Nossos hormônios e a dosagem alheia

Quando refletimos sobre nossos corpos de mulheres cis, geralmente, percebemos que estamos passando por uma formatação estética que muitas vezes se confunde com saúde e bem-estar: cabelos alisados, peles jovens e hidratadas, altura x e não y, peso corporal estabelecido por meio de parâmetros que nem sempre nos são acessíveis. Enfim, tabelas de normalidade soam por toda parte. Então, muitas de nós esforçamo-nos para parecermos normais sem, ao menos, questionarmos essa saúde enlatada que nos oferecem.

Hoje, eu gostaria de questionar a larga apropriação do método de tratamento hormonal, que tende a ocorrer por meio de pílulas contraceptivas orais compostas por dosagens combinadas de hormônios sintetizados ou mini-pílulas, compostas exclusivamente por progestágeno (PEP).

Painting flower. Fotografia de Nobuyoshi Araki (Japanese, b.1940)

Disponível há cerca de 50 anos, as pílulas anticoncepcionais, como ficaram conhecidas, significaram um importante avanço para a política de empoderamento das mulheres. Tendo controle sobre nossa reprodução, podemos planejar, com maior chance de sucesso, quando gostaríamos de ter filhx(s). Isso permite, dentre outras questões, que optemos por dedicar maior tempo a nossos estudos e carreiras. E é por isso que muitas pessoas consideram a pílula anticoncepcional como a primeira grande e relevante conquista das mulheres.

Cada vez mais bem desenvolvidas, as pílulas passaram a ser apropriadas para tratamentos ginecológicos diversos, que vão desde a endometriose até oleosidade cutânea, tensão pré-menstrual (TPM) e enxaquecas. E aqui é que devemos nos perguntar: é crível que um remediozinho seja capaz de suprir tantas funções? Para termos uma ideia de seu funcionamento dentro de nosso organismo, sugiro o seguinte vídeo:

Eu, como muitas mulheres, uso a pílula anticoncepcional para fins terapêuticos desde os 17 anos. Estima-se que cerca de 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva portem a síndrome do ovário policístico (SOP), que é caracterizada pela maior produção de hormônios andrógenos. Uma das características mais recorrentes desta síndrome é a menstruação espaçada, o que, por si só, não seria ruim para muitas mulheres. Também, pode levar à infertilidade, mas, se a mulher não quiser engravidar, isso também não se constitui em um caos. E “problemas” estéticos como hirsutismo e acnes. Mas, o que é definido como problema em termos de estética?

A questão é, quem é que define o que é saudável e desejável e o que deve ser tratado e, sobretudo, como deve ser tratado?

Obviamente, este é um texto meramente reflexivo, que reconhece a grande importância da pílula para a emancipação de mulheres, mas que também gostaria de questionar quem questiona a normalidade de nossos corpos.

Quando olhamos para a problemática da SOP e nos deparamos com Beatriz Preciado, uma filósofa expoente da teoria queer, temos um choque de percepções. De um lado, a estrutura médica afirmando que precisamos adequar nossos corpos a um modelo x de saúde e feminilidade; de outro, Beatriz Preciado baseando-se na tese de Michael Foucault para defender a administração da testosterona como forma de experimentar posições de poder (farmacopoder), conforme revela sua fala :

Qualquer mulher poderia ter acesso à testosterona, não para tornar-se homem, mas simplesmente para experimentar modificações em seu próprio corpo. É um hormônio muito sexual; É um hormônio que te coloca como uma motocicleta; poderia utilizar-se dele… seria uma espécie de cocaína sexual.

Inicialmente, não aceito que a testosterona seja entendida como um hormônio tão especial, porque questiono também esse endeusamento em torno de tudo que seja mais recorrente no corpo de homens cis: seu pênis (tão comum em nossa fala trivial: pau, caralho, saco), seus fluidos (porra) e até um de seus hormônios mais recorrentes.

Foto de Gustavo Arrais/Nova Cosmopolitan

Não aceito que digam que meninas são emotivas por conta de seus hormônios e não porque a sociedade estimula a fragilidade na mulher; tampouco, tomo como adequado que digam que a impulsividade e a libido sejam promovidas pelo elixir testosterônico. Mas, como disse, estou apenas refletindo, refletindo, refletindo. Podem surgir pesquisas bioquímicas capazes de comprovar a hipótese de que a testosterona promova características emocionais x ou y, ao passo que o estrogênio e/ou progesterona estejam relacionadas com as características z e w. Mas, por ora, cabe-me apenas questionar.

E foi questionando que me dei conta de que os incômodos que a pílula anticoncepcional me causam são irrisórios perto daqueles a que são expostas as mulheres trans*, para quem, pasmem, hormônios não são desenvolvidos. A bula destes medicamentos é tão cor-de-rosa quanto a sua caixinha e sumariamente ignora uma série de mulheres que necessitam e necessitarão sempre de hormônios como estradiol, estrogênios e anti-andrógenos para manterem a aparência que a sociedade cobra de nós e, consequentemente, exige delas.

