A Política Sexual da Carne

A Editora Alaúde entrou em contato conosco porque lançou recentemente A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Escrito por Carol J. Adams. Na obra, Carol defende a tese de que há ligações extremamente pertinentes entre os movimentos sociais feministas e as práticas vegetarianas e que avaliar os pontos de interseção entre esses dois grupos poderia contribuir para uma sociedade mais igualitária. 

Para falar sobre o livro e formular 3 perguntas para Carol J. Adams, convidamos Deborah Sá* (@aqueladeborah), feminista e vegana que há um bom tempo discute essas relações em seu blog: Aquela Deborah. Abaixo você confere o texto da Deborah e as perguntas que Carol J. Adams respondeu.

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O livro que transformou meu feminismo

Antes de me tornar vegetariana (e vegana), eu era feminista.

Deborah Sá – @aqueladeborah

Não precisei de teoria para me descobrir “mulher”, uma vez que não há conflito entre os signos sociais e biológicos, associados ao gênero que possuo. Sinto-me confortável na pele em que habito. Porém, compreender o porquê de me tratarem diferente sendo mulher, o porquê de certas performances serem exigidas do meu corpo, nisto sim, a teoria feminista teve um peso fundamental.

Foi através do feminismo que compreendi que não havia nada de errado em cortar os cabelos bem curtos, de que não precisaria espremer meus pés em saltos desconfortáveis para ser empoderada, da opção de usar uma roupa discreta ou um decote profundo.

O feminismo também ajudou a tornar pública a dolorosa experiência de ser alvo de violência sexual e através disso, conhecer tantas outras mulheres que passaram pelo mesmo, tendo a dimensão de que a violência contra mulheres e crianças estava muito mais próxima do que poderia imaginar.

Percebi as reverberações do machismo: Nos comerciais, no humor, nas revistas, na ciência, no cotidiano, nos discursos, no academicismo. Se somos produto do nosso meio as produções culturais são um reflexo. Tempos depois me tornei vegetariana e um ano após, adotei o veganismo.

Nesse ínterim, descobri Carol J. Adams e o “The Sexual Politics of Meat”, o que se configurou em um duplo desafio. Em primeiro lugar, nunca havia lido um livro em inglês; em segundo, a discussão acerca do vegetarianismo em círculos feministas é escassa e por vezes tempestuosa.

Escassa, porque estatisticamente existem mais feministas do que veganas (uma minoria, dentro de outra). Além disso, teme-se que o “foco” do debate feminista seja encoberto por uma causa “menor” que é o direito animal. Tempestuosa, porque é um assunto com maior impacto no dia-a-dia e requer uma série de considerações.

Verdade seja dita: Você pode passar uma semana inteira sem fazer uma piada machista e provavelmente quem faz parte de sua vida, nem repare. Mas experimente uma semana sem comer carne ou derivados de origem animal e a curiosidade se voltará para você, como se de uma hora para outra, usasse um adereço exótico similar a uma cartola chamativa e brilhante, cuja protuberância tornasse impossível desviar o olhar.

A submissão da mulher aos homens pode ser justificada por passagens bíblicas, a dos animais também. Algumas feministas se opõem a objetificação afirmando que “não são um pedaço de carne”. Uma famosa marca de batatas lançou anos atrás duas versões em sabores separadas em “meninos” e “meninas”, para os meninos foi produzido o sabor churrasco, para as meninas o sabor cream cheese.

Alimentos de segunda classe (frutas, legumes, verduras, leguminosas, derivados de leite, como iogurte), são associados a elementos de segunda classe, como a figura feminina e infantil. No topo da cadeia alimentar está o homem branco, viril, comedor de carne. Que atire a primeira pedra o homem vegetariano que nunca teve sua orientação sexual questionada por hábitos alimentares.

Foto manipulada digitalmente pelo site russo Xegal Studio.

Carne também é um símbolo de ascensão social. Quanto maior o poder aquisitivo, mais nobre são as peças para o churrasco e se não é possível introduzir as carnes nobres, que sejam salsichas, línguas, tripas, como for, o importante é não perder a “sustância” das refeições. Frisando que usualmente quem faz as refeições são as mulheres, que podem preparar pequenas porções de nuggets de soja, mas precisam fritar bifes para o companheiro.

Uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear. Foi exatamente isso que Carol Adams fez pela minha militância. Juntou os pontos entre essas duas lutas que estavam conectadas por traços tênues e através de sua inspiração, ganharam contornos mais exatos na certeza de que se não são mais evidentes, é devido a ausência de debate contextualizado na realidade brasileira.

Demoraram mais de vinte anos para sua obra “A Política Sexual da Carne” ser traduzida em nosso idioma. Com isso, espero que os conceitos de rapto, encarceramento, tortura, privação, servidão e execução de animais não-humanos, percam o status de tradição perpétua e sejam expostos pelos seus termos reais, longe do eufemismo dos que buscam a liberdade para si, para os seus, e nada mais.

Veganismo é uma vertente do vegetarianismo, onde além de excluir o consumo de carnes, também são retirados do cardápio outros produtos de origem animal, tais como o mel, leite e ovos. Vegans não usam insumos como lã, couro, camurça e opõem-se ao uso de produtos que tenham sido testados em animais.

Para saber mais:

[+] F.A.Q. Vegan – Parte 1 e F. A. Q. Vegan – Parte 2

[+] Ridicularização 

[+] Documentário “Terráqueos” (Earthlings)

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3 Perguntas para Carol J. Adams** (você pode ler as perguntas e respostas originais em inglês aqui):

Capa do livro “A Política Sexual da Carne”.

1) Segundo o livro “A Política Sexual da Carne”, o consumo de carne é associado à masculinidade, endossado inclusive pela propaganda desses produtos. O material exposto em sua obra questiona os paradigmas da masculinidade, quais são suas expectativas do impacto desta obra no Brasil, onde a virilidade masculina e o consumo de carne são indissociáveis?

Espero que o livro gere consciência e desse modo, capacite as pessoas a desafiarem tanto a dominação masculina como o consumo de carne.

Espero que o livro ajude as feministas a compreenderem que a posição da mulher na sociedade tem de ser desafiada num contexto que reconheça o que está acontecendo com os outros animais. (Muitas vezes, as feministas dizem: “não somos animais! Nós somos como os homens!” Mas eu estou tentando mostrar como isso é perigoso, permitir que “animais” existam como a negação ou o oposto de seres humanos, para em seguida serem identificados com o masculino. Espero que as feministas reconheçam que a instável posição das mulheres num mundo patriarcal sempre vai nos aproximar dos outros animais. Simplesmente dissociar a situação das mulheres dos animais não vai desfazer essa “instabilidade”.)

Comer carne é um símbolo da dominação masculina, isto é verdade nos Estados Unidos. no Brasil e na maioria dos países desenvolvidos. Eu quero que veganos e ativistas que defendem os direitos dos animais compreendam que somente desafiar o consumo de carne, sem reconhecer seu contexto dentro de uma cultura patriarcal, vai significar não apenas um monte de oportunidades perdidas na construção de coalizões, mas também nunca vai eliminar a verdadeira causa da opressão dos animais.

