Aborto, um relato

Toda semana recebemos emails de mulheres desesperadas que nos procuram pedindo ajuda para realizar um aborto. Infelizmente, nada podemos fazer. Por ser crime, não temos como indicar locais e nem procedimentos seguros. Porque qualquer procedimento abortivo, que não esteja previsto em lei, é clandestino e mulheres ainda são presas por isso, podemos inclusive ser acusadas de cumplicidade.

O sentimento de estar grávida sem desejar, sem querer ver o feto se formar é devastador. Por isso, publicamos hoje o relato de H., mulher de 35 anos que conseguiu realizar um aborto clandestino. Por razões óbvias não podemos identificá-la, mas seu desabafo é também o desejo de que outras pessoas não tenham que passar pelo pesadelo de uma gravidez indesejada.

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Texto de H.

O senso comum diz, entre outras coisas, que o sonho de toda mulher é ser mãe, que só nos tornamos completas quando temos filhos, que o relógio biológico sempre fala mais alto. Será? Minha reação ao ver o médico me mostrando o feto na tela durante uma ecografia e ao ouvir o coração dele batendo foi: “puta que pariu, isso não é possível!”. O médico me dando parabéns e eu sentindo como se estivesse recebendo pêsames.

O senso comum também diz, entre outras coisas, que quem engravida é porque quis, porque não tomou cuidado. Mesmo? Perdi a virgindade há 20 anos, já transei com mais de 60 homens, nunca peguei nenhuma DST e, até agora, nunca havia engravidado. Será que sou uma sortuda ou alguém que sempre se cuidou e se preservou? Acho que ter sempre preservativos na bolsa, mesmo fazendo uso de anticoncepcionais, não pode ser classificado como descuido. Ou pode?

Porém, um dia você descobre 3 miomas no útero e precisa retirar o DIU. Um dia, em uma transa, a camisinha estoura e você, por precaução, apela para a pílula do dia seguinte. Um mês depois, você recebe a notícia de que está grávida. O sonho de toda mulher, principalmente daquelas que teriam, como você, maior dificuldade para engravidar. Para mim, o início de um pesadelo, o início do desespero.

Nunca sabemos como reagiremos a uma situação até que estejamos nela. Sempre fui a favor do direito de escolha, mas até este mês eu não sabia como seria minha reação. E, se antes eu já achava nossa legislação injusta com as mulheres, hoje a classifico como bovina! Que legislação é essa que me proíbe de fazer o que eu julgar melhor para mim e que me leva a situações de risco? Quantas mulheres por aí se dão mal por causa de nossa legislação estúpida?

Eu, no desespero e sem encontrar uma clínica, comprei remédios abortivos pela internet. Não funcionaram. Sentimento de maternidade é isso. É o não pertencimento. É não querer um corpo estranho dentro de si. É ficar triste porque o sangramento não era nada e a ida à emergência do hospital resultou apenas em saber que aquele corpo estranho está vivo e bem. É perguntar-se: “Por que esse negócio não morre logo?!” Gastei R$ 738 em comprimidos, para ouvir “parabéns” de um médico durante uma ecografia e ter a sensação de estar em um enterro. Não estou bem financeiramente, não podia ter gasto esse dinheiro, saí do consultório chorando muito, mais desesperada ainda. Alguns dias depois, consegui comprar Cytotec – dessa vez verdadeiro.

Gastei R$ 500 com 4 comprimidos que me deram a pior experiência, em termos de dor, que já tive na vida. Não recomendo a ninguém que não esteja, como eu estava, desesperada. A pior cólica que eu já havia tido até então não se compara: passei um dia inteiro sentindo tanta dor que, às vezes, a sensação era de que eu ia desmaiar! No dia seguinte, ainda sentindo muita dor, fui ao hospital. Precisei tomar soro e medicação para dor direto na veia, fizeram exames de sangue… O alívio não veio com a interrupção da dor e nem com os resultados normais dos exames: outra ecografia e dessa vez o médico me deu a notícia em tom de pêsames, mas minha sensação foi a de estar ouvindo “parabéns, você não está mais grávida”.

Foto do projeto “This Is My Abortion”, da americana Jane, que busca desmitificar a questão do aborto ao publicar fotos que tirou com o celular do seu procedimento, realizado de maneira legal nos Estados Unidos.

Eu não sabia e, para quem, como eu, também não sabe, o aborto não termina aí, a dor física não termina aí. Por sorte, não tive hemorragia forte, não precisei de curetagem, não fiquei hospitalizada. No entanto, para terminar de limpar o útero precisei tomar um remédio (medicação pós-aborto) durante 3 dias. Foram 3 dias sentindo vontade de vomitar, tendo cólicas fortíssimas, sem conseguir nem andar direito, chorando quando a dor voltava.

Fui ao inferno e voltei e, durante minha estada por lá, não me questionei em nenhum momento sobre o que fiz. Faria novamente. Não tenho nenhuma culpa, não tenho nenhuma dúvida. Minto. Tenho dúvidas sim. Me arrisquei, não tive escolha a não ser me arriscar – e não, para mim ser mãe não é uma opção, não é uma escolha, não quero, nunca quis. Porém, bem ou mal, tive $ pra comprar Cytotec, tenho plano de saúde e pude recorrer a atendimento médico… E as mulheres que não têm acesso a nada disso? Será que se algum homem tivesse que passar por isso, nossa legislação seria como é? Se a sua filha tivesse que passar por isso, você continuaria defendendo o direito de um embrião em vez de defender o direito dela?

Assassina. Monstra. Pecadores são rápidos em julgar o pecado alheio. Também já o fui. Percebi que o julgamento é inútil quando se trata da vida alheia – quem sou eu para julgar alguém a partir dos meus valores, das minhas crenças? Do que servem minhas experiências para a vida de alguém que não sou eu? Você quer ter um filho, eu queria fazer um aborto. Talvez amanhã eu queira muito ter um filho e você queira apenas se livrar de uma gravidez indesejada. Você sabe o dia de amanhã? Algum de nós sabe?

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Para saber mais sobre aborto em casos legais no Brasil:

[+] Aspectos éticos do atendimento ao aborto legal (.pdf) – documento formulado pelo Instituto Anis.

[+] Atenção humanizada ao abortamento (.pdf) – norma técnica do Ministério da Saúde.

[+] Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes (.pdf) – norma técnica do Ministério da Saúde.

[+] Aspectos jurídicos do atendimento às vítimas de violência sexual – perguntas e respostas para profissionais de saúde.

[+] Fim do silêncio – documentário Thereza Jessouroum sobre o aborto inseguro no Brasil.

Autoras Convidadas

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46 thoughts on “Aborto, um relato

  1. “Será que se algum homem tivesse que passar por isso, nossa legislação seria como é?”

