Olhos abertos: o apagamento das pessoas asiáticas na mídia

Texto de Tayná Miessa para as Blogueiras Feministas.

Já faz um tempo que acompanho as discussões sobre o apagamento de pessoas asiáticas na mídia.  Esses dias, ao ver a estreia da novela “Sol Nascente”, da Rede Globo, só consegui pensar: alguém precisa parar essas pessoas!

Primeiro, vamos pensar um pouco sobre o apagamento das pessoas asiáticas na mídia.

Nos filmes de Hollywood é bem comum encontrar atores e atrizes ocidentais fazendo um papel que, pelo contexto, seria destinado a pessoas asiáticas. Há exemplos clássicos, como “A Estirpe do Dragão” (1944) em que a atriz americana Katherine Hepburn interpreta uma chinesa que lidera seu vilarejo na luta contra os invasores japoneses. Em dois exemplos recentes, Emma Stone interpreta uma piloto descendente de havaianos, suecos e chineses em “Sob o mesmo céu (2015)”; e Scarlett Johansson interpretará Motoko Kusanagi no filme “Ghost in the shell” (2017).

Mas, se atrizes e atores ocidentais estão ocupando os papéis asiáticos, por onde andam as atrizes e atores asiáticos? Pois bem, as mulheres asiáticas estão interpretando papéis exóticos, onde geralmente são hipersexualizadas, sempre curiosamente misteriosas e sedutoras ou são submissas, quietinhas. E os homens asiáticos, pois bem, eles são representados quase sempre negativamente, como os nerds, os fracos, não atrativos e de pinto pequeno.

O caso de “Sob o mesmo céu” tinha tudo para ser uma lição a Hollywood, uma vez que a publicidade positiva do filme foi engolida pelo caso de whitewashing na mídia. Ledo engano. Quando a gigante Marvel começou a liberar as primeiras informações sobre um de seus próximos potenciais sucessos, “Doutor Estranho”, surgiu ali o nome da atriz Tilda Swinton, interpretando a tibetana Anciã, um papel que é uma verdadeira faca de dois gumes para o estúdio: ao mesmo tempo em que a Marvel minimiza a acusação de sabotar o destaque às personagens femininas de seu universo cinemático ao transformar o personagem em mulher (originalmente, o Ancião é um homem), o estúdio comete o mesmo erro de Cameron, além de cair no estereótipo de asiático ultra espiritualizado, uma figura mística que por vezes não permite identificação entre personagem e públicoQual o problema de Hollywood com os asiáticos?, por Susy Freitas.

Segundo, vamos pensar um pouco sobre o apagamento das pessoas asiáticas na mídia brasileira.

O apagamento fica bem explícito quando, em uma novela onde um dos temas é a imigração japonesa, o ator Luiz Mello é quem interpreta Kazuo Tanaka, chefe da família. E, a atriz principal do núcleo oriental é Giovanna Antonelli, interpretando a filha (de um relacionamento anterior, ufa! rs) da falecida esposa de Tanaka. Alice é adotada por Tanaka.

Replico aqui um trecho da entrevista de Giovanna Antonelli para o site EGO:

Em “Sol Nascente”, a atriz acredita no sucesso justamente dos quimonos. “Quando a roupa da novela chega ao Saara e à Rua 25 de Março (comércios populares do Rio e de São Paulo), fico feliz porque a voz do povo é a voz de Deus. No figurino da Alice, estou apostando nisso. O quimonos podem ser usados com jeans, com shortinho, botinha e camiseta. Dia desses coloquei um com uma calça de cintura alta e ficou babado! Fiquei apaixonada”, diz.

“Dá para incorporar quimono no dia a dia da brasileira e estamos fazendo uma homenagem à cultura japonesa, não vamos aparecer caracterizados. São toques, sabe? Seja num brinco, num palitinho de cabelo… Estamos resgatando isso. Quando era adolescente, usava muito palitinho, mas depois isso parou. É muito prático”. Será que volta? Vamos aguardar!

Esvaziar culturalmente o quimono, para criar tendência de moda e gerar lucros para o mercado porque achou bonitinho, isso, meus caros, é apropriação cultural. E, como descendente de asiáticos, eu lhes digo que não vejo isso como uma homenagem, me recuso, muito agradecida.

Cena da novela "Sol Nascente" (2016) da Rede Globo.
Cena da novela “Sol Nascente” (2016) da Rede Globo.

