Criaminas – uma agência de publicidade virtual feita por mulheres

Esses dias, a Brenda Band nos mandou um email apresentando a Criaminas. Cansadas das mesmas propagandas de televisão, rádio, internet e revistas, um grupo de alunas da Faculdade de Comunicação Social (FAMECOS) da PUC-RS resolveu que estava na hora de mudar. Unindo conhecimentos e vivências, criaram algo para que a luta feminista não fique apenas na utopia.

A Criaminas surgiu dentro do ambiente acadêmico de publicidade com mulheres que querem ver a representação real delas mesmas em campanhas e anúncios. Por isso, fizemos uma pequena entrevista para saber mais sobre o projeto:

1. Como vocês se conheceram e se aproximaram? E já conheciam o feminismo antes da faculdade?

Nos conhecemos na FAMECOS. Quando eu sugeri criarmos uma agência de empoderamento feminino logo fizemos um grupo no whatsapp, e sinceramente, a maioria das meninas que ali estavam mal se conheciam. Alguns rostos eu nunca tinha visto, até porque, a maioria das meninas que hoje formam o Criaminas são do primeiro semestre. O engajamento e a vontade de criar pensando no feminismo veio muito forte da parte delas. Temos, claro, meninas de outros semestres, mas fiquei muito orgulhosa com esse talante delas de participarem imediatamente de um núcleo como a Criaminas.

O feminismo de cada uma de nós nasceu de vivências. Na faculdade pouco é trazido à tona. Quando assistimos a campanhas de carros, pouco enxergamos da projeção da mulher nesse tipo de vídeo publicitário e aí por diante.

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A Casa dos Homens e o Coletivo 2° Opinião – Opinião de quem faz parte

Texto de Paloma Franca Amorim.

O processo de construção da peça ‘A Casa dos Homens’ é o processo de construção do Coletivo 2ª Opinião. Creio que não dá pra falar de um sem falar do outro, quando produzimos algo coletivamente também estamos produzindo o próprio coletivo, entendo portanto que ao assistir à peça, as pessoas poderão ver um pedaço de nossas dinâmicas cotidianas de ensaios e encontros para debater a questão de identidade de gênero e todos os outros temas relacionados.

Em ‘A Casa dos Homens’ discutimos a estruturação dessa ideia social e cultural de masculinidade. Nós nos dedicamos ao estudo teórico, acadêmico por assim dizer, e à pesquisa de casos que se relacionassem com o dia-a-dia de nossa cidade, a quimera São Paulo. Além disso, houve uma intensa investigação prática – musical, literária, improvisacional – para que formalizássemos nossas reflexões.

Enquanto produzíamos a peça, fomos obrigados a lidar com a dificuldade e o prazer de nossas expectativas e frustrações internas, em nossas tentativas de organizar um coletivo à luz da perspectiva feminista. As contradições apontadas esteticamente em nossa peça foram muitas vezes contradições que vivemos em nossas atividades coletivas.

Algo do teatro que me parece muito interessante em relação ao debate de gênero é o trabalho com o corpo, a descoberta e emancipação da expressão corporal, a possibilidade de dissolução do dualismo do feio e do belo sobre a aparência dos participantes da cena (no caso do Coletivo 2ª Opinião a cena é composta não são somente por atores profissionais, mas também por pessoas que ainda estão dando os primeiros passos no teatro e que se lançaram coletivamente no desafio da interpretação teatral).

Nas artes cênicas muitas vezes o feio é belo e o belo é feio e o feio belo é tudo e é nada. O feio e o belo podem se misturar e portanto deixar de existir enquanto adjetivações sociais opressivas. Através da relação com o trabalho corporal existe a possibilidade de confronto com alguns referenciais hegemônicos e reducionistas da ideia, discriminatória ideia, de beleza e de comportamento. Claro que me refiro a um teatro político e público, praticado por grupos e pessoas que se preocupam com a problematização estética da questão de gênero através da forma e, sobretudo, do conteúdo.

Em nossa peça falamos de um imaginário social machista que se revela através do sonho das personagens. Dormir não é um descanso, são noites em claro de trabalho imaginativo e memorial de descoberta das amarras diárias, públicas e privadas, as quais determinam o machismo como base de comportamento social. Em nossa ficção, tentamos reverter os ideais normativos que povoam os pensamentos elaborados no ato de sonhar a nosso favor, para que se possa na medida do impossível destruir sonho a sonho o pesadelo real, concreto, cotidiano.