Escrevi “A Política Sexual da Carne” para mudar as mentes das pessoas, depois que elas mudarem suas ideias sobre o consumo de carne e masculinidade, elas mudarão suas vidas, incluindo sua alimentação. Espero que isso aconteça no Brasil, também!

2) Em sua opinião, há muita relutância no Movimento Feminista para levar em consideração a luta pelo direito dos animais não-humanos?

Sim, há. Quando o livro foi publicado, eu soube de feministas que não queriam comprá-lo porque não queriam parar de comer carne. Fiquei espantada com a ideia das pessoas não lerem teoria feminista porque talvez faça o que se espera que ela deve fazer: expandir a consciência e mudar vidas. Então, há resistência porque indivíduos, incluindo feministas, gostam de comer animais mortos. Mas, essa não é a única razão. porque existem diversas razões para as feministas desconfiarem da luta pelos animais não-humanos.

Compreendo que as feministas suspeitem de qualquer um que lhes digam o que fazer. Em nenhuma parte do livro digo explicitamente que as feministas deveriam parar de comer carne. Acredito que meus leitores cheguem a essa conclusão a partir do conhecimento que o livro abre. Mas meu papel não é de ditar regras ou ser autoritária. Eu acho que algumas feministas associam o veganismo com esse tipo de autoritarismo e isso é um outro motivo para a relutância.

Uma terceira razão para a resistência é que o mundo atual traz desafios consideráveis para que as mulheres possam viver suas próprias vidas (dominação masculina, violência contra a mulher, tetos de vidro, legislação anti-aborto, etc). As feministas as vezes pensam: “é sério que você me diz que existe algo diferente sobre o qual devemos nos preocupar? nós já temos o suficiente na nossa agenda de lutas”.

Uma quarta razão foi discutida anteriormente: a impressão de que as feministas querem quebrar a associação entre mulheres e animais para confirmar nosso direito de sermos vistas como totalmente humanas. O problema é que 1) como definimos “totalmente humano” é identificado e definido pelo masculino (por exemplo: o homem de razão na filosofia ocidental); 2) nós estamos reforçando uma hierarquia (humanos/animais) e estamos apenas tentando garantir que somos vistas na parte de cima dessa hierarquia, eu acredito que devemos desafiar a hierarquia.

Uma quinta razão é que as feministas acreditam não ter tempo para cozinhar de modo vegan. Porém, como qualquer coisa nova que nós aprendemos leva um tempo para aprender a cozinhar, mas dietas veganas podem prevenir contra certas doenças ocidentais, associadas ao consumo de carne (cancer do cólon, cancer de mama, colesterol alto) então, também existem ganhos de longo prazo.

Finalmente, o sexismo de algumas campanhas pelos direitos dos animais fazem as feministas suspeitarem com justiça. mas no final o que eu argumento no livro é que as opressões são interconectadas e devemos conhecer as interconexões para sermos efetivas em nossa resistência.

3) As campanhas da ONG PETA frequentemente expõem mulheres semi-nuas para divulgação do vegetarianismo, você considera isso uma forma machista de divulgar a causa?

Sim, penso que a PETA é, provavelmente, a mais conhecida entidade de defesa dos direitos dos animais que cria campanhas sexistas. É como se eles dissessem: “hey, tudo bem olhar para as mulheres como objetos, mas não olhe animais como objetos”. Eles não estão desafiando a objetificação em si, apenas a objetificação de animais não-humanos. Acho que essas campanhas são mal pensadas e também um grande atraso no reconhecimento das interconexões. E porque as opressões são interconectadas, elas (as campanhas) falharão.

Acredito que as campanhas da PETA são perigosas porque elas levam ativistas dos direitos dos animais, que não querem sexualizar seu ativismo, a serem ignorados. Existem muitos ativistas ao redor do mundo que entendem as opressões interconectadas e que são sensiveis ao ativismo feminista e anti-racista, mas o PETA consegue toda a atenção por causa das suas acrobacias e pela sua vontade de exibir os corpos das pessoas.

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*Deborah Sá é vegetariana há quatro anos. Acredita que mulheres não existem para serem submetidas aos homens, que negros não devem ser submissos aos parâmetros de branquitude e que os animais não-humanos, não têm por função servir a humanidade no entretenimento, vestuário, pesquisa científica, ou alimentação.

**Carol J. Adams é ativista, autora também de The Pornography of Meat e Living Among Meat Eaters, inéditos no Brasil.

Leituras complementares:

[+] Então você pensa que é humano? – Uma breve história da humanidade por Felipe Fernández-Armesto.

[+] Jaulas Vazias por Tom Regan.

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56 Comentários para: “A Política Sexual da Carne

  1. Pingback: A Política Sexual da Carne – Brasil « Aquela Deborah

  2. Nunca imaginei que os dois movimentos que faço parte poderiam estar ligados de uma forma tão próxima! Tenho 21 anos, sou vegetariana desde que nasci, e sou feminista há 1 ano (quando comecei acompanhar este blog e “tomei a pílula vermelha” rs).

    Com certeza irei ler esse livro! Muito obrigada! ^_^

  3. Déborah, excelente post! Faz uns anos que quero ler “A Política Sexual da Carne” (e não tenho desculpa nenhuma pra ter lido), que me parece que reflete sobre essa intersecção importante entre as práticas simbólicas e concretas de gênero e alimentação. Faz muito sentido. Claro que o veganismo tem uma base teórica que vai muito além do simples consumo de carne e debate questões ainda mais complexas – o que é uma pessoa? o que é um animal? quais os limites disso? por que isso determina mais ou menos direitos? é ético comer animais? etc – mas penso que esse livro é um excelente começo. Quer dizer, existe uma questão material aí sobre a forma como produzimos tudo, carne inclusive, que é um horror. Mas penso que de fato não é possível se limitar a esse aspecto do consumo de carne, já que o simbólico é tão pesado e significativo.

    De novo, muito bacana o post! Desta vez encaro minha falha de nuna ter lido esse livro e acabei de comprá-lo pra ler no kindle. :) Obrigada pela militância!

    • Obrigada, Marilia ;)

      Ainda não li a versão traduzida, assim que o fizer comento. Mas esse livro na versão original foi muito importante para que eu encarasse o meu Veganismo como uma postura que merece visibilidade, tanto quanto o meu Feminismo.

