Babás e empregadas domésticas: relações que perpetuam racismo e machismo

Texto de Renata Corrêa e Srta. Bia.

Desde o fim de semana roda a internet o texto: Viagem levando babás. Se não conseguir lê-lo no link original, há uma cópia aqui. É o relato de uma visão casa grande/senzala que a sociedade brasileira carrega desde os tempos da escravidão. A babá não é uma trabalhadora com todos os direitos respeitados, é, antes de tudo, uma serviçal, que numa viagem familiar deve estar inteiramente disponível e ainda agradecer por ter tido a oportunidade de viajar. Alguns trechos são bem ilustrativos:

Na minha opinião, em algumas ocasiões as babás são extremamente úteis, em outras são dispensáveis e em outras ainda são item de “terceira” necessidade. Enfim, acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre vão representar um novo integrante à família…

…na ida no avião perguntou se podia aceitar o lanche, se tinha banheiro, se ela podia escolher aonde sentar, enfim, prefiro assim do que as folgadas que vão logo pedindo refrigerante ou sei lá o que e ainda adoram falar suas experiências pessoais de viagens ao exterior.

…Em outras oportunidades em que vc quer que ela coma antes porque o restaurante é caro ou porque vão outros casais vc pode dizer problemas, tipo assim, “hj vamos a um restaurante com a comidas muito diferentes que vai demorar ou muito caro e etc, então vamos passar pra vc comer em algum lugar, vc prefere pizza ou Mc Donals”, porque, lembre-se ela está trabalhando.

…Nesta segunda viagem ela ficou encantada, me mandou mensagem quando chegamos agradecendo e eu acho bonitinho a pessoa dar valor pq barato não sai uma viagem dessas pra gente. Então , mais uma vez fica a dica: deixe tudo claro, pra não se arrepender depois…

A mulher que escreveu esse post não é a única que pensa dessa maneira, portanto, não adianta culpar e crucificar apenas essa pessoa. As relações com trabalhadores domésticos no Brasil tem estreita relação com nosso passado escravocrata. Assim como ela, há muitos homens e mulheres brasileiros que encaram os trabalhadores domésticos como pessoas que devem ter gratidão por estarem empregadas e por terem a chance de conviver com uma família de classe social alta. Isso, quando não os tratam como bens da família, sem permitir qualquer tipo de vida particular.

Trabalho doméstico e as mulheres negras

Segundo dados de 2005 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), existem no Brasil cerca de 6,6 milhões de pessoas no trabalho doméstico, das quais 93,4% são mulheres. Destas, 55% são negras. De todas as mulheres que trabalham no País, 17% são domésticas. O trabalho doméstico como atividade remunerada é muito desvalorizado socialmente, concentrando uma série de aspectos excludentes, como baixa remuneração, jornada de trabalho longa e ilegalidade na contratação. Influencia diretamente nas discriminações de gênero e raça, especialmente ao eleger um papel para a mulher negra na sociedade.

Infelizmente, o 13 de maio não foi capaz de sepultar o passado escravista do nosso país. As reminiscências desse período estão presentes por todos os lados. Na violência policial contra a população negra, na morosidade em relação a implementação do sistema de cotas no ensino superior, na precariedade do acesso aos serviços básicos garantidos pelo Governo. O trabalho doméstico também é parte desse processo histórico de invisibilidade e desrespeito às afro-brasileiras. Referência: Carta aberta ao Grupo Antiterrorismo de babás, por Luana Tolentino.

A desigualdade social brasileira tem bases nessas relações. E, principalmente, na ideia de que é um absurdo que empregadas domésticas, babás, porteiros, jardineiros ou serventes queiram salários mais altos e os mesmos direitos trabalhistas que advogados, engenheiros ou servidores públicos. Porque é um absurdo que as pessoas que tenham uma babá nesse país tenham que cortar gastos, como uma viagem ao exterior, para pagar hora extra, férias e outros direitos.

[+] Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus.

[+] Senzalas & campos de concentração.

