O Feminismo e as empregadas domésticas

Texto de Alex Castro.

É impossível estudar o trabalho doméstico remunerado sem considerar também que a grande maioria dessas trabalhadoras são mulheres.

Graças a uma divisão de trabalho doméstica ainda muito machista, a liberação da mulheres latino-americanas de classe média muitas vezes se deu graças a uma maior disponibilidade de mão de obra barata (leia-se mulheres pobres, muitas vezes negras ou, pelo menos, mais escuras) que as substituísse nas tarefas domésticas.

Pode-se dizer que, para as mulheres latino-americanas, em larga medida, a libertação sexual teve soma zero. Algumas tornaram-se mais livres e outras, mais exploradas, e as perdas de umas anularam os ganhos das outras. Nada mudou, especialmente para os homens, que não perderam nada: continuam tendo suas cuecas passadas a ferro e seus bifes fritos no ponto exato, não importando pela mão de quem.

De modo ironicamente perverso, são muitas vezes as mulheres mais liberadas, progressistas e profissionais aquelas que mais precisam ter uma “escravinha” tomando conta da retaguarda doméstica para que possam invadir a esfera pública, tradicionalmente masculina, e lutar o bom combate. Como diria Roberto DaMatta (pobre DaMatta, cada vez mais reaça depois de velho), elas só podem sair à rua quando arranjam quem tome conta da casa.

Não existe como nós, feministas latino-americanas, resolver esse problema só entre as mulheres: como em muitas questões, é preciso também envolver os homens – um tema sempre polêmico.

Mas, sem reeducar os homens, de nada adianta tirar poder de umas mulheres para dá-lo a outras.

Diarista na praia de Copacabana. Foto de Olivia Gay. Uma exposição no Rio de Janeiro vai mostrar através de fotografias o cotidiano de algumas empregadas domésticas que trabalham na cidade. As imagens são de autoria da fotógrafa francesa Olivia Gay, que viveu entre novembro e dezembro de 2012 no Rio de Janeiro.
Diarista na praia de Copacabana. Foto de Olivia Gay. Uma exposição no Rio de Janeiro vai mostrar através de fotografias o cotidiano de algumas empregadas domésticas que trabalham na cidade. As imagens são de autoria da fotógrafa francesa Olivia Gay, que viveu entre novembro e dezembro de 2012 no Rio de Janeiro.

E você, leitora urbana, profissional, antenada, ecológica, consciente, esquerdista, feminista, militante, diga lá com honestidade:

Você também teve que comprar sua independência oferecendo outra mulher em holocausto no altar da sua domesticidade?

Não é um ataque: é um chamado à autocrítica e à reflexão. Uma autocrítica e uma reflexão que todas que cresceram privilegiadas em uma sociedade escravista e desigual precisam fazer em algum momento.

Eu não me excluo disso. O dedo que aponto é em direção, antes de tudo, ao espelho.

* * *

Texto inspirado na leitura do artigo “Feudal Enclaves and Political Reforms: Domestic Workers in Latin America”, de Merike Blofield (Latin American Research Review, vol.44, no.1, 2009), sobre as lutas para a formalização do trabalho doméstico na América Latina e sobre as dificuldades em incluir largos segmentos do movimento feminista hispano-americano nessa batalha. De acordo com dados da autora, o Brasil tinha 5 milhões de trabalhadoras domésticas em 2004.

***

Para chamar atenção para o sexismo da nossa língua, o texto acima usa o feminino como gênero neutro.

* * *

Sugestão de leitura: “Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social”, por Fernando Braga da Costa.

Profundo, lindo, fortíssimo. O autor era aluno de pós-graduação de Psicologia e, como parte de um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, teve que exercer algum emprego “humilde” – definido como não exigindo qualquer tipo de treino ou experiência. Tornou-se gari da USP e experimentou na pele a humilhação e a invisibilidade.

* * *

Estou escrevendo um romance chamado “Cria da casa: histórias de empregas & escravos”, passado no Rio, em Havana e em Nova Orleans, três cidades que ainda hoje precisam lidar com seu passado escravista e com seu presente machista e racista. Para isso, andei lendo bastante sobre o trabalho doméstico remunerado, no Brasil e no mundo.