Nós, mulheres cis, podemos questionar o sistema farmacológico, buscar alternativas como a ginecologia natural, investir em outras metodologias contraceptivas, etc. E como lidam aquelas a quem o direito de questionar a dosagem alheia é praticamente negado? Não sei.

Ao final deste papo, deixo um trecho de um texto subjetivo e poético da Jul Pagul, que, talvez, ajude-nos a pensar melhor qual poderia ser a relação com nossos corpos dosados quase sempre pelo viés do outro:

Tão agradável se tocar, ver, descobrir. Então, que tal unir o útero ao agradável ? Sim, que tal conhecer o próprio útero ? Tão poucas viram o próprio útero. Por que passamos tantos anos pra descobrir nossos corpos ? Especialmente, vagina , ovários, útero…. O que trazemos mesmo entre as pernas ? Um mundo de prazeres, cores, texturas. Mundos de vida ! Mas, quem já viu ? Seu/ sua ginecologista ! Eita quer dizer que esta parte tão mimosa do seu corpo um estranho já viu e vc não ? Beleza, ginecologista é cuidado imprescindível com si mesma. Mas, reconhecer sua vagina além de um cuidado, é ato de amor consig@.

Hoje, dia de luta pela saúde da mulher presenteei as amigas com um kit deste hábito de amor: GINECOLOGIA – FAÇA VOCE MESMA ! Lanterninha, espelhinho e espéculo vaginal. Com estes objetos vc pode além de conferir lábios, canal, pele… dizer olá a seu colo do útero. Aprendi com uma ginecologista feminista numa edição do Carnaval Revolução, há uns anos. Com esta visão além do alcance, acompanho meus ciclos, ritmos, cheiros, frescores. Assim, eu mesma posso conferir, as muitas possibilidades do meu corpo.

E dependendo de como estiver o horizonte posso tomar aquele chá, fazer aquele banho de assento, aquela compressa… Meus favoritos são chá de artemísia, chá de gengibre, compressa de alho, inhame, vinagre, espinheira santa, camomila.

Talita R da Silva

Linguista apaixonada/inebriada/devotada. Viciada em literaturas e debates filosóficos/antropológicos/sociológicos. Aprecia acompanhar e opinar em debates da esfera política. E, claro, feminista em processo eterno de aprendizagem!

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41 thoughts on “Nossos hormônios e a dosagem alheia

  1. Acho que você precisa se informar melhor sobre o papel dos hormônios no comportamente humano.
    Converse com um endocrinologista ou procure palestras/entrevistas de médicos no YouTube. Recomendo as entrevistas do Dr. Elsimar Coutinho.

    Eu também sou feminista, mas se tem uma coisa que eu sei que NÃO tem origens no machismo são os hormônios. Isso é culpa da evolução e da natureza.

    • Obrigada pelo comentário, Paula!

      Pois é, eu não só me informei, convivo com essas questões a muitos anos e, também, assisti a alguns vídeos no You Tube, incluso com o Dr. Elsimar, em um ele fala que temos de tomar hormônios em caso de SOP para evitar a “virilização”. What?!

      Abs.

      • Esse senhor chamado Elsimar Coutinho tem um artigo horripilante, no qual um dos seus argumentos em favor da reposição hormonal é o de evitar que os parceiros de mulheres em menopausa sejam substituídas por outras mais jovens ou que façam reposição, pois mulheres com falta de hormônios deixariam de ser desejáveis: “Não são poucos os que buscam uma saída extraconjugal com uma mulher que faz reposição hormonal ou uma mulher mais nova que ainda não precisa de reposição. Outros se inclinam para alternativas menos ortodoxas.” e fica pior: “Em última análise, a reposição hormonal na mulher não deixa de ser uma forma de planejamento familiar, impedindo o homem de fazer filho em outras mulheres que se encontram ainda em idade reprodutiva, atraentes e oferecidas.”
        Link: http://www.elsimarcoutinho.com/artigos/a-eliminacao-da-menstruacao-um-dos-10-maiores-avancos-da-medicina/?lang=pt

        Além disso, defende um “sexo higiênico”, poiso sexo oral seria causa de boa parte dos casos de candidíase.

        Aqui: http://www.elsimarcoutinho.com/artigos/os-anticoncepcionais-a-reposicao-hormonal-o-sexo-oral-e-a-candidiase/?lang=pt

        • Que horror, Diana! Esses artigos parecem alguma pegadinha de mau gosto. Alguém, por favor, me amassa…

          Eu assisti a uns vídeos do Dr. Elsimar no Youtube e fiquei deveras incomodada. Sabe quando dá vontade de cometer agressões verbais? Mas esses artigos são bem mais medonhos. Aff.

          Vejamos que é isso que nos cabe questionar sempre! Abraços e obrigada pelas informações.

  2. Eu penso nessa questão hormonal por outro aspecto, bem mais simples, mas que vira e mexe me faz olhar torto pra umas pessoas. Se eu estou de mau-humor ou ríspida por qualquer razão lá vem o “Nossa, você deve estar na TPM!”. É. Porque mulheres não têm dias ruins. Só os homens. Para as mulheres sempre será efeito do ciclo hormonal.