    Tive de bater nesta tecla meio mundo de vezes nos últimos dias em um debate via facebook. Ainda assim parece que a maioria de nós, homens, não tem a empatia para tentar compreender o que alguém que tem algumas diferenças biológicas que nós sente.

    Não tenho um útero, nunca compreenderei exatamente o que é sentir o que sentiu, viver o que viveu, temer o que temeu, mas posso ler seu relato assim como o de várias outras pessoas e tentar ser o mais empático possível, aceitar que o outro sente algo que não sinto ou compreendo e tentar fazer o possível ao meu alcance para minimizar esse sofrimento. Isso devia ser o mínimo que um ser humano deveria fazer por outro.

    • Também achei uma afirmação forte, incômoda de ler. Um depoimento desses é um prato cheio para o movimento pró-vida. Mas é necessário, sabe? A mulher tem o direito de se sentir aliviada e de ser “insensível” se quiser, já que o feto é dela e o útero é dela também. Se ela quiser chamar de coisa, é um direito dela.

    • Horrível é ter um filho que tu não quer ter! Por que quando você não quer ter o filho, é uma coisa, um monstro dentro da sua barriga, e não um filho =)

    • mas quantos homens nao falam a mesma coisa quando tem uma companheira grávida antes de abandona-las…

    • Comigo foi a mesma coisa: “Pq isso está me parasitando?” pensava e sentia eu. Era uma sensação de estar com algo sujo, estragado dentro da barriga. Era um engodo, como se tivesse traído o meu corpo, a mim mesma. Foram os piores dias da minha vida, me sentia invadida. Então cresceu um ódio tão grande em mim que “negócio” se torna até um apelido carinhoso perto do que eu chamava o que havia na minha barriga. E as pessoas diziam: “Com o tempo vc acostuma, vc vai querer.” Como assim vc tem um filho pq foi se acostumando à ideia??????? Isso é mt sério! E os dias foram passando e o ódio por ele só crescia. Nesse momento já estava tão transtornada psicologicamente que eu tinha a certeza dele ser uma semente do mal que queria me matar. NADA parava no estômago, nem água. E todos dizendo mais uma vez: “Vai passar.” Meu corpo sendo destruído por ele sem licença, eu apresentando um estado físico e psicológico deprimentes e as pessoas em volta não estavam nem aí pra mim. Eu não passava de uma gaveta que guardava o que realmente era importante. Que se dane a mim, tinha mais era que aguentar, pq ser mãe é isso. Um dia acordei e me olhei no espelho. NOJO mortal. Eu não valia nada, traí a mim mesma. Peguei o telefone, marquei, contei ao meu marido que ficou arrasado, mas entendeu minha decisão, mesmo com muita dor. Hora marcada na clínica, segura, cara, em um bairro da Z. Sul carioca. Fiz. Com toda a segurança e respeito de que precisava naquele momento. Voltei pra casa rindo, sim, rindo, leve. Me desculpei comigo mesma e fiz as pazes. Meu corpo, minha mente, minha alma eram meus de volta. Olhei pro espelho e me reconheci.
      Engravidei do meu marido durante um tratamento para cistos no ovário. De primeira resolvemos logo pelo aborto, mas pensando melhor, resolvi acreditar e temer. Acreditar que com o tempo iria me apegar como o senso comum diz, iria desejar… e temer a Deus, à sociedade juíza de todos. E o que fiz comigo por causa dos outros…
      Depois disso prometi a mim mesma que nunca mais nada nem ninguém iria tirar o meu direito sobre meu corpo.

  2. Como eu acho extremamente importante desmistificar o aborto vou deixar eu relato aqui também.

    No meu caso aconteceu duas vezes. A primeira, com 22 anos, saindo da faculdade. Não tava tomando nada, namorado que gozava fora um dia gozou dentro e pumba, engravidei.

    Faço questão de dizer que não estava “tomando nada” porque nunca achei que um filho iria remediar essa situação então me sinto confortável pra ser 100% honesta e não inventar embrião Gustavo Borges para alguém sentir peninha do meu relato, já aviso: é desnecessário.

    Naquele tempo não se podia contar com a internet (nem havia chegado ao Brasil ainda) pra arrumar o remédio abortivo mas sempre dá pra contar com a generosidade de um médico, que acabou me arrumando uma quantidade necessária de comprimidos e ensinou como usar, bem como uma receita pra antibiótico e só me deixou alerta pro caso de sentir febre. Naquele tempo ainda se vendia o medicamento em farmácia, mas eu não sabia.

    Usei do jeito que ele mandou e esperei. Dali umas horas as cólicas vieram, mas nada a ponto de me deixar na cama. Um buscopam da vida dava conta tranquilamente. Não vi feto indo embora nem nada, só umas coisas parecendo pedaços de fígado de boi (eu tava de dois meses).

    Uma semana de antibióticos, voltei ao mesmo médico que verificou que não precisaria de curetagem. Meu corpo parou de expulsar os restos sozinho. Não tive febre, nem complicações. Desceu uma coisa parecida com “borra de café” uns dias e parou por aí também.

    E emocionalmente falando, eu estava sim apreensiva que algo poderia dar errado e tinha medo de polícia e tudo mais só que quando o dr. disse que estava tudo bem, fiquei aliviada e esqueci do assunto. O namorado mesmo nunca ficou sabendo do que eu fiz e eu acho melhor assim, terminamos um pouco depois. Meu pai (eu já era órfã de mãe naquele tempo), ficou triste por eu ter passado por isso mas também não me condenou, pelo contrário.

    Na segunda vez eu já era uma mulher casada e tomava anticoncepcional. Fiquei puta da vida, mas é o tipo de coisa que acontece muito – eu fui filha de pílula, meu irmão também. Só que ainda não era hora de ter filhos, coisa que eu e meu marido tínhamos planejado para dali dez anos pelo menos.

    Com poder econômico maior já parti direto para uma clínica. Estava de quase dois meses, descobri rapidinho.

    O doutor me examinou e marcou o procedimento para o dia seguinte. Paguei tudo em dinheiro – naquele tempo se pagava aborto em dólar, hj imagino que não é mais assim.

    Voltei lá, me deram um negócio pra dormir e vinte minutos depois eu estava acordando da curetagem, já sem o feto. O marido, quando me viu, veio todo solícito me “consolar” mas de verdade eu nem fingi tristeza, tava é contente por ter me livrado de um problema muito fora de hora. Conversando sozinha com o médico relatei exatamente isso, ele riu e disse “relaxa que é comum, pra mim você não precisa fazer pose, é assim mesmo”. Dessa vez nem precisei do buscopam.

    Felizmente depois disso só engravidei quando realmente quis, na hora que achei que poderia ter um filho e foi o que aconteceu. Passo muito bem, obrigada e não me arrependi um único dia de ter abortado em duas ocasiões. Se meu filho hoje tem do bom e do melhor, certamente é porque sua gravidez foi planejada e não no improviso.

