Nossos hormônios e a dosagem alheia

Quando refletimos sobre nossos corpos de mulheres cis, geralmente, percebemos que estamos passando por uma formatação estética que muitas vezes se confunde com saúde e bem-estar: cabelos alisados, peles jovens e hidratadas, altura x e não y, peso corporal estabelecido por meio de parâmetros que nem sempre nos são acessíveis. Enfim, tabelas de normalidade soam por toda parte. Então, muitas de nós esforçamo-nos para parecermos normais sem, ao menos, questionarmos essa saúde enlatada que nos oferecem.

Hoje, eu gostaria de questionar a larga apropriação do método de tratamento hormonal, que tende a ocorrer por meio de pílulas contraceptivas orais compostas por dosagens combinadas de hormônios sintetizados ou mini-pílulas, compostas exclusivamente por progestágeno (PEP).

Painting flower. Fotografia de Nobuyoshi Araki (Japanese, b.1940)

Disponível há cerca de 50 anos, as pílulas anticoncepcionais, como ficaram conhecidas, significaram um importante avanço para a política de empoderamento das mulheres. Tendo controle sobre nossa reprodução, podemos planejar, com maior chance de sucesso, quando gostaríamos de ter filhx(s). Isso permite, dentre outras questões, que optemos por dedicar maior tempo a nossos estudos e carreiras. E é por isso que muitas pessoas consideram a pílula anticoncepcional como a primeira grande e relevante conquista das mulheres.

Cada vez mais bem desenvolvidas, as pílulas passaram a ser apropriadas para tratamentos ginecológicos diversos, que vão desde a endometriose até oleosidade cutânea, tensão pré-menstrual (TPM) e enxaquecas. E aqui é que devemos nos perguntar: é crível que um remediozinho seja capaz de suprir tantas funções? Para termos uma ideia de seu funcionamento dentro de nosso organismo, sugiro o seguinte vídeo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Or0xOMP1beI&w=560&h=315]

Eu, como muitas mulheres, uso a pílula anticoncepcional para fins terapêuticos desde os 17 anos. Estima-se que cerca de 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva portem a síndrome do ovário policístico (SOP), que é caracterizada pela maior produção de hormônios andrógenos. Uma das características mais recorrentes desta síndrome é a menstruação espaçada, o que, por si só, não seria ruim para muitas mulheres. Também, pode levar à infertilidade, mas, se a mulher não quiser engravidar, isso também não se constitui em um caos. E “problemas” estéticos como hirsutismo e acnes. Mas, o que é definido como problema em termos de estética?

A questão é, quem é que define o que é saudável e desejável e o que deve ser tratado e, sobretudo, como deve ser tratado?

Obviamente, este é um texto meramente reflexivo, que reconhece a grande importância da pílula para a emancipação de mulheres, mas que também gostaria de questionar quem questiona a normalidade de nossos corpos.

Quando olhamos para a problemática da SOP e nos deparamos com Beatriz Preciado, uma filósofa expoente da teoria queer, temos um choque de percepções. De um lado, a estrutura médica afirmando que precisamos adequar nossos corpos a um modelo x de saúde e feminilidade; de outro, Beatriz Preciado baseando-se na tese de Michael Foucault para defender a administração da testosterona como forma de experimentar posições de poder (farmacopoder), conforme revela sua fala :

Qualquer mulher poderia ter acesso à testosterona, não para tornar-se homem, mas simplesmente para experimentar modificações em seu próprio corpo. É um hormônio muito sexual; É um hormônio que te coloca como uma motocicleta; poderia utilizar-se dele… seria uma espécie de cocaína sexual.

Inicialmente, não aceito que a testosterona seja entendida como um hormônio tão especial, porque questiono também esse endeusamento em torno de tudo que seja mais recorrente no corpo de homens cis: seu pênis (tão comum em nossa fala trivial: pau, caralho, saco), seus fluidos (porra) e até um de seus hormônios mais recorrentes.

Foto de Gustavo Arrais/Nova Cosmopolitan

Não aceito que digam que meninas são emotivas por conta de seus hormônios e não porque a sociedade estimula a fragilidade na mulher; tampouco, tomo como adequado que digam que a impulsividade e a libido sejam promovidas pelo elixir testosterônico. Mas, como disse, estou apenas refletindo, refletindo, refletindo. Podem surgir pesquisas bioquímicas capazes de comprovar a hipótese de que a testosterona promova características emocionais x ou y, ao passo que o estrogênio e/ou progesterona estejam relacionadas com as características z e w. Mas, por ora, cabe-me apenas questionar.

E foi questionando que me dei conta de que os incômodos que a pílula anticoncepcional me causam são irrisórios perto daqueles a que são expostas as mulheres trans*, para quem, pasmem, hormônios não são desenvolvidos. A bula destes medicamentos é tão cor-de-rosa quanto a sua caixinha e sumariamente ignora uma série de mulheres que necessitam e necessitarão sempre de hormônios como estradiol, estrogênios e anti-andrógenos para manterem a aparência que a sociedade cobra de nós e, consequentemente, exige delas.

Nós, mulheres cis, podemos questionar o sistema farmacológico, buscar alternativas como a ginecologia natural, investir em outras metodologias contraceptivas, etc. E como lidam aquelas a quem o direito de questionar a dosagem alheia é praticamente negado? Não sei.

Ao final deste papo, deixo um trecho de um texto subjetivo e poético da Jul Pagul, que, talvez, ajude-nos a pensar melhor qual poderia ser a relação com nossos corpos dosados quase sempre pelo viés do outro:

Tão agradável se tocar, ver, descobrir. Então, que tal unir o útero ao agradável ? Sim, que tal conhecer o próprio útero ? Tão poucas viram o próprio útero. Por que passamos tantos anos pra descobrir nossos corpos ? Especialmente, vagina , ovários, útero…. O que trazemos mesmo entre as pernas ? Um mundo de prazeres, cores, texturas. Mundos de vida ! Mas, quem já viu ? Seu/ sua ginecologista ! Eita quer dizer que esta parte tão mimosa do seu corpo um estranho já viu e vc não ? Beleza, ginecologista é cuidado imprescindível com si mesma. Mas, reconhecer sua vagina além de um cuidado, é ato de amor consig@.

Hoje, dia de luta pela saúde da mulher presenteei as amigas com um kit deste hábito de amor: GINECOLOGIA – FAÇA VOCE MESMA ! Lanterninha, espelhinho e espéculo vaginal. Com estes objetos vc pode além de conferir lábios, canal, pele… dizer olá a seu colo do útero. Aprendi com uma ginecologista feminista numa edição do Carnaval Revolução, há uns anos. Com esta visão além do alcance, acompanho meus ciclos, ritmos, cheiros, frescores. Assim, eu mesma posso conferir, as muitas possibilidades do meu corpo.

E dependendo de como estiver o horizonte posso tomar aquele chá, fazer aquele banho de assento, aquela compressa… Meus favoritos são chá de artemísia, chá de gengibre, compressa de alho, inhame, vinagre, espinheira santa, camomila.

Autor: Talita R da Silva

Linguista apaixonada/inebriada/devotada. Viciada em literaturas e debates filosóficos/antropológicos/sociológicos. Aprecia acompanhar e opinar em debates da esfera política. E, claro, feminista em processo eterno de aprendizagem!

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