    • Ao meu ver, isso é parte de uma política de desmerecimento de nossas capacidades intelectuais. Afinal, como confiar em um ser que pode ter ataques de nervos do dia para a noite?
      Aliás, ouvi muito isso durante a campanha da Dilma para a Presidência:
      _E se ela acordar com TPM, o Brasil para?

      E o engraçado é que nem existe uma palavra similar para uso em homens. Os hormônios dos homens são perfeitos e somos apenas nós que temos de conviver com ebulições? Ah tá.
      Como disse, não pretendo fazer um tratado endocrinológico, mas que há muito machismo neste âmbito farmacológico e mesmo na condução das pesquisas, disso eu não duvido. O que eu digo é que podemos e devemos questionar estas micro-esferas de constituição de poder.

      Abs e obrigada pelo comentário.

  3. “meninas são emotivas por conta de seus hormônios”

    Claro que são. Falando nisso, você acha que a testosterona é só um hormônio que te deixa com tesão? Os hormônios nos deixam sim emotivos. Negar isso é negar nossa própria natureza. A questão é aprender a conviver com eles.

    • Como é que se prova que as mulheres agem da forma x ou y por conta da maior quantidade do hormônio tal? Isso é impossível. Até porque não existem “as mulheres”. Além disso, essa ideia da mulher que chora por qualquer motivo é uma ilusão tão grande quanto a imagem do homem que nunca chora.
      Em seguida, como provar que a testosterona é o elixir da libido? Essa hipótese significa, inerentemente, dizer que, em média, “os homens” sentem mais desejo sexual do que “as mulheres”. Eu não concordo com isso. Quando a mulher não tiver mais seus valores morais atrelados aos sexuais, como ocorre com o homem, verificaremos que ambos são igualmente estimuláveis sexualmente. Simplesmente, porque será aceitável que a mulher diga o que sente e quer no âmbito da sexualidade.

      Abs.

      • “Uma grande variedade de fatores modulam o comportamento de agressão maternal, como a flutuação hormonal, as pistas provenientes da prole e do intruso, e o meio ambiente ao redor.” http://goo.gl/C4WZ0

        “A flutuação hormonal está entre os fatores que produzem os clássicos sintomas de um corpo em alerta permanente – palpitações, dores de cabeça, irritabilidade, sudorese, tensão muscular, cansaço, insônia.” http://goo.gl/7755l

        “Durante o período de um ciclo menstrual há uma flutuação hormonal, fazendo com que os níveis de testosterona fiquem mais altos durante o período fértil. Assim, a mulher tem mais vontade sexual nesta fase, facilitando a procriação.” http://goo.gl/UGVn2

        “Essa flutuação hormonal, em alguns períodos, faz com que a mulher passe de uma ‘monja tibetana’ a um trem desgovernado”, brinca a professora Lucia Sandri, do Centro Integrado de Ioga Lucia Sandri, de São Paulo. http://goo.gl/ZME91

        “Uma das pioneiras no estudo da neuroeconomia no país, a economista Eliana Bussinger, mestre em matemática e professora da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a flutuação hormonal da mulher pode ter um impacto importante em suas decisões financeiras.” http://goo.gl/7Gf6z

        Como eu disse, os hormônios NOS deixam sim emotivos. Negar isso é negar NOSSA própria natureza. A questão é aprender a conviver com eles.

        “Quando a mulher não tiver mais seus valores morais atrelados aos sexuais, como ocorre com o homem.”

        Que homem? Sexo é um assunto muito importante na nossa sociedade. Acho muito difícil termos nossos valores morais dissociados do sexo. Como resolver esse problema? Não sei… Só reclamar e fazer um decreto certamente não vão resolver isso.

        • Oi? Oi? Oi? (ritmo Avenida Brasil) :)

          Poxa, Claudio, vc pegou alguns trechos totalmente difusos para corroborar a SUA hipótese de que mulheres não são julgadas moralmente por dizerem gostar de sexo, ou pelo menos, são tão julgadas quanto homens (sério?!).
          Existe um inegável padrão que espera e difunde que mulheres sejam mais sensíveis e menos instáveis e que homens sejam insensíveis, mais estáveis e hipersexuais. Isso existe e eu nunca disse que deveria haver um decreto para modificá-lo, tampouco estou mimizando este assunto. Só estou refletindo o quanto deste padrão influencia a produção científica e o quanto nós tomamos essa ciência sem questioná-la de fato.
          Bom, o primeiro trecho é de um projeto científico que, acredito tenha ficado pronto em fevereiro deste mês, teríamos de ver quais foram os resultados alcançados, se a linha de pesquisa se manteve, etc. O segundo é da revista Claudia. O terceiro é de uma médica e confesso que gostei bastante mesmo deste texto, mas ressalto um trecho que me incomodou:

          “A complexidade da função sexual feminina é diferente da masculina. O desejo sexual feminino, por exemplo, é mais tênue, por ter influência biológica menor. Uma mulher jovem tem de 10% a 15% menos desejo sexual que um homem na mesma faixa etária devido a fatores hormonais e isto pode gerar muitas brigas entre um casal, onde o homem não consegue entender que a parceira sente menos vontade do que ele.” Discordo disso. Há muitas mulheres que sentem bem mais desejo sexual que seus parceiros, mas sentem vergonha de tomar a iniciativa sexual porque ainda estão atreladas a modelos machistas, que dizem que a mulher deve esperar o homem satisfazê-la ao invés de ela própria apropriar-se de seus corpos e desejos.