    Essa é a minha história não-triste de aborto, que eu conto sem o menor problema. Trauma ZERO. Depressão ZERO. Aliás, na minha vivência de pessoa já entrando na menopausa eu só vejo drama quando 1. a mulher não está certa do que quer fazer, 2. a mulher está sendo forçada por alguém a abortar, 3. a mulher não conseguiu fazer um aborto higiênico e seguro. Dentro de um cenário ideal não vejo depressão, só alívio mesmo, mas as pessoas morrem de vergonha de dizer isso por conta dos inúmeros julgamentos até de quem é a favor da legalização mas com mil ressalvas. Besteira. Como se alguém tivesse alguma coisa a ver com isso. Na minha barriga mando eu e acabou.

    Abraços a todos(as).

  3. Sobre a questão dos homens eu penso assim – uma situação hipotética: A população está crescendo muito e determina-se que todos os homens devam retirar pelo menos um testículo – sem anestesia – para diminuir as chances de gravidez (presumindo que seja possível) a fim de que se possa controlar melhor o crescimento da população.

    Eu poderia muito bem dizer que sim, sem pensar muito. Apesar de achar uma coisa horrível, eu não tenho testículos, não consigo imaginar a dor e por mais que um homem a descreva, eu nunca vou saber exatamente como seria passar por isso. NUNCA vou conseguir entender…então como posso julgar e aceitar que isso aconteça?

    É por isso que me preocupa homens demagogos que se utilizam de uma moral falida e sem nenhum embasamento a não ser o religioso, se lançarem contra as mulheres dessa maneira. Como eles podem saber o que é? Como eles podem nos julgar sem nunca terem passado por algo assim?

    Como pode ser justo que uma maioria masculina do governo decida o que eu devo fazer com meu corpo e os homens continuarem a ter 100% do poder de decisão sobre o corpo deles? Onde isso é justo e igualitário?

    • E ideia hipotética me doeu só em pensar. Gostei dela, usarei esse exemplo hipotético com meu amigo, parece ser bem efetivo para fazer a empatia pegar no tranco…

  4. Texto forte e incrível. Fico sem palavras ao ler uma experiência dessas, e ao pensar que milhares de mulheres passam por isso, precisando se arriscar dessa forma, ignoradas pelo Estado, condenadas por uma sociedade moralista e hipócrita. É um absurdo… Como podem achar correto forçar uma mulher a ter um filho, mesmo contra a sua vontade? Maternidade nunca pode ser obrigação.
    Triste….

  5. Quando tinha 13 anos, acabei engravidando. Anos depois fui entender que o que aconteceu comigo foi mais que estupro do que um ato consensual, mas não é a questão a ser discutida aqui.

    Na época, morri de medo. Fiquei um tempo na casa de uma amiga de infância, e ela e a mãe dela me deram toda a assistência possível. Meus pais nunca suspeitaram. Ficava super chateada e com vergonha quando escutava meus familiares ou amigos falando, quando via alguma notícia ou alguém e falavam: “nossa, tão novinha e já está grávida. Que safada! È irresponsável e depois quer abortar, fugir da responsabilidade”

    Me sentia uma puta, vadia e que merecia ir pro inferno! Tive e ainda tenho que conviver com comentários desse tipo. Sempre me questionei se havia feito a coisa certa e dentro de mim, sempre tive essa certeza e se pudesse voltar atrás, faria novamente. O problema era que a sociedade sempre estava ali para julgar a vida alheia, a hipocrisia. Nas escolas, os meus professores misturavam matérias sobre aborto com a religião, era mais impondo uma opinião machista do que nos mostrando a verdadeira liberdade e de direitos que uma mulher deveria ter!

    Demorei para entender que o que eu fiz, foi a coisa certa. Hoje não tenho nenhuma culpa e faria novamente. Ter um filho aos 13 anos, iria atrapalhar toda a minha vida, simplesmente me sentia incapaz de criar um filho.

    Hoje consegui me formar com sucesso, estou em um emprego bom e me sinto mais preparada para criar um filho e tenho o desejo de ser mãe. Totalmente diferente do que se tornar mãe por obrigação, por machismo.

  6. Choquei… Choquei com a frieza do relato e dos comentários ‘sem arrependimento moral’. Estranho… Muito estranho… Eu tenho acompanhado vários relatos, lido na internet pra tentar desconstruir essa ideia negativa sobre o aborto. No entanto, a primeira vez que li coisas do tipo “Queria me livrar logo dessa porra”. Pensava que era algo mais… sei lá! Subjetivamente mais complicado. Sei que nem é assim para todas.
    Minha mãe teve dois filhos, que foi efeito do não-funcionamento da pílula. Á época, minha família passava por sérios problemas financeiros. Mas ela levou em frente. Ninguém morreu! Passamos por dificuldades juntos e estamos aí.
    Entendo que o aborto deve ser tratado como problema de saúde pública. Não deve ser tratado como problema moral – mesmo sendo para muitos. Minha mãe uma vez me disse que já fez aborto. Era casada, bem empregada, apartamento próprio. Aconteceu numa hora que ela tava no auge da carreira. Abortou. Foi traumático. Depois disso, nunca mais.
    Eu li uma pesquisa de vários professores- pesquisadores de universidades públicas que traçaram o perfil da mulher que aborta. Pasmem! Não era o clássico perfil da negra, pobre, favelada. Eram brancas, com escolaridade, casadas ou em relacionamentos estáveis, não-empobrecidas. Desmistificou aquilo que eu tinha em mente.
    Eu, sou moralmente contra. No entanto, se acontecesse comigo agora, pensaria em abortar. Mas eu tenho tanto medo disso que eu sou neurótica e me cuido adoidado. Só de pensar numa situação limites dessa…
    Não sei… Não sei… Apenas compartilhando o meu choque… Nossa! Estranho.
    Para além das questões sobre quando começa a vida ou não, pois não é esse o ponto, a questão é: fomos socialmente criados para saber que o embrião daqui a um tempo ia virar ‘gente’. Gente no sentido dotado de humanidades, como eu e vc. De sentimento de humanindade que eu não tenho para com uma barata, por exemplo.
    Olho para trás e vejo minha trajetória… Minhas vivências… Eu vim ao mundo Não pedi. Vim! Sou e estou.
    Não espero respostas agressivas a esse meu post. O meu intuito foi único e exclusivamente expor uma crise moral advinda da forma como eu e a maioria fomos socializados…

    • Cristiane, eu também tive um momento de crise moral lendo esse post, mas os relatos de pessoas que abortaram e que pensam assim sobre a gravidez me fazem pensar que é bom mesmo que se legalize isso de uma vez por todas. Uma pessoa que NÃO QUER SER mãe dificilmente vai ser uma boa mãe. E uma criança tem direito de ser amada.

