Do medo

Texto de Deh Capella.

“Não fica com medo não que o bicho sente!”, frase tão ouvida quando era menina e morria de medo de cachorro. Eu imaginava o medo saindo de mim como uma onda, se desprendendo como se fosse uma aura, quase visível, quase palpável, e o cachorro poderia tocá-la, entenderia meu pavor e se aproveitaria dele, avançaria em mim. Então eu fazia aquele esforço imenso para não demonstrar meu medo, pra não sair correndo. O medo continuava lá. Não sei como ele passou, afinal.

Medo é um dos sentimentos que move o mundo, que provoca mudanças em indivíduos e grupos inteiros. O medo determina tendências de consumo e de comportamento. O medo é negócio e é fonte de lucro. O mundo é cheio de gente que se alimenta de medo, em migalhas, colheradas, tonéis, barris, oceanos.

Aquele sujeito que mantém a esposa e as filhas reclusas em casa pode parecer muito corajoso, muito senhor de si, mas tem medo, sabe? Medo de que aquelas pessoas, exercendo sua individualidade e sua liberdade, saiam de debaixo de suas asas, ameacem sua posição de superioridade doméstica, coloquem-no em situação vexatória perante seus pares. O mesmo acontece com as pessoas que subjugam mulheres utilizando argumentos morais e religiosos: eles têm medo de não poder comandar, de não liderar, têm medo da contestação. A pessoa que estabelece uma relação abusiva tem medo não de perder aquela pessoa em si, mas de perder aquilo que a sujeição dela representa.

Marcha das Vadias e da Maconha de Juiz de Fora - MG, em 2012. Imagem do Coletivo Sem Paredes no flickr, alguns direitos reservados.

Marcha das Vadias e da Maconha de Juiz de Fora – MG, em 2012. Foto do Circuito Fora do Eixo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A pessoa que regula sua linguagem e seu comportamento sabe que cercear gestos e palavras é apagar a subjetividade e tolher liberdade e faz isso por ter medo de que, sendo livre, você a sobrepuje, a conteste, de que você a enfrente, a questione, de que a apague. A pessoa que critica sua roupa tem medo de que você chame atenção, de que você seja uma pessoa mais atrativa, de que você seja modelo e outros te sigam.

Quem critica sua liberdade sexual tem medo de que a onda da “liberação” e da “vulgaridade” modifique sua realidade, atinja as pessoas ao seu redor e as cative. Quem critica seu riso aberto ou seu sorriso fácil tem medo de sorrir, tem medo de deixar os demais sorrirem e teme comparações, teme uma possível desvantagem.

Os que criticam qualquer decisão sua relacionada ao uso do seu corpo temem o fato de que existem coisas nesse mundo que estão além de seu controle e de sua compreensão, mas que estão perfeitamente ao alcance de sua empatia, de seu respeito – e empatia e respeito exigem humildade. E o medo de abaixar o topete, como lidar?

Quem contesta sua liberdade de amar quem quiser e se unir a quem você quiser perto de si teme não o fato de que “os nossos filhos vão começar a ficar igual a essa gente e a família vai acabar”, mas teme na verdade ver seu mundo pré-construído, ancestral e confortável ser abalado, tem medo das mudanças, tem medo de não ter qualquer controle sobre as coisas dali em diante. E não sabe que controle é ilusão.

"Freedom!", imagem de @sayan51 no flickr, alguns direitos reservados.

Freedom! (Liberdade). Foto de Sayan51 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Declarações abertas de medo já foram motivo de estarrecimento e de piada porque escancaravam um temor que até então era expresso na tentativa desesperada de domínio e de controle de algumas pessoas por outras. Porque vocês sabem: não é sexo, não é dinheiro, é tudo sobre poder. O poder que se perde, o domínio que se esfacela, sobre pessoas, sobre corpos, sobre ideias, sobre atitudes.

Neste final de semana começaram a acontecer pelo país as Marchas das Vadias. Nesse terceiro ano renova-se a esperança de que o movimento todo angarie cada vez mais simpatia do que rejeição, e os comentários de sempre já estão esparramados por aí, exprimindo desconforto (opa, isso é muito bom!), incompreensão e nosso velho conhecido, o temor.

Vamos seguir em frente. Como me diziam os adultos, tentando me confortar na presença dos cães que me apavoravam, “calma, eles têm mais medo de você do que você dele”.  Adiante todos os dias, vadi@s!

Deh Capella

Sou bibliotecária, mãe, feminista, leitora, musical, curiosa. Baby, we were born to run.

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22 thoughts on “Do medo

  1. muito bom o texto. e é verdade! medo de perder o controle e o poder.

    • As relações de dominação são baseadas no medo e a gente fica pensando que é só de um lado. Não é.
      Obrigada pelo comentário, Laila, um beijo!

  2. Tem razão. O medo é a base da relação de domínio. E muitas vezes o medo de perder o poder estabelece a violência, seja em qualquer relação que exista um dominante e um dominado. Se o dominado perde o medo, o dominante aumenta a violência, pois o medo muda de lado.

    • O interessante é que a gente pensa no medo como unilateral. Mas não é. ;)
      Obrigada pela visita, volte sempre!

  3. espero que isso valha pra mulheres que batem em crianças…

    • porque medo, é sempre medo né? eu acho nojento essa estratégia de dominação masculina mas, conheço feministas que acham certo bater em criança. será que a estratégia do medo, é só masculina? não, é uma coisa da nossa sociedade…

      • Então porque tem algumas mulheres que batem em crianças a gente tá proibida de falar de relações abusivas e o medo que as baseia?
        Não compreendi a lógica, desenha pra mim? É alguma indireta? Oi?