Maria José dos Anjos Alves, de 18 anos, afirma ter trabalhado durante quase dois anos em uma residência da cidade de Riachuelo, como empregada doméstica, limpando a casa, cuidando dos filhos da patroa, de 6h às 18h, de domingo a domingo, sem férias, sem feriados e recebendo apenas R$ 200 por mês. Hoje fora do emprego, ela pretende ingressar na Justiça cobrando seus direitos. E, se depender das novas regras que o país pode aprovar em relação aos empregados domésticos, esses direitos serão cada vez mais amplos. Foto de Adriano Abreu/Tribuna do Norte.

Maria José dos Anjos Alves, de 18 anos, afirma ter trabalhado durante quase dois anos em uma residência da cidade de Riachuelo, como empregada doméstica, limpando a casa, cuidando dos filhos da patroa, de 6h às 18h, de domingo a domingo, sem férias, sem feriados e recebendo apenas R$ 200 por mês. Hoje fora do emprego, ela pretende ingressar na Justiça cobrando seus direitos. E, se depender das novas regras que o país pode aprovar em relação aos empregados domésticos, esses direitos serão cada vez mais amplos. Foto de Adriano Abreu/Tribuna do Norte.

Procuram-se domésticas ou serviçais?

Essa semana também saiu no Estadão uma matéria que mostra o quanto é catastrófico que o salário de uma doméstica esteja na faixa de mil reais: Procuram-se domésticas. Paga-se bem.

Casada e mãe de duas crianças pequenas, uma de oito e outra de seis anos, a advogada tem uma jornada de trabalho longa: fica cerca de 12 horas fora de casa diariamente e precisa de duas empregadas domésticas, uma que dorme no emprego e outra que vai e volta, para administrar o lar. O problema é que Andrea ficou sem a empregada que vai e volta. Daí começou a peregrinação da advogada pelas agências de empregos domésticos em busca de uma nova profissional.

O problema nesse caso é apenas a falta de empregada? Por que essa mulher casada não tem ninguém para dividir tarefas? Por que mulheres e homens trabalham 12 horas por dia e achamos normal? Por que é preciso que uma das empregadas durma no emprego? Ela não tem casa? Não tem sua própria família? Você, que está lendo esse texto, dorme no emprego? Como fazem as pessoas que trabalham 12  horas por dia, como muitas trabalhadoras domésticas, mas não tem dinheiro para contratar uma empregada doméstica?

O que as pessoas irão fazer, quando não houverem mais empregadas domésticas ou babás para contratar? Vão importar babás paraguaias ou bolivianas? Por que não questionamos os horários de trabalho de todas as pessoas, para podermos ter tempo para cuidar das crianças? Por que não lutamos por escolas em período integral e creches públicas? Por que não propor lavanderias populares? Espaços de lazer? Por que não pensar em elementos que poderiam nos ajudar na criação das crianças e nas tarefas domésticas, que demandam sim muito tempo, mas são coisas com as quais temos que lidar?

Em dezembro de 2012, foi aprovada pela Câmara dos Deputados, a PEC que amplia direitos das empregadas domésticas. Ao invés de comemorarmos essa decisão como mais um avanço nos direitos trabalhistas, a maioria das matérias reclama do peso que isso terá nas contas do empregador. Essas pessoas provavelmente querem voltar ao tempo em que o salário mínimo não aumentava anualmente. Porém, qual o impacto que a falta de direitos trabalhistas teve na vida de milhares de pessoas durante anos? Deve haver até mesmo um impacto na economia dessa parcela da população, mas não interessa pesquisar isso, não é mesmo?

Como não é possível contar com o bom senso para regular relações de trabalho, principalmente dos trabalhadores domésticos, que não raro são submetidos a todo tipo de opressão travestida de “afeto” e de que eles “são da família”, as leis devem ser cumpridas.

Trabalhadores que viajam a serviço recebem hora extra, diária para alimentação, transporte e não estão à serviço 24 horas por dia. Por que um trabalhador doméstico não estaria submetido as mesmas regras?

