Nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

*Atualização em 17/06/2016.

Recentemente, foi aberto pela Marcha das Vadias do Rio de Janeiro um evento no Facebook com o título: Turismo sexual e Olimpíadas: quebrando tabus. Organizado pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, o encontro tem como objetivo debater sobre megaeventos, turismo sexual e regulamentação da prostituição.

Sabemos que o tema da prostituição é controverso e gera longos debates dentro do feminismo. Porém, não compreendemos por que as mulheres que estão organizando e que participarão desse evento estão sendo atacadas e ameaçadas por outras feministas, que tentaram inclusive impedir que o evento seja realizado. Como construir um feminismo se as prostitutas não têm direito a falar e apresentar suas propostas?

Para muitas feministas, a prostituição deve ser proibida pois não podemos defender um sistema em que o corpo da mulher torna-se passível de compra e venda, como objetos que servem para reforçar a dominação masculina por meio da satisfação de suas necessidades e que impelem mulheres vulneráveis ou na linha da pobreza a se sujeitarem a mais essa forma de exploração. Com certeza essas são questões importantes na discussão sobre o mercado da prostituição brasileira. Pouco se fala sobre prostituição no Brasil, o tema possui grande estigma social e praticamente nenhum controle ou fiscalização. Porém, é preciso definir e diferenciar o que é prostituição e o que é exploração sexual. Partindo do pressuposto que continuaremos a viver num sistema capitalista, de que maneiras podemos pensar a questão da prostituição? O que podemos fazer para garantir a integridade e autonomia das prostitutas?

No nosso caso, apoiamos a legalização da prostituição por ser uma demanda das prostitutas, especialmente as que estão organizadas em sindicatos ou ONGs. São mulheres que querem questionar limites e repensar os estigmas relacionados as prostitutas. Têm no Projeto de Lei 4.211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, sua principal proposta formalizada. Acreditamos que com a legalização as prostitutas possam ter melhores condições de trabalho e ações mais específicas possam ser implementadas para combater a exploração sexual. Apenas esse projeto de lei não resolve tudo, mas pode ser um início. Pois essa é uma pauta de luta, uma reivindicação de um grupo social. Sem regulamentação, que espaço as prostitutas têm socialmente? Por isso, lutar pela regulamentação da prostituição é uma das pautas do nosso feminismo. Para além de ser uma questão do movimento de prostitutas, também é uma questão sobre mulheres, então acreditamos ser também uma questão feminista.

O turismo sexual no Brasil está muito atrelado a realidade de exploração de mulheres e crianças. Apenas ressignificar o termo não parece suficiente para que os tabus referentes a participação da prostituição em megaeventos sejam desfeitos, por isso acreditamos ser importante para as prostitutas que estão organizando esse evento debater essas questões publicamente. Abrir um diálogo não só com os comitês específicos, mas também com a sociedade em geral e outros movimentos sociais.

Na descrição do evento também é explícita a preocupação com as transformações urbanas que vem ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro, o que reflete em legitimação e aprofundamento das desigualdades socioespaciais, já que parcelas mais violentadas da população sofrem com as políticas de remoções, a militarização das periferias, o recolhimento da população em situação de rua e a perseguição aos camelôs e as prostitutas.

Há inúmeras questões sociais que perpassam o tema da prostituição e, acreditamos que nesse encontro também haverá críticas aos megaeventos e como se pretende fazer uma limpeza social da paisagem carioca. Ficamos muito satisfeitas em ver as prostitutas requerendo esse espaço e discutindo seus diferentes papéis sociais, já que para elas, quanto mais legalizadas estiverem, maiores as chances de receberem turistas que buscam sexo pago de forma segura.

Incentivar a legalização da prostituição pode ser justamente uma forma de condenar quem explora mulheres e crianças em situações precárias, pois será possível identificar quem está infringindo as leis referentes a esse trabalho. Sabemos que não há como garantir segurança completa e total para essas trabalhadoras, mas também não estamos conseguindo isso sem regularização. Quanto mais precárias forem as condições de trabalho, mais a margem da sociedade essas mulheres estarão, tendo mais chances de sofrer violência, tendo menos apoio para exigir seus direitos ou receber atendimento digno em delegacias ou unidades de saúde. Com a regularização da prostituição uma parte dessas mulheres já poderia ter acesso a direito básicos trabalhistas, como licenças e outros benefícios.

Não achamos que a prostituição é uma profissão como outra qualquer, nem que seja glamourizada por quem está propondo esse evento. Assim como o emprego doméstico, há uma série de características históricas que fomentam a prática da prostituição, além de ter as mulheres como mão de obra básica. Numa sociedade estruturalmente racista e transfóbica, a prostituição acaba sendo a atividade que acolhe a maior parte das mulheres trans, muitas delas negras, que lutam para garantir um mínimo de dignidade nesse espaço. Assim como lutamos para que empregadas domésticas tenham os mesmos direitos que outras profissões, não podemos fazer o mesmo pelas prostitutas? Por que negar a algumas mulheres o direito de decidirem sobre a autonomia de seus corpos?

