Vange Leonel

Texto de Bia Cardoso.

Em julho desse ano, recebemos uma notícia triste e devastadora: Vange Leonel faleceu. Quem está presente nas redes sociais já deve ter cruzado em algum momento com uma opinião de Vange. Ela usava o twitter com muita frequência e dialogava facilmente com que a adicionava. Além disso, quem se aproximava mais descobria que ela gostava de jogos online como Candy Crush e ficava feliz quando podia lhe enviar vidas.

Mais conhecida pelo sucesso “Noite Preta”, abertura da novela Vamp (1991), Vange era uma pessoa bem acessível online, tinha um humor irreverente e também levantava suas bandeiras. Perdê-la para uma doença tão cruel e fulminante foi um golpe grande em nossa luta por um mundo mais diverso e ciborgue.

Vange Leonel.
Vange Leonel.

A invisibilidade lésbica ainda é muito grande em nossa sociedade. É permitido as lésbicas serem parte das fantasias sexuais masculinas, mas a elas não é permitido viverem plenamente seus relacionamentos. A lesbofobia prega cruelmente que lésbicas são mulheres mal amadas ou, na pior face da sua misoginia, que são mulheres que merecem ser estupradas para terem sua sexualidade corrigida. Vange Leonel foi uma das primeiras pessoas presentes na mídia que revelou sua sexualidade com todas as letras e isso fez diferença para muitas meninas e mulheres.

Essa invisibilidade também está presente na falta de informações e conhecimento sobre a resistência lésbica no Brasil, como foram organizados os primeiros grupos de ativismo, quais eram as estratégias do movimento. Por estar dentro dela há tanto tempo, Vange jogou luz sob varios desses acontecimentos ao ter espaço para publicar, porque como sabemos, a história com “H” maiúsculo não contempla a participação ou protagonismo das minorias.

O Stonewall Inn era uma espécie de refúgio onde gays nova-iorquinos podiam dançar juntinhos sem medo de sofrer agressões. Mas, em 28 de junho de 1969, o local que era um oásis no deserto de intolerância se tornou um inferno. Policiais invadiram o bar e prenderam a galera.

Nos dias seguintes, uma multidão foi se aglomerando espontaneamente à frente do bar, protestando contra a ação truculenta. Nunca antes se viu tantos homossexuais à luz do dia, reclamando direitos básicos.

Aqui em São Paulo, nós tivemos um protesto parecido. Aconteceu no Ferro’s Bar, alvo preferencial do delegado José Wilson Richetti, que estacionava ali um camburão para prender gays, lésbicas, prostitutas e travestis, freqüentadores decanos do pedaço.

Em agosto de 1983, o dono do Ferro’s proibiu que as ativistas do GALF (Grupo de Ação Lésbica Feminista) vendessem ali o seu jornal, expulsando-as em seguida. A chapa esquentou. Lideradas por Rosely Roth, as meninas se reuniram em frente ao bar. O protesto teve a cobertura inédita e sem preconceito da imprensa. Contou com os apoios da então vereadora Irede Cardoso e de Zulaiê Cobra Ribeiro, que era conselheira da OAB. Tudo terminou com a invasão do local pelo grupo e um pedido de desculpas do dono.

A revolta do Ferro’s não é tão famosa quanto a de Stonewall. Mas, para quem na época era (e hoje ainda é) maltratada, humilhada e desrespeitada por ser lésbica, ela marcou o início de uma liberação. Lésbicas ocupando um bar que já era delas e um lugar ao sol, que deveria ser para todos.

A Revolta do Ferro’s Bar. Coluna GLS publicada na Revista da Folha em 24/08/2008.

Artista, música, compositora, escritora, autora. Vange fez do seu trabalho uma porta para discussões importantes e para o protagonismo lésbico, seja pelas músicas, livros, colunas em jornais, sites e revistas.

Com a peça de teatro “Sereias da Rive Gauche”, que conta a história de dois livros polêmicos publicados no ano de 1928: “O Poço da Solidão” da inglesa Radclyffe Hall e “Almanaque das Senhoras” da americana Djuna Barnes, apresentou um enredo sobre o amor e a paixão lésbica, por meio das aventuras e desventuras amorosas das personagens. Foi o resultado de um intenso trabalho de pesquisa, baseado em material biográfico e nas obras das duas autoras, marginais no movimento modernista e pioneiras ao tratar do tema lésbico. Como escritora também publicou “Lésbicas” (1999), “Grrrls: garotas iradas” (2001) e “Balada para as meninas perdidas” (2003).

Uma de minhas personagens favoritas, Evangeline Musset é a heroína lésbica do obscuro “Almanaque das Senhoras”, escrito, em 1928, por Djuna Barnes. Ao completar 50 anos, ela decide transmitir sua sabedoria às outras mulheres: “Nunca queira nada que você não tenha, nunca tenha nada que não permaneça e não deixe nada sobrar”.

Assim, Musset manda tocar todos os sinos da Galileia e pergunta às garotas que encontra pelo caminho: “O que é o que é? Tão manco como Ganso, parado como Pausa, rápido como Relógio, molhado como Córrego, mole como rabo de Rato, duro como Coração, salgado como toucinho, amargo como Bile, doce como entrada, ácido como Cidra passada, prezado como Querida e vil como Furúnculo; que está sempre presente ainda que nunca à Vista, tão leve como Lenço e escuro como Corvo?”. Musset revela: “É o Amor”.

E continua: “O que é o que é? Tão mansa como Teta de Vaca, forte como Peão, quieta como Tostão, tão segura quanto pense-o-que-quiser ou certa-está-você? Sabedoria. E qual deles você vai querer?”

Amor ou sabedoria? As garotas não respondem, fazem que não ouvem e seguem suas vidas. Desolada com as jovens de ouvidos moucos, Musset então pergunta a uma senhora de idade se há mais o que aprender. A velha responde: “Aos 60 você já está dez Anos cansada de sua Sabedoria”. Rapidamente, Musset dá meia-volta e reconsidera a ordem para que toquem os sinos.

Amor ou sabedoria? Coluna GLS publicada na Revista da Folha em 29/03/2009.

Durante 28 anos foi casada com a jornalista Cilmara Bedaque, com que tinha uma intensa parceria musical que pode ser ouvida e baixada em seu perfil do soundcloud. As duas também incursionavam pelo universo das cervejas artesanais no blog Lupulinas.

Lésbica, feminista e militante política. Agora é com a gente não deixar a bola que Vange levantou cair. Seguimos nessa trilha por mais diversidade e liberdade. “À noite preta vou me entregar”.

[+] Blog pessoal de Vange Leonel.

[+] Vange Leonel por Jész no blog Mulheres Incríveis.

[+] A atitude de Daniela Mercury não existiria sem Vange Leonel por Vitor Angelo no Blogay.

[+] Vange Leonel por Pedro Alexandre Sanches no Farofafa.

[+] Vingança lésbica – A história do grupo Lesbian Avengers, que botou fogo nos Estados Unidos no começo dos anos 1990. Por Marcos Visnadi na Revista GENI.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo Coletivo Audre Lorde.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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