Maternidade e Gênero

Outra questão que chama a atenção é a agressividade mal dirigida para autora do post, citado no início desse texto. Sim, o relato dela é um retrato didático da desigualdade e do sistema de castas e privilégios que assola o Brasil e as relações de trabalho, mas muitos comentários foram a respeito das escolhas pessoais dela a respeito da maternidade. Criticam o fato dela “ler uma revista” enquanto a babá faz castelinhos de areia. Ser mãe não te obriga compulsoriamente a gostar de determinadas atividades. Alguém questionou por que o marido não faz castelinhos ou senta a bunda na areia para brincar com a criança? Ou o quanto ele se dedica a dar atenção aos filhos? Não questionamos, porque está subentendido que isso é papel apenas da mãe.

A questão básica é que quando falamos do trabalho doméstico é como se não falássemos de trabalho ou de pessoas, falamos de objetos. Eu não questiono o fato de não dar para ser super-mãe, ora, as babás de nossos filhos sabem disso na carne, pois muitas vezes deixam os filhos delas com a vizinha, mãe, avó para poderem cuidar dos nossos e alguém parou pra pensar nisso ao fazer propostas que no final das contas reverberam o racismo incrustrado no Brasil? Referência: Quando foi que as babás viraram coisas? Durante a escravidão, por Luka Franca.

No fundo, a polêmica mostra como ainda estamos presos a uma visão de que o trabalho doméstico é um trabalho “menor”, seja ele exercido pela mãe ou por uma empregada contratada. Questiona-se não só o valor pago para babás e diaristas, um trabalho menosprezado, não intelectual e majoritariamente feminino, como também questiona-se a maneira que cada mulher exerce a sua maternidade. Como se “cuidar das crianças” fosse apenas sua responsabilidade e o companheiro não tivesse nenhuma participação nessa relação. Perdem patroas e empregadas. Perdem as mulheres como um todo, quando não entendemos que o exercício das funções internas e domésticas são responsabilidade de todos os membros da família, independente do gênero.

Desigualdade perpetuada

Para que a desigualdade social seja constantemente perpetuada é preciso que ricos e pobres saibam quais são seus lugares e seus espaços de poder. Da mesma maneira, mulheres e homens tem papéis sociais pré-estabelecidos. Qualquer pessoa que fuja ou não se encaixe nesse jogo pré-estabelecido é rejeitada socialmente. Quando não questionamos esse sistema perverso que traça linhas invisíveis em nossas relações sociais, perpetuamos o machismo e o racismo na sociedade, dentre outros preconceitos.

Dessa maneira, arquitetos e engenheiros continuam projetando apartamentos com dependência de empregada, já estamos exportando essa ideia para Miami. O cabelo afro não é visto como sinônimo de elegância e beleza. As mulheres são as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças e pelas tarefas domésticas. Mulheres negras são preteridas em cargos que exigem boa aparência. O período escravocrata foi há muito tempo e nossa realidade não tem nenhuma ligação com nossa história. Afinal, a carne mais barata do mercado sempre foi a carne negra.

O fato de o mercado estar hoje mais favorável ao trabalhador fomenta comportamento inusitado. Andrea conta que, no primeiro mês de trabalho, a nova empregada já pleiteou o depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A contribuição ao FGTS para empregado doméstico ainda não é obrigatória, mas em breve deve virar lei. “Isso é reflexo de uma economia aquecida. Hoje as empregadas domésticas estão por cima da carne seca”, diz Andrea. Referência: Procuram-se domésticas. Paga-se bem.

[+] Brasil é país com maior número de domésticas no mundo.

[+] Mundo tem mais de 52 milhões de trabalhadores domésticos, 83% são mulheres.

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Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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55 Comentários para: “Babás e empregadas domésticas: relações que perpetuam racismo e machismo

  1. Excelente post, srta. Bia. Me fez pensar em quando eu ainda não trabalhava em casa e o chefe falava como treinava a empregada dele, ensinava como queria que as coisas fossem feitas, pagava cursos de culinária para que ela ficasse “do jeito certo”. Nunca soube dizer exatamente por que ouvir aquilo me incomodava tanto. Obrigada por tirar esse peso do meu peito!

