A legalização do aborto e a legalização da mulher

Blogagem coletiva e #legalizaroaborto nos TTs o dia todo, a noite toda. Drauzio Varella, homem da saúde e conhecedor da vida, foi um alento a uma discussão que muitas vezes descambou. Lançou luz sobre o óbvio, o evidente: o aborto já é legalizado para as ricas no Brasil. As pobres é que morrem ou sofrem para provar que foram estupradas, que podem morrer.

Discutir o aborto num universo imaginário onde os humanos são perfeitos é uma coisa instigante do ponto de vista filosófico, principalmente se adicionado o cunho religioso. Na prática, o que a gente discute é se mulher pobre tem que morrer ou ser presa para fazer a mesma coisa que mulher rica já faz no Brasil.

Talvez ninguém seja a favor do aborto. E nenhuma mulher quer passar por essa experiência, que deve ser terrível. Mas os seres humanos não são perfeitos e muita gente tem que passar por isso.

Ato da Frente Nacional contra a criminalização das mulheres e pela legalização do Aborto. São Paulo/2010. Imagem: Marcha Mundial das Mulheres

O twitter ficou inundado de gente falando sobre anticoncepcionais e possibilidade de dar uma criança para adoção como se esses dois assuntos guardassem realmente, no mundo real e não no imaginário, uma relação de causa e efeito direta com o aborto.

Mas tem um ponto importante que é o fato de a legalização do aborto colocar nas mãos da mulher e unicamente da mulher uma decisão desse calibre. Significa reconhecer que a mulher é capaz de tomar decisões conscientes em situações limite. E é difícil demais tirar das mãos do Estado e da Igreja uma decisão e repassar às mulheres de todo o Brasil.

No blog do Núcleo Pão e Rosas tem um mapa sobre o aborto, que é auto-explicativo. Se um grupo tem Estados Unidos, França, Holanda, China, Rússia e o outro tem Iêmen, Líbia, Arábia Saudita e Mauritânia, acho que não precisa explicar. Ah, o Brasil está no segundo grupo e com requintes de crueldade.

A Arábia Saudita, que proíbe a mulher de dirigir e viajar e impõe castigos físicos para desrespeito aos costumes, permite o aborto para preservação da saúde da mulher. O Brasil não. Aqui não importa a saúde da mulher e as sequelas de uma gestação problemática: o aborto só é permitido se a mulher for morrer.

A Argélia, que já foi criticada na ONU por negar direitos às mulheres e permite que um homem tenha 4 esposas, permite aborto em caso de abalo psicológico da mulher. O Brasil não. Aqui abalo psicológico de mulher se chama frescura.

Na verdade, pouco importam as exceções criadas por aí. Eu acredito que cada mulher, no seu íntimo, é capaz de decidir o melhor em uma situação tão dura e tão triste quanto essa de ter que cogitar um aborto. Não é preciso nem justo tutelar as mulheres, dizer a elas o que fazer numa situação em que a decisão é tão íntima, tão importante e tão difícil. É preciso dar apoio para que ela seja capaz de construir a melhor decisão.

As mulheres são capazes de lutar contra tudo, até contra as probabilidades, para criarem sozinhas seus filhos numa sociedade que não exige do homem que seja pai nem pune o homem quando finge que não é pai. Essas mesmas mulheres também são capazes de decidir quando, infelizmente, não é possível fazer isso ou fazer isso de novo. Talvez o que falta realmente seja legalizar a mulher.

Autor: Madeleine Lacsko

Jornalista profissional e mãe experimental.

Os comentários estão desativados.