Blogagem Coletiva: Infância, Consumo e Sexismo

Ontem foi Dia das Crianças, uma data puramente comercial. Foi feriado porque é o Dia de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira no Brasil. Não há nenhuma ligação entre o feriado católico e as crianças. De acordo com a Wikipédia:

Na década de 1920, o deputado federal Galdino do Valle Filho teve a ideia de “criar” o dia das crianças. Os deputados aprovaram e o dia 12 de outubro foi oficializado como Dia da Criança pelo presidente Arthur Bernardes, por meio do decreto nº 4867, de 5 de novembro de 1924.

Mas somente em 1960, quando a Fábrica de Brinquedos Estrela fez uma promoção conjunta com a Johnson & Johnson para lançar a “Semana do Bebê Robusto” e aumentar suas vendas, é que a data passou a ser comemorada. A estratégia deu certo, pois desde então o dia das Crianças é comemorado com muitos presentes.

Logo depois, outras empresas decidiram criar a Semana da Criança, para aumentar as vendas. No ano seguinte, os fabricantes de brinquedos decidiram escolher um único dia para a promoção e fizeram ressurgir o antigo decreto. A partir daí, o dia 12 de outubro se tornou uma data importante para o sector de brinquedos no Brasil.

O verdadeiro Dia das Crianças é comemorado em 20 de novembro. É um marco porque nessa data, em 1959, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Convocamos esta blogagem coletiva para repensar as relações do consumo com foco nas crianças. Além de refletir sobre como o sexismo está presente no cotidiano por meio de brinquedos estereotipados. Em seu texto do dia 12/10 a Luka deu o recado:

O consumismo infantil e o apelo direto da publicidade às crianças acaba trazendo para dentro das casas necessidades que não são reais em momento algum, quando falamos de criação e de dia das crianças acho que há algo para além do presentear ou não com brinquedos sexistas (panelinhas, carrinhos, bonecas, figuras de ação), mas também de como todo este perverso sistema de consumo e produção vem afetando diretamente os mais vulneráveis de todos. Continue lendo em Brincar é bom, mas consumir…

Confira os posts participantes:

A furadeira de fazer papá – ou sobre marketing, dia das crianças e até Giselle – Texto de Ludmila

Hoje, a minha filha ganhou uma mesa de ferramentas com martelo, alicate, parafusos e uma furadeira. Quando foi perguntada, ela disse que usaria o martelo para consertar a porta e a furadeira para fazer papá. Morremos de rir. É essa liberdade que aos dois anos ela precisa, de opções e liberdade para exercitar a imaginação. Pense nisso na próxima vez que comprar a primeira bobagem cor de rosa que um vendedor lhe apresentar.

Antídoto Píppi Meialonga – Texto de Barbara O.

Ó céus! Isto lá são etapas de uma aventura? De uma história? Onde está a história? O próximo passo será produzir livros em que a aventura de pequenas meninas seja fazer compras, sem a vergonha deste último disfarce, em que as fadas fazem coisas tão nitidamente ligadas ao consumo e à futilidade. O que eu julgo particularmente curioso, é que uma série de pais (estou falando homens) que é muito ávida em criticar o consumismo da mulher, não raro acima de suas posses, não vê nada de errado em “instruir” a filha com este inocente livrinho. Qual é a ação das fadas? Senão arrumar um salão de beleza, escolher entre modelitos…?

Coisa de preta, menina também gosta de pipa – Texto de Belezas de Kianda

Também era legal, naquela época, experimentar as brincadeiras dos meninos. Eu adorava jogar bola de gude no tapete da sala com meu irmão. Eu e minha amiga Daniele adorávamos soltar pipa. Bom, isso era um problema, porque os meninos nunca deixavam a gente se juntar a eles. Mas, a gente se virava. Eu mesma fazia as nossas pipas e catávamos os restos de linha que os meninos deixavam no chão para tentar botar nossa invenção no ar. Quase nunca funcionava. A gente não sabia a ciência de empinar uma pipa. Como era difícil. A gente subia na laje daqui de casa, mas não adiantava. Ela não subia. Eu era boa de fazer pipas, mas não era boa de empiná-las. Também o meu pai só ensinou ao meu irmão, que era expert. Ainda é um hábito de homens e meninos soltar pipa. Ainda não é brincadeira de menina.

Consumo e Sexismo no Dia das Crianças – Texto de Raiza Rocha

As propagandas de brinquedos direcionadas às crianças incentivam um consumo exarcebado e esteriótipos retrógrados. As meninas querem ser princesinhas, que usam salto alto, maquiagem, não brincam de correr, possuem um celular, precisam ser magras e ter cabelo liso como a Barbie (ou seja, a menina que é negra, gorda e tem o cabelo afro, se rejeita e é rejeitada… Não é a toa que vemos milhares de meninas alisando o cabelo e fazendo dietas malucas para sentirem-se ‘bonitas’). Já os meninos querem jogar video-game, futebol, jogos bélicos,etc. A ideia de poder, força e vitória é direcionada a eles, enquanto que maternidade, sonhos e beleza estética são predominantes em anúncios para meninas.

