Nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

*Atualização em 17/06/2016.

Recentemente, foi aberto pela Marcha das Vadias do Rio de Janeiro um evento no Facebook com o título: Turismo sexual e Olimpíadas: quebrando tabus. Organizado pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, o encontro tem como objetivo debater sobre megaeventos, turismo sexual e regulamentação da prostituição.

Sabemos que o tema da prostituição é controverso e gera longos debates dentro do feminismo. Porém, não compreendemos por que as mulheres que estão organizando e que participarão desse evento estão sendo atacadas e ameaçadas por outras feministas, que tentaram inclusive impedir que o evento seja realizado. Como construir um feminismo se as prostitutas não têm direito a falar e apresentar suas propostas?

Para muitas feministas, a prostituição deve ser proibida pois não podemos defender um sistema em que o corpo da mulher torna-se passível de compra e venda, como objetos que servem para reforçar a dominação masculina por meio da satisfação de suas necessidades e que impelem mulheres vulneráveis ou na linha da pobreza a se sujeitarem a mais essa forma de exploração. Com certeza essas são questões importantes na discussão sobre o mercado da prostituição brasileira. Pouco se fala sobre prostituição no Brasil, o tema possui grande estigma social e praticamente nenhum controle ou fiscalização. Porém, é preciso definir e diferenciar o que é prostituição e o que é exploração sexual. Partindo do pressuposto que continuaremos a viver num sistema capitalista, de que maneiras podemos pensar a questão da prostituição? O que podemos fazer para garantir a integridade e autonomia das prostitutas?

No nosso caso, apoiamos a legalização da prostituição por ser uma demanda das prostitutas, especialmente as que estão organizadas em sindicatos ou ONGs. São mulheres que querem questionar limites e repensar os estigmas relacionados as prostitutas. Têm no Projeto de Lei 4.211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, sua principal proposta formalizada. Acreditamos que com a legalização as prostitutas possam ter melhores condições de trabalho e ações mais específicas possam ser implementadas para combater a exploração sexual. Apenas esse projeto de lei não resolve tudo, mas pode ser um início. Pois essa é uma pauta de luta, uma reivindicação de um grupo social. Sem regulamentação, que espaço as prostitutas têm socialmente? Por isso, lutar pela regulamentação da prostituição é uma das pautas do nosso feminismo. Para além de ser uma questão do movimento de prostitutas, também é uma questão sobre mulheres, então acreditamos ser também uma questão feminista.

O turismo sexual no Brasil está muito atrelado a realidade de exploração de mulheres e crianças. Apenas ressignificar o termo não parece suficiente para que os tabus referentes a participação da prostituição em megaeventos sejam desfeitos, por isso acreditamos ser importante para as prostitutas que estão organizando esse evento debater essas questões publicamente. Abrir um diálogo não só com os comitês específicos, mas também com a sociedade em geral e outros movimentos sociais.

Na descrição do evento também é explícita a preocupação com as transformações urbanas que vem ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro, o que reflete em legitimação e aprofundamento das desigualdades socioespaciais, já que parcelas mais violentadas da população sofrem com as políticas de remoções, a militarização das periferias, o recolhimento da população em situação de rua e a perseguição aos camelôs e as prostitutas.

Há inúmeras questões sociais que perpassam o tema da prostituição e, acreditamos que nesse encontro também haverá críticas aos megaeventos e como se pretende fazer uma limpeza social da paisagem carioca. Ficamos muito satisfeitas em ver as prostitutas requerendo esse espaço e discutindo seus diferentes papéis sociais, já que para elas, quanto mais legalizadas estiverem, maiores as chances de receberem turistas que buscam sexo pago de forma segura.

Incentivar a legalização da prostituição pode ser justamente uma forma de condenar quem explora mulheres e crianças em situações precárias, pois será possível identificar quem está infringindo as leis referentes a esse trabalho. Sabemos que não há como garantir segurança completa e total para essas trabalhadoras, mas também não estamos conseguindo isso sem regularização. Quanto mais precárias forem as condições de trabalho, mais a margem da sociedade essas mulheres estarão, tendo mais chances de sofrer violência, tendo menos apoio para exigir seus direitos ou receber atendimento digno em delegacias ou unidades de saúde. Com a regularização da prostituição uma parte dessas mulheres já poderia ter acesso a direito básicos trabalhistas, como licenças e outros benefícios.