          Do quarto texto, que reflete uma pesquisa em neuroeconomia, destaco este trecho altamente questionável: “Segundo pesquisas feitas por ela aqui no Brasil, e por pesquisadores das Universidades de Harvard e Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, sete hormônios têm um grande papel no comportamento feminino: a prolactina, que faz a mulher se preocupar mais com o outro; o cortisol, que a deixa medrosa e estressada; a ocitocina, que desperta um lado mais amoroso; a progesterona, que aumenta a delicadeza e a sensibilidade; a testosterona, que influencia a agressividade; o estrogênio, que incentiva a vontade de controle; e a dopamina, que deixa a mulher mais cética e desconfiada.” Isso me lembra tanto, mas taaaaanto a frenologia e seus usos absurdos em áreas sociais e do direito, que nem consigo expressar tamanha descrença por uma proposta como essa, de mapear a univocidade entre hormônio e atitude e ambas a favor do capitalismo.

          Abraços.

          • “Poxa, Claudio, vc pegou alguns trechos totalmente difusos para corroborar a SUA hipótese de que mulheres não são julgadas moralmente por dizerem gostar de sexo, ou pelo menos, são tão julgadas quanto homens (sério?!).”

            Hein? Eu não disse nada disso. Eu só disse que as flutuações hormonais tornam os seres humanos mais emotivos.

            Olha o que eu escrevi: “Como eu disse, os hormônios nos deixam sim emotivos. Negar isso é negar nossa própria natureza. A questão é aprender a conviver com eles.”

            Isso não tem relação alguma com julgamentos morais.

            Aliás, todos somos julgados moralmente por causa de alguma coisa relacionada a sexo. Os homens de um jeito, as mulheres de outro. Se as mulheres são mais que os homens, eu não sei dizer, não vivo na pele de vocês.

            • Vc deixou isso implícito neste trecho: “Acho muito difícil termos nossos valores morais dissociados do sexo. Como resolver esse problema? Não sei… Só reclamar e fazer um decreto certamente não vão resolver isso.” Entendo que o “nosso” seja inclusivo: vc (homem) e eu (mulher), certo?
              E vc continua a descreditar o peso do julgamento social relacionado à expressão da libido no caso das mulheres, por este trecho: “Se as mulheres são mais que os homens, eu não sei dizer, não vivo na pele de vocês.” Bom, eu lhe digo, como mulher e feminista, que, sim, as mulheres geralmente são MAL julgadas moralmente pela expressão de sua sexualidade.

              • Sim, claro, nós é eu e você.

                Não descredito não. Eu só não consigo comparar o peso (só o peso), assim como você também não deveria conseguir comparar o peso do julgamento que um homem recebe pelo simples fato de você ser mulher e eu homem, mas eu vejo o quanto o julgamento que você recebe te incomoda.

                A mim incomoda isso de dizer que uma mulher é assim ou assado porque transou com tantos caras. Eu sempre penso (quando não estou na conversa) ou digo, mas e os caras que transaram com ela?

                Pô, se eu quiser transar no primeiro encontro (viiixe, faz muito tempo… tô casado), a mulher tem que querer também. Não faz sentido eu julgá-la por ela concordar comigo. Eu nunca entendi muito essas coisas. Sempre achei uma tremenda hipocrisia.

                Mas pelo que tenho lido aqui, isso é só uma pequena parte do tratamento dispensado exclusivamente às mulheres. Por isso eu digo que não consigo entender esse incômodo. Não que eu o esteja diminuindo, mas porque eu não compreenda mesmo.

                Eu só comecei essa linha de pensamento, porque, pelo entendimento ao qual cheguei após ler seu texto, eu concluí que você achava que os hormônios não tinham papel nenhum na emotividade (ansiedade, raiva, fragilidade, etc) do ser humano. Só isso. Não achei que eu poderia contribuir em nenhum outro ponto do texto.

                • Cara, eu concordo com você.
                  Mas pelo que eu estou vendo, você e a Talita estão falando de coisas diferentes.
                  Você diz que os hormônios influenciam no comportamento. Inegável.
                  A Talita diz que nem todo comportamento pode ser atribuído aos hormônios, muitos tem origem social ou particular.
                  E que muitas vezes as mulheres tem seus sentimentos desacreditados por conta disso. O que também tem fundamento.

                  Mas a questão da libido tem sim a ver com hormônios. O caso é simples: na natureza, a mulher não tem motivos para sentir tesão (vamos dar nome aos bois) se ela não estiver ovulando. É desperdício de energia. Tanto que é normal mulheres relatarem perda do desejo quando começam a tomar a pílula, mesmo se sentindo mais seguras.
                  O que acontece é: se uma mulher que não está ovulando se estimula sexualmente, através da masturbação, romances eróticos, fantasias, pornografia,… o que seja.. Voilá! Temos e libido em dia :))

                  • “Mas pelo que eu estou vendo, você e a Talita estão falando de coisas diferentes.”