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Alex Castro é um homem branco hétero cis (e também feminista, esquerdista, ateu, praticante de bdsm e poliamor), que consciente do lugar de privilégio que ocupa em nossa sociedade racista, machista, homofóbica, transfóbica e elitista, tenta utilizar esses privilégios para melhor pesquisar, refletir e promover pautas como feminismo, lutas sociais, consumismo, movimento negro, narcisismo, escravidão, trabalho doméstico. Site: AlexCastro.com.br e Facebook.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

27 pensamentos em “O Feminismo e as empregadas domésticas”

  1. É, finalmente alguém escreveu isso? Minha avó era doméstica, que mais eu poderia dizer? Minha avó e umas duas tias… Uma das maiores chacotas `as feministas é justamente essa: “o feminismo e o terrorismo de gênero terminam na babá e na cozinha…”. É duro ver feministas declaras ativistas dizendo:: “-Ah não, não tem condições de eu dar a grana do ônibus” ou ” -Mas isso não é culpa minha, é uma situação econômica!”. Na minha casa eu sou a empregada, a cozinheira… na verdade, eu faço o serviço doméstico… minha namorada não toca na vassoura pelo contrário, ela diz: “-mas esse lugar está uma bagunça!” kkkk. E enfim… as mulheres pagam impostos, não? Porque não existe então, um programa de creches subsidiadas pelo governo, para garantir a independência das mães que vão trabalhar e estudar?… No Québec, esse sistema funciona perfeitamente fazem décadas… e é um sistema que beneficia a “tod@s”, não? A idéia de cuidar do salário e dos direitos trabalhistas das domésticas é importantíssimo pra colocar o foco onde importa mesmo que é virar a ordem social de cabeça-pra-baixo. Pagamos impostos, precisamos de todo o básico que garante independência como Escolas, Creches, Saúde, Transporte Público. Não sou acadêmico, não tenho nem Curso Superior mas, seguramente o feminismo passa por outras conquistas sociais. Por mim, que elas passem mudando tudo.
    E é claro, mais do que redundantemente, há de se mudar o homem. Especialmente o homem latino-americano. Que vergonha. Que chato. Que sacal o homem latino-americano e sua necessidade de “provar” que é macho. zzzzzz

  2. Escravas? Amigo, por acaso paraste no tempo? E o que dizer dessas” pobres coitadas” que fazem serviço porco e nos roubam? Nunca tive uma só que fizesse jus ao atual PEC.

    1. É… É só cutucar que sai Heil Hitler! E nem coragem para escrever o nome completo tem…

    2. Acho que você entrou no site errado. O “Blogueiras da Classe Média que Sofre” é na porta ao lado.

    3. Não acredito que uma leitora desse blogue falou isso! Que tosco!!! Te aconselho a ler mais a respeito da luta de classes, do que está implicado na nossa sociedade desigual, e verá que essas que “fazem serviço porco e nos roubam” são vítimas dessa sociedade.

  3. Bom, tenho que colocar alguns contra-pontos… Creio que o problema maior é não reconhecer este trabalho como uma profissão digna, como outra qualquer. A ausência de homens domésticos é um fator alarmante e mostra o sexismo que ainda existe nesta profissão. Mas dizer que simplesmente alguém que é doméstica está entregue ao holocausto é um pouco exagerado. Se os direitos da trabalhadora estiverem sendo respeitados, valorizo muito o trabalho. É uma prestação de serviços que deve ser bem remunerada e reconhecida, e ao o ser, elevará socialmente as mulheres que já são profissionais da área – e quiçá, deixe de ser posto o sexismo neste mercado de trabalho. Concordo que muitas destas mulheres são exploradas e escravizadas. Contudo, mudar isto é diferente de ‘ir contra’ a profissão.

    1. oi karina. concordo. é um pouco como a questão das prostitutas: por um lado, é importante reconhecer a dignidade e a autonomia das pessoas que estão nessas profissões e, por outro, estudar os mecanismos de exclusão que fazem com que sejam ocupações vistas como “indignas” e, consequentemente, que acabam sendo exercidas pelos membros mais vulneráveis da sociedade. 🙂

    2. Concordo com você Karina, em gênero e grau, (e quiçá classe, raça e orientação sexual?). Acho que a pergunta dirigida às feministas (bombardeadas de rótulos) pelo autor, só poderia mesmo ser feita por um sujeito privilegiado. Quando o trabalho doméstico receber o mesmo valor que recai hoje sobre outros trabalhos, ele talvez possa ser realizado por homens e mulheres indistintamente. Por enquanto, acusar as mulheres brancas sacrificarem as negras afim de se livrar de “sua domesticidade”, ainda não é algo que possa ser feito impunemente por um homem branco heterossexual, porque sugere que seja um problema a ser resolvido entre “elas”.E nós com isso?