Ao longo desses quase dois anos de Coletivo 2ª Opinião eu aprendi muita coisa sobre teatro feminista, fiz escolhas que definiram para sempre minhas escolhas artísticas e políticas. Aprendi preceitos éticos feministas que norteiam minhas ações no mundo e a forma com a qual eu tento veicular meus discursos. Percebi que não estou sozinha, que posso me organizar com pessoas que também acreditam em uma perspectiva política que fortalece cada dia mais os próprios músculos na contracorrente do heteropatriarcado. Pelo teatro, buscamos outras formas de elaboração e de difusão simbólica da realidade social.

Cartaz da peça teatral 'A Casa dos Homens' do Coletivo 2° Opinião.
Cartaz da peça teatral ‘A Casa dos Homens’ do Coletivo 2° Opinião.

UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DA PEÇA ATÉ AGORA

Em dezembro de 2012, no espaço do Condomínio Cultural Mundo Novo na Vila-Anglo, zona Oeste de São Paulo, uma primeira experiência cênica intitulada Bom Dia, Ruína foi realizada e contava com apenas três atores em cena. À medida que as apresentações desse exercício teatral foram acontecendo, mais pessoas se juntaram ao Coletivo 2ª Opinião e fez-se necessária a ampliação do olhar sobre a temática originalmente escolhida como elemento disparador da encenação. Se em um primeiro momento o grupo elegeu uma personagem feminina para ocupar o protagonismo da ação cênica, em ‘A Casa dos Homens’ essa individualização se dispersa e a discussão das relações sociais de gênero se dão a partir de figuras coletivas, isto é, personagens cujos aspectos da subjetividade descortinam condicionamentos ligados às práticas sociais e culturais. O Coletivo 2ª Opinião entende que encenar e debater as questões relativas à opressão histórico-social de gênero significa lançar um olhar crítico sobre o Estado patriarcal diretamente ligado à opressiva maquinaria do capital e suas resultantes culturais, na esfera pública e na esfera privada.

SOBRE A TEMPORADA NA SEDE LUZ DO FAROESTE E A OCUPAÇÃO CULTURAL AMARELINHO DA LUZ

O Coletivo 2ª Opinião junto a outros nove coletivos de teatro e cinema faz parte da Ocupação Cultural Amarelinho da Luz, no bairro de Santa Ifigênia na região da Luz. Fomentar a produção cultural de forma crítica nesta região de São Paulo é organizar espaços de atuação sobre as condições sociais e políticas que regem as atividades artísticas nas áreas marginalizadas da cidade de São Paulo, a favor do próprio contexto periférico e da população que o constitui. Em parceria com a Cia. Pessoal do Faroeste, estes nove coletivos portanto estão trabalhando para elaborar discursos artísticos que dialoguem com a região da Luz, pejorativamente nomeada Cracolândia, para que desse modo seja possível problematizar as políticas públicas que ordenam as decisões sobre a mesma e suas resultantes sociais, geopolíticas e culturais.

‘A Casa dos Homens’ faz parte de um circuito maior de atividade cultural, também de dimensão transversal e coletiva. Para saber mais sobre a Ocupação Cultural Amarelinho da Luz vá até o blog Amarelinho da Luz – Ocupação Cultural.

A temporada na sede Luz do Faroeste ocorrerá de 7 a 29 de setembro de 2013, aos sábados e domingos. Aos domingos haverá debates posteriores à apresentação da peça com convidadas e convidados, dentre os quais: Terezinha Vicente, Rodrigo Cruz, Leona Jhovs, Natalia Ribeiro e Laerte Coutinho, pessoas envolvidas na luta contra a opressão de gênero, cada qual em sua esfera de atuação política e artística.

Mais informações sobre os debates e as atividades do 2ªOpinião serão divulgadas em nossa página do Facebook.

INFORMAÇÕES

Peça ‘A Casa dos Homens’.