    E o texto me fez lembrar também de um comentário que a feministacansada (se não me falha a memória) divulgou esses dias: http://blog.daniduc.net/2009/09/14/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/

    Devo dizer que essa igualdade foi a coisa positiva da minha viagem para a Europa. Você realmente sente na pele que o serviço de (quase) ninguém é menosprezado e que a maioria recebe um salário que permita uma vida digna.

  2. Bia, minha musa, ontem pensei muito em tudo isso quando fui ao fórum. Apesar de eu ser advogada, vou muito pouco ao ambiente forense, propriamente dito, e me ocorreu uma coisa. Toda vez que eu passo na porta de segurança, ela apita mas NUNCA, NUNCA, foi pedido que eu abrisse a minha bolsa, NUNCA fui revistada. Entretanto, já vi INÚMERAS vezes mulheres negras (e também homens) serem revistadas, terem as bolsas abertas. O motivo, minha amiga, todos sabemos. Fico triste e às vezes dá vergonha de ser branca.

  3. Acho esquisito apontar o trabalho doméstico, em si, como degradante, ou como exploradores aqueles que contratam babás e empregadas. Degradantes são as condições de trabalho de algumas (a maioria), e exploradores são aqueles que as impõem, claro. O texto em questão é, obviamente, odioso, mas não sei se reflete a situação geral. Quero dizer: o que faz um casal de classe média com filhos? No lugar em que trabalho, a maior parte divide tanto responsabilidades quanto despesas. Ambos precisam trabalhar. Quem consegue sair do trabalho, pegar transporte público e chegar em casa cedo ou na creche a tempo de resgatar o filho? Conheço pouquiíssimas pessoas que fazem aquele horário clássico, 9-18. Em alguns casos, pela “degeneração” das relações de trabalho; em outros, pela própria natureza do trabalho.

    • Ruth, não são “exploradores”. Eu, enquanto pude, paguei uma empregada doméstica – isso até 2007, 2008 – e àquela época o salário dela já era R$ 1.000. Porque ela cuidava de uma casa (não apartamento, casa) com um quintal imenso, com três cachorros grandes e da roupa de duas meninas pequenas (que ficavam no integral da escola – três a quatro mudas de roupa, diariamente, cada uma) e de uma adulta. Era muita coisa para lavar, passar, limpar. E eu sou divorciada, e meu ex mora em outra cidade.
      O que está se discutindo aqui é que o empregado doméstico, a babá, a faxineira, são vistos como trabalhadores que quinta. Quando na verdade sem eles os que se consideram trabalhadores de primeira não sairiam de casa de manhã. Minha empregada sempre recebeu de mim o salário e o agradecimento por um trabalho bem-feito – da mesma maneira que eu sempre elogiei e incentivei quem trabalha para mim.
      Explorar o trabalhador pode acontecer em qualquer classe profissional – mas com as empregadas domésticas é natural, é banal, é comum, é o “correto”, porque “se der corda elas se acham” – ou você nunca ouviu isso?

      • Sim, Suzana, estamos dizendo a mesma coisa, concordo inteiramente com você. Talvez eu não tenha me expressado bem. Eu estava me referindo a alguns comentários que parecem considerar que ter empregada é, em si, reprovável, fazendo referência às mulheres “ricas” que não conseguem ou não querem cuidar dos filhos ou administrar a casa. Argumentei que há um grande contigente bem classe média que (como eu e, creio, você) precisa do serviço delas porque não contam com nenhuma rede de apoio para conciliar trabalho e família. E, claro, é medonho ver como pra muito gente parece natural tratar mal, fazer exigências absurdas ou mesmo negar direitos elementares.