    3. Bem colocado, assim como não acredito que toda mulher que contrate uma emprega está sendo machista. Caso ofereça um emprego digno, com todos os direitos e respeito que qualquer profissional merece, e não se prenda ao gênero na hora de contratar, que ainda que poucos existem sim empregados domésticos.

  4. É fundamental que se desmascare essa questão. O comentário discriminatório de classe da Nayara exemplifica essa urgência e me enoja.

    Aqui em casa todo mundo entra na dança, porque serviço “de casa” é para quem mora na casa fazer.

    Enquanto isso não acontece para todos, devemos somar forças às trabalhadoras domésticas pela luta aos seus direitos trabalhistas.

  5. Eu sempre quis escrever sobre isso…
    Sou feminista, comunista, fui mãe adolescente, que até o nascimento do meu filho me dedicava exclusivamente a faculdade. Na minha casa já tinha uma empregada doméstica, mas nessa época nem me preocupava muito com isso… Até que as mordomias acabaram, a nossa empregada arrumou um emprego melhor, e meu pai falou que não colocaria ninguém para substituir.

    Eu então me via com estágios a fazer, faculdade a cursar, e um filho para criar. Sem creches públicas, e com escolas caríssimas (e muitas delas sem qualidade), me vi sem saída, e fui em busca de uma pessoas para me ajudar. Com salário de estagiaria, alguma ajuda do pai, não podia pagar muito (era o salário mínimo + passagem, sem carteira assinada – isso é muito humilhante) – e uma profissional que cuidava da casa e do meu filho, definitivamente deveria ter uma salário melhor.

    Hoje tento me virar sozinha, meu filho – depois de 4 anos – conseguiu uma vaga em uma escola pública, mas só no período da tarde. Então tenho que ficar em casa com ela pela manhã, o levo até a escola, tenho o período da tarde para trabalhar – mas ainda não consegui um emprego só de tarde. É realmente uma situação muito delicada para mim, que não quero ter outra pessoa trabalhando para mim, não porque acho o trabalho doméstico ruim, mas porque minhas condições não permitem pagar o salário justo. Nesta conjuntura, eu não posso trabalhar, não posso militar, não posso buscar meus objetivos fora de casa.

    Concordo com o post acima, a solução para isso é o Estado garantir escolas e creches públicas de qualidade e em horário integral, para todas as famílias.

  6. Concordo com o post, em partes. Não se pode tratar as domésticas como “vítimas do sistema patriarcal e do machismo”. São vítimas do capitalismo. O fato de serem apenas mulheres, sim, é um problema oriundo do sistema patriarcal. Mas “Você também teve que comprar sua independência oferecendo outra mulher em holocausto no altar da sua domesticidade?” – sério mesmo? As domésticas são trabalhadoras como outras quaisquer, não há vergonha nenhuma em fazer serviço de casa. O problema é que muitas vezes elas são exploradas, muitas vezes não têm seus direitos garantidos, e são desrespeitadas. Mas aí o problema não é o trabalho dela – são os patrões.
    Se a pessoa (seja mulher, homem, trans*, uma família inteira, tanto faz) não tem tempo ou condições para limpar a casa e precisa de uma faxineira, qual é o problema, desde que ela seja legalizada e respeitada? É o meu caso: minha mãe trabalha fora das 7 da manhã às 9 da noite, meu pai trabalha em casa o tempo todo, eu faço faculdade. Ninguém tem tempo de faxinar a casa. Por isso, a Sandra vem dois dias por semana e faz isso. E é tudo regular. E ela nunca é desrespeitada.
    Se as domésticas são vítimas só por fazerem faxina pelos outros, então os zeladores e caseiros também são.

