A Bico de Pena*

Texto de Luciana Nepomuceno com contribuição de Deborah Junqueira e Ludmila Pizarro.

Não sei como desenhar o menino.

Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo.

(Clarice Lispector)

Tenho algumas amigas com filhos bebês e, quase diariamente, vejo fotos de suas estripulias no Facebook: Primeira papinha, engatinhando, montando a cacunda do vô, etc. Minha irmã tem um filho de 5 anos e, volta e meia, tem uma gracinha descrita: a primeira palavra lida, as tiradas espontâneas e engraçadas, as aventuras físicas de escalar, pular, correr, etc. Essa semana uma amiga querida que conheci recentemente de forma virtual, a propósito do aniversário de 16 anos do meu filho, disse que me achava uma mãe bem discreta. Como discrição não é um termo que costuma aparecer relacionado a mim (geralmente é estabanada, zoadenta, desastrada) perguntei por que ela pensava aquilo. E ela me disse que eu não costumava falar muito do Samuel, contar suas “estripulias, gracinhas, aventuras” (pra ficar nos termos que usei antes).

Pensei sobre isso e é verdade. Fiquei lembrando que, quando ele era menor, eu falava bem mais sobre ele. Ou, acho, falava bem mais por ele, no lugar dele, em nome dele. Quando ele foi crescendo, essa dinâmica foi mudando. Pra ser ele, ele é cada vez mais um outro, cada vez menos eu, cada vez menos meu. Cada vez menos minhas, as suas estripulias, gracinhas e aventuras. Agora são dele a voz e a seleção e, quando eu conto alguma coisa ainda (quem resiste a?) é de um lugar de participante, de espectadora, não mais de narradora onisciente.

E como uma coisa puxa a outra, dessa apropriação do discurso sobre si mesmo, fiquei pensando na conquista e relação com o espaço, processos que se acompanham, interagem e se definem, acho eu. Tenho cá pra mim que nós nos tornamos quem somos agindo sobre o mundo e, neste processo, significando a ação do mundo sobre nós. Ou seja, as crianças desenvolvem sua individualidade/subjetividade na interação com sua realidade concreta (seja material, seja relacional). Nesse processo, a negociação em relação aos espaços e objetos da casa se coloca na relação com as demais pessoas residentes; em relação aos espaços externos ao doméstico com os demais frequentadores. A criança ocupa espaços proporcionalmente maiores, tornando-se perante o mundo um sujeito progressivamente mais interativo, mais visível, mais independente da mediação dos cuidadores que antes era circunscrita à casa.

Espaços preferidos dos irmãos Lucas (13) e Raquel (7): os quartos! Foto de Humberto Massa.

Espaços preferidos dos irmãos Lucas (13) e Raquel (7): os quartos! Foto de Humberto Massa.

Uma das coisas mais difíceis que aprendi e vejo os cuidadores aprendendo (ou não) é deixar a criança pra lá. Isso mesmo: esquecer-se dela. Deixá-la em paz pra cair, desmontar o brinquedo, tacar a testa na quina da porta, brincar, pensar na vida, ou seja, abrir espaço pro seu mundo interior se expandir. Dizem lá Piaget e Vigotsky que linguagem, pensamento e fabulação têm íntima relação. Então nada melhor que dar um tempinho pra essas coisas, né. Claro que é um difícil exercício de humildade aceitar que não somos imprescindíveis para as crianças (nem pro mundo, #ficadica) e é um processo de desapego entender que as vivências deles não precisam sempre passar pelas nossas ou ser simbolizadas como nós as simbolizamos.

Pode ser difícil essa aprendizagem do “deixa quieto” num contexto em que a polivalência, a onipresença e a onisciência são características não só divinas, mas também cobradas como maternas. A mãe precisa saber de tudo, precisa estar a par de tudo e ter absoluto controle, do contrário não será desculpada e será enquadrada como “faltosa”, pouco zelosa. Não é raro ouvir a expressão: “essa criança não tem mãe não?” quando a mesma está fazendo alguma traquinagem. O pai, em contrapartida, encontra mais conforto e acolhimento quando a ideia é o “deixa pra lá”. Os comportamentos que levariam à censura no caso da mãe aparecem, no exercício da paternidade, como despojamento. O pai é considerado um pai tranquilo, desapegado e relax enquanto a mãe é considerada pouco atenciosa, desatenta. As demandas se transformam conforme o cuidador, como se houvesse sobre a mesma criança responsabilidades individuais e específicas, e não compartilhadas e coletivas.