  4. Excelente texto, também me dá embrulho no estômago ver a relação preconceituosa que se dá com empregados domésticos. E também concordo que a participação do pai nunca é questionada, talvez porque quem sempre fala disso somos mulheres. Mas acho que há mais entre o céu e a Terra.
    É comprovado cientificamente que bebês de até 3 anos, idealmente, não deveriam ser deixados em creches e escolinhas, muito menos em tempo integral. O desenvolvimento CEREBRAL deles depende de vínculo afetivo e atenção dedicada de um adulto. Coisa que a proporção de adulto por criança nessas instituições não permite oferecer com qualidade, em qualquer lugar do mundo.
    Enquanto essas crianças não vão à escola (teoricamente por 3 anos), poucas pessoas (mães ou pais) podem se dedicar a dar essa atenção necessária. Para conseguir isso, precisamos de licença maternidade e paternidade mais longas, leis trabalhistas mais flexíveis e mecanismos que possibilitem que pai e mãe se revezem nessa tarefa sem depender tanto de instituições ou babás. Quando falamos de países desenvolvidos, de gente que limpa seu próprio banheiro, nos esquecemos de verificar que alguns oferecem 1 ou 2 anos de licença maternidade, que o pai pode tirar parte desse tempo para se revezar com a mulher, que as pessoas não trabalham 12h por dia, podem optar por jornadas de trabalho mais curtas. As pessoas têm tempo de qualidade com seus filhos sem que isso represente um sacrifício às suas vidas profissionais.
    A babá é um resultado da combinação de muitos fatores culturais e sociais, mas nem todos têm viés de preconceito de gênero ou cor. Fatores que também devem ser questionados. Mas, a partir da decisão de incluir uma babá na nossa vida, acredito que ela deva construir um vínculo com o bebê e a criança, ser da família no sentido afetivo, sim. Ou dá no mesmo colocar a criança numa creche. O que não significa que as leis não devam ser cumpridas e a profissão de babá ser respeitada como qualquer outra deve.

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  8. Srta Bia, já nos estranhamos por esse mundo sibernético, mas eu agradeço, imensamente pela clareza e por todo didatismo do texto.

    Parabéns!!

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  10. Dos 3 aos 7 anos fui criado por uma babá. Ela não recebia nem o salário mínimo da época – que já era uma miséria. Dormia no trabalho – ou seja, por um salário indigno, trocava a vida familiar dela pela nossa. O duro é pensar que ela gostava de mim como de um filho, e eu chamei ela de mãe algumas vezes. Depois que foi despedida nunca mais me viu.

    Qual é o “salário digno” pra um emprego tão pesado no sentido pessoal e emocional? Milão? Nem fodendo. Abandonar a vida pessoal desse jeito é coisa de médico, de geólogo da Petrobrás, de CEO. Não existe salário digno para uma babá que uma família de classe média possa pagar.

    Parabéns pelo post, apoiar a luta das empregadas domésticas por dignidade sempre vale a pena.

  11. Renata e Bia,

    Desculpa. Acho que o texto ficou agressivo e ruim, pois em vez de nos fazer refletir sobre a relacao e tentar mudar algo para melhor, ele sugere o fim da profissao e escolas integrais, onde criancas saem perdendo, muito.

    Criancas precisam ficar na escola em periodo integral, sem saber como e a vida dentro de casa, como a comida e preparada, como a roupa e lavada, como a vida funciona por que? Qual o beneficio de escolas integrais, a nao ser receptaculos de criancas? Que bem isso faz para eles? Uma escola segura, onde seu filho nao vai ser exposto a sexismos, violencias e doces custa caro, uns 700 reais ao todo por meio periodo, 1500 reais por um periodo inteiro (em BH, SP o valor e maior). Uma empregada pode receber isso e dar um ambiente melhor para seus filhos. E um cargo maravilhoso.

    E os filhos dela? Ficam com a avo, com a cuidadora de criancas do bairro, com a creche. A relacao e mto mais proxima que parece. ”Os filhos ficam com a pessoa mais cuidadosa que eu arrumei para cuidar deles enquanto eu preciso trabalhar”, vale para os dois lados. Um paga mais pelo servico que outro. Acho que as licencas maternidade\paternidade deveriam durar 3 anos, ate a crianca entender que bater e errado, que mandar calar a boca e errado, estabelecerem uma saude mental que vai durar para o resto da vida e tambem para dar tempo aos pais aprenderem a serem pais. Como proibem parar de bater sem ensinarem aos pais como educar sem bater? Eu nao bato, mas estudei MUITO para aprender. E quem nao tem tempo pq trabalha mto, faz o que?