      E é um tema um tanto complexo porque tem um impacto imediato nas relações sociais, até pode rolar um encontro entre amigos sem que o tema da roda de conversa seja Feminismo, mas não há comemoração com alimento que o tema Veganismo não seja posto. Quando começo a conviver em um ambiente novo (emprego, por exemplo) tenho que “avisar” porque senão me levam chocolate ou outros mimos com boa intenção e eu prefiro explicar antes do que parecer mal-educada… Isso quando não acham que você “deve” abrir uma exceção pro bacalhau de uma tia, o peru de natal…

      Muitas pessoas ficam completamente perdidas em imaginar uma refeição vegana, mas felizmente no Brasil temos uma imensa variedade de temperos, verduras, legumes e grãos. E com o tempo fica evidente que o que nos falta é informação* ;)

      Quando terminar sua leitura terei muito prazer em saber sua opinião.

      Beijos

      * Claro, se a pessoa em questão não vive em situação de miséria, o veganismo só é possível para alguém que tem condições de escolher o que come.

  4. Não gosto de comentar quando não tenho muito a acrescentar, mas, mesmo assim: que texto ótimo. Parabéns! :)

  5. O machismo e o especismo tem exatamente o mesmo fundamento, portanto eu penso que as duas coisas – a luta pelos direitos das mulheres e dos animais – casam perfeitamente por ser uma luta contra um inimigo comum: a idéia de suserano e vassalo, de superiro inferior, digno e indigno.

  6. Lindo post. Muita reflexão. Estou digerindo. Grata, Deborah, pelo conhecimento compartilhado. Abraços!

  7. Nossa! Nunca tinha reparado o quanto os dois assuntos são semelhantes! Muito obrigada por abrir meus olhos!

  8. Eu estava ainda aqui ruminando o post e outra coisa me veio na cabeca: a exploracao das fêmeas!
    Nao é uma “incrível” coincidência que sao as fêmeas as mais exploradas dentro dos rebanhos? As matrizes (sejam vacas, porcas, ovelhas, cadelas) sao estimuladas continuamente por hormônios para entrar no cio e gerar filhotes ou para terem seus óvulos extraídos em grande quantidade. Nao raro esses animais adoecem ou morrem de exaustao devido as gravidezes e partos consecutivos. A vacas que apresentam problemas para parir sao submetidas a procedimentos extremamente violentos e dolorosos. Na maioria dos aviários as galinhas poedeiras sao confinadas sob condicoes extremamente insalubres para produzirem mais ovos.
    Na pesquisa científica, dependendo do tipo de estudo, uma fatia generosa das fêmeas de rato e camundongo sao descartadas (=mortas) pois os machos apresentam menores variacoes hormonais, portanto as chances de a fisiologia alterarem os resultados de uma pesquisa é menor.

    Notaram algumas semelhancas?

    • Fran, me desculpe mas achei a lógica bem extremista. Em relação às práticas de criação bois e frangos também estão sujeitos às injeções hormonais e provavelmente outras práticas ruins. Seria necessário uma pesquisa sobre isso, mas afirmar isso no branco não concordo.
      Sobre fêmeas de rato e camundongo posso falar um pouco mais e acho meio sem lógica sua argumentação. Sim, alguns estudos selecionam machos para estudos iniciais porque (sim, isso não é mentira!!) alguns sinais fisiológicos se alteram muito ao longo do ciclo hormonal do animal. Contudo existem estudos que selecionam exclusivamente fêmeas por ter como objetivo estudar justamente essas variações. Sendo macho ou fêmea, não há outro destino para os animais em pesquisa que não o sacrifício. Eles são criados para esse fim e, como disse abaixo, não sobrevivem fora de um ambiente controlado.
      Em nenhum dos casos citados percebo opressão às fêmeas. Por favor não leve a mal, apenas estou chamando atenção para atitudes extremistas. Pense a respeito. Abraços!

      • Phillipe,

        A questão é que as vacas e galinhas geralmente são exploradas por mais tempo em comparação com os machos, os pintinhos de granja são descartados em um imenso triturador, os bezerros separados de suas mães para passar pela dieta anêmica que produz a carne de vitela. Uma fêmea tem a “data de validade” baseada na produtividade, desde uma cadela que produz filhotes para venda, até uma vaca inseminada no início de sua vida reprodutiva.

        E ao contrário do que muita gente pensa, vaca não produz leite “naturalmente”, ela, assim como as humanas, só produz quando está fecundada. Por isso os criadores “emendam” uma gestação na outra, por isso ficam (obviamente) desgastadas.

        Parar o consumo de carne, em grande parte, é parar de comer carne de animais machos e deixar de consumir laticínios, ovos e derivados é abrir mão do que é produzido pelas fêmeas. Isso não quer dizer que alguém é mais ou menos feminista (ou machista) por consumir carne.

        • Débora, o fato de as fêmeas serem mais exploradas não se deve a sexismo, mais sim a características físicas que as fêmeas possuem que agregam valguns valores utilitaristas que os machos não possuem devido as diferenças inerentes. Nenhum macho produz leite por exemplo. Concordo com o que o Phelipe diz em relação a extremismo. Não há machismo nisso, apenas a lógica capitalista da exploração animal onde a motivação é o lucro. Se os machos produzissem mais lucro, seriam mais explorados. No modo de produção industrial, questões práticas relacionadas a lucratividade é que são consideradas realmente importantes, muito mais que juízo de valor . Não importa se é fêmea ou macho, a menos que isso interfira maneira de transformá-los em dinheiro. existe gente por exemplo que se dedica a criação exclusiva de machos para reprodução, criando um negócio de venda de esperma. São estratégias mercadológicas e não políticas.

          • Hum, as fêmeas são mais exploradas por suas características biológicas… Saquei.
            Alguma semelhança com a desculpa da sociedade referente ao fato das mulheres não terem os mesmos direitos/oportunidades que os homens por características de sua natureza é mera coincidência.

            • Não, não há essa semelhança! Que espécie de contraponto é esse?
              Animais são explorados independente do sexo! Já viu o sacrifício de suínos na roça? Não desejo pra nínguem! Esse tipo de opnuão, e me desculpem mais uma vez, beira o extremismo! Temos que ter bom senso até para defender nossas causas!

      • Phillipe, nao levo a mal nao!!!
        =)

        A Deborah já explicou (muito melhor) o que eu estava tentando dizer. Às vezes nao consigo me expressar maneira correta.
        Sorry!

  9. excelente texto, Dé!!! parabéns pela escrita!! =D

    bjassss

    Tiso

  10. Oi xará, tudo bom? Acho ótimo que esse questionamento volte a estar presente aqui, na lista. Tenho poucos argumentos pra vir debater o texto mais taco a taco, mas queria só ressaltar dois pontos, um apontado por você e outro pela autora.

    Você diz que a carne é símbolo de ascensão social – eu concordo contigo, sem dúvida, mas acho que a tendência é que o rico coma menos carne e consuma alimentos diferenciados, mais frutas, mais legumes, grãos. Lembro de uma época em que eu era BEM dura e convivia com gente igualmente duranga e não me lembro de ter ido a tanto churrasco na vida, porque a carne era sinal de que o pessoal tava podendo, tava gastando. Tofu, moyashi, pão com grãos vários, arroz integral, isso eu dificilmente vejo em prato de gente mais pobre, assim como restaurante vegetariano não é frequentado por gente pobre, e sim por gente de poder aquisitivo maior. Claro, tem as churrascarias FINÉRRIMAS, caras pra caramba, aquela orgia de carne (eu pessoalmente fico incomodada sim com tanta carne, não frequento rodízio. Tenho me esforçado pra comer menos carne por uma série de motivos.), aquela ostentação. Mas acho que a tendência é que a porção de carne (não a qualidade do corte) diminua conforme se chega ao ápice da pirâmide.