      Apesar de pensar que uma mulher de 30 ano talvez devesse arcar com as consequencias de ter uma vida sexual ativa, entre as quais se encontra gravidez… Talvez essa mulher tenha pensado mais na criança e tido uma atitude mais responsável que muitas mulheres que por terem valores morais elevados e “amor a vida” levam a gravidez até o fim e ao se verem com um bebê no colo criam feito Deus criou batata, jogando de lá pra cá, fazendo o minimo possível pela criança, deixando a educação a cargo da creche, da escola, da babá, da vizinha, da avó, da tia, da internet e da televisão.

      Ser mãe não é dom… Quem não quer ser mãe não deve mesmo ser mãe.

    • “No entanto, a primeira vez que li coisas do tipo “Queria me livrar logo dessa porra”. Pensava que era algo mais… sei lá! Subjetivamente mais complicado. Sei que nem é assim para todas.”

      Eu entendo que choque e balance as estruturas uma afirmação assim. Idealizamos a maternidade que acreditamos a mais perfeita forma de amar. Mas a “mágica” da maternidade, se há alguma, só acontece quando ela é desejada.

      Uma mulher grávida que deseja a maternidade sonha, idealiza, antecipa a cça que virá pros seus braços. Mas uma mulher que não deseja a maternidade só pode se sentir violada.

      Fico pensando no quanto “me perdi de mim” em quanta entrega a minha gravidez/maternagem envolveu/envolve e como isso é um pouco assustador a despeito de todo o meu desejo e amor. E quando comparo vejo que não consigo mensurar como deve ser horrível pra uma mulher lidar com essas coisas sem querer.

    • Muito obrigado, Cris! Sua “crise moral” foi incrível e mega útil, sério. (:

      • eu fui mãe com 18 anos, e sem planejar tb!
        minha familia ajudou, mas eu aceitei a gravidez desde o primeiro momento. tava apavorada!!! mas deu tudo certo.
        minha filha tem 6 aninhos já, e digo que foi a melhor decisão que tomei na vida. amoooo mais que tudo!!!
        quem faz um aborto com tamanha frieza…. me desculpe mas não acho normal!
        sou a favor da legalização sim mas esta frieza toda me assustou tb. mesmo assim, interessante ler relatos….
        abraços

        • A sociedade criou essa concepção de que a mulher é por “natureza” amável, dócil e cuidadora. Mas são relatos como estes que podemos receber palavras que são frias, mas sinceras e que saindo da boca tanto de um homem ou de uma mulher acredito que espantam (também reagi da mesma forma). Somos pessoas e assim como um homem que pode fazer essa escolha e simplesmente abandonar a mulher, ela deve ser protegida legalmente para realizar uma escolha e negar este “corpo estranho”.
          Que a sociedade nos permita sermos EGOÍSTAS como os homens. Por que afinal mesmo que o casal (homem e mulher) queiram ter o filho ou a filha no fim essa “escolha” cai sempre sobre a mulher. Pois nós sem refletirmos estamos sempre reproduzindo frases “meigas” mas que carregam o peso do machismo na relações familiares. “Afinal mãe é mãe”.

        • a frieza te assustou porque não foi você que sentiu nojo ao ver um coração batendo na tela de uma ecografia, nem é sua vivência ou suas experiências. Normal não é só o que acontece com você – pros outros pode ser diferente.

    • Cris,
      Sobre as pesquisas que tu leu, é sempre interessante saber qual foi exatamente o público alvo e lembrar que só faz um aborto no Brasil que tem condições financeiras de custear o procedimento. Sendo assim a caracterização social será esta mesmo, não há porque ficar pasma.

  7. Sempre sou esculachada por defender o aborto. Não estou dizendo que “faria” um (não dá pra saber), mas acho que é imprescindível conceder a opção à mulher que engravida. É tirano, cruel obrigar alguém que não quer, não tem condições, ter um filho! A coisa é muito séria.
    Jamais me esqueço de uma aula muito especial em que um professor excepcional (uma celebridade do Dto Constitucional) disse “não estou defendendo o aborto, mas do ponto de vista do direito constitucional, vejam bem, do ponto de vista jurídico, NÃO HÁ COMO NÃO DEFENDER O ABORTO, a única justificativa é o direito à vida do feto; já em contrapartida, em defesa do aborto, em termos jurídicos, temos a dignidade da pessoa humana da mulher, nos seguintes aspectos aqui resumidíssimos: autonomia reprodutiva e liberdade de escolha (valor constitucional); direito à igualdade entre mulheres (ricas e pobres, com acesso à informação, etc.); direito à igualdade entre homens e mulheres (teoria do impacto desproporcional pois apenas as mulheres suportam os efeitos da lei que veda o aborto); direito à intimidade (o Estado não pode interferir nesta escolha que faz parte da vida íntima da gestante); questão de saúde pública (até os 03 primeiros meses não há um “bebê”, mas um feto, assim a interrupção é um caso de saúde pública).
    Engraçado como o direito neste caso se usa de conceito médicos para definir o que já é um um ser humano, o que não é, mesmo para distinguir o porquê de tantos abortos espontâneos.
    A única explicação para dizer que a vida se inicia com a fecundação, que aquele ovo resultante da soma óvulo + espermatozóide é um ser humano, é a maior pseudociência do mundo! Sim, ele poderá resultar nisso, mas gente, expelir esse amontoado de células não pode ser equivalente a um homicídio! Assim como quando uma criança cai da bicicleta e rala um joelho, e um amontoado de células é arrancada deste joelho, não se diz que houve um crime!
    Não há outra explicação, assim como na era clássica, na idade média, e nestes tempos modernos em que muitos norte americanos rejeitam a teoria da evolução e levantam a bandeira do criacionismo, nossa ciência e nosso direito estão infectados de explicações teológicas. De que outra forma se afirma que a retirada daquelas células é homicídio? Só por explicações que fogem da lógica científica…
    Ocorre que não somos teocracias, crenças e paixões não podem prevalecer, porque estas se prestavam para esclarecer situações antes inexplicáveis, e reger estas situações. Agora somos grandinhos e temos a ciência, o direito.
    Eu sou muito religiosa, ao contrário do que possa parecer. Apenas discordo que é preciso ser ignorante para estar de bem com Deus, e menos ainda cultivar crenças que se adequavam ao mundo de 1.000 ou 500 anos atrás.

    E cá entre nós, não é mais de fé que falamos, como alguns tão dissimuladamente vão dizer, esses hipócritas, mas tão somente de puro machismo, é a teoria do impacto desproporcional… Afinal, não é com eles, quem colocou no mundo que crie não é mesmo? Danem-se as mães vão dizer…
    Alguém pensou nestes filhos indesejados? Toda mulher tem vocação pra mãe? Vou apresentar vocês pra minha, aehehaeha!
    Concordo em absoluto com a internauta que disse: se os homens tivessem filhos, aborto não seria crime, acho até que poderia ser feito na farmácia!