    Uma empregada nao deveria mesmo ser vista como uma profissao desmerecida, nem mal remunerada, mas qual o sentido de virar fritadeira se vc pode ficar com criancas, em uma casa onde vc pode descansar e ver tv? Sao pessoas boas que vc coloca dentro da sua casa para te apoiar enquanto vc tambem trabalha, em algo que paga mais (por que o mundo ainda e injusto). A relacao deveria ser boa para as duas. Nao e uma pessoa da familia, mas e alguem que merece carinho e respeito por todos da familia. Comer bem, brincar, ser feliz. Qual o sentido de ter uma pessoa infeliz como empregada? Deixar seus filhos infelizes, sua casa mal cuidada, o mundo mais injusto por tratar mal alguem que e tao gente quanto vc?

    Agora, eu acho legal ter alguem brincando com meus filhos. O emprego e chato pela parte da limpeza, mas nao e ruim, vc joga bola, brinca de boneca, passeia no parquinho, ve tv. Minha baba que me criou e uma amiga ate hj, nos vemos, abracamos, adoro ela. Por que nao pode ser assim com todo mundo? O que acontece de ruim e a falta de respeito que as pessoas tem pela profissao, heranca maldita de tempos escravos, mas isso eu acho inaceitavel. E mtas pessoas tambem. Mas a profissao deveria continuar existindo, e um trabalho lindo! Com horarios como os nossos, e ferias, e respeito, muito respeito. Porque criancas merecem um ambiente caseiro gostoso. Quem nao acha legal ter uma pessoa carinhosa cuidando dos seus filhos em vez de uma pessoa cuidando de 8 criancas em um ambiente que vc sabe que vai ouvir ~isso e coisa de menina~ ou ~cuidado com o monstro ali atras~? Ser empregada e mto digno, merece respeito, mas sera que o resultado para isso e o fim da profissao? Somos tao incapazes assim de reconhecer o trabalho alheio como digno? Estamos eu vc e quantas pessoas mais pensando em leis mais dignas para elas, ja nao e um avanco (que deveria ter vindo anos atras)?

    Por que não questionamos os horários de trabalho de todas as pessoas, para podermos ter tempo para cuidar das crianças? Ai acho que vcs pegaram o ponto. Como ter filhos e trabalhar no mundo atual? Quais as profissoes necessarias para se ganhar o suficiente para manter a casa sozinha e deixar outra pessoa cuidando de seus filhos? Precisamos de outra renda e de trabalhos de meio periodo, para cuidar dos filhos e do salario. Que mundo e este? Como uma pessoa que tem um trabalho com faculdade nao consegue pagar uma vida com familia? Salarios de 2 mil reais, alugueis de mil. Como questionamos isso para as empresas e governo? Isso e outro atraso no pais, e acho que um (empregadas) nao vem sem o outro (falta de chance de cuidar de seus filhos). E a classe alta paga, mas a classe media sofre. kkkk E a necessidade deste profissional em um mundo onde a classe media esta morrendo, onde viramos todos iguais? O que fazer com seus filhos e sua casa quando vc precisa trabalhar? Como pagar por tudo? Colocar os filhos nos depositos de criancas?

