#8demarço – Toda Mulher tem uma história de horror para contar

Texto de Cecilia Santos.

Foto de Simon Abrams no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Toda mulher tem uma história de horror para contar? Parece exagero? Mas não é.

A série de narrativas que dá origem ao título deste post foi criada pela Lola Aronovich, justamente num 8 de março. Várias outras narrativas com o mesmo título foram aparecendo na internet. Um dia, há cerca de 2 meses, alguém no nosso grupo criou coragem para contar sua história de terror. E de repente mais e mais narrativas dolorosas e assustadoras foram surgindo, episódios que fizemos o possível para enterrar no fundo da mente. E outras mulheres reconhecendo que, sim, também passaram por violência mas não estão preparadas para contar.

Acaba sendo estarrecedor. Constatamos em choque que nossas meninas e jovens correm perigo em todo lugar, inclusive na própria família. Os trechos abaixo, extraídos dos relatos iniciais, estão sendo publicados anonimamente e com permissão.

“Passei por um episódio muitíssimo parecido com o seu [sofrer violência sexual cometida por adulto] (mas eu tinha 8 anos)…Só que o homem, na ocasião, era meu avô.”

“Em determinado momento, um amigo da minha mãe (…) simplesmente veio por trás, puxou minha cabeça pra trás e enfiou a língua na minha garganta. Meu primeiro beijo. (…) Contei pros meus pais, que acreditaram em mim e foram tirar satisfação com o cara. Ele disse que tava bêbado, pediu desculpas. E uma coisa que eu não acredito até hoje é que a minha mãe desculpou  e eles são amigos até hoje. Isso foi pior até do que o beijo em si.”

“Lembro que uma coisa que  me marcou muito, (…) quando eu tava em uma festa, e tava passando por um grupo de caras e um deles passou a mão bem no meio da minha coxa. Na época eu não sabia direito o que eu senti com isso, mas acho que hoje eu sei, e vocês também. É tão horrível o jeito como se sentem no direito sobre nosso corpo.”

“O tal homem continuou andando e ficou escondido atrás de uma árvore grande que tinha mais pra frente. Minha mãe resolveu dar a volta e ir pra rua de trás falar com esse conhecido. Quando a gente virou na rua, eu lembro de ter visto o homem vindo atrás da gente. Por sorte o conhecido estava em casa. (…) Fico imaginando que teria acontecido se minha mãe não tivesse reparado que ele estava seguindo a gente.

“Quando passei por ele, ele tentou passar a mão em mim, na minha virilha. Eu tentei parar a mão dele, mas ele chegou a encostar em mim. (…) Quando cheguei em casa, liguei pra minha mãe e comecei a chorar no telefone. Depois fui tomar banho e chorei mais ainda. Me sentia suja.”

“Ficou só eu e o outro cara, que era formado em Educação Física, devia ser uns 8 anos mais velho que eu. Ele era forte. Conversamos um tempo e ele tentou me beijar e eu falei que não queria. Foi aí que ele mostrou as garras; falou assim: “É, eu sei que tu queria ficar com meu amigo, eu também queria ficar com a tua amiga, mas já que eles ficaram, agora vais ter que ficar comigo.” E eu falei que não queria e ele me segurou muito forte e ficou tentando me beijar a força, e eu continuei resistindo. Daí ele falou: “Eu só vou deixar tu sair daqui se tu me dar um beijo”. Aí eu dei, morrendo de medo, por um momento tive quase certeza que eu ia ser estuprada.

“Meu relacionamento de 04 anos foi rompido, pela dificuldade que estava tendo em lidar com os comportamentos perversos do meu ex. Ele chegou a forçar várias vezes o sexo anal e me machucou muito.”

“Eu devia ter uns 10-11 anos e fui numa clínica fazer a documentação ortodôntica, pra colocar aparelho. Eu era uma menina; magrelinha e de cabelo curto. E estava com o uniforme da escola. Aí o cara que ia fazer o raio X ou sei lá o que era pediu pra minha mãe sair da sala, porque ia ligar o equipamento, e chegou de costas pra mim e ficou me acariciando e me colocando na posição certa; passando a mão no meu rosto, me abraçando de um jeito esquisito… Lembro de ter pensado que aquilo não era legal e fiquei dura de medo, mas firme. Aí ele foi lá, fez o raio X e por uma sorte dos deuses, minha mãe entrou na sala de novo. Foi aí que eu falei pra ela, em alemão, não me deixar sozinha com aquele cara. O sujeito escutou e ficou super sem graça, porque sacou que eu tinha entendido tudo.”

