Sookie Stakhouse e o feminismo

Sei que deve ter gente que acha um saco. Deve pensar: “Poxa, tudo essas mulheres tem que falar de feminismo?”. E a resposta é: claro que temos. Até que um dia não seja necessário falar em igualdade real de direitos e deveres, respeito à diferença, compaixão, tolerância. Enquanto isso não acontece vamos continuar martelando nas suas cabeça e nas nossas cabeças. Porque somos produtos culturais, e as vezes a gente escorrega em comportamentos que já desconstruímos, mas que insistem em nos cutucar e dar as caras, em momentos de raiva ou falta de paciência, ou mesmo, de brincadeira…  Sobre isso, sugiro o texto Não Tem Graça da Luciana Nepomuceno.

Capa da tradução brasileira do volume 1 "Morto até o anoitecer"

Essa introdução foi para apresentar o tema de hoje: Sookie Stakhouse. QUEM?? Sookie Stackhouse, a garçonete telepata, personagem principal da série de livros As Crônicas de Sookie Stackhouse (Southern Mysteries Vampires), da autora estadunidense Charlaine Harris. No Brasil os livros tornaram-se conhecidos por meio do seriado da HBO: True Blood, lançado em 2008.

Paixão por vampiros

Sempre sempre fui fã de séries de vampiros. Livros de vampiros. Comecei com os da série Crônicas Vampirescas da Anne Rice com Lestat, Louis e Armand, mas estes são os principais. Lembro quando, no decorrer da série, conheci Gabrielle, a mãe de Lestat, transformada pelo filho em vampira. Ela me fascinou.

Li Crespúsculo. Aliás, tenho todos os livros. Mas uma história de vampiros que saem de dia, que brilham no sol… Não é que eu não tenha gostado… (sim, eu gostei, mesmo com as questões problemáticas como Edward stalkear a Bella e tudo mais. Bella ao menos sabe o que quer e vai atrás, aprende a se virar – tem outras questões. A Lola já colocou alguns desses questionamentos no texto Saga Crepúsculo é machista, feminista, ambas ou nenhuma das anteriores?)…. É que não parecia literatura de vampiro, para mim.

Tem também a Karmilla, a Vampira de Karnstein. Livro de Joseph Sheridan Le Fanu. Foi escrito 25 anos antes do Drácula de Bram Stoker, e muitos dizem que serviu de inspiração para o clássico.

Quem é Sookie Stalkhouse?

Porém, Sookie Stalkhouse não é uma vampira. Sookie é uma humana que consegue ler a mente de todos os humanos ao seu redor. E por isso, é considerada louca. Crazy Sookie, é como ela é tratada. Na verdade, ninguém sabe a verdade sobre como funciona o dom da telepatia, mas todos os habitantes de Bon Temps – Louisiana, estão familiarizados com os rumores que correm sobre a pequena Sookie e suas indiscrições infantis. Enquanto criança, e como todas as crianças, ainda não formatada no controle social, e sem perceber que o que ela estava ouvindo não era a voz exteriorizada das pessoas ao seu redor, mas sim, os pensamentos mais íntimos, a personagem acaba deixando claro que tem algum dom peculiar, mas com o tempo, aprende a esconder, uma vez que percebe que as pessoas não entendem e assim passam a temer o diferente.

A atriz Anna Paquim é Sookie Stalkhouse na série da HBO True Blood.

Quando a série televisiva foi lançada no Brasil, li várias reportagens falando sobre como se tratava de um paralelo com a questão racial e homossexual nos EUA, já que o mote do enredo é o fato de que vampiros existem. Mas, com a invenção de um tipo de sangue artificial, o True Blood, eles não mais precisam se alimentar de seres humanos, é possível que agora eles “saiam dos caixões”.

Sookie ouve falar dos vampiros e de sua revelação ao mundo dos humanos, mas ainda não conhecera nenhum, na pequena cidade onde mora. Até que um dia, um vampiro chega ao bar Merlotte, onde Sookie trabalha como garçonete. O cérebro de Bill Compton é um vazio para a telepata Sookie. E é um alívio. Um alívio tão grande que, juntando tal fato à fascinação que os vampiros já exerciam sobre ela, com a deliberada sedução de Bill, Sookie se apaixona e tem a primeira relação sexual (e afetiva) com o vampiro, aos 26 anos de idade.

Sookie consegue ler os pensamentos e emoções dos humanos e também de alguns outros seres sobrenaturais que são apresentados na série, lobisomens e outros transfiguradores (seres que se transformam em animais, como panteras, raposas, tigres, ou mesmo, qualquer animal — como é o caso de Sam Merlotte, o chefe de Sookie), fadas, demônios, elfos… Cada um com sua peculiaridade, sua sociedade e sua organização e moral próprias, via de regra, diferentes da humana.