Fantasiar Luis Melo com o uniforme do turista japonês (chapéu cata ovo, camiseta por baixo da camisa e óculos fundo de garrafa para esconder a falta dos característicos olhos “puxados”) – embora sem a câmera pendurada no pescoço – e forçar um sotaque só não é pior do que o recurso utilizado para “transformar” Rodrigo Pandolfo no apresentador de TV coreano de Geração Brasil (2014): fita adesiva e barbante para puxar os olhos. Constantemente chamar o personagem de “otousan” (“pai”, em japonês) tampouco o transformará, de fato, em japonês (o que seria um movimento inverso ao que parece ter acontecido com a versão jovem do personagem, interpretada no flashback por Daniel Uemura que, em um passe de mágica, perde os traços orientais ao envelhecer). “Sol Nascente”: por que a escolha de Luis Melo para o papel de Kazuo Tanaka é problemática, por Jéssika Nakamura.

Por terceiro, entramos em um outro tema: “Asiática demais para ser brasileira, brasileira demais para ser asiática”.

No Japão, eu era lida como brasileira, me perguntavam sobre a Amazônia, futebol, samba e pessoas nuas pelas ruas. Nada de novo para muitos brasileiros que vivem no exterior. Mas, ao chegar no Brasil eu imediatamente perco o meu nome e ganho outro genérico (já que é mesmo tudo igual, né?): Japa/China/Japonesinha. Foi a partir desse momento que percebi duas coisas: não sou branca e sou brasileira.

Pela minha cor da pele eu não posso negar meus privilégios com relação às pessoas negras, sem a menor dúvida, por exemplo, nunca fui revistada pela polícia por desconfiarem de roubo porque estou com uma bolsa grande. Mas, também não me lambuzo do pote dos privilégios brancos.

Meus olhos são pequenos demais, fechados demais. Por ser a “Japa”, devo gostar de coisas esquisitas na cama, quem sabe polvos? Devo ter pêlos, nos filmes pornôs japoneses as mulheres sempre têm pêlos.

“Você é japonesa ou chinesa?”, me perguntou um desconhecido várias vezes sem nenhuma razão.

“Tenho um amigo meu que vai adorar te conhecer, ele adora o Japão”;

“Nunca tinha visto uma japa foder igual você, geralmente elas são tão quietinhas”;

Que bonitinha a chinesinha”;

“Hahahaha pastel de flango”;

“Ô japonesa, sempre quis namorar japonesa”.

Quarto: Lidem com a nossa existência.

Eu não sou Japa nem China, eu sou Tayná e sou brasileira. Sou descendente de asiáticos, meu nome é indígena, minha pele não é branca e eu não sou de lá, nem daqui. Crescer entre duas culturas e dois países me fez ter uma consciência nem um pouco nacionalista, mas sim, cidadã do mundo.

Filha da imigração, eu nunca vou voltar para casa, eu não tenho casa. Mas tenho história, na verdade duas, que podem até ser separadas, mas que em mim e em tantas outras filhas e filhos de gente que sai do seu país por medo, por fome, por guerra ou à força, se misturam. E são tão doloridas, tão cheias de saudades, difíceis, mas não menos importantes ou bonitas.

Somos parte integrante da sociedade brasileira, nascemos, vivemos e contribuímos com muito trabalho para o enriquecimento e desenvolvimento de nossa nação. Ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras. Somos brasileiros e exigimos respeito para com todos, independentemente de sua ascendência. A diversidade étnica, social e/ou de gênero é fundamental e necessária para o crescimento de qualquer cidadãoManifesto de artistas orientais pede o fim da “discriminação étnica” na TV.

Quinto: E agora, vou ter que parar de chamar todos os asiáticos que eu conheço de Japa/China?

Calma, é difícil largar o osso do privilégio, mas eu vou te ajudar com coisas simples e cotidianas. Se sua amiga ou amigo não se incomoda em ser chamada de Japa, tudo bem. Mas se ela ou ele se incomodam, você vai ter que fazer o seguinte: parar!

Se você está na mesa e sua amiga descendente de asiáticos te perguntar qual pastel você vai querer, não responda: “flango”. Não é engraçado. A língua portuguesa é difícil pra caramba. O americano falando errado você acha fofinho, mas o chinês da pastelaria é super engraçado o jeito que ele fala.

Não pressuponha que todo asiático manja das tecnologias ou é bom em matemática. Segure a coceirinha interna de gritar ou colocar em nossas conversas tudo aquilo que você aprendeu no curso intensivo de línguas de um mês que você fez ou todas as palavras que você aprendeu com aquela música do “É o Tchan!” que fala: “arigatô o o o o, sayonara a a a a”.

Ser do movimento feminista, LGBTI, negro ou MST não te dá o direito de ser racista com asiáticos. Não me peça para abrir os olhos, eles já estão bem abertos.

Autora

Tayná Miessa é estudante de Ciências Sociais na UFPR.  Na vida é passageira, mas é também motorista. É professora e atriz. De dia é aluna, a noite é garçonete. Decora texto, lê livro e dança profissionalmente de meia na sala de estar. Limpa a privada, faz colagem e faz carinho. No mais, vida de artista.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.