    1. Me desculpe, mas não fez muito sentido o “Domésticas tem nada a ver com sistema patriarcal, mas o fato de serem todas mulheres, tem.” Oi? Mas como você mesma disse, é um fato, são quase que exclusivamente mulheres.
      De qualquer forma, você tocou num ponto, “mas geralmente são exploradas, mas a minha não é.” Isso é o que todo mundo diz. Mas não era bem esse o ponto, o ponto é que, o Brasil é o país que mais tem empregadas domésticas, todo mundo acha que trata a sua bem, mas será? Nos outros países também existem empregadas domésticas, mas não é tão comum quanto no Brasil, por que? Porque lá é caro, só os mais ricos que tem condições de pagar. E lá nesses países, a classe média não trabalha fora não? E como se viram pra conseguir arrumar casa mesmo assim? Por que só aqui no Brasil que a gente não consegue?

      1. No exterior como tu falou as condições são bastante diferentes, a maioria das famílias não tem empregada doméstica diariamente, no máximo uma profissional que vai um ou dois dias por semana para fazer a limpeza geral, e estas são muito bem pagas. É bastante diferente da nossa ideia de ter alguém a nossa disposição, até para trazer um copo d’água. Acredito que o trabalho seja digno e que deve ser muito valorizado, mas nossa postura e concepção em respeito as tarefas, obrigações e direitos há de mudar muito.

      2. Há que se considerar também outras grandes diferenças que existem lá fora e aqui dentro. Lá a carga horária de trabalho é a mesma que aqui? O tempo que é gasto no trajeto casa-trabalho-casa é o mesmo que aqui? As escolas são em período integral ou meio período? Há creches o suficiente?

        A existência maciça de empregadas domésticas no Brasil toca em outros tantos pontos e não apenas no machismo (embora ele seja um fator importante também).

        1. Não conheço a fundo sobre os horários de trabalho fora do Brasil, mas já ouvi alguns brasileiros que moram por exemplo, nos Estados Unidos, que lá a jornada de trabalho é muito mais puxada, que trabalham mais do que aqui. Não estou lá fora pra ver na prática, mas se você procurar dados na internet vai ver que não é tão diferente daqui, a jornada de trabalho “oficial” no Brasil não pode ultrapassar 44 horas de trabalho, na Suiça, por exemplo, não pode ultrapassar 45. Na Alemanha a jornada média é 41 horas, aqui no Brasil é de 39 horas.

          E é verdade sobre as escolas e creches, mas isso não justifica completamente porque pode até explicar no caso de quem tem filho pequeno, mas e casais sem filhos, pessoas solteiras e casais com filhos já grandes? Não estamos falando de babá, apesar de sabermos que aqui no Brasil muitas vezes a empregada doméstica acaba também assumindo esse papel, mas sabemos muito bem que não são só pessoas com filhos pequenos que tem empregadas domésticas. Claro que isso não tira a responsabilidade do nosso estado de dar sim essas condições pras famílias, até porque, e com quem ficam os filhos das domésticas?

          E é o que a Helen disse, lá fora as condições delas são bem diferentes, são mais caras porque recebem um salário mais justo. O que eu quis dizer é que se aqui no Brasil tanta gente na classe média tem condições de pagar, é porque o salário delas não é tão justo assim, por mais que cada um acredite que o da sua seja.

          Mas concordo que a origem não é SÓ o machismo. É principalmente a desigualdade social. Porque é isso que proporciona as péssimas condições de trabalho, a exploração de toda uma classe de mulheres.

      3. Quis dizer que o trabalho doméstico não é machista. É alguém arrumando a casa de outra pessoa. Isso os zeladores também fazem, só que não em casas – em escolas, prédios, sei lá. O problema é serem majoritariamente mulheres, porque “cuidar da casa é coisa de mulher”.
        Mas a minha NÃO é. Eu sei o que é exploração. E elas também sabem. Só que precisam do dinheiro, então ficam.
        Conheço pessoas que acham que a empregada doméstica é escrava, pagam pouco, a mulher fica até oito da noite lavando calçada e ganha R$30 por dia. É para isso que serve a lei nova – só que muitas faxineiras não são registradas.
        Quanto ao fato de no Brasil ser comum ter empregadas domésticas, acho que isso é cultural. Brasileiro tem essa coisa de achar “vergonhoso” cuidar da casa, lavar banheiro. É a mesma coisa com frentista. Só o Brasil tem frentistas, porque era “vergonhoso” sair do carro para abastecer. E tem outro detalhe: nos países desenvolvidos, empregadas domésticas são caras mas au-pairs não são – e au-pairs são extremamente comuns.
        Não tenho a mínima vergonha de ter faxineira. Sei que ela não é explorada, sei que ela ganha bem, sei que não teríamos condições de cuidar da casa sozinhos sem ela. O problema não é ter faxineira. O problema é dar condições de trabalho dignas.