  8. O desejo verdadeiro de não gerar um filho, já é argumento suficiente para a Descriminalização do aborto. Até a 12ª semana de gestação não há sistema nervoso, lógicamente não há a sensação da dor, e deveria ser a mulher livre neste período para decidir se quer prosseguir ou interromper a gestação.
    Tenho um unico filho, e o amo com verdadeira loucura, mas nem sempre é assim, e devemos respeitar e amparar mulheres que estejam em situação adversa a nossa.

  9. Ótimo texto. Sorte no novo momento =) ORGULHO de mulheres como vc.

  10. As palavras delas sao sim fortes mas nao me chocou – se acontecesse comigo me sentiria exatamente assim – eu e milhares de outras mulheres. Maior que o preconceito e os mitos sobre o aborto é o mito da maternidade: O mito de que toda mulher ao descobrir que está grávida é tomada por um sentimento sublime, que toda mulher se transforma em um ser melhor e iluminado quando gera, que toda mae ama e faria tudo para o bem de seus filhos.

    A H. tomou todas as precaucoes e foi vítima de uma fatalidade. Eu tomo pílula, meu marido usa camisinha sempre e nem por isso estamos livre de um acidente. Tenho o privilégio imenso de morar num país onde o aborto é permitido, tenho plano de saúde privado e se me acontecer qualquer coisa eu pego o telefone e minha médica me atende imediatamente.
    Mesmo assim ficaria mortificada com a situacao, tremeria de medo, choraria como um bebê, sentiria ódio, asco. NADA na maternidade me atrai. Na minha vida um filho seria uma âncora amarrada no meu pé.
    Agora eu me imagino na situacao da H. e de tantas outras mulheres que se sentem exatamente como nós em relacao a maternidade e só tem duas saídas: arriscar a vida num procedimento ilegal e sem assitência ou levar adiante a gravidez e o filho que nao quer.

    O único objetivo da criminalizacao do aborto é punir as mulheres por fazerem sexo – só isso!!!

    • Ainda continuo acompanhando o post. Refletindo e refletindo sobre os comentários, sobre o post em si. Sobre situações limites, pois acho que ninguém se colocaria a fazer aborto como quem vai ao shopping.
      Quero deixar claro que entendo que há uma questão em torno da construção social da maternidade e do amor romântico. Isso é fato. Nem todas as mulheres vão se sentir ‘completas’ com seus filhos. Entendo que a forma como fomos socializadas e como essa sociedade produz as condições materiais de vida e existência molda a concepção dos indivíduos em uma padronização. logo, a mulher para ser realizada deve ser assim e assim. Dessa forma, o papel de blogs como esse aqui é justamente desconstruir certos pressupostos ideológicos envolvendo o papel do feminino nessa sociedade machista, sexista e homofóbica. Infelizmente não são apenas palavras clichês.
      O aborto deve ser descriminalizado e legalizado, sim. O Estado de direitos deve atingir a todos os cidadãos.
      Eu quero ter filhos, mas NEM PENSAR, agora. Vias de defender minha dissertação de mestrado e as portas de tentar o doutorado. Tb trabalho. Seria um suicídio. Não deixo de transar por causa disso. Por isso beiro à paranoia em relação à precaução.
      Obrigada ao blog por dar vozes às milhares de mulheres que são aviltadas todos os dias. Obrigada por dar vozes aos nossos medos e anseios. Não vamos conseguir mudar muitas mentes, no entanto, modificar pensamentos, facilitar para que compreendam o aborto para além da questão moral é importantíssimo. Por fim, por dar liberdade de escolha às mulheres. Aqui, quando falo em liberdade de escolha, se relaciona ao entendimento de toda a problemática que está em torno do papel da mulher e do feminino nessa sociedade machista, da sexualidade e do exercício da mesma. Quando sabemos todos esses processos que engendram isso, podemos, aí sim, ser conscientemente livres para decidir ou não ter o filho.

    • Acho muito importante a discussão desse mito. É um desserviço tanto pras mulheres que não querem ser mães, quanto pras mães. Algumas vivem uma grande neura em busca dessa tal perfeição e iluminação que não chega nunca.

      Além de profundamente injusto com os pais.

  11. As palavras dela não me chocaram nem um pouco,penso exatamente assim,quando não é desejado,deve ser um inferno ter aquilo dentro de si.Falando por mim,não pretendo ser mãe,e uma vez,só pq sonhei estar grávida,acordei horrorizada com a possibilidade,apesar de adorar crianças (sou tia babona mesmo),não tenho instinto maternal ,não quero transformar outro ser humano no centro da minha vida,não quero ter a responsabilidade de alimentar,cuidar até sabe-se lá quando e ,sobretudo,formar um ser humano,com tudo que isso envolve;valores,ética e blá blá,só de pensar nisso me CANSA,admiro enormente as que têm vocação pra coisa,pq são pouquissimas,ter um útero não é garantia de ser uma boa mãe.

  12. Eu tenho 18 anos e engravidei, justo eu, a pessoa sem nenhuma condição psicológica de criar um bebê, sem nem gostar de crianças, que preferia morrer a ter uma, estava ali, as 3 da manhã em um hospital público recebendo a pior noticia da minha vida. Eu não iria contar pra minha familia, teria que dar um jeito sozinha – abortar ou morrer. Eu vi umas receitas de chás na internet que diziam resolver o problema, além de terem um gosto horrivel não adiantaram em nada, só me fazer ficar mais enjoada do que já estava por causa da gravidez. Minha mãe começou a desconfiar e me fazer perguntas e eu acabei contando que eu estava gravida, ele foi MUITO compreensiva, muito mais do que eu imaginei, e comprou cytotec na internet, finalmente, eu pensei, mas era falso. Uma semana depois fui fazer ultrassom na esperança fraca do feto ter morrido, minha familia queria pagar clinica mas eu estava com medo disso, então fui lá fazer a ultrassom, eu teria rezado se não achasse isso besteira, mas faltava pouco pra eu apelar até para algo que eu não acredito, tamanho meu desespero – e o feto, eu vi na tela da sala do médico, estava ali, inteirinho, vivinho, chutando e mexendo os braços, parecia ter mais energia do que qualquer pessoa já formada que eu já tinha visto. Então, eu comecei a chorar – mas não foi com o pesame por mim mesma como chorei até aquele dia, foi emoção, ele ali dando chutinhos, todo agitado me comoveu, ele parecia ser forte demais para se ‘render’, eu QUIS ter aquela criança, e foi ai que escolhi o que nunca achei que escolheria, ser mãe. Mas JAMAIS irei julgar uma mulher que não tenha se sentido da mesma forma que eu, eu tenho a sorte de ter condições financeiras para ter um filho, de ter uma familia que vai me ajudar, e acima de tudo, de QUERER ter esse bebê, de QUERER arcar com a maternidade, mas isso teve que vir de mim, da MINHA vontade, jamais deve-se obrigar uma mulher a fazer o que não quer com o corpo dela, nem achar que ela é uma pessoa ruim por não se comover e ser fria em relação ao feto, cada uma é cada uma e todas deveriam ter sua decisão respeitada.