    No mais, o texto e otimo. Precisamos dar dignidade a estes profissionais, sao pessoas como nos e merecem tantos direitos quanto a gente. Colocar uniforme no clube, na praia, no aviao sao abusos feitos por pessoas pequenas. Engracado vivermos em um pais que precisa de leis para proteger nossos grupos (gays, empregados domesticos, negros, pobres, etc) de pessoas de mente pequena ne? Abraco

    • Clara, desculpe, mas em que mundo você vive? “Ficam com a avó, com a cuidadora de criancas do bairro, com a creche”. Creche? Cuidadora de crianças do bairro? Eu tive uma empregada que deixava os dois filhos (os dois com menos de três anos) com uma vizinha que – esta sim – tinha montado um depósito de crianças em casa.
      Período integral em escola não é “depósito de criança”. A proposta é que quem fica nesse período receba reforço escolar, aulas de arte e literatura, esportes – o que é muito mais simples de se alcançar do que essa “reforma da natureza” que você almeja ver um dia. As escolas particulares têm isso, lutemos para que as públicas também (como já está acontecendo).
      Minha jornada de trabalho/estudo começa sempre às 8h e avança até as 23h. Minhas filhas estão em período integral desde que pisaram numa escola. Na minha casa nunca teve isso de “presenciar como a comida é feita e a roupa lavada.” Mais importante ainda, quando tive empregada (que passou a levar os dois filhos com ela) aprenderam que essa é uma profissão honrada, que deveria ser uma das mais bem-pagas e que garantia o chão limpo e a roupa bem-lavada e passada.
      “Por que não questionamos os horários de trabalho de todas as pessoas, para podermos ter tempo para cuidar das crianças?” Porque essa é uma função básica, histórica e socialmente feminina. Rosely Sayão publicou na Folha um artigo infeliz sobre o porquê as férias são um problema. Porque se a mulher fica em casa e é do lar, é madame; se tem empregada é porque empurrou suas obrigações pra um serviçal, enquanto ela, a mãe, não faz nada; se trabalha fora é uma egoísta, que delega à empregada o sagrado dever que deveria ser seu: o de criar os filhos. A pergunta permanece: quem fica com as crianças nas férias?

      Toda uma geração de homens foi criada, no Rio de Janeiro, no internato Maristas São José, na Tijuca. Ninguém morreu desajustado, nem as mães foram chamadas de egoístas e negligentes – claro, estavam em casa cuidado de seus maridinhos, como minha avó.

      Escolas de período integral, babás, empregadas domésticas são ALTERNATIVAS à mulher – que fica em casa ou que trabalha fora e busca uma carreira, realização profissional. A educação, os valores, o sentimento de família – minhas filhas têm isso, mesmo eu trabalhando 18 horas por dia e elas, passando 11h na escola.

    • Em que mundo deixar os filhos com uma moça/mulher que só está neste emprego porque não tem opção melhor é mais vantajoso do que deixar numa escola com professoras preparadas em que ela vai aprender coisas úteis e se desenvolver? Eu tive babá quando era criança e nunca vi a comida sendo feita nem a roupa sendo lavada, estava muito ocupada assistindo desenho ou Xuxa.

  12. Pingback: A relação eterna “Casa Grande e Senzala” no Brasil. Por João Humberto Venturini « Blog do Amstalden

  13. Gente, um ótimo filme que reflete a questão que esta sendo debatida é “Histórias Cruzadas”!

  14. Pingback: Sobre o texto “Viagem com babás” de Valéria Rios « esquizofril

  15. Pingback: Патувањето со дадилките, се покажа контроверзно во Бразил · Global Voices на македонски

  16. O texto é bom, faz refletir, obrigada por isso.
    Mas os extremismos são sempre paixões, busquemos equilíbrio e simplicidade também.
    As conquistas trabalhistas e sociais que tivemos até hoje não aconteceram de uma hora para a outra, todas elas vieram a seu tempo e possibilitadas cada uma pelas anteriores e pela evolução natural do ser humano e de seus códigos de ética.
    Acredito que a mesma coisa se dará com todas as questões ainda injustas, como desigualdade social, machismo, racismo, porque a natureza não dá saltos.

    Considero muito digno remunerar bem os bons profissionais, de qualquer profissão, empregados domésticos também. Mas, na minha opinião, a nova PEC, quando entrar em vigor, irá onerar tanto o contratante pessoa física, a ponto de inviabilizar a coisa para muitos empregadores, deixando na mão e na informalidade seus empregados.
    Não somos empresas e vai, sim, ficar muito pesado, para a maioria, se o governo não custear nenhum desses direitos, portanto, só trará benefícios para poucos trabalhadores, é o que acho.

