Correio Feminino: mais machismo na tv

Texto de Marina Oliveira.

Não é novidade para ninguém que a televisão influencia mentes desde o dia em que foi criada, porém em pleno século XXI não é mais cabível que certos assuntos sejam abordados na “telinha”, que incentivem qualquer tipo de preconceito, ou pior que incentivem atitudes machistas e extremamente retrogradas.

Pois, se engana quem pensa que isso não acontece, a querida emissora do coração dos brasileiros o fez, e com direito a horário nobre, maquiagem, cenário, atores e muitos holofotes. No dia 27 de outubro, estreou a série ‘Correio Feminino’, no programa “Fantástico”.

Como uma tática barata para atrair telespectadoras, a Globo escolheu justo os textos da respeitada escritora brasileira Clarice Lispector — da época em que esta usava o pseudônimo Helen Palmer e escrevia para colunas jornalísticas dando dicas sobre comportamento, beleza e relacionamento para as mulheres da época —, mascarou todo o machismo com o “glamour” dos anos 50, passando a imagem de que nessa época a vida da mulher era fácil e cheia de luxo.

Luiza Brunet numa cena da série televisiva 'Correio Feminino'. Foto: Tv Globo/Divulgação.
Luiza Brunet numa cena da série televisiva ‘Correio Feminino’. Foto: Tv Globo/Divulgação.

Acontece, que a queridinha Helen Palmer vem dos anos 50! Ou seja, faz um tempinho, e algumas muitas coisas mudaram dos “tempos da brilhantina” para cá, mulheres conquistaram o direito político, o direito da educação e do emprego, porém a série defende que os conselhos de Helen podem ser aplicados tranquilamente a vida da mulher atual, e pior, bem ao pé da letra.

Os conselhos baseiam-se em frases como:

“Podemos pensar deles o que quisermos, mas precisamos deles para completar a nossa felicidade, não é mesmo?”

“Esclarecida é a mulher que acompanha o ritmo da vida atual. Ela estuda, ela lê, ela é moderna e interessante sem perder seus atributos de mulher, de esposa e de mãe.”

“Não se exiba demais, pareça distinta, eficiente e reservada. Responda com clareza a tudo que lhe for perguntado — mas evite a tagarelice, as palavras inúteis.”

“Uma mulher tola visa a todos os homens e geralmente não agrada a nenhum.”

“A tagarelice é um problema que todas nós temos de evitar. E de nada adianta dizer muita bobagem com os lábios perfeitamente maquiados.”

É de tirar o sono de qualquer feminista não é mesmo? Porém, tem muita mulher elogiando a série e anotando os conselhos para segui-los a risca.

Helen Palmer coloca o homem como necessário para felicidade da mulher, ignorando nossa independência e a existência de outra orientação sexual que não inclua homem algum. Além disso, defende a idéia de que a mulher deve sempre procurar agradar um homem em especial, e aprender a ser melhor para ele, além de visar o silêncio da mulher. Quando diz que devemos evitar a tagarelice repetidamente, significa que devemos nos calar e responder só o que nos for perguntado para não afugentar homem algum. E, como aborda Marina Colasanti, em contrapartida, se ser inteligente espanta algum homem, melhor, uso isso como filtro.

Além de machista, a série é contraditória, afinal, e se todas as mulheres seguissem os conselhos de Hellen Palmer a risca? Será que teríamos uma mulher apresentando o Fantástico? Será que mulheres teriam tempo de presidir uma empresa, ou um país? Muito provavelmente a essa hora todas nós estaríamos ocupadas demais tentando escolher as palavras certas para agradar “nossos” maridos/pais/filhos, os homens no geral.

A série nada mais é que outra tentativa de alienar mais mulheres e convencê-las de que o patriarcado é bom para todos e não oprime ninguém, desde que a mulher continue sendo o objeto do homem, ou melhor da sociedade, isso reflete que muita coisa ainda não mudou e que temos muito trabalho pela frente, mostra que ainda é preciso lutar por direitos iguais, que ainda é preciso brigar por comentário machistas por mais “inofensivos ” que sejam. Reflete que ainda é preciso exigir liberdade de sair na rua sem se preocupar com nossas roupas, com a certeza de que não seremos violentadas, nem culpadas por isso.

Liberdade de ser, vestir e falar como quiser, com a certeza de que não teremos julgamentos. É por isso que feministas do mundo todo lutam todos os dias, nessa cansativa luta diária que em certos momentos parece não ter fim, mas nesses momentos o melhor é olhar para trás e perceber o quanto já ganhamos e isso dará força para continuarmos e incomodarmos muitos machistas.

Marina Oliveira.
Marina Oliveira.

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Marina Oliveira tem 16 anos, é aspirante de psicologia e feminista desde que achou injusto ter que usar roupas com babados que incomodassem, enquanto os meninos podiam usar as mais confortáveis.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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