  13. Sou a favor do aborto, mas achei o relato muito pesado….
    nunca imaginei que uma mulher poderia se referir a um ser dessa forma. Fiquei bem assutada com as palavras que foram utilizadas nesse texto.
    Mas entendo o lado da autora, entendo como é não querer um filho. Também não pretendo ter, e não consigo nem imaginar o que eu faria se ficasse grávida.

    Achei você muito corajosa…

  14. Oi a todos. Sou a autora desse texto. Gostei dos comentários, do debate de vocês. Minha idéia quando enviei o texto para publicação era exatamente essa: desmistificar o assunto.

    Fazer um aborto não é como extrair um dente. Não é, nas condições na quais eu fiz, nada tranquilo e agradável. Porém, passado algum tempinho, tenho certeza que se voltasse no tempo, faria novamente. Nenhuma dúvida sobre minha escolha, nenhuma culpa, nenhum arrependimento.

    Aos que acharam forte a declaração “porque esse negócio não morre logo?”digo o seguinte: é a verdade, é assim que me senti. Um negócio mesmo. Esse mito de que todas se comovem ao ver um feto dentro de si durante uma ecografia é falso, é apenas um mito. Vi o feto, bem e forte, vi a medição dos batimentos cardíacos… e isso teve efeito nulo sobre mim. Não houve nenhuma comoção e, ao contrário, eu queria é que arrancassem aquele “negócio” de mim. Em nenhum momento vi aquilo como um filho ou me senti mãe – meu sentimento de maternidade foi nulo, continua sendo nulo. E, para mim, seria uma tortura ficar com um corpo estranho mais alguns meses dentro de mim – e só de pensar no pós-nascimento, sinto mais tortura ainda…

    Esse mito de que o sentimento de maternidade é natural da mulher precisa ser desfeito. Algumas têm, outras não. É lógico que as pessoas precisam se cuidar, se prevenir – não só para evitar uma gravidez indesejada mas, principalmente, para evitar DST’s. Aborto não é método anticoncepcional e jamais deve ser utilizado como tal. Entretanto, acidentes acontecem. O único método 100% garantido de não engravidar é não fazer sexo. E aí? Acontece um acidente… deve-se obrigar a mulher a levar a gravidez até o final? Muito fácil ser pró-vida quando não é com você ou quando você é homem né… Não é você que sentiu ter uma “coisa”dentro de si, que sentiu ojeriza do “negócio”que crescia no seu útero. Não é o homem que vai passar 9 meses com aquilo crescendo dentro dele (e inclusive, ele pode simplesmente fazer o que muitos por aí fazem e abandonar a mulher grávida… ou abandoná-la depois do nascimento…). Minha sensação é que só as mulheres são punidas com essa proibição de aborto – sei lá… como o único método 100% seguro de evitar essa situação é não fazer sexo, parece uma punição por ela ter feito…

    • Vejo a proibição do aborto como uma punição da sociedade machista pras mulheres bem resolvidas com seu corpo e sua sexualidade, principalmente quando leio expressões do tipo “Já que fez tem que arcar com as consequências”. Fico mortificada quando vejo este tipo de conceito.

  15. Oi gente,
    Bom serei bastante objetiva em minhas palavras. Sempre ouço meninas falarem que após fazerem um aborto vem a dor física e maior que ela a dor psicologica e suas consequencias. Mas alguém aqui já parou pra pensar na dor brutal que causa voce carregar no seu ventre por nove meses algo que voce nunca quis ter? A perturbação e o sofrimento que isso causa à menina/adolescente/mulher? Ser vítima de um machismo que te obriga a criar um filho que voce nao sente seu; que implorou todas as noites para que fosse só um pesadelo? A pobre menina (sim! a verdadeira vítima) ali acuada, se sentindo sozinha, a ponto de ter um surto psicótico?
    bom pessoal essa menina fui eu! ou melhor, sou eu
    Não tive escolha. me obrigaram aos 18 anos a ter um bebê. hoje a amo. mas confesso que tive depressão pós-parto e até hoje me recupero de sequelas.
    poderia ter sido diferente comigo. ninguém pensou nos meus sentimentos, planos e sonhos. hoje sou uma pessoa frustrada que gasta a maior parte do seu tempo em terapias.
    Se voltasse no tempo teria FEITO SIM! um aborto.

  16. Bem… Sou bem dividido nessa questão. Acho que há casos sim em que o aborto seja solução. Inúmeros, talvez. Mas também não acho que falta de vontade (para não dizer outra coisa) de algumas moças em assumir responsabilidade pelos próprios atos não poderia ser desculpa para um aborto. Na boa, casos em que pílula, camisinha, tudo (enfim) não funciona são tão mínimos, que nem justificam… Sou pai e sempre (mesmo novo e despreparado) desejei e quis meus filhos, tenho gêmeos… Devo lhe afirmar que assim como a frase do pai serve para a mãe, é quem cria, não quem faz… então colega H., é claro que você não se sentia uma mãe, você nunca chegou a ser uma, na verdade. Isso não vem da noite pro dia não, como qualquer amor, deve ser nutrido. Ser mãe não é ter “um negócio” na sua barriga, e sim transformar “isso” numa pessoa que, diga-se de passagem, você amará mais ainda fora do útero.Imaginemos um aborto legalizado… E o direito de ser pai? Como seria se um pai quer e a mãe não? ela teria e entregaria? Pois também estariamos “presos” à condição de não sermos capazes de gerar… Com certeza ficarei como machista e etc… mas não é mesmo a questão. Mais do que “machismo” e “feminismo” acho que devemos acreditar no ser humano, como passível de compreender o próximo, como ser racional, ainda assim dotado de emoções, etc, e também cheios de defeitos, maldades, imaturidades, enfim… Não é uma questão de ser a mulher isso ou o homem aquilo… De que vale um feminismo tão preconceituoso como o de tantos comentários aqui que rebaixam TODOS os homens como se um só fossem? Não seria o mesmo que o machismo que vocês vão contra?… Desculpem, mas para mim isso não é mesmo feminismo…apenas inversão de valores de forma brusca e, às vezes, burra… Quero deixar claro também que não estou falando do site especificamente, pois apenas passei por aqui, não li todos os artigos e opiniões das blogueiras (ainda). E ao contrário do que alguns podem falar, um filho nunca atrasa a vida de ninguém… Tenha certeza.

