Maria Schneider e a solidão da mulher que denuncia

Texto de Fabiana Motroni.

A violência contra a mulher não tem data de validade, não caduca, não prescreve. Não desiste nem quando suas vítimas não vivem mais. O tempo não apaga e não faz justiça. Ao contrário, o próprio tempo a emerge em suas ondas vez e outra, cadáver ocultado que reaparece boiando no rio do tempo, na linha do tempo, a denúncia, a confissão, a chance de enxergar, de se saber, a chance de se investigar, de se fazer justiça, de interromper o ciclo, de cessar a dor: a chance sempre desperdiçada, sempre negligenciada.

Semana passada a internet e as redes sociais ficaram agitadas por causa de uma notícia de bastidores sobre umas das cenas de sexo mais famosas do cinema. Só que a notícia não era nova, era notícia de 2013. E essa notícia, por sua vez, dizia respeito a outra mais antiga ainda, mais exatamente de 2007. E sobre essas contas de tempos e de silêncios, eu queria deixar com vocês umas palavras direto das minhas vísceras sobre Maria Schneider e “O Último Tango em Paris”.

Em 2007, a atriz Maria Schneider contou a imprensa que a famosa ‘cena da manteiga’ não estava no script e não tinha sido combinada com ela: ela foi literalmente pega de surpresa, humilhada, submetida, estuprada e contou o quanto aquilo foi devastador pra vida dela e pra sua carreira que se iniciava. Ponto, ela contou e isso deveria ter sido o suficiente. Mas não, nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

Vocês são uns merdas se precisaram esperar o Bertolucci admitir em 2013 pra acreditar no que a Maria Schneider já tinha reportado — ele admitiu e mesmo assim disse que não se arrepende, na maior tranquilidade, que sim, a cena do estupro não foi uma cena combinada com a Maria Schneider, que ele combinou foi com o Brando, que ‘eles’ acharam um ‘ótima ideia’ pois ‘seria melhor para o resultado da atuação’, pois ele queria que ‘o sofrimento fosse de verdade’.

Enquanto Brandinho e Bernadinho ganharam fama, indicações e prêmios pelo filme, transformado em um clássico por conta dessa cena — cena citada, celebrada e fetichizada até hoje — Maria Schneider, em início de carreira, aos 19, ganhou um trauma e uma dor para o resto da vida, a impedindo de se realizar como pessoa, como atriz, reduzida a símbolo sexual comme il faut para a sociedade machista, não conseguindo realizar mais nenhuma cena nua no cinema depois disso, passando por dependência de drogas, tentativas de suicídio e tendo que conviver com a depressão até morrer de câncer, em 2011, aos 58 anos. E, depois dela ter denunciado e ter vivido isso tudo, vocês aí, discutindo se ‘foi estupro ou não’, porque ‘não teve penetração’. Até o caos e o conservadorismo jurídico brasileiro já sabe, até a Wikipédia já sabe, que “estupro consiste em qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração”. E vocês aí, competindo com Brando/Bertolucci no quesito ‘sou eu que decido se o que eu faço com o seu corpo dói ou não em você’. Eu poderia sugerir que vocês se imaginem na cama com seus/suas parceiros/parceiras de sexo, sendo surpreendido pelo ato sexual não informado e não consentido da pessoa passando manteiga no seu cu com um dedo ou dois — ou quem sabe uma faca? — e me diga qual é a parte do ato sexuaI não consentido que você não entendeu.

Enquanto nós acharmos que a Arte de tal Artista é maior, que justifica as violências, os abusos e as dores alheias provocadas no caminho em busca dessa Arte, seremos todos incentivadores e corresponsáveis por mais violência, abusos e dores e pelas mortes que daí virão. Pessoalmente, desde que eu soube da entrevista da Maria Schneider, eu não assisto, não celebro e não falo desse filme, com exceção de situações como essa. Ah, mas tem o filme independente da cena. Ah, mas tem o Bertolucci, o Brando… olha, não é a mim que você tem que dar satisfação quando você goza com cena de sexo não consentido, quando se permite assistir um estupro filmado. Eu só acho que saber que tem uma mulher sofrendo violência de verdade num determinado filme poderia, sei lá, fazer a gente a tomar alguma atitude? Na dúvida, pense o que a Maria Schneider responderia, caso estivesse viva, se você perguntasse a ela: ‘Maria, você se sentiria melhor se ninguém mais assistisse aquela cena?’. Eu não sei vocês, mas eu aposto que ela responderia ‘Sim’.