“Eu tinha 11 anos e estava numa rua movimentada do centro (…) quando um homem, do nada, enfiou a mão no meio das minhas pernas e ficou me bolinando. Não consegui reagir. Ele era adulto, tinha o dobro do meu tamanho… E se divertia com a sensação e meu desespero. Todo mundo olhando. Ninguém fez nada para me defender. Eu só conseguia sentir vergonha e a culpa que os olhares todos me acusavam. Não chorei na hora e nem depois. Aliás, depois só sentia raiva. Até hoje quando passo naquela calçada vivencio o pânico e a vergonha que senti e me dou conta do nosso despreparo em qualquer idade para esse tipo de ataque.”

“…as bolinadas nos ônibus ou no carnaval, as encoxadas dos ônibus, os abraços apertados demais de um dos tios do meu  marido ou os “gostosa”  que um outro me disse (todos dois senis), os estranhos que sentaram junto de mim nos ônibus e fingiram dormir para deitar no meu ombro, das  coisas horríveis que ouvi na rua, dos homens me chamando para entrar nos seus carros, os tarados dos cinemas, os tarados da praia alguns deles que ousaram  falar comigo se oferendo para me fazer companhia, as mãos bobas que tentavam tirar proveito do meu corpo em diversas ocasiões diferentes por conhecidos ou não…”

Se são tantos casos, por que não são denunciados? Por que não temos a verdadeira dimensão dessa tragédia? Simples: porque até meninas pequenas têm a noção de que não acreditarão nelas, serão castigadas, culpabilizadas; que de algum modo fizeram por merecer, pelo simples fato de terem nascido mulheres.

“Passei muito tempo da minha vida escondendo isso de mim mesma…”

“Fiquei com medo de contar pra minha mãe, pro meu pai porque achei que eles nunca mais iam me deixar sair de casa. E ainda hoje tenho certeza de que não me deixariam mesmo. Eu seria punida seriamente porque um tarado passou a mão em mim na rua.”

“O que eu fiz? Parei de contar.. e comecei a cuidar muito das roupas e dos tais “sinais”.  O problema é que não existe uma forma “segura” de ser mulher… Se esta arrumada leva mão na bunda, se estiver largada também tem agressão.”

“Eu respondi: ‘eu não queria transar com você, você me estuprou.’ Ele respondeu que não, que isso não podia ter acontecido. E ficou por isso mesmo.”

“E o pior é que você sente sempre que você vai tá exagerando, ou pior, se expondo a mais riscos, se for reagir, fazer barraco etc. nossa preocupação é sempre deixar tudo discreto.”

“Eu pensava que poderia ter evitado se tivesse atravessado a rua ou algo assim, mas a verdade é que não tinha como eu saber.”

“E eu também não tive coragem de berrar, lógico. Senti muito medo.”

“Foi meu primeiro namoradinho. quase marido; dependia dele financeiramente. (…) E quantas mulheres não se mantém numa relação forçada com o agressor por vários desses fatores e outras tantas variáveis que já sabemos. Mas acima de tudo, o medo e a carência de ficar sozinha. Credo! Mas isso é real”.

“Ele fez isso e foi embora rindo. Fiquei me sentindo mal, enojada, com raiva pela minha impotência.”

“Como faz para não sentir mais esse medo?”

As cicatrizes da violência permanecem por toda a vida, algumas vezes escondidas, mas sem nunca deixarem de doer. Nas palavras de uma das narradoras:

“Violência contra a mulher é deprimente demais. Mas sempre que alguém se expõe contando sua história, outras tomam coragem para contar. Se não servir para punir os agressores, que sirva para exorcizar esse horror de nós. Merecemos ser felizes. Né, não?”

Autor: Cecilia Santos

Tradutora, blogueira e feminista.

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