A verdade é que não há fórmulas. Cada criança tem seu ritmo, sua formas de lidar com o mundo e tudo isso atravessa e é atravessado por vários elementos que não controlamos a priori. Agindo ali, na surdina, estão: a geografia do nosso entorno (crescer no sertão, na serra, em uma metrópole, cada um destes ambientes tem limitações e potenciais), a classe social a que a família pertence (o que pode possibilitar, por exemplo, que a criança tenha um quarto só seu, espaços individuais para ocupar), a quantidade e idade das pessoas residentes na moradia, a tecnologia a que se tem acesso, a proximidade e tipo de interação – ou não – com outras crianças na rua, primos ou na escola, os grupos de adultos com os quais a criança interage e a forma como esse processo acontece (avós, amigos dos pais, vizinhos)…

Conversando sobre o tema com xs outrxs cuidadorxs do FemMaterna, fiquei com a impressão que devemos dar destaque às pequenas atitudes cotidianas. Entre as coisas bonitas que aprendi, as que recordei e tudo que fui ressignificando sobre o crescimento das crianças e sua relação com o espaço, três coisas me chamaram a atenção e quis destacar pra gente pensar mais sobre isso:

1. A primeira foi a importância de construir um espaço que seja da criança e cada vez mais dela. Quando a criança é menor, o seu espaço (seja um quarto individual, seja sua rede, seja seu cantinho da cama) é determinado e construído pelos adultos ou, caso tenha outras crianças morando na casa, pelas pessoas mais velhas, residentes na casa. Nesse momento é relevante fazer esse espaço ser acolhedor e acessível: deixar os objetos do seu interesse (seus brinquedos, por exemplo) a seu alcance, organizar as coisas de forma que ela tenha acesso ao espaço. Quando a criança for crescendo e sua individualidade se consolidando e se manifestando, parece legal negociar as mudanças que ela deseja (dentro do que a família pode arcar) no ambiente. Outra coisa que me parece oportuno é respeitar, de acordo com as fases, a ação da criança sobre seu próprio espaço. Se é indicado que ela arrume as gavetas ou guarde os brinquedos e ela o faz não como o adulto gostaria, mas seguindo a sua lógica particular, considero salutar valorizar o que foi feito e respeitar essa lógica.

A mesa da criança e a prateleira dos filmes infantis na estante da família. Foto de Amanda Vieira.

A mesa da criança e a prateleira dos filmes infantis na estante da família. Foto de Amanda Vieira.

2. O segundo ponto refere-se à ocupação conjunta do que eu chamo áreas comuns ou espaço coletivo da casa: cozinha, sala, área, quintal… eu considero divertido, instrutivo (pra todos os envolvidos) e necessário (pra o aprendizado da convivência social) que as crianças ocupem os espaços comuns desde cedo. Nas interações com xs cuidadorxs na lista, foi recorrente a narrativa do prazer e interesse que as crianças têm nestes e por estes espaços. É na sala que elas arrastam cadeiras, espalham brinquedos, montam quebra-cabeças, veem tv, brincam com os animais, etc. É, também, a maior parte das vezes, na sala que elas interagem com os adultos em atividades que vão da realização de tarefas a brincadeiras físicas ou mentais partilhadas. Assim, potencializar a interação da criança com este espaço pode ser bem enriquecedor da convivência (separar os DVDS dela, deixar um lugar específico na estante pros livros ou objetos dela, negociar o arranjo dos móveis, o tipo de apresentação do espaço – e nessa negociação incluir a arrumação e recolha dos objetos espalhados). A ocupação do espaço coletivo passa também pelo aprendizado necessário de que o espaço é meu e é do outro também e a responsabilidade por ele é compartilhada como o é seu uso. Então faz parte da ocupação de espaço sua organização, devidamente combinada de acordo com as possibilidades (idade, condição física, entre outros fatores) da criança. Ela terá a possibilidade de compreender a construção e manutenção coletivas do espaço como necessárias e fundamentais para seu desfrute coletivo. Este pode ser também um momento interessante para vivenciar não só a divisão de tarefas de acordo com a idade, mas para a desconstrução da ideia de divisão de tarefas por gênero: então todos bagunçam, todos usam o espaço, todos o aproveitam e todos o organizam também. A discriminação e a desigualdade podem ser ensinadas desde cedo, então que se ensine a igualdade desde sempre e se quebre com impressões naturalizadas na cultura como, por exemplo, a ideia de que “as meninas são organizadas” e “os meninos são assim mesmo, bagunceiros”. Esses rótulos, além de encaixotar e rotular as crianças impondo-lhes expectativas, servem para legitimar a manutenção e reprodução de uma das faces mais nítidas da desigualdade de gênero que é a realização das tarefas domésticas designadas, quase exclusivamente, para as mulheres.