        • indireta? nem te conheço… não, mas, a partir do momento que uma mulher bate num menino, por exemplo, ela mesma, está ensinando ele a ser violento…
          só pra deixar claro: a violência e o medo, estão ligados a vários fatores e nem sempre a culpa é dos homens. meu pai foi abusado sexualmente por uma mulher, quando era crianca. eu tive professoras que puxaram meu cabelo dentro de sala de aula.
          enquanto os homens são responsáveis pela violência física nas estatísticas, as mulheres são as maiores responsáveis sobre alienação parental, o que não deixa de ser uma violência, porque aí, estamos tratando realmente dos mais fracos na cadeia. acho ingenuidade dizer que “algumas mulheres batem em crianças”. sempre parece assim, mesmo pra nós, homens que APOIAM a cusa feminista: os homens são genericamente maus e as mulheres, bom, “ALGUMAS” são… não acho que uma defensora dos direitos humanos possa bater numa criança… agora, que dá vontade de VOMITAR quando eu vejo que ALGUNS homens fazem com as mulheres… isso dá. Porque não são todos, né? A luta contra o preconceito-de-gênero deveria ser menos generalizante…

          • Se você for ver, Augustus, o texto não fala apenas de violência contra a mulher. Fala de relações abusivas e de dominação. A despeito disso sem dúvida, a base dele é violência contra a mulher, física e psicológica. Uma pessoa pode estabelecer uma relação violenta sem encostar o dedo em outra, perfeitamente.
            Não estou aqui, de forma alguma, eximindo qualquer pessoa – mulher, homem, feminista ou não – de culpa por qualquer tipo de violência. O tom do seu comentário me soou, infelizmente, acusatório nesse sentido, como se eu desculpasse mulheres feministas/defensoras de direitos humanos etc por atos de violência. E não o faço, de forma alguma.

        • e tipo, não é indireta: eu conheço feministas declaradas que batem no filho. então, como elas esperam que a violência acabe nessa sociedade, se elas estão educando os filhos na base da palmada? e olha que tem lei pra isso… e eu nunca vi uma lei tão discutida quanto a questão GLBT. A verdade é que, ninguém quer medo ou violência contra mulheres, homens, velhos, negros, gays, etc… mas quando o assunto são as crianças, aí entra na pauta ” pais e mães fazem o que quiserem”. ta aí, eu acho que EU vou lutar por essa causa. porque todo medo e violência vem da educação como diria J. Krishnamurti em seu “Discurso sobre o Medo”. Questão profunda.

          • Eu conheço de tudo. Gente que prega amor ao próximo que ferra o próximo de mil formas, conheço feminista que avacalha outras mulheres, conheço defensor de direito dos animais que é calhorda com humanos, existe infelizmente de tudo nesse mundo. Sua pergunta fica no ar mesmo, é difícil essa incoerência. A gente lida com isso da mesma forma como lida com os demais casos, tentando entender de onde vem, tentando interagir, tentando ajudar a pensar. Concordo inteiramente com você com relação à relação entre medo e educação. Tenho altas lembranças de tempos de aluna e professora, vi essa relação sendo explorada loucamente.

  4. Interessante que a dominação fisica sempre é do homem.Como o proprio texto diz.Mas boa parte da dominação subjetiva e indutora é exercida pela mulher. Bem. E aí??? Como ficamos?????
    ,

    • O que você quer dizer com dominação subjetiva e indutora, pai? Mulheres também estabelecem relações abusivas, mas apesar disso a maior parte dos casos de violência doméstica (física e psicológica) é perpetrada por homens. O texto fala de relações de dominação como um todo.

  5. estou com vc deh. eu só quero deixar claro que eu não sou um desses babacas que tem medo do feminismo, dos gays, etc. na real, eu só fico triste por ser homem e ter que carregar a culpa de tudo errado contra as mullheres nas costas, dentro de um sistema com o qual eu não colaboro. talvez aí, voce tenha sentido alguma coisa “errada” na minha resposta, mas te garanto que foi apenas emocional. eu adoro esse blog. eu tenho uma filha, e quero um mundo diferente pra ela e acho que todos homens (mesmo os que tem filhos homens) deveriam refletir mais sobre seus comportamentos advindos de uma educação da década de 50, completamente congelados.
    talvez eu devesse começar algum movimento, blog ou algum lance sobre “homens feministas”, não é? muito obrigado por você ser tão inteligente.

    • Eu acho que, antes de mais nada, que conversando a gente se entende. E se faz entender.
      E acho também que não tem por que você não começar algo nesse sentido, ou se integrar a algo que já exista. Já conversei com outros moços que tinham essa mesma angústia, de pagar de alguma forma por gente cretina que não representava seu pensamento/atitudes. Eu sinto muito muito mesmo.
      Bom, o que posso dizer? O BF tá aí, à disposição, estamos aí, pra discutir, pra prosear, pra trocar ideia.
      Beijo!

  6. Deh, to contigo! Acredito muito no que o Mia Couto fala de murar o medo. Escrevi esses dias sobre isso no biscatesocialclub. O medo é uma das ferramentas mais poderosas a controlar os corpos, é através dele que corpos são amoldoados e domesticados. Fico feliz que mais pessoas também fazem a leitura sobre o fenômeno do medo na nossa atualidade. um abraço

    • Eu fiquei com um pouco de medo, a princípio, de ser interpretada na linha “vamos passar com o rolo compressor, vamos reagir fisicamente” e etc. E não é bem isso, acho que a gente precisa entender um pouco de onde vem a violência, de onde vem a agressão, pra gente saber onde/como começar a lidar com ela e pra gente se empoderar também.
      Vou dar uma olhada lá no BSC pra ver seu texto, Xênia, obrigada pela indicação!
      :***

  7. ps: lágrimas caem dos olhos agora de manhã cedo lendo sua resposta.