                    Percebi isso no primeiro reply… Rsrsrs Mas isso acontece. Algumas vezes estamos com uma idéia na nossa cabeça, e acabamos interpretando de outra forma o que nos apresentam.

                    A comunicação humana é em maior parte visual. Essa coisa de letras deixa muitas lacunas em aberto. Se estivéssemos em um diálogo ao vivo, certamente eu e a Talita já teríamos chegado a um consenso há muito tempo.

                    Pra terminar minha contribuição por aqui, eu só queria dizer que concordo com tudo o que você escreveu.

                • Cláudio, o ponto não é se o julgamento moral atrelado à vivência sexual me incomoda mais do que a vc por uma razão subjetiva, mas por que a mulher é mais mal julgada do que o homem em situações similares? Bom, mas essa já é outra questão.

                  Com relação aos hormônios, eu só acho, como já foi dito abaixo, que as pessoas supervalorizam propositadamente certos hormônios para elaborar teorias pseudo-evolucionistas que poderiam dar conta de balelas como “os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus”.

                  Tudo que proponho é que não compremos tão facilmente essas ideias e nos permitamos refletir criticamente.

                  Abraços.

          • Corrigindo: “Existe um inegável padrão que espera e difunde que mulheres sejam mais sensíveis e menos ESTÁVEIS e que homens sejam insensíveis, mais estáveis e hipersexuais.”

  4. Ótima explanação, reflexões são melhores que revelações.
    Sou de opinião que o uso indiscriminado de nossos corpos só pode ser feito por nós mesmas, e, ainda assim, conscientes disso.
    Parabéns pelo texto.

  5. Gosto sempre das reflexoes, principalmente sobre assuntos complexos. Eu vou tentar responder por partes:

    Sobre a SOP: A síndorme traz muitos problemas estéticos e talvez seja esse o principal motivo do tratamento. Eu também tive SOP e sofri muito com seus efeitos. E esses efeitos podem variar muito de uma mulher para outra. Eu tive MUITA acne e minha pele e cabelo eram tao oleosos que nao importa o quando eu lavasse – estavam sempre cheirando mal!
    Tudo bem que existe uma lavagem cerebral para que tenhamos eternamente pele de pêssego, mas no caso da SOP a acne e o excesso de oleosidade sao sintomas de que algo nao vai bem.
    O que pouco se comenta, e que eu descobri por acaso numa aula de bioquímica na faculdade é que SOP, se nao tratada pode provocar na idade adulta diabetes mellitus, que é uma doenca grave apesar de controlável. E talvez aqui que more o problema: muito se foca no sintoma estético e a causa e as possíveis consequências futuras sao esquecidas.
    A pele é um órgao que pode dar uma boa idéia de como está o resto do corpo – vemos ela todos os dia (ao contrário dos nossos órgaos externos) e se prestarmos atencao nos seus sinais é possível identificar problemas.
    Má alimentacao, excesso de sol, poucos horas de sono, falta de exercícios e poluicao podem deixar a pele frágil. Para quem tem pouca informcao ou só foca na estética nao se dá conta que aqueles cremes caríssimos vao fazer muito pouco se o resto do corpo está funcionando mal!

    • Oi, Fran, então, tem mesmo esse lance de poder levar a diabetes e também à hipertensão.
      Com relação à diabetes, parece que o problema é na ação da insulina. Mas isso também pode ser controlado por meio de uma alimentação saudável e estilo de vida não sedentário. Aliás, para quem é portadora de SOP, acho que atividades físicas são essenciais, até porque cada célula de gordura contribui para o aumento de nossos hormônios. Meu ginecologista, por exemplo, sempre insiste nesse lance de controlar o peso, avisa para não comer doces, etc.
      A pele é, sim, um ótimo termômetro de nossa saúde física e emocional. Quando eu fico muito estressada, o primeiro lugar que dá sinais é a pele e, realmente, os cremes para mim são só uma forma de maquiar os sintomas. Só melhora quando eu consigo botar minhas atividades em dia.
      Também uso Yasmin desde que fui diagnosticada. Felizmente, nunca senti nada e não quero sentir também, hehe. Pretendo continuar seguindo o tratamento forever, mesmo assim acho importante colocarmo-nos alguns questionamentos o tempo todo para realmente termos a liberdade de escolha.

      Abraços e valeu pelos toques. ;)

  6. Muito boa proposta de reflexão. Tentei responder algumas perguntas aplicando à minha vivência, sem generalizar.

    A pílula, por exemplo, comecei a tomar simplesmente para não sentir dor: a SOP me fazia sentir cólicas TODOS OS DIAS DA VIDA, e eu achava ser normal, pensava ser resultado de ter “pego friagem”. Mas, mesmo depois de reconhecida a síndrome, tive certa relutância em aceitar tomar a pílula pro resto da vida… Sempre penso se os efeitos maléficos não seriam maiores que os benéficos. Mas, por ora, é o que me permite viver melhor ou, pelo menos, sem dores.

