Do manicômio à UnB

Jack Nicholson em 'Um estranho no ninho' - Divulgação

Essa é minha primeira vez, estou debutando neste blog. Toda estreia é um momento de tensão. Mas eu tinha essa história e gostaria muito de compartilhá-la. A história de como um homem surge. Em um mundo tão machista como o nosso,  fugir da heteronormatividade é sempre um transtorno e, ainda por cima, também desviar daquele conceito padrão de ‘normalidade’… só potencializa os conflitos. Não tenho a intenção de contar um drama ou relatar uma história triste e sim, mostrar como a opressão se dá das mais diferentes formas, nos mais diferentes contextos. Esse sou eu, da forma mais exposta que já estive. Prazer!

Jack Nicholson em 'Um estranho no ninho' - Divulgação

 Eu sabia. Eu sempre soube. Só não sabia que tinha nome e, muito menos, que tinha jeito. Mas eu sempre soube que era um homem, só não tinha muita certeza sobre como me tornar um. Não que eu não gostasse de brincar de boneca, até porque, não é isso que define um homem. Porém, aquela sensação de que algo estava errado sempre permaneceu comigo.

Por algum tempo, eu não sabia como agir. Havia milhares de regras a seguir e muitos comportamentos eram esperados de mim. Expectativas sempre foram um problema. Porém, um dia resolvi assumir e começar a longa caminhada que vai me transformar, não somente no homem, mas, sim, na pessoa que quero ser. Não é fácil nem rápido mas, ainda que muito doloroso, parece ser melhor do que viver aprisionado em uma vida que não é sua, repetindo padrões só para agradar os outros e encaixar-se numa suposta normalidade.

E quando falo de normalidade, surge toda uma nova gama de problemas. Fui diagnosticado com uma doença psiquiátrica aos 18 anos, mas agora que a conheço, sou capaz de reconhecer sintomas que me acompanham desde muito novo. Como se a caixinha de transexual não fosse suficiente para me condenar à marginalidade, há ainda a de maluco.

Passei por graves crises: depressão, mania, surtos psicóticos. Já achei que podia voar, já passei dias na cama sem levantar nem para ir ao banheiro, já dormi na rua por me julgar perseguido. E não, não quero fazer um drama com toda essa situação, apenas mostro a realidade. E eu sabia que aquela hora ia chegar, sabia que aquela espiral de loucura ainda ia me levar ao inferno. E o inferno tinha nome: manicômio!

Fiquei internado lá, por um tempo que minha memória não consegue me revelar. Após 3 tentativas de suicídio, uma depressão me derrubava e julgaram que aquele seria o melhor lugar pra mim. Mas ali não é o melhor lugar para ninguém! Não fui submetido a torturas cruéis nem a tratamento de choque, mas não consigo enxergar muito bem a terapêutica de se estar isolado em uma ‘caixa’ de concreto, longe da vida, em um lugar onde só se respira ‘loucura’. Pra piorar, se é que pode ser piorado, fui mandado para a ala feminina.

Embora julgue que tenha sido até mais seguro (não sei o que homens confinados e fora da realidade fariam quando soubessem que havia ao seu lado uma genitália feminina), sentia-me muito mais deprimido por essa razão. Eu não era homem o suficiente. Nem na hora de ir para o manicômio eu era homem!

Só que tudo isso eu descontava no meu corpo. Essa insatisfação com quem eu sou (ou era) virava sangue. Essa tal de auto-mutilação está presente na minha vida desde que tenho 13 anos e controlá-la parece impossível. O quadro só piora: torna-se um hábito, ou melhor, um vício. Sem motivo aparente eu me cortava, só porque tinha que fazê-lo. Porque era minha rotina, porque meu dia não estava completo sem aquilo. E se sentindo no corpo errado, a situação tende a ficar mais complicada. Sangrei da sola do pé ao céu da boca, incluindo mutilação genital. Eu olhava pro espelho e não me via, era só uma mulher, mas que não era eu. Creio que essa seja a pior experiência: não reconhecer-se na própria imagem.

Mas eu sobrevivi. Ainda tenho pesadelos constantes com os gritos que podiam ser ouvidos durante toda a noite; era preciso dormir de tênis e agarrado a seus pertences para não tê-los furtados. Sonho, de maneira muito realística, com as pessoas comendo suas próprias fezes, como muitas vezes vi acontecer. Só que eu saí de lá e, de alguma forma, soube sair do buraco.

Nada garante que eu não volte para ele, mas cá estou eu: com 21 anos, vivo, na faculdade. Sim, menos de 01 ano depois, consegui passar no vestibular. Não me considero melhor do que ninguém, obviamente, mas fico feliz de ver que atravessei o abismo e não saí com mais do que alguns cortes e arranhões.

A pressão para ser ‘perfeito’ e me encaixar naquilo que uma mulher deve ser continua a existir. Mas não há nada que eu possa fazer se não sou uma. Eu digo a todos que gostaria de ser homem, mas o que eu queria mesmo era ser mulher, pois já estou no corpo de uma; seria muito mais fácil. Infelizmente, ou não, quase nada é fácil. E eu continuo nesse esforço insano para alcançar a incrível sensação de pertencer e, um dia, quem sabe, a sensação de ser, assim, inteiro, por completo.

Autor: Marcelo Caetano

Pretensamente revolucionário; tecnologicamente homem. Feminista por contingência; amigo por questão de sobrevivência.

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