Na vida das mulheres, do povo preto, e de tantas outra pessoas invisíveis da sociedade, não foi a primeira vez nem será a última que não seremos ouvidas nem respeitadas e que, a contrário, somos geralmente convidadas a nos manter invisíveis submissas em nome de um Bem Maior, de uma Luta Maior, em nome da Arte. Ainda me causa espanto que não saibamos — ou não queremos saber? — distinguir a arte, a obra, a poiesis, de um trabalho movido quase tão somente pela vaidade e manutenção de privilégios e de poder. E, igualmente me causa espanto que não se consiga olhar o artista E sua obra, não nessa de ‘vamos separar a obra do artista’, mas sim enxergar ambos juntos, adorá-los pelo que fizeram de incrível e genial e criticá-los pelas misérias que causaram, se for necessário odiá-los, e se for necessário ainda, não admirarmos mais sua obra — por que não?

Na lógica machista, é atribuída uma hierarquia de importância e credibilidade, de dignidade e direitos, em função de quem diz e do que é dito. Nessa lógica, que impera na imprensa, na mídia hegemônica, o que uma mulher denuncia, especialmente quando essa denúncia envolve violência sexual cometida por homens próximos a ela, pouca ou nenhuma importância é dada. Mas então um homem resolve confirmar aquilo que a mulher falou, e então a mídia se interessa um pouco mais… até se lembrar que, tá bom, um homem confirmou a denúncia de uma mulher sobre violência sexual, mas ainda assim é só uma mulher, e só sobre violência sexual, pessoa e assunto que não merecem tanta atenção. Por que não houve repercussão da denúncia de Maria Schneider em 2007? Por que não se aprofundou e se endereçou em termos investigativos, analíticos, a denúncia feita por ela? E depois, por que não houve repercussão adequada da entrevista-confissão de Bertolucci? Por que a ética dessa mídia profissional, tradicional, por si só não foi suficiente — supondo que ainda exista tal ética — e precisou chegar nessa outra mídia, a social, para que alguém achasse gravíssimo e ultrajante a violência que cometeram dois homens lendários do cinema mundial contra a atriz Maria Schneider nos seus 19 anos e pro resto de sua vida?

Mas nós, mulheres, sabemos a resposta. A primeira é que não se acredita numa mulher que denuncia violência, de gênero, sexual, física, simbólica, porque a sociedade não acata uma denúncia contra ela mesma, sociedade machista, abusiva, patriarcal. A segunda é que, quando a denúncia é confirmada por um homem, mesmo sendo exatamente o homem que cometeu a violência, e absurdamente principalmente por ser esse homem, ai sim ela merece algum crédito e importância, importância essa que, no entanto, parece se esvair conforme a imprensa se dá conta que é só mais um caso de assédio sexual, violência sexual, abuso, estupro e misoginia no mundo do cinema, e qual a novidade disso? Talvez a única Verdade que a imprensa diz ao não dizer nada é essa: mulheres são estupradas, ninguém se importa, e se ninguém se importa mesmo, ninguém vai querer saber sobre isso a fundo, e esse esforço não vai vender jornal. Mesmo que seja uma atriz famosa de uma cena famosa de um filme famoso.

Aproveitando, sobre silenciamento e desqualificação a priori das histórias que as mulheres contam, mesmo que sejam mulheres famosas, só vou dar uma dica pra vocês: acompanhem a repercussão do livro da Rita Lee e vejam o que músicos, críticos e eteceteras do mercadinho fonográfico macho br estão falando dela, incluindo aqueles que só leram o que uzamiguinho falaram do livro e dizem ‘não li e não gostei’. Por ela ousar querer contar na SUA biografia o SEU lado da história sobre a sua convivência com os Mutantes e a sua expulsão da banda, contando o que ela acha que dever contar na SUA biografia e como deve, ela vem sendo chamada de, ‘recalcada, rancorosa, vingativa’, essa análise isentíssima num mansplaning profissa dizendo pra essa mulher pioneira do pop rock brasileiro, uma das grandes compositoras e letristas do rock nacional, com mais de 50 anos de carreira, como ELA deveria ter escrito a biografia DELA. Mas nós mulheres estamos acostumadas, ‘recalcada, rancorosa, vingativa’ é o termo técnico que o machismo usa para falar da mulher que relata injustiças sofridas, que faz críticas a seus parceiros homens e conta SUAS histórias conforme SEUS pontos de vista

Pois nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 04/12/2016.

Autor: Fabiana Motroni

Comunicação, conexão, poesia e ativismo. O tempo todo. Mas nem sempre nessa ordem. E apaixonada pela cultura da colaboração, pelas idéias afetuosas, pelo viver sustentável, pela comunicação como instrumento de conexão entre pessoas e outras pessoas, suas idéias e o mundo. ................... www.about.me/fabianamotroni