    A outra questão que me incomodou é a afirmação da autora de que “as feministas acreditam não ter tempo para cozinhar de modo vegan.” Me incomodou, achei meio solta, sabe? De onde sai essa afirmação?

    Bom era isso. Bom te ver aqui de novo!

    Beijos!

    • Olá :)

      Tudo bem, e com você?
      Nem todo vegan come apenas arroz integral, semente de chia e alho negro (nunca comi, mas ouvi falar na TV), o que falta em muitos casos é a informação para se alimentar de maneira diferente. Aqui em SP perto do caixa do supermercado, nas bancas, em toda parte , há revistas com ingredientes milagrosos: Chá de sete ervas, ração humana, farinha de beringela… No período da tarde há muitos programas de culinária com pratos variados, na feira livre há a barraca de temperos onde um dos mais populares é “Ana Maria Braga”, enfim, faz tempo que a população é educada como e do que se alimentar. E alimentos novos surgem como aliados da “saúde”.

      A parcela mais afetada são as mulheres, que acham “exótica e estranha” a dieta vegana, mas não se dão conta do ritual diário (que mais parece religioso/penitente) de contar calorias, chamar doces de tentação e pecado, gastar com laxantes, diuréticos e remédios controlados para se adequar nos padrões inatingíveis de estética. A diferença é que as mulheres tem os olhos “treinados” para ler a primeira linha da tabela nutricional dos alimentos: As calorias.

      E não importa o quão laica é a educação de uma mulher, ela será afetada por dietas e sugestões de regime. É claro que não defendo que a alimentação serve exclusivamente para nutrição (na realidade, acho que pouquíssimas pessoas veem os alimentos assim), ela também serve para o prazer, o simples deleite. E a alimentação vegana tem muito a ver com isso, com o prazer que se ganha ao comer (isso mesmo, ser vegan não emagrece), pois com o tempo seu paladar muda e coisas que rejeitava comer parecem bem apetitosas.

      Além disso, você aprende a “decompor” os alimentos, por exemplo, quando eu vejo um salgadinho de cebola, sei que muito provavelmente ele terá soro de leite. Quando vejo um sorvete cremoso, idem. Coisa que se você come “sem pensar muito no assunto” nem percebe. Ou seja, a maioria das pessoas vê o que come como um conjunto, um bloco de aglutinação aleatória, como se os alimentos não passassem pelo processo de fermentação, cozimento, espera. A tendência é cada vez mais aumentar o consumo de congelados, cada indivíduo comendo em um canto da casa, sem muita interação.

      É muito prazeroso se reunir com os amigos na casa de alguém e cozinhar em conjunto, comer, conversar até altas horas. Também é muito gostoso cozinhar com quem se ama, desde a escolha dos ingredientes até a apresentação final. Comer é um ritual social, mas não por isso tem de ser refinado e exclusivo de uma classe média que não sabe diferenciar um alho poró de um maço de manjericão. Na realidade, eu tenho certeza que as classes sociais mais baixas tem maior probabilidade em pilotar bem o fogão do que muita acadêmica que tem empregada e não sabe fazer nada além de brigadeiro e miojo.

      O consumo de carne não diminuí conforme se sobre na pirâmide de ascensão social, ele só se torna mais “sustentável” com carne de boi verde/feliz/orgânico, por isso sustentabilidade e bem-estarismo são correlatos:
      http://aqueladeborah.wordpress.com/2011/07/04/sustentabilidade-e-bem-estarismo/

      Quanto a declaração da Carol, acho que essa frase amarra como resto da declaração dela: Feministas já tem “agenda cheia” e julgam de antemão que comida vegan demora mais para ser feita por ser mais elaborada, então aí fica uma relutância. O que nas entrelinhas, pra mim é bem sintomático de que muitas feministas atarefadas, podem fazer uso de empregadas domésticas. Mas isso é outra discussão :P

      Beijos,

  11. Esse post deu uma vontade louca de ler o livro. Já havia ouvido de relance sobre a ligação entre sexismo e especismo, mas acho que esse livro pode me ajudar a clarear as ideias. Parabéns às autoras (do livro e do post).

    • Esse post deu uma vontade louca de comer churrasco… rsrsrs

      Bem, sobre comer carne, essa é uma prática que sempre existiu, evoluímos e nosso corpo é adaptado para o consumo de carne.

      Substituir os nutrientes da carne por outros alimentos, até pode ser possível, mas é muito difícil e oneroso.

      O foco da questão é a dignidade do animal abatido para o consumo humano, que deve ser sempre respeitada. Concordo que as práticas de criação comercial estão longe disso e devem ser mudadas. Entretanto, condenar o consumo de carne, e quem a consome, também já é um exagero.

      Talvez o livro fundamente melhor a questão, mas apenas pela postagem e pela entrevista, não consegui alcançar, nem de longe, a ligação entre consumo de carne e machismo ou opressão às mulheres.

      Beijo a todas!

  12. Salve Deborah, você sempre me ensinando tantas coisas, mesmo à distância. Obrigada pelo texto, caiu como uma luva para mim. Eu que ***ainda*** encarava meu veganismo como coisa menor, uma mera escolha pessoal.

    Obrigada pelo texto. Um grande beijo!

    • Olá, Charô :)

      E pensar que nos encontramos a primeira vez ao acaso, em um restaurante vegetariano, né?

      Beijos!

  13. acheio interessante pensar sobre o assunto, mas, lá vem o mas…

    1- pessoalmente, me incomodo sim vom veganismo e vegetarianismo impostos, ou com qualquer diata, inclusive aquela famosa da carne, porque ficou na minha cabeça que comer bem é comer de tudo- equilibaradamente- embora eu coma desequilibradamente doces e massas. gosto de carne, não sou fanática por ela, mas não consigo me imaginar sem leite de manhã, por exemplo.
    boa parte do meu incômodo com o texto é sim pessoal;

    2- aos pontos apontados pela Deh, com os quais concordo, acrescentaria que discordo dessa e

  14. ops- aperte o send sem terminar ..

    2- as duas causas para mim tem origens totalmente distintas – o feminismo tem origem na opressão histórica da mulher pelo homem e a luta das mulheres para se liberarraem desa opressão. o veganismo é uma escolha de uma dieta alimentar que mais apraz, por diverssas razões, a escolha de algumas pessoas, homens e mulheres- cis ou nao. se esta é uma minoria que se sente diferenciada, isto não é fruto de opressão milenar e histórica, é fruto de uma escolha, não a uma condição de gênero. essa foi a outra questão que me incomodou no texto, para mim são duas lutas completamente distintas, ambas válidas, mas distintas. o fato de animal ser explorado não o equipara a mulher, para mim seres humanos e animais são bem distintos. embora animais merecem respeito e dignidade.

    abs.