Não achamos que a prostituição é uma profissão como outra qualquer, nem que seja glamourizada por quem está propondo esse evento. Assim como o emprego doméstico, há uma série de características históricas que fomentam a prática da prostituição, além de ter as mulheres como mão de obra básica. Numa sociedade estruturalmente racista e transfóbica, a prostituição acaba sendo a atividade que acolhe a maior parte das mulheres trans, muitas delas negras, que lutam para garantir um mínimo de dignidade nesse espaço. Assim como lutamos para que empregadas domésticas tenham os mesmos direitos que outras profissões, não podemos fazer o mesmo pelas prostitutas? Por que negar a algumas mulheres o direito de decidirem sobre a autonomia de seus corpos?

Por isso, queremos deixar evidente nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas, transfeministas e ativistas que lutam para que a prostituição seja cada vez mais debatida, para que mais e mais prostitutas tenham voz, autonomia e protagonismo na luta feminista.

*Atualização em 17/06/2016: o 5° parágrafo teve uma frase retirada a pedido das mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.

Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015: Pra Rua Vadiagem!

Texto da Coletiva temporária Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015.

PRA RUA VADIAGEM!

Com esse grito, a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro tomou as ruas de Copacabana em 2014, lembrando a quem ouvia que lugar de mulher é onde ela quiser e que se o corpo é da mulher, ela faz o que quiser.

Esse ano, a Marcha acontece no sábado, dia 14 de Novembro com concentração a partir de 14:00 no Posto 4 da praia de Copacabana e caminha em direção ao Leme. A previsão era acontecer no dia 08/11, mas devido a previsão de chuva optaram pelo adiamento.

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Trazemos como tema uma retrospectiva do que foi a construção da marcha em seus cinco anos colocando a vadiagem na rua. Falamos sobre a descriminalização do aborto, do combate à cultura de estupro, do acesso a partos sem violência, do reconhecimento da identidade de pessoas trans, da regulamentação da prostituição e da liberdade de transar e amar a quem se quer.

Temos marcado em nossas vidas que ser mulher é resistir — o tempo todo. Somos chamadas de “vadias” porque vivemos numa sociedade machista, racista e centrada na cisgeneridade e na heterossexualidade, que quer controlar a forma como nos vestimos, nos comportamos e até por quem sentimos desejo e a quem amamos.

Ouvimos diariamente que temos que ser “vadias na cama e damas em sociedade”, que “tudo bem ser lésbica, bissexual ou gay, mas não precisa sair na rua de mãos dadas com alguém do mesmo sexo”, que “tudo bem ser trans, desde que seja uma pessoa discreta”. Nos posicionamos contra esse controle e reivindicamos nosso direito à vadiagem pública, que entendemos como nosso direito a viver como queremos. Nos apropriamos e ressignificados o termo “vadias” porque temos direito de ser e de andar como a gente quiser.

Passamos atualmente por tempos difíceis em que absurdos do conservadorismo tem sido ditos sem modéstia alguma e nós, mulheres, continuamos sendo um dos principais alvos.

Em outubro deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei 5.069/2013, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Esse projeto pode dificultar o acesso a pílula do dia seguinte. impõe medidas que dificultam o acesso ao aborto por mulheres que foram vítimas de estupro, fere princípios da dignidade humana da mulher e nos coloca, mais uma vez, sob crivo da autoridade policial e do judiciário para que se comprove a nossa inocência por um crime do qual somos vítimas. Uma semana depois, mais de três mil mulheres tomaram as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro em protesto ao projeto, pela legalização do aborto e exigindo a saída de Eduardo Cunha: #PilulaFica #CunhaSai.

Está mais do que evidente a necessidade de nos unirmos em uma frente contra o conservadorismo que busca regular nossos corpos e nossas vidas. Por esse motivo mais uma vez vamos às ruas e convocamos todas as pessoas a colocarem suas vadiagens no espaço público conosco. Contra o conservadorismo, contra as imposições do Estado e das religiões em nossos corpos.

Nenhuma mulher merece ser estuprada!

Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser!

Eu sou um homem com ou sem pau, quero respeito ao meu nome social!

Meu corpo é laico!

Meu cu é laico!

Se o corpo é da mulher ela dá pra quem quiser!

Sou travesti e sou normal, eu sou mulher de peito e pau!

Se o papa fosse mulher o aborto seria legal e seguro!

Não deixe de lutar por um orgasmo livre, coletivo e popular!

VEM GENTE!!!!

+ Informações: página do Evento no Facebook.

