Maria, Maria

Maria, Maria é uma música linda. De Milton Nascimento e Fernando Brant, foi gravada pela Elis e Mercedes Sosa. E é cantada pelas mulheres no Brasil todo e em vários espaços do movimento de mulheres. Além disso, dá nome a muitos grupos e coletivos feministas Brasil a fora.

Maria, Maria - Mulheres em movimento - Nucleo da MMM em Juiz de Fora

Não é a toa. Essa música consegue dizer o que quase nunca é dito sobre a mulher e as mulheres de um jeito simples, direto e verdadeiro.

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida….

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria…

Essa é a letra. A música você encontra em várias versões no youtube.

Com décadas de atraso, descobri ontem uma poesia toda linda sobre o mesmo assunto que rodou o Brasil e mais 14 países entre 1976 e 1982. Meu atraso pode ser justificado pelo fato de eu ter nascido um ano depois. Ou pelo fato de que produções lindas e radicais não são tão massificadas quanto as produções que ou não dizem nada ou reforçam toda série de preconceitos existentes no nosso mundo. E daí são essas últimas que acabam compondo nosso conhecimento geral sobre a produção cultural por aqui. Uma pena, né?

A poesia que eu me refiro aqui é parte da primeira produção do grupo Corpo, Maria, Maria, com música de Milton Nascimento, roteiro de Fernando Brant e coreografia de Oscar Araiz. Três homens que, em plena ditadura no Brasil e segunda onda do feminismo no mundo, conseguiram captar um conjunto de reflexões que eram tornadas públicas e políticas pelas mulheres e colocar nos palcos. O conteúdo que conheci ontem reflete o que até hoje vemos, ouvimos e vivemos como mulheres no Brasil (e em outras partes do mundo). E poderia ser subsídio pra várias reflexões e formações feministas, pois fala poeticamente sobre vida, resistência, solidariedade, violência, divisão sexual do trabalho…

Só vou citar uma parte deste conteúdo (e me desculpar porque ainda não encontrei um link pra disponibilizar aqui).

Ao falar das Marias, conta a história de uma que casou cedo, teve seis filhos em seis anos, e conheceu a morte quando ficou viúva. E o que essa morte trouxe não foi dor, foi alívio.

Parece forte pensar que a morte de um marido é alívio, e não sofrimento, se temos uma visão idealizada do casamento e das relações entre homens e mulheres. Mas essa é a realidade para muitas mulheres que vivem permanentemente a violência dentro de suas casas seja ela psicológica ou física, seja ela por parte do marido, do tio, do pai ou do irmão. Outro dia colocamos aqui no blog um exemplo real de como a família não é essa coisa tão harmoniosa e pura que pregam por aí.

As Marias carregam no corpo as marcas, tem força e sonho sempre, além de possuirmos uma estranha mania de ter fé na vida. Marias solidárias, que deveriam receber mais solidariedade, pois são Marias que merecem viver e amar como todos os outros seres humanos do planeta.