    Os hormônios do humor eu sinto de uma forma intensa e inegável: até quando não tenho consciência de que já estou na TPM alguns amigos me perguntam se está tudo bem comigo, pq estou “diferente”. Faço meus cálculos e, pimba!, é a maldita se manifestando. Invejo quem não sofre com isso, mas na minha vida é uma constante.

    Quanto ao conhecimento do corpo, o uso de coletor menstrual me proporcionou um contato meio que “obrigatório” com minha vagina que foi muito benéfico. Recomendo a todas que querem se conhecer melhor mas não têm paciência de agachar em cima de um espelho: a utilização de coletores nos familiariza com nosso corpo sem criar uma situação forçada, seria algo como “aprender sem perceber que está aprendendo”.

  7. Sobre hormônios:

    Primeiro erro bastante comum: achar que no nosso corpo existem APENAS hormônios sexuais (estrogenio, progesterona, testosterona) e achar que as únicas glândulas produtoras de hormônios sao os testículos e ovários.
    - O pâncreas produz insulina e glucagon, responsáveis pelo equilíbrio do acucar no sangue;
    - A tireóide produz as tiroxinas 3 e 4, dois hormônios IMPORTANTÍSSIMOS que controlam o metabolismo celular e influencia quase todos os sistemas do corpo;
    - A glândula adrenal produz as cortisonas responsável pela mobilizacao dos depósitos de gordura, pelas respostas relativas ao stress, por parte do controle renal…
    e assim vai…
    Problemas na producao, transporte ou nos receptores desses hormônios podem trazer consequências diversas para o indivíduo…bláblá wiskas sachê… e aí vocês me perguntam, onde está a relacao de tudo isso com o post ou feminismo?

    Eu sou formada em biologia e estou estudando med. veterinária, entao tenho um pouquinho de conhecimento.
    Sim hormônios sao fundamentais para nossas funcoes biológicas e SIM eles tem influência no nosso humor e comportamento.
    Mas, com toda essa gama de compostos químicos de nomes impronunciáveis nao é estranho que SÓ o estrogênio “faca chorar”? Ou que SÓ a testosterona provoca reacoes violenta ou controla a libido?
    Nao parece muito conveniente dizer que sao os hormônios sexuais FEMININOS os responsáveis pela divisao sexual da sociedade? Nao é ÓBVIO que isso é uma tentava de naturalizar a “superioridade” masculina e manter as mulheres no seu devido lugar de enfeite/empregada/reprodutora?
    Os hormônios que fazem um leao faminto trucidar uma gazela sao os mesmos hormônios que me deixam irritada quando eu estou com fome – porém, como nasci na civilizacao e tenho um cerébro bem mais desenvolvido que de um leao eu nao trucido o garcon por que ele demorou pra me trazer a comida!

    • Pode crer. Os hormônios certamente afetam o humor, mas cabe-nos decidir o que fazer com esse humor.

      Quanto a superioridade masculina, hum… Eu acho que levamos vantagem por não termos tantas oscilações hormonais por não menstruarmos, mas vai lidar com a canalha da testosterona. De vez em quando, basta dormir 30min a menos pra estragar o dia. E isso é o mês inteiro. Então, acho que estamos no 0X0.

    • Ah, Fran, que legal essa sua explicação! <3

      Ressalto um trecho, que achei particularmente oportuno:

      "Mas, com toda essa gama de compostos químicos de nomes impronunciáveis nao é estranho que SÓ o estrogênio “faca chorar”? Ou que SÓ a testosterona provoca reacoes violenta ou controla a libido?
      Nao parece muito conveniente dizer que sao os hormônios sexuais FEMININOS os responsáveis pela divisao sexual da sociedade? Nao é ÓBVIO que isso é uma tentava de naturalizar a “superioridade” masculina e manter as mulheres no seu devido lugar de enfeite/empregada/reprodutora?"

      Abraços e obrigada por trazer esses saberes à discussão!

  8. Olá, bom, eu tenho um relacionamento estável de longa data, e aqui em casa para não engravidar usamos camisinha. Acho muito curioso que quando vou ao ginecologista e digo que tenho um relacionamento estável, automaticamente me perguntam “qual a marca da pílula que vc usa”? rs…Bom, não sou SUPER contra pílula nem nada, sei o seu papel na história, mas me pergunto, por que tomar pílula se vc não tem nenhum problema? Vejo que quase todas (acho que todas na verdade) amigas com relacionamentos estáveis e héteros usam a pílula como contraceptivo, e não camisinha. Não sei, apesar de não descartar tomar pílula se necessário, não vejo necessidade de tomá-la , mudar minha estrutura hormonal sem necessidade. Claro que meu parceiro gostaria disso, para poder se livrar da camisinha, mas bom, em casa, eu que decido isso, já que sou eu que irei botar a tal pílula no meu corpo. Nunca tomei na vida, pelo que vejo ela é vendida como algo “super positivo”, hj em dia não só por evitar gravidez, mas já vi propaganda da pele melhorar etc etc…É tão maravilhosa assim?? Fico me perguntando….rs..me sinto uma alienígena as vezes por namorar tantos anos e não tomar….