    Sou muito bem casada, com um marido excepcional, que não “ajuda” em casa nem com os filhos, mas sim “divide” tudo que há para ser feito. Temos um filho de 7 e uma filha de 1 ano. Cuido dela pela manhã, enquanto o mais velho está na escola. À tarde trabalho, exerço meu lado profissional, eles ficam com minha mãe que, felizmente, ainda tem saúde para isso.

    Tivemos uma excelente empregada doméstica, por mais de cinco anos, registrada, com todos os direitos em vigor respeitados, tratada com educação e agradecimento, mas de maneira profissional, não como amiga ou familiar. Mas o afeto que ela desenvolveu por meu primeiro filho tenho certeza de que era genuíno e além da profissão.
    No emprego doméstico, sobretudo como cuidadora ou babá, é difícil separar o que é pessoal do que é ser profissional, como sinônimo de “não amigo íntimo”, tarefa mais fácil em outros tipos de trabalho.

    Infelizmente, depois que ela saiu, estamos desenvolvendo uma saga para manter a casa limpa, as roupas lavadas e passadas e a comida feita, entre diaristas e mensalistas contratadas e registradas por poucos meses. Isso quando não ficamos totalmente sem prestadoras de serviços. Não encontrei mais ninguém cujo trabalho fosse de qualidade, ou, no mínimo, que não quisesse me tratar com excesso de intimidade.

    Pelo fato de a empregada doméstica desenvolver o trabalho dela dentro de nossa casa, creio seja difícil que o tratamento mútuo seja somente profissional, como sendo o contrário de pessoal, como sinônimo de postura neutra e não invasiva nas questões privadas.
    Trata-se totalmente de questões privadas, aí é que está. A pessoa trabalha onde eu moro!
    Portanto a legislação não resolve tudo desse assunto. O discurso do “é uma profissão” não resolve essa questão.

    Tenho me deparado com falta de postura profissional e a qualidade dos serviços prestados também deixa muito a desejar. Não há, em nenhuma das que conheço, preparação alguma para se tornar empregada doméstica, “aprende-se com a prática”.
    Por isso, não vejo nada de errado em se pagar cursos de culinária, limpeza e cuidados com a roupa e lar, ou o que quer que seja, para que alguém trabalhe na nossa casa. Eu faria isso por alguém que demonstrasse merecer, que demonstrasse decência e boa vontade.

    Alguém estranha quando uma empresa capacita seus profissionais, quando investe para que esses cresçam e trabalhem melhor?
    Já que é uma profissão como tantas outras, nada seria mais natural que se qualificar.

    Do contrário, vou continuar acreditando nas evidências, que me mostram que, hoje em dia, só vai para os serviços domésticos, em geral, quem não conseguiu outra coisa, já que o país está de vento em polpa, felizmente, e as pessoas estão buscando estudar, o desemprego está em baixa, é maior do que nunca a oferta de cursos profissionalizantes. Sei de pessoas que, antes empregadas doméstica, estudaram e passaram em concursos públicos, ou saíram para o comércio e negócios de alimentação.

    Tomei conta do meu filho mais velho e tomo conta da minha filha hoje, entre amamentação exclusiva de 6 meses, banhos, trocas de fralda e alimentação, dividindo somente com o pai deles e com minha mãe (esta por períodos menores, pois busco não abusar).
    A babá de quem falei, auxiliava em determinados períodos do dia, tomar conta, brincar um pouco, pois também os pais não são máquinas que estejam o tempo todo com disposição para cuidar de tudo. Mas a educação sempre coube a nós, responder aos “porquês” e ensinar que se deve pagar o mal com o bem. A escola instrui, os pais educam, é no que acredito!

    Bom mesmo será quando chegar o tempo de amadurecimento certo para o nosso país, no que diz respeito à duração das jornadas de trabalho e das licenças maternidade e paternidade.
    Esperemos pelo melhor.
    Abraços.