Cem escovadas antes de ir para a cama: mulher-objeto ou mulher que não se assume?

O romance Cem escovadas antes de ir para a cama é curto (cerca de 150 páginas), simples e apresenta imagens fortes, por isso tornou-se, rapidamente, um sucesso de vendas. A protagonista se confunde com a autora, Melissa Panarello, o que confere um tom próximo da autobiografia a esse livro-diário. Seu tema central é a descoberta da sexualidade por uma estudante de 15 anos, que mora na Itália com sua família, a quem a menina culpa, em várias ocasiões, por sua carência afetiva e, mais tarde, por suas escolhas sexuais:

 

O problema é que meus pais só vêem aquilo que eles estão a fim de ver. […] Minha mãe diz que sou uma mosca morta, que só ouço música de cemitério e que minha única diversão é me fechar no quarto para ler (isso ela não diz, mas eu percebo pelo olhar dela…). Meu pai não sabe de nada sobre o modo como passo meus dias, e eu não tenho nenhuma vontade de contar para ele.

O que me falta é amor, é de um cafuné que eu preciso, é um olhar sincero que eu desejo.

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Melissa começa a estória como uma garota estudiosa, caseira e virgem. E termina a mesma como uma garota insegura, covarde e sexualmente experiente. Ou seja, apesar de todas as atividades sexuais a que ela se submete, por vontade própria, não percebemos um empoderamento concreto da personagem com relação ao seu corpo e desejos. Ela passa por uma série de descobertas sexuais, mas isso não reverbera em um amadurecimento da personagem, que sempre age como a princesinha à espera do príncipe encantado.

O ritual de escovar os cabelos não nos parece ser uma forma de lembrá-la de sua pouca idade, mas de culpá-la por ela não estar quieta à espera do cavalheiro salvador. O romance inteiro se constitui pela dicotomia “prazer sexual” vs “culpa”. Melissa culpa os pais por serem ausentes, os professores da escola por não dispensarem maiores cuidados para com ela, o primeiro amante (Daniele) por não ter se apaixonado perdidamente, e, assim por diante. Em momento algum, a protagonista assume as responsabilidades por suas escolhas. É como se a mulher precisasse de uma desculpa, de um culpado, por ela ter escolhido não ser a princesinha. Melissa diz estar se perdendo, cada vez que se relaciona sexualmente com um homem. Mas o “perder-se”, nessa estória, é perder a conexão com a princesa dos contos infantis, que deveria ser virgem, tolinha, vítima, objeto sexual, e não a mulher que escolhe com quem e como transar, que escolhe constituir uma personalidade à revelia das demandas sociais, atitudes estas que a personagem toma, mesmo sem se dar conta disso. O “perder-se”, na verdade, está amplamente relacionado com o não corresponder à idealização que Melissa fizera para si.

Melissa é tratada por Daniele, desde o primeiro momento, como objeto-sexual. Ele marca horário para desvirginá-la e não esconde dela ser na função de objeto que ela ocupará sua vida, pelo tempo e com as regras que ele impuser. Ela poderia ter aceitado Daniele como uma “amizade colorida” e se colocado como agente dessa relação. Mas, ao contrário disso, ela age como uma vítima e, mesmo quando dá um basta na situação, não se impõe como uma mulher forte e capaz de decidir por si, de maneira autônoma.

O fato de Melissa viver todas suas experiências sexuais, paralela e escondida da vida familiar, já demonstra a dificuldade que ela tem de se posicionar, de assumir as responsabilidades por suas escolhas. Escolhas que, aliás, tentam ser justificadas como se fossem atitudes erradas, que só foram tomadas porque a menina estava sem rumo. E o rumo seria encontrar o idealizado “verdadeiro amor”, que aparece ao final do livro, como um oásis. As elucubrações apresentadas não deixam opção para a mulher que escolhe ter mais de um(a) parceiro(a) ou para aquela que escolhe não corresponder ao ideal da princesinha. Trocando em miúdos, é como se para a mulher fosse indevido escolher. Afinal, a princesinha deveria apenas reagir.

A ideia de ser a princesinha aqui é, justamente, a de não assumir a posição de agente de seu destino. Desse modo, Melissa poderia transar com quantos homens quisesse. Poderia se sujeitar a situações, no mínimo, perigosas, como as orgias de que participara. Poderia viver todas as experiências que desejara. Enfim, Melissa poderia fazer o que quisesse, desde que passasse pelo ritual das cem escovadas antes de ir para a cama, o que significa dizer, que ela poderia agir como bem escolhesse, desde que houvesse um culpado: os pais ausentes, os professores desinteressados, Daniele e sua frieza, o senhor casado, o professor anti-ético, etc.

Enquanto as mulheres continuarem presas à ideia de que não são fortes o suficiente para escolherem e arcarem com suas escolhas, estaremos presas nesse ideal da princesinha. Teremos, então, uma falsa liberdade, já que se trataria de uma escolha impulsionada por fatores externos, como fica evidente no trechoem que Melissapensa sobre Claudio, o pretenso príncipe: “Por que a vida me reservou até agora só maldade, sujeira, brutalidade? Esse ser extraordinário pode me estender a mão e me tirar da cova estreita e malcheirosa onde me escondi amedrontada…”

 

Imagem para divulgação do filme baseado no livro 100 Escovadas Antes de Ir para a Cama

 

Por que precisaríamos de um príncipe salvador? Aquilo que Melissa chama de “maldade, sujeira, brutalidade” é a percepção que lhe ficou acerca das relações sexuais que ela escolheu manter. Além disso, em que momento da estória transar com quem quiser e da forma como quiser virou esconderijo para mulher amedrontada?

Cem escovadas antes de ir para a cama? Não! Prefiro dormir despenteada, mas acordar pronta para assumir minha vida.