    • Bete,

      1 – Realmente acho que o Veganismo não deve ser uma imposição, por diversos motivos, mas vou tentar apontar com alguns deles:

      a) Entendo a conjuntura atual que vivo, aos olhos de muitos discutir direito animal parece tão descabido quanto defender o direito das pedras. Por isso que citei o F.A.Q Vegan, para quem é leigo no assunto e deseja compreender mais sobre o assunto, que como a Marília bem mencionou acima, o Veganismo esbarra em outras questões mais profundas sobre o que é “ser humano”, os métodos de produção dentro do capitalismo, a verdadeira utilidade dos animais*…

      b) Meu papel enquanto ativista autônoma (e meu feminismo também está incluso nessa) é difundir informação, gerar debate e não com o intuito de levar “a luz” aos “não iluminados”, mas de questionar e reinventar meu próprio ativismo aprendendo com os outros, pois não me considero irreparável e perfeita (na verdade, esses conceitos são altamente questionáveis).

      c) Ser feminista, vegana, queer, atéia, comunista ou fazer uso de qualquer uma dessas características para “posar de fodão” é uma besteira sem tamanho, pois gente escrota há em toda parte e ser uma dessas coisas, ou todas juntas não é uma espécie de batismo onde lavam-se os pecados, ou símbolos de retidão e pureza (mais uma vez, conceitos altamente questionáveis). O que me faz ser vegana é reconhecer meu privilégio enquanto espécie, da mesma forma que sou pró-revindicações do movimento negro, mesmo sendo branca. É um princípio empático.

      2 – Eu não acho que Vegans são oprimidos, oprimidos são os animais. Certa vez andando pelo bairro do meu pai eu vi um bode preso em um fio em um local escuro, me deu uma agonia tremenda pois acho que iriam assá-lo mais tarde (havia som de pessoas e música de dentro do mato). E eu não pude fazer nada. Quando passo em frente a um açougue ou uma granja e ouço uma galinha gritando ao morrer, ou vejo aquele cenário deprimente de uvas de plástico ou alfaces dispostos sobre as carnes para evocar alguma leveza, meu estômago embrulha. E eu não posso fazer nada. Não é com a minha reputação perante os humanos que me preocupo, é com aqueles que eu vejo sofrer em baixo do meu nariz e não posso intervir.
      E essa é apenas uma das diferenças brutais entre o feminismo e o veganismo. Nós feministas, enquanto humanas, podemos e devemos nos organizar, me preocupo porém, também com as vacas que não organizam sindicatos. E acho positiva a tentativa de abarcar além das lutas que nos atingem diretamente.

      E a opressão aos não-humanos é uma opressão milenar e histórica, tanto é que a história deles só pode ser contada através “dos serviços prestados” a humanidade. O que é uma vaca em habitat próprio sem ser pra propósitos humanos? O que são os cavalos nas batalhas, no quadro as margens do Ipiranga? As penas de ave no cocar de um índio? Os hot-dogs, nuggets e milkshakes tão bem adaptados a nossa cultura?

      Toda opressão e preconceito proferido por humanos é um dado cultural difícil de quebrar, o especismo é um deles. Nada se resolve da noite pro dia, a história se constrói e os paradigmas se modificam além da nossa capacidade de prevê-los. A abertura aos debates de direito animal me parecem muito mais possíveis hoje, do que a vinte anos atrás.

      * Me lembra aquele conto de 1979 do Carlos Drummond de Andrade, Da utilidade dos animais.

      • acho válido fazer pensar, Deborah, e obrigada pela resposta. não gosto de ver animais sofrerem, aliás, acho que ninguém com uma mente minimamente sã ( não achei outro termo) gosta por prazer. Acho válido que se lute para que animais não sejam maltratados, mas para mim animais e humanos não são iguais. Bjs.

  15. Então, sou vegetariano há uns três anos (não vegano) e, apesar de já ter afinidade com boa parte das idéias, feminista há menos de um. Concordo com alguns dos pontos levantados por você Déborah (parabéns!). Não tinha ligado o consumo de carne diretamente com esse apelo sexual masculino, faz bastante sentido, muito interessante. Sobre questionar masculinidade respondo que nunca fui explicitamente atacado pelo fato de não comer carne (apenas aquela coisda básica do chato q n come em lugar algum).
    Eu acho que existem muitas razões para ser vegetariano e algumas questões dividem opnião mesmo dentro de quem pratica os hábitos. Eu trabalho diretamente com a pesquisa em ciências biolóigicas. Sou cientista e trabalho em bioquímica. Apesar dos exemplos históricos que temos não serem muito legais existe um grande esforço dos comitês de ética em reduzir e eliminar maus tratos a animais. Atualmente, trabalho com leveduras mas já tive que trabalhar com neurônios do cerebelo de ratos. Por conta de meus preceitos espirituais, foi muito difícil realizar os primeiros sacrifícios (sim, tratamos como um sacrifício). Depois, entendi que tinha que fazê-lo e sem hesitação, até para evitar qualquer sofrimento do animal. A pesquisa básica só avança no Mundo graças ao sacrifício de muitos animais sim, mas devemos parar a pesquisa? Os animais de laboratório tem um background genético diferente e, por isso e por serem criados isoladamente, não sobrevivem no ambiente selvagem (não tem imunidade, resistência, várias questões). Todo remédio farmacêutico padrão (deve existir um termo específico pra isso) foram, em algum ponto, testados em animais. Alguém vai deixar de tomá-los por isso?
    Mesmo que o Mundo decida hoje parar com qualquer tipo de pesquisa que envolva animais (aliás, até a separação entre animal e não animal pode ser problemática), coisa que não ocorrerá, já devemos muitas de nossas comodidades e aumento de expectativa de vida a eles. Percebe que há um dano irreparável, se levarmos ao extremo? Minha opnião pessoal é que não podemos alterar o destino dos seres (se eu recusasse sacrificar os ratos no laboratório, outro pesquisador o faria). Acho sim que devemos ao menos diminuir o consumo de carne (boa parte do que plantamos vai para a criação de gado, porco…). Acho que devemos sim lutar por mais respeito e dignidade aos animais. Contudo, acho que existe uma linha tênue até o extremismo que devemos ter cuidado.
    Veja bem que não tenho nada contra quem é vegano e até já ponderei ser (é que dificulta bem mais, há pouquíssima opção). Da mesma maneira não tenho nada contra quem é carnívoro. Para mim são todas opções válidas. Defendo vegetarianismo mas não acho que nada deva ser imposto e o problema em radicalizar (sem ofensa) é que isso interfere diretamente com a vida das pessoas. Desculpe o longo comentário. Abraços.