Sinopse: na hora de dormir, mulher e homem reconstroem em seus sonhos os momentos mais importantes de suas trajetórias individuais e sociais. A atmosfera onírica é o meio através do qual se torna possível resgatar lembranças da juventude marcada por valores machistas frutos de uma sociedade patriarcal. Desde o momento de despertar até as batalhas contra os exílios sociais reservados àqueles que sofrem discriminações de gênero, as personagens vivem o aprendizado do próprio corpo e da própria História. A partir da tomada de consciência sobre essas estruturas sociais nasce o desejo: despetalar, sonho a sonho, o pesadelo.

7 de setembro a 29 de setembro

Sábados às 22hs e domingos às 19hs

Sede Luz do Faroeste – Rua do Triunfo, 305 – Santa Ifigênia – Centro.

Pague quanto puder!

FICHA TÉCNICA

Elenco: Anders Rinaldi, Bia Bouissou, Felipe Pitta, Ighor Walace, Juliana Bruce e Julia Spindel.

Músicos: Maria Menezes e Pedro Fraga.

Iluminação: Isa Giuntini.

Assistente de Iluminação: Paula da Rosa.

Dramaturgia: Paloma Franca Amorim e o coletivo.

Encenação: Raquel Morales.

Cenografia: Isa Giuntini e Raquel Morales.

Projeto Gráfico: Paloma Franca Amorim.

Assessoria de Imprensa: Julia Spindel e Paula da Rosa.

Colaboradores: Luka Franca, Débora Leonel, Erêndira Oliveira e Coletivo de Galochas.

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Paloma Franca Amorim é dramaturga do Coletivo 2ª Opinião, professora, ilustradora e cronista nas horas vagas. Não sabe comer de boca fechada e adora falar um palavrão.

O que aconteceu quando eu comecei uma sociedade feminista na escola

Texto traduzido por Karla Avanço.

Originalmente publicado com o título: What happened when I started a feminist society at school, no site Guardian.co.uk

Nós queríamos desafiar o comportamento machista – mas nós desencadeamos uma inundação de abuso por parte de nossos pares masculinos

Eu tenho 17 anos e eu sou uma feminista. Eu acredito na igualdade de gênero e não tenho nenhuma ilusão sobre o quão longe estamos de consegui-la. Identificar-me como uma feminista tornou-se particularmente importante para mim desde uma viagem de escola que eu fiz para Cambridge no ano passado.

Um grupo de homens em um carro começou a assobiar e gritar comentários sexuais para as minhas amigas e para mim. Perguntei aos homens se eles achavam que era apropriado abusar de um grupo de meninas de 17 anos de idade. A resposta foi furiosa. Os homens começaram a me xingar, me chamaram de puta e jogaram um copo de café em mim.

Para aqueles homens nós éramos apenas pernas, seios e rostos bonitos. Ao falar, quebrei sua fantasia, e eles responderam violentamente à minha voz.

Surpreendentemente, os meninos do meu grupo de colegas responderam exatamente da mesma maneira ao meu feminismo.

Depois de voltar dessa viagem de escola, comecei a perceber o quanto as meninas na minha escola sofriam por causa das pressões associadas ao nosso gênero. Muitas das meninas têm distúrbios alimentares, algumas já foram fortemente pressionadas por seus parceiros a realizarem atos sexuais, outras sofrem em relacionamentos emocionalmente abusivos em que são constantemente chamadas de inúteis.

Decidi criar uma sociedade feminista na minha escola, que foi previamente nomeada uma das “melhores escolas do país”, para tentar lidar com essas questões. No entanto, isso foi mais difícil do que eu imaginava uma vez que minha escola só para meninas estava hesitante em permitir a sociedade. Depois de um ano de luta, a sociedade feminista foi finalmente ratificada.

O que eu não tinha previsto na criação da sociedade feminista foi uma reação maciça dos meninos em meu círculo de pares mais amplo. Eles levaram a reação para o Twitter e iniciaram uma campanha de abuso contra mim. Fui chamada de “vagabunda feminista”, acusada de “alimentar [as meninas] com bobagem”, e em um comentário particularmente racista disseram “toda essa bobagem feminista não vai impedir tio Sanjit de casar você quando você sair da escola”.

Nossa sociedade feminista foi ridicularizada com réplicas como: “FemSoc, isso é de verdade? # DPMO “[don’t piss me off / não me irrite] e todas as tentativas que fizemos para iniciar um debate sério foram recebidas com respostas como “feminismo e estupro são ambos ridiculamente cansativos”.

