sou funkeira, não sou uma fã que acompanha artistas do funk, não sou estudiosa do funk. Tem muita gente por aí que poderia dar uma opinião levando em considerações mil coisas que eu nem sei (e espero que se sintam à vontade para fazê-lo nos comentários). Enfim: o objetivo desse texto é relatar a impressão de uma ouvinte dos hits de funk (e dançarina, porque, né? rs) sobre uma questão que me parece muito relevante: o fortalecimento do recalque como tema nos funks cantados por mulheres.

É claro que há muito mais funks cantados e escritos por mulheres do que chegamos a conhecer; há uma pluralidade temática e uma história bem maior do que as paradas de sucesso mainstream nos apresentam. Mas é possível afirmar que, em 2013, uma parte significativa dos hits que estouraram e dominaram muito mais do que a cena funk envolveram a temática do recalque. Me refiro em especial a três: “Fala mal de mim” de MC Beyonce, “Show das Poderosas” de Anitta e, aquele que ainda bomba na atualidade, “Beijinho no Ombro” de Valesca Popozuda. Sim, estou passando o rodo por cima da polêmica “Anitta, é ou não funkeira?” e incluindo-a no grupo.

A primeira coisa que chama atenção nessas músicas é que elas são um recado para outras mulheres, interlocutoras caracterizadas com todo tipo de desqualificação : “rata molhada”, “invejosa”, “coisas do tipo você”, “inimiga”, “dois papos”, enfim: as recalcadas. Uma discussão sobre o “recalque” entre mulheres passa necessariamente pela discussão sobre sororidade no feminismo. Essa discussão já deu muito o que falar na blogosfera. Creio que seja particularmente importante a problematização de um sentimento que é supostamente de solidariedade entre mulheres, mas que na verdade solidariza grupos específicos de mulheres e exclui outros (mulheres negras, lésbicas, trans, pobres, etc.). Se for assim, não serve para um movimento que visa à igualdade.

Isto posto, me incomoda a força que o discurso do “recalque entre mulheres” assumiu no senso comum, como notamos em 2013. Afinal, a imagem de mulheres como inimigas naturais é uma velha máxima do discurso sexista. Aquelas histórias: “mulher não se arruma pra agradar o homem, mas pra despertar inveja nas outras mulheres” e afins. No batido dualismo sexista “mulher ou é puta ou é santa”, que define as mulheres no limbo entre a maternidade pia e a sexualidade descontrolada, as “recalcadas” costumam estar no grupo das putas, das descontroladas, das irracionais. E por isso é difícil para mim deixar de pensar que, quando nós mesmas fazemos coro com o discurso do recalque, estamos fazendo coro com o machismo histórico que nos inferioriza, julga e enquadra.

É claro que os processos sociais são muito mais complexos do que qualquer maniqueísmo possa dar conta. Não estou dizendo: “Desliguem o rádio! Condenem as poderosas! Não dêem beijinho no ombro e olhem sim pro lado quando o bonde estiver passando!”. Até porque essas músicas são muito boas. E elas são, em alguma medida, muito empoderadoras para quem canta. São músicas que dão um levante na autoestima, todas elas — e isso também ajuda a explicar seu sucesso.

Imagem compartilhada pela página do Facebook: 'Guerreiras Cabeludas' em 19/01/2014.
Imagem compartilhada pela página do Facebook ‘Guerreiras Cabeludas’ em 19/01/2014.

Dá para ponderar que essas músicas não taxam de recalcadas todas as mulheres, “só as que incomodam”, como diz a Anitta. Talvez seja uma forma de complexificar o grupo “mulheres”, que não é homogêneo e que tem, sim — fazer o quê — umas pessoas que nem são muito bacanas com a gente. A Valesca é notória nesse grupo que citei por ter se autodeclarado como feminista diversas vezes. Isso é algo para se considerar. Mas o fato é que eu gosto muito mais da Valesca que mandava papo reto para marido violento e para machista de plantão do que dessa Valesca que manda beijinho no ombro paras invejosas. Se bem que, na verdade, é a mesma Valesca — os processos sociais são complexos —, sejamos todas/os bem-vindas/os ao mundo real.

E, para provar o tanto que ele é real e complexo, o “Beijinho no Ombro” ganhou uma versão explicitamente feminista. Não conheço a autoria, mas encontrei na página ‘Guerreiras Cabeludas’ no Facebook. Tem sido comum ouvir companheiras feministas dizendo que: “bateu de frente, é só tiro, porrada e bomba”. Uma companheira, inclusive, contou que sentiu o poder do beijinho no ombro ao sofrer uma situação de machismo (por ter demonstrado afeto por outra mulher em um local público, que afronta!) e retrucar o homem que a olhava torto, dizendo: “Seu recalcado!”. Do recalque entre mulheres para o feminismo combativo em três minutos e pouco de um funk. Nenhuma análise simplista dá conta.

Autor: Bárbara Araújo

Professora de história, feminista, anticapitalista, capoeirista, flamenguista e poeta sazonal.

Os comentários estão desativados.