Marcha das Vadias Curitiba 2015: Vadias sabotando o Estado

Texto de abertura da Marcha das Vadias de Curitiba(PR) em 2015. Publicado por Marjory Rocka em seu perfil pessoal do Facebook em 05/07/2015.

Eu venho todo o ano aqui me expressar. Uso esse espaço para minhas palavras – ainda que repetidas – ao vento jogar. Na minha cabeça ecoam vozes inquietantes. E esse primeiro poema curto eu dedico as manas que me contaram seus abusos, vocês pra mim são importantes.

Sabe o peso da cama
de quem matou o amor, não ama?
Sabe o peso da culpa
que carrega a palavra “puta”?
O amargo do sangue na boca
De quem foi obrigada a engolir porra
Carrego 24h comigo
o sal do suor azedo
na pele, de baixo da unha, na ponta dos dedos
Carrego 24h comigo
seu cheiro na minha mente
seu toque na minha mente
seu riso amarelo na minha mente
seu “você vai gostar” na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Dizem que eu tô doente
que eu tô louca
que eu sou louca
que isso é coisa da minha mente
que isso é coisa pouca
pouca coisa pra se falar
pouca coisa pra se importar
é pouca coisa
aconteceu comigo
acontece com você
é pouca coisa
coisa pouca
histeria coletiva de mulheres loucas
que não chamam de estuprador só homem de touca
pois sabem bem o peso da cama
de quem matou o amor, não ama.
Sabem o peso da culpa,
que contém a palavra “puta”.

Em 2015 não vai ser tão diferente, eu vou fazer aqui a minha parte. Marcha das Vadias é espaço de luta e espaço de arte, de performance, de música e poesia, é periférica essa harmonia.

Me chamam vadia
Vadia, eu sou
Vadia, eu assumo
Vadia, eu rumo
E vou
caminhar com as minhas irmãs vadias
que berram
e berram
e cerram
os punhos
insistem com murros
e armas – os corpos, as mãos
quebrando correntes
machismos latentes
que matam inocentes
e inocência
Eis a consciência
Tô sem paciência
de tanto chorar
de tanto gritar
e com veemência
Me querem calada
Cabeça abaixada
E na madrugada
Na cama estar
pra ser violada
em casa espancada
pelo amor estuprada
não vão acreditar
que eu disse “não”
Meu “não” vale nada
Sigo amordaçada
Com as mãos atadas
mas com pés no chão
De pé eu enfrento
Estado nojento
O seu julgamento
Não me assusta, não.

Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.
Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.

Foi assim que começou. Em 2011 as vadias saíram nas ruas para gritar as violências contra as mulheres pela primeira vez. De lá pra cá, eu percebi uma mudança: as mulheres estão cheias. Cheias da sua violência, insistência, dos seus beijos roubados,
do seu “fiu fiu”, de você se fingir de inocente, dizer que é exagero, de usar seu poder pra conseguir sexo forçado, de nos taxar de loucas, histéricas, emotivas, de achar que um “não” pode ser um “sim”, e um “sim” ,afe, muito vadia pra você?

Mulher pra casar, mulher pra trepar, mulher pra comprar, mulher pra vender, achar normal ver corpo padronizado em propaganda, mulher como produto para seu consumo, e cobiça, achar que no meu corpo você manda. Quantos aí vieram só pra ver peitos de fora? Eles não são pra vocês. E é na conquista que vocês são manés e perdem a vez.
Muitas delas já sabem e isso incomoda, aquele que se acomoda nessa posição. E não pense que a falta do consentimento só é quando a mulher disser “não”. Incomoda quem quer submeter as mulheres a seu prazer, dizer o que elas tem que fazer, no que trabalhar, quanto merece ganhar, o que vai vestir, o que vai comprar, e o que vai vender.

Prostitutas, insultas, carregam a culpa do seu pudor. Já dizia Nega Gizza pra quem se incomoda com a presença do dinheiro e a ausência do amor. “Meu corpo, minhas regras”. E isso não é uma piada. O aborto nem vai entrar em pauta nos próximos anos, da maternidade compulsória, a mulher é a culpada, julgada e encarcerada. Com mais de 300 reacionários na plenária, e um presidente, Cunha, misógino, que acha que a Câmara é sua Igreja e escolhe o que vai ser colocado em votação, achar que as mulheres terão vez é muita ilusão. Quantas mulheres mais morrerão?