    • Phillipe,

      Não creio que seja possível viver no atual mundo capitalista sem exploração e dano, seja a nossa espécie, ou a outra. Mas vamos para a questão dos testes:

      Não seria justo fazer o mesmo com moradores em situação de rua, presidiários, ou humanos marginalizados. Se a cura do HIV fosse descoberta por meio a holocaustos de alguns desses grupos, seria questionável, mas duvido que destruiriam a pesquisa para começar do zero. Sim, muito das pesquisas foram ás custas de sangue de animais não-humanos, mas a tentativa agora é erradicar essa prática, a Universidade Anhembi Morumbi* já adotou o uso de um robô para testes nas aulas de medicina. Muito provavelmente a colonização e o “progresso” de muitos povos foi realizado com avanço de território, evangelização, morte e estupro. Mas felizmente os conceitos mudam.

      Meu sabonete, shampoo, desodorante e creme dental não foram testados. Não dá pra viver em totalidade, se um parente meu dependesse de um remédio usado em animais para salvar a vida, é claro que eu daria. Mas acho isso certo? Não. E faço todo o possível para evitar esse consumo (até a camisinha que uso não é testada).

      * http://vista-se.com.br/redesocial/sp-sem-animais-na-aula-anhembi-morumbi-adquiri-robo-de-ultima-geracao-para-testes-em-aulas-de-medicina/

      • Sem querer invalidar o seu argumento o uso de robos em aula pode ser facilmente justificado pelo menor custo. Muitas universidades particulares tem dificuldade em manter laboratórios de anatomia. Nas públicas, existem cadáveres muito velhos. Até para os cursos de medicina, onde a prática da dissecação é fundamental para o aprendizado, há muita dificuldade em conseguir cadáveres para as aulas, justamente por questões éticas.
        Agora isso não é uma tentativa de erradicar o uso de animais na pesquisa. Erradicar é muito radical. Sempre haverá essa prática. Graças a esses animais quem sofre de diabetes pode viver melhor com a insulina (já usamos a produzida de bois, hoje produzimos em bactérias).

        Ainda assim, não adressou meu principal questinamento: vale ser contra o desenvolvimento científico? Fazer o possível para evitar o consumo é uma coisa diferente de defender amplamente essa prática e se colocar contra isso no Mundo. Eu n consumo carne, mas respeito amplamente o direito das pessoas continuarema praticar esse hábito. Ser carnívoro não é um aprendizado cultural. Como fica isso, vou repreender toda a classe científica por desenvolver seu trabalho para o resto da humanidade? Precisamos pensar no extremismo de quando em vez. Senão daqui uns anos, em uma sociedade hipotética onde humanos passaram a ser totalmente veganos, vamos questionar os hábitos alimentares do leão, da cobra e de outros carnívoros por aí. Será que a leoa, instantes antes de avançar pra cima da presa pensa nele como inferior? São apenas questões a se pensar. Eu tomo n decisões sobre mim, mas tenho q parar quando quero estender minha prática a outros!! Minha liberdade termina onde começa a do outro.
        Por hora é só. Pense nessa questão com cuidado. Abraços!

        • Muitos dos testes em animais são desnecessários. E usam de uma crueldade extrema. É isso que é questionado. Se é possível desenvolver o conhecimento científico sem apelar para isso, por que não o fazemos? Porque é mais barato? Porque é mais fácil?

          Questionar os leões e as cobras na selva… Com certeza.
          Me lembra aqueles debates sobre descriminalização da interrupção da gravidez. “Daqui a pouco, estaremos legalizando o direito dos pais matarem bebês e crianças! Pensem nisso!”.
          Tá legal. Pensado.

          • Justamente o oposto Srta Aghata. Os testes em animais são absolutamente necessários. Sem eles não conseguiriamos desenvolver nada em ciência. Agora que método vc está considerando de uma crueldade extrema??? Jogado assim ao vento eu não sei do que se trata. Eu desconheço. Nunca presenciei um procedimento eutanásico extramente cruel. Como disse, os centros de pesquisa tem comitês de ética que discutem os procedimentos amplamente.
            Não é simplesmente por ser barato. Aliás nem é por isso. Os estudos científicos na área da biologia e saúde não são simples! Desse modo, para estudar uma doença, uma característica fisiológica, um tratamento, sempre se começa com modelos menos complexos. Por razão de complexidade e por razão ética. O estudo com primatas, por exemplo, só é realizado quando já existem fortes evidências de eficiência do tratamento. Sempre a prioridade é para animais menores…
            Agora, o que falei sobre hábitos de leões não tem nada, NADA, haver com questão do aborto. Até porque, na questão do aborto sempre argumentamos que não devemos esticar nossos preceitos morais para outros indivíduos, que quem assim decide deve o fazer ou não!
            Recomendo que você argumente com maior cordialidade, afinal, não nos conhecemos, e n entendo o elevado tom de ironia da resposta. Estou apresentando minha opnião sem deboches, pedindo a reflexão d@s leitor@s para o caso. Pesquisas científicas em animais são e continuaram sendo necessárias para trazer melhor qualidade de vida para todos. Quer voltar a Idade das Trevas?
            Abraços

  16. Post perfeito! Eu li o livro em inglês, por sugestão da Deborah e posso dizer que mudou muito a maneira como encaro o consumo de carne. Achei genial, principalmente a forma brilhante com que ela se refere ao absent referent. E como as crianças questionam esse referente ausente com a clássica pergunta: de onde vem essa carne? E todas as historinhas que são criadas para tentar mascarar o fato de que aquela carne que jaz em nosso prato é um animal morto. A própria mudança do nome dos cortes para que haja esse distanciamento simbólico. Aliás, eu até tenho curiosidade de saber como ficou a tradução disso, já que no inglês realmente eles mudam o vocabulário, como pig x pork, mutton x sheep e por aí vai. Em português a gente praticamente não faz isso, mas continua a tratar os animais com certo distanciamento. Eu me lembro que fui a um churrasco uma vez em que a atração era um tal de boi no rolete. Aquilo me causou horror. E o incômodo não era só meu. Eu, que à época ainda nem era vegetariana nem nada, fiquei estarrecida de ver um boi inteirinho sendo assado. E lembro da Carol tratando disso no livro. De como é mais fácil ver um animal em partes em cima de um prato, pois isso gera ausência de referente direto. Não se liga o pedaço de bife a uma vaca morta, ou uma inofensiva asinha à morte de um frango. E essa simbologia é poderosa e continua a mover uma indústria que é, pra dizer o mínimo, monstruosa.

    E como a Deh disse acima, eu acho que o veganismo é sim um estilo de vida mais caro. Entretanto, há que se lembrar que a tradição que vincula carne à fartura é forte demais para ser quebrada do dia pra noite. O pobre, que antes não tinha carne no prato, sonhava com isso. Hoje em dia pode ser que esta nem seja a realidade, pois carne virou um produto extremamente acessível, mas o mito sobrevive, pois a tradição foi firmada. E não seria justamente isso que ocorre com toda tradição, inclusive a machista?