Por que Sookie é (ou poderia ser) um ícone feminista?

Acredito que ela é forte, determinada, independente, não teme sua sexualidade, e acima de tudo, talvez por ser capaz de ler os pensamentos de todos os humanos, não tem preconceitos de nenhuma espécie. Ela sabe, e sabe mesmo, pois é capaz de entrar na cabeça das pessoas e ler seus pensamentos mais íntimos, que todos somos iguais, capazes tanto de fazer o bem quanto o mal.

Ela sabe que o que nos diferencia é a forma como agimos, e não o que fazemos, qual a cor da pele, qual a orientação sexual, a idade, a nacionalidade, nada disso. Ela inclusive não lida bem com os humanos, pois é capaz de ler as intenções ocultas por trás de palavras gentis e, por isso, sente um alívio tão grande ao lidar com os vampiros. Ao menos, ela não consegue ler suas mentes e se desapontar com a falsidade, e além do mais, os vampiros que ela conhece não fazem tanta questão quanto os humanos de disfarçar suas intenções: eles são sugadores de sangue (bloodsuckers), afinal de contas, e quem se importa?

A personagem Sookie do seriado True Blood é um tanto quanto “donzela em perigo”, ou seja, várias passagens foram alteradas. Mesmo que na televisão, a personagem interpretada por Anna Paquim, ainda tenha algumas habilidades e características interessantes, ela não é, nem de longe, a pessoa decidida e determinada que é a Sookie dos livros.

Sobre a Sookie ser um ícone feminista, encontrei vários artigos ( infelizmente todos em inglês). Traduzi algumas partes:

Sookie apresenta muitas caracterísicas associadas ao feminismo. Ela é independente. Ainda que ela não dispense a ajuda que pode obter de outros, homens, mulheres, e também dos seres sobrenaturais, ela conta primeiro e principalmente consigo mesma. Ela não se defende por ser uma loira voluptuosa que gosta de sexo. Ela tenta exercer o controle sobre sua própria sexulalidade, e quando isso é comprometido, como o abuso que ela vivenciou quando criança, por parte de um tio, e por parte de Bill na cena do porta-malas, ela ainda não se transforma em uma vítima. Ela é uma sobrevivente que não se culpa pela violência que sofreu. Gênero é apenas um dos planos nos quais Sookie tem que lidar com sua identidade. Ela ainda tem que lidar com seus parentes humanos, com sua família de fadas, com sua telepatia, com sua nacionalidade, além de seu gênero. Ela pode ser uma garçonete loira, mas tem muito mais nela do que isso. (On Sookie: Blood, Sex anda Feminism)

A atriz Kristen Stewart é Bella Swan nos filmes da Saga Crepúsculo.

Quando se fala de vampiros, na atualidade, não há como não lembrar da Bella de Crepúsculo. Não vou aqui fazer uma comparação entre Bella e Sookie, ainda que haja muita coisa em comum. Ambas são humanas, apaixonadas por vampiros e possuem dons especiais que as afastam em certa medida do convívio com humanos. Ambas buscam o que desejam e sofrem as consequências. Mas, eu as comparar, ainda mais em um artigo onde indago se Sookie pode ser considerada um ícone feminista, entre as personagens pop da atualidade, seria como entrar em uma comparação vã que cairia na falácia “o meu feminismo é mais feminista que o seu”, e esse não é o meu objetivo.

[Só para descontrair: Buffy vs Edward.]

O que torna uma pessoa feminista? O que torna um personagem feminista?

Colocando as personagens e as autoras em uma coluna, podemos dizer que há vários pontos em comum e vários pontos de divergência. Charlaine Harris vive no sul dos Estados Unidos, local que é conhecido pelo conservadorismo e pelo racismo – terra da Ku Klux Klan (KKK). Nasceu m 1951.  Stephenie Meyer, criadora da série Crepúsculo, é mórmon. Cresceu no Arizona, meio-oeste americano, e nasceu mais de vinte anos depois de Harris, em 1973. São distintos backgrounds e históricos de vida, que vão influenciar profundamente a forma como desenvolvem seus personagens.

Considero a Sookie dos livros uma personagem feminista, sim. As vezes, até mesmo a Bella tem traços marcantes, que a tornariam uma figura de empoderamento.

E vocês? O que acham?

Quem são as suas personagens feministas preferidas, e por que?

Abaixo, mais material sobre o assunto (em inglês):

[+] Feminist Frequency: Beyond True Blood’s Sensacionalism.

[+] True Blood, fourth wave feminism, and the Sookie Stackhouse Phenomenon.

[+] The F Word: Feminism and the vampire novel.

[+] The Early Bird: Sookie as Feminist? Hear Her Roar.

[+] Bitch Media: Iconography: Sookie Stackhouse.

Autor: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

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