    • cada um escolhe o método que melhor lhe convier..
      eu comecei a tomar a pílula logo após começar a minha vida sexual (me recuso a dizer “perdi a virgindade”) e te digo: devia ter começado a tomar antes! Melhorou e MUITO a minha qualidade de vida… as cólicas quase sumiram, TPM sumiu, pele melhorou, não inchei…
      mas tem mulher que passa mal, enjoa, engorda, fica bipolar…
      cada um sabe onde aperta o sapato ;)

      • Oi Paula, sim, entendo que cada um escolhe o que quiser..mas fico me perguntando tb o por que de quase todas mulheres héteros com relacionamento estaveis escolhem tomar pílula, digo quase todas, mas TODAS que conheci tomavam. Nunca conheci uma que namorava e tal que usava a camisinha como contraceptivo. Já morei fora do Brasil e já conheci algumas estrangeiras em que não parecia haver uma realidade onde TODAS tomavam pílulas. è uma curiosidade mesmo, de onde vem esta naturalização do ato de tomar pílula, desde novinha, praticamente todas as mulheres…Sério, vejo ao meu redor, e conheço mais gente que toma (mesmo as sem namorados) do que não toma. Sim é escolha, é, mas são escolhas inseridas em um contexto, em uma sociedade tal..é pertinente o questionamento disso tb não?? Abraços!!!

        • Oi, Vivi

          Eu tomo pílula e meu marido usa camsinha! Tomo pois tenho problemas hormonais como já disse lá em cima. Mas mesmo se nao tivesse eu tomaria e meu marido continuaria a usar camisinha.
          No meu caso particular, eu nao quero mesmo ter filhos. Eu tenho MUITO medo de engravidar e nao conseguiria faze sexo sem protecao redobrada.
          Seu questionamento é relevante sim – nós duas temos muita sorte por termos companheiros que aceitam usar camisinha! Mas essa nao é uma relidade para a grande maioria dos casais. Poucos homens aceitam a camisinha. Já tive amigas que disseram que (agora pasme) jamais pediriam camisnha pois seria uma grande ofensa para o cara.

          Sim, é uma questao de escolha e liberdade tomar pílula ou usar qualquer outro método hormonal.
          E sim também, vivemos em um contexto social em que boa parte do homens nao assumem sua parte na contracepcao!

          • to na mesma situação da Fran:
            2 métodos combinados :)

        • Vivi, eu achei bem legais seus adendos. Eu também percebo que, no meu meio, existe uma pressão muito grande para que as mulheres em relacionamento estáveis usem pílulas.
          E isso não só é uma imposição grosseira mais uma vez voltada para a mulher, mas também extremamente perigoso. Aumenta o risco de engravidar, porque a pílula depende de n fatores para ser perfeitamente assimilada pelo corpo da mulher. E aumenta o risco de contrair DST’s.
          Nunca vou me esquecer de uma palestra que assisti há quase uma década atrás, que era sobre mulheres HIV positivo, e uma delas dizia que a desilusão de se sentir traída era ruim, mas a de se saber doente e traída era quase insuportável. Para mim, camisinha deveria ser entendida como um ato de respeito pelx outrx.

          Para aquelas que ainda sentem vergonha de exigir o uso da camisinha, recomendo muuuito que assistam ao documentário ‘Positivas’. No You Tube só encontrei o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=95KaTb5hIjU

          Abraços e obrigada por trazer essa discussão.

        • Paula, eu não usava pílula em um de meus relacionamentos passados, que foi mais duradouro. Tinha muito receio em ingerir hormônios, me soava anti natural, sei lá…

          No começo do meu relacionamento atual eu não usava pílula também, mas sempre usei camisinha. A ginecologista do posto de saúde ao me atender perguntou se eu queria engravidar. Assim, na lata e super grossa. Respondi que não, usava camisinha, não era contraceptivo também?

          Ano passado comecei a usar a pílula, me rendi aos apelos do meu ginecologista, que desde os 16 anos pedia pra eu usar pílula por causa da minha TPM. Sempre tive cólicas muito fortes, de passar mal. Percebo que a pílula ajudou muito nisso, as dores diminuíram bastante mas não sumiram.

          Mas continuo usando camisinha. :)

  9. Talita, também tenho SOP e tomei anticoncepcional por 18 anos!!! Aí eu me dei conta de que estava cheia de varizes e fiquei com medo de ter um trombose, enfim, resolvi trilhar um caminho mais natural, parei de tomar o anticoncepcional e fui fazer atividades físicas e cuidar da alimentação. Descobri que o pior problema da SOP é a resistência a insulina, que pode levar a diabetes quando ficarmos mais velhas. fiz exames e constatei que já tinha essa resistência. Descobri com uma ótima endocrinologista que para controlar a resistência a insulina eu não preciso de outro remédio, mas sim comer sempre proteína quando comer algum carboidrato, tudo muito simples, é só andar com umas castanhas na bolsa para combinar com os lanchinhos cheios de carboidrato. Enfim, com atividade física regular e essa combinação de alimentos tá tudo bem. Meus ovários estão lindos, minha resistência a insulina acabou, meus hormônios estão melhores do que nunca … estou me sentindo ótima e dona do meu corpo! bj, se quiser dicas sobre SOP manda um email.