3. Por fim, a questão da rua: sair do quarto, sair de casa, sair de um tipo de estrutura que, por mais confortável, dinâmica e amorosa que seja, é, ainda assim, uma estrutura que determina padrões, que se calca em papéis. A rua, então, é um espaço privilegiado de ousar, reinventar, possibilitar à criança outros papéis que não os de filho mais velho, mais novo, único, irmão, etc. Parques, praças, parquinhos de brinquedos, a escola, espaços de socialização, expansão, interação, todos estes me parecem espaços privilegiados para a criança ir desenvolvendo a sua organização interno/externo, a simbolização do mundo objetivo e a construção mais ampla da sua subjetividade, além da cidadania, respeito e cuidado com o que é público. Interagir no espaço público favorece que a criança redimensione sua relação com as demais e com os espaços partilhados. Enquanto em casa as coisas são mais negociadas e os adultos estão mais dispostos a ceder espaço, na rua há limites mais rígidos, com menos disposição para flexibilidade e mais necessidade de reconhecimento do outro. No espaço externo à casa a criança vivencia, em proporção e complexidade aumentadas, o que começou a aprender no âmbito doméstico. Então se o espaço de casa é igualmente ocupado e desfrutado, que o seja o externo também, e também seria interessante que valesse para o “fora” o que vale no “dentro”, a igualdade intra-e extra-muros no que diz respeito ao gênero da criança. Meninos e meninas devem ser chamados a ocupar e utilizar igualmente o espaço da rua, e a cobrar seu lugar ali da mesma maneira, em condições de igualdade, passando pelo uso da quadra (quantas vezes vemos as quadras ocupadas por meninos enquanto as meninas ficam “naturalmente” quietinhas ali perto?) e pela extinção da frase abominável: “isso não é brincadeira de menina”, geralmente relacionada a algo que envolve intensa atividade física. A necessidade de se investir em uma convivência respeitosa se acentua quando lembramos que o preconceito e a crueldade se intensificam em relação a quem não se enquadra facilmente ao padrão (aqui um tocante depoimento sobre racismo e infância, aqui uma reflexão sobre o sistema binário, sua imposição violenta sobre os corpos e o sofrimento das pessoas trans e aqui um vídeo instrutivo de um adolescente de 12 anos resistindo ao bullying que sofre em espaço público, tanto concreto quanto virtual). O exercício da igualdade na ocupação dos espaços públicos é um passo pequeno, mas necessário, para que a rua deixe de ser um espaço hostil para as mulheres (aqui um bom texto sobre as diversas manifestações de desrespeito, pra dizer o mínimo, cujo alvo são as mulheres – de forma geral e em sua especificidade. São situações cotidianas, nos transportes públicos, calçadas, praças e tão imbricadas na cultura que se considera “normal” que as mulheres de todas as idades tenham que lidar com isso).

Hoje, meu filho é adolescente e vou contar pra vocês que este processo que vai da construção de um espaço individual até a ocupação responsável do espaço público não aconteceu assim (e nem é usual que aconteça), tão linearmente. Eu e o pai dele nos separamos quando ele tinha 02 anos. De lá pra cá nós dois moramos num apartamento, depois fomos morar com meus pais, o pai dele morou só, depois casou, depois eu voltei pro apartamento com o Samuel, depois foi morar conosco meu companheiro, depois me mudei pra trabalhar e o Samuel ficou morando com meus pais, depois foi morar comigo em uma cidade do interior do RN, depois votou pra o Ceará e agora mora com o pai. Uffa! Cansa só de ler, né?