    Eu ainda não sou vegana, acho que ainda me falta um longo caminho para isso. No entanto, o livro da Carol me fez perceber, de vez, que carne realmente não é a minha praia. Acho, sinceramente, que a leitura desse livro é fundamental.

  17. A relação machismo e alimentação por carne é apenas circunstancial. Em civilizaçoes vegetarianas o machismo ainda era presente. A natureza humana ou de qualquer outro ser vivo é alterada por sua dieta. A organização social, a luta pelo poder e sobrevivência não é alterada pela sua dieta.

    • Esperaí, é bem óbvio que existem várias e diversas sociedades patriarcais, bem diferentes entre si. O consumo de carne também varia de região para região. Carol J Adams deixa claro que fala de sociedades patriarcais ocidentais, tais como EUA, Reino Unido, Brasil…

      Isso não é uma ciência exata: onde há misoginia, há consumo de carne e ambas estão obrigatoriamente relacionadas. Não é assim. Adams viu relação na nossa sociedade. E na nossa sociedade ela é bem óbvia.

      Agora, por exemplo, apesar de ser patriarcal, o consumo de carne no Japão não tem o mesmo significado que aqui. A relação entre mulheres e o consumo de carne lá também tem uma simbologia diferente.

  18. Outro ponto que deve ser considerado que o marco inicial da devastação do planeta foi quando o homem dominou a agricultura e se fixou à terra. Fossemos apenas carnívoros apenas não haveríamos chegado a este grau de desequilíbrio no qual nos encontramos.

    • Leandro,

      Se a pauta da luta de classes avançar não significa que o machismo será exterminado, da mesma forma o direito animal e o feminismo encontram-se em algumas circunstâncias, para distanciarem-se nas especificidades.

    • @Leandro Santis

      Sério que você quer utilizar esse argumento?

      Então acho que você deveria SÓ comer carne a partir de agora para ajudar a salvar o planeta. Não coma mais pão, salada, massas e não tempere a carne com alho, cebola ou sei lá mais o quê.

      Carne com sal para salvar o planeta!!!

      • Todas as criaturas tem seu ciclo, seu início e fim. Todas as criaturas cedo ou tarde são devoradas por outras. Até o mesmo o envelhecimento (inevitável) resulta em vulnerabilidade do organismo que facilita o ataque por outras criaturas. Entre os seres aquáticos são predominantemente carnívoros. A questão de ser vegetariano ou carnívoro é meramente de ordem de recursos. Até mesmo a classificação entre vegetais é uma pura arbitrariedade humana. Os seres natureza não vêm com um rótulo de animal ou vegetal, ou eu posso ser comido, ou eu não posso ser comido.

        Acredito que todos tem o seu ciclo, e viverá seu ciclo de forma digna, e a não ser que o seres vivos se atirem dentro de vulcões, cada um terá seu momento de ser devorados por outro.

        Gostaria de pedir a Deus meu direito, mas infelizmente Ele colocou as bactérias na minha cadeia alimentar.

        • Isso Leandro! E vc ficaria abismado de saber (se é que n sabe) que temos mais células bacterianas do que eucarióticas humanas no nosso corpo (em uma relação de 10 para 1!!!!!). Concordo absolutamente, a própria classificação entre animal e vegetal é artificial, cada ser tem um destino e da mesma forma que acredito que deva-se diminuir a violência contra os animais (mesmo os humanos – sarcasm), contudo acredito que há um limite até onde intervir pois há um equilíbrio biológico delicado que deve ser respeitado. Como disse, a decisão sobre ser ou não vegetariano deve ser pessoal e ela é multifatorial. Não se deve impor dogmas religiosos sobre uma prática pessoal (minha opnião). Acho válido pensar nas relações entre o machismo e a sociedade do consumo (a questão do consumo heteronormativo de carne e álcool) mas devemos ter cuidado para diferenciar uma construção social de outra natural (sim, nós não somos seres bonitinhos que não fazem mal aos outros animaizinhos – nossa réles existência é acoplada à decomposição de outros seres, vegetais ou animais, igualmente vivos, igualmente dotados de direitos). Depois que a pesquisa com animais (os peludinhos) for erradicada, qual vai ser o próximo passo? A com fungos? Plantas? Bactérias? Vírus? O carnivorismo dos grandes felinos? Q pena, eu estava esperando o dia em que encontrariamos a fórmula da fotossíntese, não seria mais necessário a tarefa árdua de comer!
          Sou limitado, sou humano, tenho defeitos, tenho virtudes, a adoção de práticas que nos fazem bem não deve ser desculpa para nos esquecermos desse pequeno detalhe.
          Para voltar ao tópico levantado, o que o Leandro fala primeiro não está incorreto. Um evento essencial para a fixação do homem há um território e o aumento populacional, desequilíbrio(s) ambiental(ais), foi o desenvolvimento da agricultura. Não vejo motivo para a reação apresentada. Ele não quis dizer que devemos ser carnívoros, só defendeu o ponto de que foi pela agricultura que o desenvolvimento das civilizações foi permitido.
          Um abraço a todos e desculpem qualquer tom ingrato no discurso, a hora é ingrata!

          • Phillipe,

            “Não se deve impor dogmas religiosos sobre uma prática pessoal (minha opnião)”

            Sei que existem pessoas que são vegetarianas por motivos religiosos, mas no meu caso, sou atéia. O que me fez tornar vegana foi uma experiência pessoal de ter um cão morto em meus braços (ele foi envenenado):

            http://aqueladeborah.wordpress.com/2011/01/20/ganidos/

            Somando a isso, a empatia que desenvolvi ao longo da minha trajetória.
            Ademais, não quero “impor” meu modo de vida a ninguém e minhas motivações estão bem longe do viés espiritualizado.

            Não disse em nenhum momento que somos seres “bonitinhos” e inócuos por “natureza”. Se tem uma coisa que somos capazes é de ser ardilosos, vingativos e sádicos. Certamente podemos ter atos de abnegação e compaixão, mas não encaro a raça humana como demônios ou anjos.

            Além disso, ser Vegan não faz ninguém alcançar ou nirvana ou ter visão de raio-x.

            • Então Deborah, n sei se ficou claro que eu não estava falando de religião formal. E não estou afirmando que você ou qualquer outro querem impor seu modo de vida. É que, dependendo de onde pisamos, interferimos na vida dos outros sim. Se, por exemplo e foi o que ainda n tive resposta clara sua, levanto a bandeira do contra a pesquisa com animais, interfiro na vida de todo Mundo! Entende o ponto? É por isso que concordo com você que temos que entender a exploração e combater os abusos. E a questão do “bonzinho” é só pra situar, não acredito em seres seccionados que sejam o extremo da bondade ou maldade. No entanto, o ato de se alimentar não cabe juízo de valor, todo ser vivo precisa e evoluiu para ser capaz de viver um tempo x às custas e outros seres. Tudo bem tem os autotróficos, mas mesmo uma planta precisa de um solo fértil cheio de material em decomposição para sobreviver (é um delicado equilíbrio). Ou seja, se alimentar é natural, ser carnívoro é natural, ser vegano é natural mas é uma opção individual.