Quando mais as meninas começavam a expressar suas opiniões sobre as questões de gênero, mais virulento o abuso dos meninos ficava. Um garoto declarou que “as vagabundas deveriam manter a sua vagabundagem para elas mesmas #VAGABUNDA” e outro presunçosamente brincou: “o feminismo não significa que eles não gostam do P, elas apenas não encontraram um para satisfazê-las ainda.” Qualquer tentativa que fizemos para nos posicionarmos uma pela outra foi agressivamente combatida com “entre na linha antes que eu ridicularize você também”, ou menosprezada com observações como “que bonitinho, elas ficaram ofendidas”.

Eu temo que muitos garotos da minha idade fundamentalmente não respeitem as mulheres. Eles querem a gente em volta para festas, brincadeiras e acima de tudo para sexo. Mas eles não pensam em nós como intelectualmente iguais, com destaque para acusações de sermos histéricas e supersensíveis quando tentamos discutir problemas sérios enfrentados pelas mulheres.

A situação culminou recentemente em uma intensificação quando nossa sociedade feminista decidiu participar de um projeto em âmbito nacional chamado Who Needs Feminism. Nós tiramos fotos de meninas segurando um quadro no qual elas completaram a frase “Eu preciso de feminismo porque …”, muitas vezes se aprofundando em experiências pessoais dolorosas para articular por que o feminismo era importante para elas.

Quando postamos essas fotos online ficamos sujeitas a uma enxurrada de comentários degradantes e explicitamente sexuais.

Nos disseram que nossas “vaginas militantes” eram “tão secas como o deserto do Saara”, as meninas que se queixavam de objetificação sexual em suas fotos receberam classificações até 10, detalhes das vidas sexuais de algumas das meninas foram publicadas ao lado de suas fotos e outras receberam mensagens ameaçadoras alertando-as de que as coisas logo “ficariam pessoais”.

Nós, um grupo de garotas de 16, 17 e 18 anos de idade, nos fizemos vulneráveis ​​ao falarmos sobre as nossas experiências de opressão sexual e de gênero só para provocar a ira do nosso grupo de pares masculinos. Em vez de a nossa escola tomar medidas contra tal comportamento intimidador, ela insistiu que removêssemos as imagens. Sem o apoio da nossa escola, as meninas que participaram da campanha foram isoladas, enfrentando uma grande quantidade de abuso verbal com o pleno conhecimento de que não haveria repercussões para os agressores.

Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.
Ato contra o Estatuto do Nascituro. Foto de Kely Kachimareck.

 

Já faz mais de um século do nascimento do movimento sufragista e os garotos ainda não estão sendo criados para acreditar que as mulheres são suas iguais. Em vez disso, temos um novo campo de batalha se abrindo online onde os garotos podem nos atacar, humilhar, menosprezar e fazer tudo ao seu alcance para destruir a nossa confiança antes mesmo de sairmos do ensino médio.

É lamentável que uma instituição responsável pela preparação de mulheres jovens para a vida adulta tenha se oposto a nosso trabalho feminista. Eu sinto que a escola não está apoiando suas meninas em uma parte crucial da sua evolução para serem mulheres fortes, assertivas e confiantes. Se esse é o caso de uma escola só de meninas bem estabelecida, que esperança esta geração de mulheres têm em desafiar a misoginia que ainda permeia nossa sociedade?

Se você achava que a luta pela igualdade feminina havia acabado, eu sinto muito em dizer-lhe que uma nova rodada está apenas começando.

Altrincham Grammar fez o seguinte comentário sobre a sociedade feminista:

“Altrincham Grammar School for Girls apoiou Jinan na criação da sociedade, fornecendo assistência administrativa, orientação e sugerindo, de maneira proativa, oportunidades para ajudar as integrantes a explorarem essa questão pela qual elas são tão apaixonadas.

“Estamos comprometidos em proteger a segurança e bem estar das nossas alunas, o que se estende para a sua segurança online. Nós consideramos muito cuidadosamente quaisquer sociedades para as quais a escola dá o seu nome e apoio.”

“Como tal, vamos tomar medidas para recomendar às estudantes que removam palavras ou imagens que elas coloquem online, que possam comprometer a sua segurança ou a de outras alunas na escola.”