De todo esse vai e vem, o que sei é que os espaços não foram sempre os mesmos e nem mesmo foram sempre os melhores espaços. Mas foram os espaços que construímos, no nosso potencial, com nossos interesses e respeito ao limite dos outros, dentro da nossa dinâmica familiar. Hoje, meu menino (cada vez mais ele, cada vez menos meu, cada vez menos eu) ainda deita no sofá e põe a cabeça no meu colo pra gente ver filme junto (ou, a bem da verdade, eu é que deito no colo dele) e deita na rede na casa da avó pra ler A Guerra dos Tronos, ainda são os espaços comuns o lugar de interação. E lá, no quarto que é ele, ops, que é dele, que ele joga, estuda e se prepara pra ir pra rua. Ser outro. Ser ele. Ocupar.

Teresa na sala de casa. Foto de Ludmila Pizarro e Leonardo Kenji Shikida.

Teresa na sala de casa. Foto de Ludmila Pizarro e Leonardo Kenji Shikida.

“Acho que o espaço da Teresa em casa é definitivamente a sala. Ela sempre morou no mesmo apartamento, então o desenvolvimento dela passou todo pela sala. É na sala que ela interage com os brinquedos e com a nossa gata Zul. A partir do momento que ela começou a engatinhar, com seis meses mais ou menos a gente cobriu o chão com placas de EVA que ficaram lá até depois dos 2 anos. Até hoje ainda tem muito brinquedo dela na sala, talvez por ser o cômodo mais espaçoso também. E hoje ela tem a mesinha que ela desenha, brinca de massinha, pinta e tal. Então, eu acho que de certa forma a sala representa bem o funcionamento da casa e da família, sabe.

Teresa na sala de casa. Foto de Ludmila Pizarro e Leonardo Kenji Shikida.

Teresa na sala de casa. Foto de Ludmila Pizarro e Leonardo Kenji Shikida.

Quando a Teresa era mais nova e tomava a sala inteira, era a necessidade de espaço que um bebê tem que falava mais alto. Ela ocupava a nossa rotina tanto quanto a sala, entende? Depois que ela foi crescendo, os espaços ficaram mais democráticos. Hoje a sala já não é mais só dela, mesmo sendo, ainda, um espaço que ela utiliza bem. E eu nem acho isso ruim. Acho que foi um processo natural, onde as necessidades dela foram trabalhadas sem stress e com muito afeto mesmo. Ela adora, por exemplo, assistir TV ou filminho deitada no meu colo. Hoje a gente brinca muito no sofá, só que são brincadeiras diferentes né? Hoje é uma coisa bem mais mental, de faz de conta, ou jogos, é uma relação diferente com o espaço, que pode ser compartilhado com outras atividades. Ela curte muito o quarto dela para dormir (o que eu acho muito saudável e ela realmente dorme muito bem), mas ela vai lá, pega o brinquedo e brinca na sala. E o resto da curtição realmente fica para os espaços externos. Ela adora ir em parques, clube, a escola dela é uma maravilha nesse aspecto, adora mata. Ontem mesmo a gente saiu para ir à padaria e ela me falando de uma “floresta que ela tinha ido que tinha muita palha’ E eu pensando: imaginação né? Aí ela falou, você também foi, mãe, quando o papai tocou gaita’. Aí eu me toquei que era um bar que a gente foi em Macacos, um vilarejo super perto daqui de BH, que um amigo nosso estava tocando e o Kenji deu uma canja. E achei fantástico como ela transformou o espaço verde em ‘floresta’ né? Acho que nessa idade tudo é bem mais interessante, mais colorido, mais mágico mesmo. E tem a escola, a Teresa tem o privilégio de estudar numa escola que tem uma mata enorme, casa da árvore, viveiro, uma estrutura bem legal.”

PS. Este post foi motivado, em grande parte, pelo ensaio do fotógrafo James Mollison que em uma viagem ao redor do mundo criou uma série de fotografias mostrando os quartos infantis. Se você quiser conhecer o resultado final do trabalho, é só espiar o livro dele aqui. Caso você, como eu, não leia inglês, pode ter uma idéia do trabalho nesse link e nesse vídeo.

* Título do Post em referência ao conto “Menino a Bico de Pena” de Clarice Lispector, no livro Felicidade Clandestina

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Luciana Nepomuceno é mãe do Samuel e escreve no blog Borboletas nos olhos.

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