    • Ricardo, não há comentários preconceituosos aqui, há a constatação de que o aborto é um assunto que atinge imensamente mais as mulheres que os homens. E, por mais que você seja feliz com seus filhos, e isso é ótimo, é muito egoísmo dizer que sabe o que é melhor para todas as pessoas e que filho não atrasa a vida de ninguém. A nossa luta é justamente para que todas as pessoas tenham escolha, que quem tiver filho tenha e possa usufruir de uma ampla rede de assitência do Estado como creches, escolas e saúde. E, que quem não quer ter filhos tenha essa opção de não ser obrigada a ser uma chocadeira sem desejar.

      • Com certeza, eu concordo com isso. Acho sim que o Estado tem por obrigação dar base para isso, como casas de adoção boas, locais em que se possa fazer um aborto seguro, por exemplo. Bato num outro ponto também, o qual me intriga como “simpatizante” das idéias feministas, mas homem. Pois apesar do direito da mulher de fazer o que quer com o corpo, sem ser uma “chocadeira”, temos o detalhe do homem, mesmo sendo um caso ainda raro, que quer ter o filho indesejado pela mulher. Ora, enquanto a mulher teria sim seus nove ou dez meses de sensações estranhas e um dia de dor, esse homem pede em troca um vida inteira de alguém. Qual seria a posição? Ser indiferente ao direito do homem, como partícipe da concpção dessa criança e pai biológico, e apenas abortar? Ou suportar alguns meses, violando o que ela quer fazer com o próprio corpo? Pela história, acho que a moça H. nem sequer disse ao pai biológico que talvez ele fosse pai. isso não me parece correto também… essa decisão deveria ser feita a dois, não? Outro ponto em que discordo é, não é de forma alguma egoísmo meu dizer que um filho não atrasa ninguém. Creio que não conseguirei convencer-lhes do meu “egoísta” argumento de que um filho não atrasa a vida de ninguém, pois o fato concreto das dificuldades de se ter um filho, não abarca sensações e sentimentos e outras tantas coisas que somente os pais entendem, sem poder explicar. Deixo assim então. Mas não falo de ser melhor para todos, de forma alguma, mas daqueles que aceitam de coração aberto aquela pequena vida (um pouco dramático assim, mas bem desse jeito a meu ver). Acho que sim o aborto atinge muito mais a mulher, e concordo com quase todos os motivos para isso. Mas acredito também que as pessoas devem ter responsabilidade por seus atos e nós humanos costumamos banalizar as coisas facilmente… Enfim, ainda estou estudando bastante toda a questão feminista e tentando deixar de lado meus próprios preconceitos e tradições quanto a certos pontos, como esse em específico… Mas há sim preconceitos feministas… e como homem os percebo muito mais… mesmo de certa forma engajado em tal causa. Sou casado e discuto esses conceitos com minha esposa bastante, chegamos a brigar algumas vezes por isso… Sendo ela feminista também, tenho a oportunidade de analisar de forma mais constante as minhas posições, bem como analisar as dela. De qualquer forma, gostaria de agradecer o espaço e me desculpar por qualquer má interpretação gerada. Um grande abraço e parabéns pelo site! Obrigado também pela resposta. ^^

        • Ricardo, a grande questão é que quando impomos a outra pessoa, algo que acreditamos ser melhor, não estamos dando opções. É claro que gostaríamos que todos os casais sentassem juntos e decidissem o que fazer diante de uma gravidez inesperada, mas sabemos que as relações humanas não são simples. Que ótimo se uma mulher topar continuar com a gravidez e entregar a guarda total desse filho para o pai, ela tem toda liberdade para fazer isso. Mas se ela não topar, acreditamos que não se deve forçar alguém a ficar grávida apenas para entregar um bebê a outra pessoa. Essa é nossa luta, para que todas as pessoas tenham opções e que o Estado garanta o acesso a seus direitos, seja tem um filho e contar com a estrutura básica para criá-lo, seja não ter um filho e contar com segurança no atendimento médico.

  17. Pingback: Aborto, um relato

  18. Estou me recuperando de um aborto de uma gravidez indesejada de 7 semanas. Optei pelo aborto pq não tinha condições financeiras de educar uma criança. O pai da criança foi o primeiro a optar pelo o aborto e eu concordei com ele. Como seguir como uma gravidez sem qq apoio. A gravidez muda toda a vida mulher. Por isso, o aborto às vezes é a solução. Lamento pelo filho que não se desenvolveu, mas tive que escolher entre a minha vida profissional e a maternidade. O que me levou a engravidar foi a troca de anticoncepcional e uma pílula do dia seguinte que não funcionou. Espero um dia ser mãe e dedicar muito amor a essa criança. O aborto me deixou triste sim, chorei muito, meu namorado me deixou sozinha. Mas a vida segue ” As pedras do caminho deixe para trás. Esqueça os mortos eles não levantam mais…”

  19. Meu Deus!!!! Estou estarrecida com certos comentários, em pleno século XXI os comportamentos continuam do século X, quando nossas tataravós faziam abortos com ervas, banhos de acentos e agulhas de crochê, mas no caso delas eu não as censuaria, pois ter 8, 10, 12…filhos sem condições é algo bizarro mesmo, e sem ter como evitar era a única alternativa, mas hoje! Com tantos métodos contraceptivos, fazer isso é um descaso com a vida alheia, alheia sim! Pois estão matando um ser indefeso, com apenas 2 dias o bebê já sente os batimentos cardiacos da mãe. Enquanto existem milhares de mulheres querendo ter filhos e não podem, eu vejo milhares matando seus filhos, são muitas as ironias dos destinos. Se você está com uma gravidez indesejada, não mate! Seja humana e mulher de verdade o suficiente para levar até o fim, e doe para quem não pode ter filhos, assim em vez de se tornar uma assassina, vc passa a ser um anjo na vida de alguem que quer se mãe.

  20. Mari! E é uma pena que pessoas como vc julgue as outras… Acidentes acontecem, e um filho leva 9 meses para nascer…daí num mundo capitalista como esse não é possível parar a vida e colocar uma criança no mundo e entregá-la a própria sorte. Vc já visitou um abrigo de crianças (basta procurar a vara da infância e juventude da sua cidade), já viu quantas crianças abandonadas pela pobreza, abandono…Depois essas crianças crescem tornam-se adultos e carregam com elas a marca do abandono…e como sofrem num mundo tão desumano. Essa história de mundo encantado para os pequenos é pura mentira a realidade é cruel!

  21. Minha pergunta é: se uma mulher não deseja ficar grávida por que então não utiliza métodos contraceptivos ao invés de fazer um aborto?

    • Raiza, e você acha que todos os métodos contraceptivos funcionam? Há centenas de caso em que camisinhas e pílulas falharam, nenhum método contraceptivo é 100% seguro.