Elas estão cheias, nós estamos cheias, mas tem outro lado, o lado mais negro, o lado da Cláudia, que morreu arrastada por um camburão. Eu não vou esquecer. Não passarão.
O lado da Maju, a “garota do tempo” que vem sofrendo com os ataques racistas na internet, a violência não é menor porque acontece na web. Eu tô do lado de Verônica, a travesti que foi espancada e humilhada no encarceramento deste Estado violento. E das muitas meninas, mulheres, irmãs que sofrem esses abusos policiais sangrentos.

Eu tô do lado das mães, amigas e familiares que sofrem com as revistas vexatórias para ver seus parentes na prisão. E do lado daquelas pessoas que não querem ver seus filhos menores encarcerados como adultos. À redução eu também digo não! Porque encarceradas nossas pequenas infratoras já são. Não sabiam não? Eu tô do lado também das meninas da faculdade que sofreram a agressão exibida em um cartaz que ameaçava de estupro corretivo as sapatão. Eu tô do lado das meninas que se sentem ofendidas com homens gays achando normal dizer que “na hora do pornô lésbico ninguém é homofóbico”. É lesbofóbico mesmo, parça. Nessa você não foi feliz, não.

A mudança que queríamos ver era nas estatísticas. Particularmente, não queria que precisássemos de números pra saber que existe um problema, e que esse problema precisa ser resolvido, mas é assim que funciona o Estado. Se você não mostrar gráficos as pessoas fingem que o problema não existe, mesmo que elas tropecem nele todos os dias, precisam de dados, dados, e mais dados. O Paraná é o terceiro estado brasileiro que mais mata mulheres, Piraquara é a segunda cidade do país que mais mata mulheres. Até um terço das meninas sofre violência na América Latina. Mais de 70% dos estupros acontecem dentro de casa, na ‘desbaratina’. E esses são os casos denunciados. Muitos crimes contra a mulher seguem silenciados. Do abuso, até a mulher conseguir realizar que foi abusada, e conseguir dizer isso em voz alta, existe um longo caminho. Pois quando ela diz é costume da sociedade desacreditá-la, taxa-la de louca, dizer que é exagero, e até burburinho. Não, não é. Moça, você não está exagerando.

Se precisar vou continuar exemplificando. A violência contra a mulher muitas vezes começa com piadas, ele achando que você está a serviço dele dentro de casa, e termina com morte. Moça, seja forte, não estamos com sorte, mas juntas a gente pode. Quantas vocês acham que já apanharam porque não fizeram a janta? Ou que por isso por seus companheiros foram chamadas de “anta”. E quanto mais falamos sobre isso mais querem dizer que estamos loucas. Mas não somos poucas.

Machismo não é invenção, machismo é violência. Leva o mundo todo a decadência. Invenção é dizer que eu faço parte do sexo frágil. Invenção é dizer que mulheres amam cor de rosa, não são boas com matemática, não é reclamar que foi abusada pelo chefe num estágio. Invenção é presumir que homens dirigem melhor. Invenção é acreditar que a mulher no futebol é a pior. Invenção é para mulheres feminilidade, para homens masculinidade. Invenção é achar que o cara sabe tudo, por que é homem ou por causa da idade. E isso tudo é invenção do patriarcado, que também inventou o Estado que nos violenta, homens e mulheres, pessoas transgêneras e quem não quer se encaixar. É no seu nascimento que vão te enquadrar. O mesmo Estado que proporciona que homens continuem decidindo sobre nossos corpos nos submetendo a violência dos abortos clandestinos e à prisão. O crescimento da população carcerária de mulheres é de 256% nos últimos anos, ainda que mulheres sejam menor número nas cadeias, elas estão entrando mais em presídios sem condição. Nem absorvente tem pra sua menstruação. Eu não preciso de dado ou faculdade pra saber que o Estado nos fode,
e se não te fodeu ainda vai foder cedo ou tarde. Porque o Estado continua velando machismo, o Estado é covarde.

Na sua quinta edição a Marcha das Vadias vem pra sabotar este Estado. Suas normas nos punem, mas suas violências nos unem! Em um mundo onde tudo tem um preço saibam que não nos calarão, esse é só o começo.

Autora

A Marcha das Vadias de Curitiba é um coletivo que desde 2011 organiza não apenas a Marcha, mas também outras ações educacionais contra o machismo. Em 2015, a Marcha das Vadias aconteceu no dia 04 de julho com o tema: “Vadias sabotando o Estado”.