Criança, consumo e sexismo – meus tostões sobre o Dia da Criança – Texto de Deh Capella

O Dia da Criança é depois de amanhã. As compras podem estar em cima da hora, mas dá tempo sempre de parar para pensar um pouquinho em todas as questões suscitadas por datas comemorativas de fundo comercial e por esta data em especial. Antes de mais nada questione se é fundamental ceder ao apelo consumista e quais os custos financeiros, sociais, psicológicos que estão envolvidos em burlar a data ou aderir a ela: a criança que você presenteia tende a compreender melhor a ausência, devidamente justificada e quem sabe negociada, de um presente dia 12 de outubro? Você se sentiria melhor comprando o presente ou deixando de fazê-lo?

Criança é feliz sendo criança – Texto de Claudia Gavenas

Esse incentivo ao consumo desenfreado ocorre de forma bastante clara e com propostas bem definidas. Reparem, por exemplo, que todos os brinquedos são separados de acordo com o que é “coisa de menino” e “coisa de menina”: geralmente, aquilo que é destinado aos garotos costuma ser azul, envolve carros, ação, jogos, guerras e violência. Já para as garotas, é oferecido um mundo cor-de-rosa em diversas matizes, ternura, bichinhos, bonecas e brinquedos relacionados a tarefas domésticas. É raríssimo encontrarmos brinquedos que estimulem a imaginação ou que corroborem para a interação entre as crianças através de uma diversão coletiva, independentemente de gênero.

Dia das crianças, com o que andamos brincando? – Texto de Talita R. da Silva

O que fazer, então, para não alimentarmos crianças devoradoras, reguladas pelo mercado dos bens de consumo e, ao mesmo tempo, bem ajustadas socialmente? Proponho que dediquemos algumas horas para refletir acerca dos presentes que estamos oferecendo. A começar, o quanto aquele objeto poderá contribuir para o desenvolvimento individual do ser humano? Qual a carga ideológica que ele transmite? E, principalmente, por que parece tão importante possuí-lo?

Dicas para um dia das crianças menos consumista – Texto do blog Consumismo e Infãncia

Nesta semana, pedimos para os nossos seguidores no Twitter e no Facebook refletirem sobre um Dia das Crianças mais criativo e menos consumista e que mandassem as suas dicas de como comemorar a data para a gente! As dicas e programas são ótimos e mostram que o Dia das Crianças pode ser uma ocasião para celebrar a infância e para promover muitas brincadeiras, sem que a data seja aliada a compra de presentes.

É só um brinquedinho – Texto de Elba Oliveira

Todos os “brinquedos de menina” foram comprados e entregues na maior naturalidade, com a mesma expectativa de que ele gostasse. Foi com a boneca como foi com o laptop, com a caixa de ferramentas e com o molho de chaves de carro com alarme igualzinho ao da mamãe. A maior parte dos outros brinquedos que tem no quarto dele não conta história nenhuma. Tem uns que ele gosta mais, tem os que ele não brinca nunca. Tem os de todo dia, tem também os barulhentos com aquela musiquinha irritante e que não estimulam nada. Ele brinca bastante de bibi, embora não tenha sido incentivado a gostar mais de carrinho que de blocos de encaixar ou fantoches. Também gosta muito de bichos e trens. Meu filho adora o carrinho de supermercado cheio de comprinhas que pedi para o meu pai dar de presente no Natal, desse ele não enjoa nunca, é incrível… E também adora a cozinhinha que tem no quarto do fundo da casa da avó.

Infância e Consumo – Texto de Srta. Bia

Não acho que os pais devam ser os únicos responsáveis pela educação das crianças. São seus filhos, mas todos convivemos em sociedade. Para modificar estruturas sociais, eliminar desigualdades, combater o racismo, sexismo e preconceitos é necessário uma educação global, com a participação da família, do Estado e da sociedade. O Instituto Alana levanta um debate importantíssimo sobre mercantilização da infância, que perpassa a sexualização precoce, a violência e até a dependência de álcool. Sabemos que no Brasil as crianças assistem muita televisão e grande parte dos anúncios são veiculados por essa mídia.

No dia das crianças, brinquedo é coisa séria! – Texto de Mari Moscou

A brincadeira é uma parte bem importante do desenvolvimento da criança. Através da brincadeira a molecada desenvolve habilidades, imaginação, constrói autonomia, explora, aprende, significa, reproduz comportamentos. Os brinquedos, à medida em que influenciam em parte a brincadeira (porque como brincar com eles – e aí entram pais, irmãos mais velhos e amigos – é a outra parte), são coisa muito séria. Que experiência você deseja proporcionar à criança presenteada? Como escolher um presente de dia das crianças para uma criança que não conheço bem ou que não pediu nenhum presente específico?

Publicidade Infantil, não! – Texto de Luiz Carioca

Com a publicidade infantil o cérebro da criança é bombardeado de informações inúteis em pleno desenvolvimento cogniscente. Isso atrapalha não só o desenvolvimento da criança. Basta lembrar que ela pode amanhã estar num carro ao lado do seu no trânsito, na universidade com o seu filho, pode ser o namorado da sua filha e ter sérios problemas para lidar com frustrações, etc.

Brincadeira. Foto de Kênia Castro no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

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