(Des)Construindo o gênero

Texto de Thayz Athayde com colaboração de Luciana Nepomuceno.

Quem nunca ouviu que algo é coisa de mulher ou coisa de homem?  Se eu ganhasse R$1 toda vez que ouvisse isso, estaria rica. A ordem patriarcal em que vivemos hoje divide o masculino e o feminino como uma apartheid, os dois nunca podem se misturar e, se o fazem é visto como algo imoral, no mínimo esquisito e que deve ser condenado imediatamente.  Eu não estou falando que biologicamente homens e mulheres são iguais, isso todo mundo concorda que são diferentes, certo? O que está em questão aqui são as escolhas feitas diante do convívio social, afinal, só porque eu nasci mulher tenho que escolher ter comportamentos femininos?

Atualmente é comum ouvirmos a palavra gênero, essa palavra veio inaugurar um questionamento diante da normatividade sexual. Há uma grande confusão em torno dessa discussão, muitos falam que antes não existiam homossexuais ou mulheres que queriam reivindicar seus direitos. Na verdade todo esse questionamento existia, mas de certa forma era recalcado por uma sociedade extremamente patriarcal. Podemos notar esse tipo de situação quando Freud passou a estudar as histéricas, tirando aquele formato normativo e colocando essas mulheres sintomáticas para falarem, Freud questionava que aquele mal estar não era um “surto de mulher”, era um sintoma real que se manifestava fisicamente diante dos olhos do outro. E o que é esse sintoma? De onde ele veio? Márcia Aran traz para a Revista Cult, a seguinte discussão sobre o caso das histéricas

“Assim, principalmente Anna O., mas também Emmy von N., Lucy R. Katharina, Elizabeth von R., que compõem os Estudos sobre a histeria, revelam o primeiro esboço de uma teoria psicanalítica sobre o inconsciente. A descrição feita por Freud pode ser considerada uma cartografia da insatisfação cotidiana de quem não se conformava com as amarras das obrigações familiares e com a monotonia da vida entre quatro paredes”. Referência: Psicanálise e Feminismo por Márcia Arán.

Ou seja, podemos considerar também que essas histéricas já questionavam e não se conformavam com as amarras de gênero construídas naquela época. Ser mulher no final do século 19 era se encaixar no padrão de uma sociedade extremamente patriarcal, onde a mulher era tratada como um segundo sexo e o homem tinha uma função de provedor da casa. Era muito clara a questão do que era comportamento de mulher e de homem, qual o tipo de roupas e atitudes de cada sexo. A sociedade construía e definia esse tipo de comportamento muito bem.

O que mais poderia acontecer se não uma crise de histeria entre essas mulheres que só podiam exercer a função de mulher que se sustenta em cima de seus maridos? Sustentar-se não só financeiramente, mas também o desejo dessas mulheres, um gozo que jamais seria submetido. A partir dali, é criado um mal estar, um sintoma e que acaba se tornando físico. Freud finalmente deixou que essas mulheres falassem e a partir daí muita coisa foi descoberta em relação a sexualidade feminina.

Jacques Lacan trará, em seu Seminário ‘As Relações de Objeto’, uma discussão sobre a angústia e sua emergência, sob a égide da perda do objeto e como a falta-a-ser organiza a subjetividade. Ora, a subjetividade contemporânea dos que se inscrevem no que a sociedade determina como masculino, tem que lidar com um feminino que, para além do que já é fálico enquanto ser falante, e Outro enquanto mais-de-gozar que excede, é também um feminino em roupagens de perguntas e ocupação dos espaços dito normativamente como “dos homens”.

São mulheres, que ao contrário do século 19, tomam atitudes e são independentes dos homens, financeiramente, socialmente e muitas vezes sexualmente. Essa nova estrutura de feminino traz mulheres que constroem o falo dentro de uma carreira profissional, na área acadêmica, entre outros. Não há mais um investimento da libido basicamente no casamento e nos filhos. Diante disso, a angústia se coloca para o homem que vê, recolocada, sua falta, sua incompletude, é preciso, agora, que ele ressignifique seu vazio e sua solidão estruturante do ser devir, já que não há o feminino como objeto tamponando sua falta e aparentemente resolvendo, apenas por estar passivamente lá, todas suas questões, ele se vê diante de todas suas angustias para que ele mesmo possa resolver.

A construção de gênero é feita também através da linguagem, que para a psicanálise seria o Outro. Desde o nascimento já é questionado o gênero do sujeito, todos tem uma grande expectativa sobre o sexo biológico da criança, se é um menino ou menina, ao longo do tempo, tudo isso é afirmado com um discurso quase imperceptível.  Considerando a linguagem como forma de construção, por que insistimos tanto em usá-la para firmar certas posições preconceituosas? Qual é a grande felicidade que sai das pessoas que acham que chamar alguém de gay é xingamento na certa? Qual é o alívio que dá ao concluirmos que aquela mulher que usa cabelo curto e tem atitudes masculinas é “sapata” na certa?

Há um grande sofrimento através dessa linguagem, acima de tudo ela também constrói preconceitos e violência, a mesma linguagem que também aceita e constrói. Eu sei o quanto é difícil fugir disso, afinal vivemos em uma sociedade em que somos criados pela linguagem patriarcal. O jeito é prestar atenção no que falamos e o motivo da nossa fala e a partir daí construir uma nova linguagem, lembrando que ela não só incomoda, mas fere.  Essa linguagem é opressora e cruel para quem diz e para quem é dito, porque quem nomeia é dito pelo que diz.

Autor: Thayz Athayde

Nasci para fazer um musical na broadway e um filme do Tarantino. Enquanto isso, dou uma de psicóloga e pesquisadora na área de gênero. Sou a Rainha da Copacabana Feminista. Delicada e nervosinha. Mas, eu posso, sou a Vossa Majestade.

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