    • Nossa, Carolina, que esperança essa sua mensagem trouxe!

      Vou tomar a liberdade, sim, de entrar em contato com vc. Já ouvi em algumas partes que um bom tratamento endocrinológico aliado a práticas esportivas podem ser bem mais eficazes para SOP do que nossas pílulas.
      Já estou há 7 anos nessa lida e morro de medo de ter complicações. Minha família materna tem muita tendência a varizes. Felizmente, até agora está tudo tranquilo nesse sentido.

      Bjs e obrigada pela disposição em ajudar.

  10. Eu nunca usei pílula anticoncepcional (sempre preferi a camisinha) até um mês e meio atrás, quando conversando com o ginecologista comentei que a TPM estava piorando meus problemas de coluna por causa das cólicas, as dores eventuais da retenção de líquidos, etc. E ele me sugeriu suspender minha menstruação para poder aliviar meus sintomas e melhorar minha qualidade de vida com uma pílula de baixa dosagem.

    Devo dizer que temi muito as ‘famosas’ alterações de humor, o aumento de peso e quaisquer efeitos colaterais indesejados. As primeiras duas semanas foram difíceis, meu namorado que o diga, mas hoje nunca me senti tão bem por não ter mais TPM e por me ver livre das cólicas que só pioravam as dores lombares e prejudicava a recuperação da minha cirurgia.

    Como bem disse a Fran acima, culpar apenas os estrogênio ou a testosterona por este ou aquele comportamento, é praticamente medieval, sugerindo que não temos controle sobre nosso humor, sendo que o corpo se utiliza de muitos outros para seu funcionamento. Sem contar o reducionismo dos homens em dizer que por termos estes temidos hormônios, somos criaturinhas frágeis, choronas, que devemos nos manter em nosso lugarzinho para essas tempestades hormonais não nos detonarem. Por favor, né?

    Abraço! :D

  11. Ois!
    Estava pensando nessas questões hormonais/sociais hoje mesmo.
    Um pouco de experiência pessoal antes: também tenho SOP. Controlei com pílula por cerca de 8 anos, até que terminei um namoro e decidi que tinha cansado daquilo e parei de tomar, tudo com acompanhamento da minha médica. E, nos diversos exames que fiz após parar, percebi que além dos meus hormônios “femininos” desgovernarem de vez, meus hormônios “masculinos”, que já eram altos, foram pra lua. E eu senti muitas modificações no meu corpo, como queda de cabelo em áreas de calvície, surgimento de pelos em locais que antes não existiam, ganho muscular rápido (eu treino natação e aquela foi minha melhor época – praticamente dopping) e minha libido virou uma coisa incontrolável. Hoje em dia, após tratamentos sem o uso de anticoncepcional (metformina, é um hipoglicemiante que ajuda bastante, apesar dos efeitos colaterais – um bom endocrinologista ajuda muito no controle da SOP) estou bem. Não tomo nenhum remédio e não tomo pílula por ter problemas pessoais quanto ao modo como ela funciona no organismo.
    Outra informação pessoal, sou bióloga e devido à SOP eu me aprofundei um tanto no estudo de hormônios e coisas do gênero. Nosso corpo funciona a base de hormônios, como alguém disse em algum comentário aí em cima. Não somos só hormônio sexual. E do mesmo jeito que todos os nossos hormônios se interligam e fazem as coisas funcionarem do jeito que devem ser, a testosterona, o estrógeno e a progesterona têm seus papéis na regulação de diversos processos. Cair no extremismo de falar que nenhum traço geralmente associado a um sexo ou a outro é só culpa da cultura e da sociedade é fazer o mesmo que os psicólogos evolucionistas que dizem que tudo vem de características que adquirimos ao longo do tempo. É necessário um equilíbrio entre essas visões e é necessário admitir que sim, dentre aquilo que chamamos de humanos há dois tipos de corpo diferentes que têm funcionalidades diferentes, assim como em qualquer outra espécie. Isso não nos livra de responsibilidade sobre como manejamos a sociedade.
    Discutir o empoderamento da mulher e uma sociedade igualitária sem admitir que somos diferentes e que há certos traços de comportamento que são sim de origem biológica me parece raso. Na minha visão, o feminimismo propõe a igualdade de liberdades, direitos e deveres entre homens e mulheres e todo o gradiente entre eles, não uma igualdade controlada dos nossos corpos.

  12. Gostei da reflexão, gostaria de saber quem padronizou que é ruim ter variações de hormonais ou de humor?
    Sobre o hormônio feminino definir certas características nas mulheres eu acho questionável também. Meus hormônios são totalmente normais, para uma mulher saudável da minha faixa etária, porém a maioria dos meus comportamentos e atitudes são exatamente iguais ao do meu pai, ou seja, nele é considerado perfeitamente normal, já em uma mulher…