    1. ótimo esse quadrinho e infelizmente tem muita gente assim … pobres injustiçados que precisam pagar os direitos que possuem em seus trabalhos a décadas.

  7. Eu gostei da observação muito bem colocada “divisão de trabalho doméstica ainda muito machista”
    Acho que isto é a questão central de tudo, quando as pessoas perceberem que os homens também devem tomar conta de seus filhos, da sua casa e de seus parentes mais velhos, esta dependência extrema das empregadas domésticas (acho que foi essa dependência extrema que fez o autor citar “escravas”) ser menos intensa.

    E outra, para nós que temos melhores condições educacionais, profissionais e financeiras (estou me incluindo apesar de não possuir empregada na minha casa) ter uma pessoa para fazer atividades domésticas é uma mão na roda, pois o tempo perdido nestas atividades poderíamos estar estudando, trabalhando, ganhando mais dinheiro e tudo isso socialmente tem o “status” de ser “mais útil” ou mais “difícil” do que uma “pia cheia de pratos para lavar”.

    Eu concordo com o texto, apesar de ter ciência que não são todas as empregadas brasileiras que vivenciam um emprego abusivo.

    Quando a “PEC das domésticas” foi aprovada foi ridículo ver a quantidade de pessoas que se sentiam com seus direitos lesados porque as domésticas a partir de agora estavam exigindo largar no horário certo e ter seu FGTS depositado regularmente. Agora é claro, o Estado faz tudo pela metade! não adianta “libertar” as domésticas e não oferecer serviços públicos (creches por exemplo) de qualidade para que as pessoas não fiquem de mãos atadas.

  8. Desculpe Alex Castro, desculpe galera. Ninguém em sã consciência feminista vai discordar que a emancipação da mulher branca e de classe média se fez às custas das mulheres negras, pardas, indígenas e pobres. Nem eu. No entanto o texto – que é escrito por um homem branco, hétero, cis e de classe média – assume muito pouco o papel que os homens de modo geral têm nessa relação, e apresenta a questão da opressão de mulheres pobres como se ela fosse um problema especialmente entre mulheres. Como se as mulheres negras, pardas, indígenas e pobres não estivessem vivendo na opressão antes da emancipação da mulher branca, e como se a opressão que representa ter que realizar o trabalho doméstico em condições laborais precárias nada ou muito pouco tivesse a ver com o fato de que os homens de todas as classes sociais e cores nunca assumiram seu papel na realização do trabalho doméstico e do trabalho de cuidado.

    Aí, o problema da opressão das mulheres pobres, negras, pardas e indígenas fica parecendo apenas relativo à desigualdade de raça e classe, e pasme, entre mulheres. Não que isso seja pouco e que não seja verdade, mas acho que não dá pra ser homem e vir escrever um texto sobre trabalho doméstico e feminismo, se dizendo aliás feminista, e não problematizar bem o próprio lugar de onde se observa e se fala/escreve. Talvez essa não tenha sido sua intenção, mas o texto sugere e confirma essa interpretação. Eu concordo que nós mulheres brancas e de classe média nos emancipamos às custas de outras mulheres. Acho que lutar contra essa desigualdade entre as próprias mulheres é um dos maiores desafios e objetivos do feminismo. Mas a opressão que gera a desvalorização do trabalho doméstico e delegação do mesmo às mulheres de modo geral é muito mais antiga. Conhecendo outros textos do autor, sei que não se trata de uma “chicana” propriamente dita.

    Acredito, no entanto, que especialmente a parte final do texto foi extremamente infeliz: como assim o autor conclui interpelando apenas as mulheres? Porque as poucas menções ao papel dos homens nessa historia são poucas e sutis, feitas a modo de ressalvas. Lendo e relendo, não dá pra afirmar que as principais interpeladas pelo texto não são as mulheres. Acredito que em sua vida pessoal o autor seja mesmo um desses garotos conscientes, que não só escreve textos feministas, mas que assume a tarefa de abrir mão dos privilégios. Em síntese, que luta contra o machismo, que lava a louça, passa a roupa, limpa a casa. Mas achei bem mancada apontar o dedo pras mulheres o tempo todo, mencionando os homens de calcanhar e no fim fazendo a ressalva de dizer que não se exclui disso.