              Espero que tenha me expressado melhor; se possível ainda gostaria de ouvir sua opnião sobre o desenvolvimento científico.
              abraços!

              • Phillipe,

                Não compreendo o veganismo como uma imposição, da mesma forma que não entendo o ateísmo como uma. Nasci em uma família religiosa e com pai pastor de igreja, meus primeiros passos foram literalmente dentro da Congregação Cristã no Brasil, só saí de lá quando estava com dezesseis anos. Embora tenha aprendido desde muito nova que as pessoas tinham muitas formas de exercer sua fé, o primeiro ateu que conheci foi aos dezenove. A maioria dos pais replica sua religião aos filhos sem explicar o motivo (além de perpetuar a tradição), não é de má-fé, mas outros conceitos também são passados assim, como o sexismo quando impedem um menino de chorar e falar de seus sentimentos. Nossa alimentação vem muito antes disso, comi carne na papinha antes de ter dentes.

                Biologicamente, a espécie humana é onívora. Mas a “naturalidade” de uma dieta ou outra é bem subjetiva, já que carrega forte teor histórico e cultural, no livro “Comida uma História” (que recomendo), é incluído um capítulo especial para o canibalismo, fato presente nas mais diversas culturas de épocas e povos.

                Há uma frase comum para o Abolicionismo Animal que é “não queremos jaulas maiores, queremos jaulas vazias”, ou seja, ao fim, queremos que os animais não sejam usados, trancados em jaulas, gaiolas, aquários… Parece utópico e de impacto considerável, e é. Mas a abolição da escravatura no Brasil também parecia impossível. Mesmo com o avanço considerável de políticas públicas afirmativas e democráticas no Brasil, o racismo está presente, o trabalho escravo e exploração também, mas não é por isso que devemos abaixar a cabeça. A minha luta é pela liberdade irrestrita para todas as espécies, não quero transformar um leão na savana em vegetariano, a minha “cobrança” é com a própria espécie, é o modo que humanos interferem na vida de terceiros, de ter a vida de um bode, um atum, uma vaca como propriedade. As mulheres não devem viver porque são “úteis” aos homens, os negros não devem viver porque são “úteis” aos brancos e essa mesma regra vale para os não-humanos.

                Sobre o desenvolvimento científico, acredito que a tecnologia deve ser projetada para nossa serventia, qualidade de vida e conforto, uma aliada importantíssima para a eliminação do uso de animais em testes. A minha motivação é ética, empática, não gostaria que usassem presidiários, pacientes psiquiátricos ou com retardo mental em pesquisas, porque é “injusto”, “covarde” ou como muitos gostam de dizer “desumano”. Do ponto de vista moral, é exploração, cárcere. Não é porque muda a espécie que esses atos perdem seu impacto agressivo, ofensivo, cruel.

                Já viu o vídeo dos macacos que viveram 30 anos servindo a pesquisas e viram a luz do sol pela primeira vez?

                http://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/macacos-de-laboratorio-veem-luz-do-sol-depois-de-30-anos-2600345.html

              • Ah, tá legal. Não cabe juízo de valor ao se alimentar. Ok.

                Bom, comer insetos também é natural. Faz parte da nossa dieta e são super nutritivos. E, minha amiga que comeu escorpiões, disse que são gostosos também. Nós evoluímos pra isso!
                Todos os primatas comem insetos – mas somos os únicos ‘macacos’ que comem vaca e, às vezes, até jacarés! [E, bem, de acordo com a sagrada cadeia alimentar - amém! - nós é que fazemos parte da dieta alimentar deles... Vai entender.]

                PS: Nós Não somos carnívoros, somos onívoros. São coisas beeem distintas.

        • Aquele estranho momento em que alguém vem falar de cadeia alimentar numa discussão que é, pra dizer o mínimo, muito maior que isso.

        • Leandro,

          Tudo que é vivo, morre.
          Mas temos regras e morais sociais que nos diferem, embora o incesto seja um dado cultural em comunidades humanas, é considerado “errado” em grande parte delas. Mas é perfeitamente aceitável entre cães, que praticam-o na luz do dia.

  19. Débora, como vai?
    Certa vez, li um livro de Maria Soave e também reflexões de Leonardo Boff onde eles abordavam que a opressão e o domínio sobre a mulher surge quando o homem sai da vida nômade e da coleta de alimentos que era partilhada entre todos na comunidade para se estabelecer em um lugar onde pra sobreviver praticava a agricultura(dominando os animais). Nessas leituras não dei muita atenção, mas lendo teu texto lembrei na hora dessas leituras e ressignificou pra mim.Sou feminista e também vegetariana há dois anos, mas nunca estabeleci relações entre essas duas lutas. Quando se é militante, se tem essa ideia de agenda de lutas dentro de cada espaço e muitas vezes não se comungam ou se intrelaçam as lutas.
    Já dei um jeito de conseguir esse livro que indicou pela net. Estou ansiosa por recebê-lo.

    Abraços Déborah.

    • Olá, Ane,
      Vou muito bem, e você?

      Para ser sincera, levo meu Veganismo com o foco no presente, não penso muito em meus ancestrais, não estou negando a historicidade da humanidade, mas quando decido escolher mandioca e quiabo para acompanhar meu feijão com arroz (ao invés de um ovo frito, ou uma bisteca), o faço pensando na minha diretriz pessoal de ética e empatia.

      Faz parte do meu processo individual de reconhecer privilégios enquanto espécie e fazer algo a respeito.

      Depois diga o que achou do livro ;)

      Um abraço,

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  22. É um sintoma de se estar politicamente arraigado em um conceito, o fato de achar que tudo é extremista, só por que nos ataca com certas verdades que não queremos ver.
    Os animais não precisam viver por nossa conta. Não somos deuses.
    Vivissecção é uma das formas mais crueis de exploração, e além de sexista, é orientada para certos segmentos, não visa a cura de certas doenças, apenas as mais cotadas e que rendem grana. Testes são feitos até para sabonete e cera para carros.
    Nos grupos feministas que participei percebi cegueira em relação aos animais, ao sexismo relacionado à exploração de femeas de outras espécies e até mesmo um ranço de esquerda, que no fim das contas também se comporta como submissão a uma ideologia também machista.
    Por mais que tenhamos problemas demais em relação às políticas para mulheres, encarar os direitos animais como algo que não devemos perder tempo é fechar mesmo os horizontes para algo que acrescenta e muito na saúde, comportamento e liberdade da mulher.
    Ótimo artigo! Feminista não deveria consumir laticínios, já aponta Gary Francione, incomodando muito a quem ainda precisa dar satisfação para o homem ao lado, mesmo que este homem esteja dentro de si.