    • Leia o texto de novo, despindo-se de seus pré-conceitos – e preste atenção na parte de eu, autora desse texto, sempre ter me cuidado e nunca ter pego nenhuma DST, nem ter engravidado antes, nem ser uma menininha boba que iniciou a vida sexual agora.

      Único método 100% seguro é não fazer sexo.

  22. Tenho 21 anos, venho de uma família desestruturada e sofro de depressão há muitos anos. Comecei no meu primeiro emprego no final desse ano e estou no final da faculdade, pretendendo terminar com apenas um período de atraso. Fiquei muito feliz em ler os relatos aqui, porque sempre fui a favor do aborto. Agora estou grávida e não tenho condições financeiras e psicológicas de ter um filho. Não tenho ninguém com quem conversar sobre a situação e não tenho dinheiro para recorrer ao aborto. Tentei comprar os remédios na internet e acabei sofrendo um golpe. Agora vivo o mais puro desespero e terror. Quis deixar esse relato aqui para que o movimento pró-vida e os que são contra o aborto entendam… Não é só a vida do bebê que importa. E a mãe? Ela não tem direito a vida?

    Uma vez me disseram que um animal encurralado é o mais perigoso. E é verdade. Sem dinheiro, grávida de 20 semanas, sentindo vergonha e medo. Admito, já fui além do pensar em suicídio. Já tentei. E vejo que se não conseguir solucionar meu problema o quanto antes, minha família vá receber uma notícia pior do que uma gravidez indesejada.

    Adoção? Seria fácil se não envolvesse toda a sua família e o pai da criança serem contra. Seria fácil se não envolvesse ter que passar por todo o processo da gravidez e a vergonha de que todos saibam que você não se precaveu o suficiente.

    Aos que são contra o aborto, eu sempre digo. Só por estar legalizado não quer dizer que todas vão fazer. Nem que colocaremos armas nas cabeças das mulheres grávidas e as obrigaremos a fazer. A legalização significa que essa mulher que está grávida vai ser aconselhada, vai ter apoio de psicólogos e assistentes sociais para qualquer decisão que ela tome e no final, se ela decidir fazer, vai ter um médico competente numa clínica segura e limpa. Talvez, com a legalização até diminua, afinal, o governo vai poder identificar os grupos que mais fazem aborto e criar programas diretos de auxílio.

    Hoje, quando leio esses relatos e penso que amanhã pode ser o dia em que eu vá fazer algo definitivo ou à ele, ou à mim… Eu penso que se for à mim, que não há ninguém mais a culpar do que essa política estúpida e machista. Não é da pílula que falhou ou da família desestruturada ou do noivo que não tinha condições financeiras nem para ter nem para abortar, nem do bebê. A culpa é da hipocrisia dessa política e desse país. Não basta garantir a vida do bebê! A mãe tem direito à vida também! E os dois, mãe e bebê, tem direito à felicidade. Se essa criança nascer, não pode ser por pena ou por obrigação. E para ele nascer, também não se pode matar a mãe, seja sua psiquê, ou literalmente. Antes da criança, deve-se pensar na mãe. De que adianta garantir a vida de um ser que talvez nem sobreviva os 9 meses mesmo dentro dela, ou nem nasça com vida, à tornar a mulher prisioneira de seu próprio corpo, prisioneira de uma criança indesejada? Impedir uma mulher de abortar não vai impedi-la de abusar emocionalmente de seu filho, de odiá-lo, ou mesmo de se matar.

  23. Leio todos os posts aqui desse blog, quase nunca comento… e acompanho com especial atenção os comentários desse post (afinal, eu sou a autora).

    Meu aborto foi realizado no feriado de 12 de outubro… e se algum bom cristão pró-vida acha que de lá para cá passei a sentir alguma culpa, lamento informar: a culpa continua sendo ZERO e continuo com ZERO arrependimento. Foi a melhor coisa que eu fiz por mim e, possivelmente, pelo feto também.

    Leio comentários aqui e por aí sobre o assunto ‘aborto’ – não me assusta que o pratiquem. Fico muitíssimo assustada é com o quão sem empatia o ser humano consegue ser. Todos vocês, pró-vida, deveriam ser obrigados a carregar em seu ventre durante 9 meses algo que lhes causa ojeriza (xiii… tem muito homem pró-vida sem ventre por aí também né… aí fazemos como?). Todos vocês, pró-vida, deveriam ser obrigados a cuidar de crianças abandonadas. Todos vocês, pró-vida, deveriam pagar as contas da mulher e do filho que foi obrigada a ter, pagar psicólogo caso ela tenha depressão, cuidar dela e da criança, etc e por aí vai.

    Ninguém em sã consciência que seja de fato pró-escolha defende que haja obrigatoriedade de abortar. Defende-se, apenas, que a mulher possa optar por isso com segurança. Não defende-se que aborto seja usado como contraceptivo. Defende-se, apenas, que caso a contracepção falhe, a mulher possa ter uma opção segura.

    Fico muito triste e preocupada quando vejo um depoimento, escrito no Natal, por uma menina tão jovem, de apenas 21 anos, deprimida (como este último). Eu, mulher mais velha, com vida própria, independente, fiquei desesperada ao ser colocada cara-a-cara com uma gravidez indesejada… imagine uma menina??? Algum pró-vida se compadece da menina??? Não… é do amontoado de células ou do feto que pode nem vir a nascer que se compadecem… Me poupem!!!

    Repito o que disse no post: nunca sabemos como reagiremos a uma situação até que estejamos nela. Eu não sabia. Não sabia nem mesmo como me sentiria depois (e me sinto bem, obrigada). Portanto, cuidem de suas respectivas vidas e ventres, e deixem os outros em paz para decidirem pelas deles.

    E alguns por favor façam aulas de interpretação de texto ou leiam o que está escrito, em vez de simplesmente vomitar suas crenças e valores morais. É coincidência uma pessoa passar mais de 20 anos fazendo sexo e só ter um problema desses uma única vez??? Sim, PROBLEMA – para mim. Se para você a gravidez é uma benção, engravide, adote uma criança, sei lá. Mas não queira que alguém que sente nojo ao ver o coração de um negócio batendo passe 9 meses (e o resto da vida) aprisionada. E não vomite merdas dizendo que a pessoa não se protegeu – além de lembrar-se, mesmo quando a pessoa de fato não se protegeu (não foi meu caso), que o homem é tão responsável pelo ocorrido quanto a mulher.

    E pro comentarista que questionou sobre o pai biológico: sim, ele soube, sabe. E pagou metade dos custos. Além de ficar ao lado nos dias pós-aborto de dores intermináveis, cuidando de mim. Agradeço conhecer um homem que, por mais que pense diferente, deixou a escolha nas minhas mãos, pois sabe e entende que as maiores consequencias, físicas e emocionais, da gravidez recairiam sobre mim – durante nove meses e após eles.