  9. Algumas observações sobre o texto:
    1) O segundo parágrafo parte de uma generalização questionável: que a liberação das mulheres latino-americanas se deu às custas das empregadas domésticas.
    Em primeiro lugar, porque as empregadas domésticas antecedem, e em muito, a ainda muito tímida “liberação” das mulheres.
    Há mais de 100 anos temos tido empregados domésticos (não só as chamadas “empregadas domésticas” integram essa categoria, mas outros profissionais, como caseiros, motoristas, jardineiros, de ambos os sexos) e as mulheres da classe tomadora dessa mão-de-obra, de livres, não tinham nada. Seu início de libertação veio em meados dos anos 70 do séc. XX, no Brasil. Nem mesmo o Estatuto da Mulher Casada pode ser considerado um marco da libertação social, pois a Lei (do inicio dos anos 60) não foi acompanhada, à mesma época, de mudança na situação social da mulher, que só deixou de ser considerada relativamente incapaz, mas continuaria por muito tempo tratada como tal.

    Logo, se a afirmação – de que “a liberação da mulheres latino-americanas de classe média muitas vezes se deu graças a uma maior disponibilidade de mão de obra barata” – fosse verdadeira, ela deveria ter se iniciado ainda na penúltima metade do séc. XIX, pelo menos.

    O fato de a família ter empregada doméstica também não implica em maior liberdade, menor opressão, para a mulher. Sei disso por experiência própria: todas as mulheres casadas que conheço, e têm contratadas tais profissionais, sofrem opressão machista dentro de casa e vivem relações desiguais com seus parceiros.

    Logo, discordo também do seguinte parágrafo:

    “De modo ironicamente perverso, são muitas vezes as mulheres mais liberadas, progressistas e profissionais aquelas que mais precisam ter uma “escravinha” tomando conta da retaguarda doméstica para que possam invadir a esfera pública, tradicionalmente masculina, e lutar o bom combate. Como diria DaMatta (pobre DaMatta, cada vez mais reaça depois de velho), elas só podem sair à rua quando arranjam quem tome conta da casa.”
    O trecho – “invadir a esfera pública” – deixa quem o lê com a impressão de que, na esfera pública, a mulher é uma invasora, e não alguém que nela está/ingressa por direito regular.

    A abordagem poderia ser muito interessante se focasse na apreciação do valor dessas profissionais, do reconhecimento de direitos, do respeito às suas pessoas.

    Valor dessas profissionais: discordo de quem propõe o “fim” da categoria, pois essa é uma postura de quem não enxerga o emprego doméstico como profissão. Empregadxs domésticxs são profissionais e não “ajudantes”, “quebra-galhos”. Temos que ser capazes, isto sim, de apreciar o valor desse trabalho.

    Reconhecimento de direitos: até há pouco, havia um outro regime constitucional.
    Respeito às suas pessoas: muito o que falar, inclusive quanto à segurança pessoal.

    E discordo da pergunta final, se tivemos que oferecer alguém em holocausto. Fica num tom de culpabilização das mulheres.

    Quantos homens já não investiram sexualmente contra empregadas domésticas? Não investem diariamente?
    Não fazemos ideia.

  10. Que este trabalho é uma profissão digna, isso é fora de dúvidas (quanto a ser reconhecido pela sociedade como tal, já é outro caso…) O que impede uma remuneração realmente satisfatória e a perspectiva de ascensão salarial é o fato de se tratar de um trabalho remunerado também por trabalhadores, e não por empresas. Não estou aqui me colocando do lado daqueles contra a PEC, alegando que empregados devem ter menos direitos/remuneração por terem patrões que não são empresários. O fato é que o salário dos empregados vai ser sempre menor que os dos seus empregadores (obviamente), que são, em sua maioria, pessoas da classe média (claro, há os mais ricos, mas estes são a minoria da população e portanto contratam a minoria dos empregados). Ficamos num beco sem saída enquanto não houver uma política pública que proporcione suporte às famílias no cuidado às crianças e enquanto não houver mudança de cultura na questão da co-responsabilidade com relação aos serviços domésticos.

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