Por isso, queremos deixar evidente nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas, transfeministas e ativistas que lutam para que a prostituição seja cada vez mais debatida, para que mais e mais prostitutas tenham voz, autonomia e protagonismo na luta feminista.

*Atualização em 17/06/2016: o 5° parágrafo teve uma frase retirada a pedido das mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.

Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015: Pra Rua Vadiagem!

Texto da Coletiva temporária Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015.

PRA RUA VADIAGEM!

Com esse grito, a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro tomou as ruas de Copacabana em 2014, lembrando a quem ouvia que lugar de mulher é onde ela quiser e que se o corpo é da mulher, ela faz o que quiser.

Esse ano, a Marcha acontece no sábado, dia 14 de Novembro com concentração a partir de 14:00 no Posto 4 da praia de Copacabana e caminha em direção ao Leme. A previsão era acontecer no dia 08/11, mas devido a previsão de chuva optaram pelo adiamento.

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Trazemos como tema uma retrospectiva do que foi a construção da marcha em seus cinco anos colocando a vadiagem na rua. Falamos sobre a descriminalização do aborto, do combate à cultura de estupro, do acesso a partos sem violência, do reconhecimento da identidade de pessoas trans, da regulamentação da prostituição e da liberdade de transar e amar a quem se quer.

Temos marcado em nossas vidas que ser mulher é resistir — o tempo todo. Somos chamadas de “vadias” porque vivemos numa sociedade machista, racista e centrada na cisgeneridade e na heterossexualidade, que quer controlar a forma como nos vestimos, nos comportamos e até por quem sentimos desejo e a quem amamos.

Ouvimos diariamente que temos que ser “vadias na cama e damas em sociedade”, que “tudo bem ser lésbica, bissexual ou gay, mas não precisa sair na rua de mãos dadas com alguém do mesmo sexo”, que “tudo bem ser trans, desde que seja uma pessoa discreta”. Nos posicionamos contra esse controle e reivindicamos nosso direito à vadiagem pública, que entendemos como nosso direito a viver como queremos. Nos apropriamos e ressignificados o termo “vadias” porque temos direito de ser e de andar como a gente quiser.

Passamos atualmente por tempos difíceis em que absurdos do conservadorismo tem sido ditos sem modéstia alguma e nós, mulheres, continuamos sendo um dos principais alvos.

Em outubro deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei 5.069/2013, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Esse projeto pode dificultar o acesso a pílula do dia seguinte. impõe medidas que dificultam o acesso ao aborto por mulheres que foram vítimas de estupro, fere princípios da dignidade humana da mulher e nos coloca, mais uma vez, sob crivo da autoridade policial e do judiciário para que se comprove a nossa inocência por um crime do qual somos vítimas. Uma semana depois, mais de três mil mulheres tomaram as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro em protesto ao projeto, pela legalização do aborto e exigindo a saída de Eduardo Cunha: #PilulaFica #CunhaSai.

Está mais do que evidente a necessidade de nos unirmos em uma frente contra o conservadorismo que busca regular nossos corpos e nossas vidas. Por esse motivo mais uma vez vamos às ruas e convocamos todas as pessoas a colocarem suas vadiagens no espaço público conosco. Contra o conservadorismo, contra as imposições do Estado e das religiões em nossos corpos.

Nenhuma mulher merece ser estuprada!

Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser!

Eu sou um homem com ou sem pau, quero respeito ao meu nome social!

Meu corpo é laico!

Meu cu é laico!

Se o corpo é da mulher ela dá pra quem quiser!

Sou travesti e sou normal, eu sou mulher de peito e pau!

Se o papa fosse mulher o aborto seria legal e seguro!

Não deixe de lutar por um orgasmo livre, coletivo e popular!

VEM GENTE!!!!

+ Informações: página do Evento no Facebook.

Marcha das Vadias Curitiba 2015: Vadias sabotando o Estado

Texto de abertura da Marcha das Vadias de Curitiba(PR) em 2015. Publicado por Marjory Rocka em seu perfil pessoal do Facebook em 05/07/2015.

Eu venho todo o ano aqui me expressar. Uso esse espaço para minhas palavras – ainda que repetidas – ao vento jogar. Na minha cabeça ecoam vozes inquietantes. E esse primeiro poema curto eu dedico as manas que me contaram seus abusos, vocês pra mim são importantes.

Sabe o peso da cama
de quem matou o amor, não ama?
Sabe o peso da culpa
que carrega a palavra “puta”?
O amargo do sangue na boca
De quem foi obrigada a engolir porra
Carrego 24h comigo
o sal do suor azedo
na pele, de baixo da unha, na ponta dos dedos
Carrego 24h comigo
seu cheiro na minha mente
seu toque na minha mente
seu riso amarelo na minha mente
seu “você vai gostar” na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Na minha mente
Dizem que eu tô doente
que eu tô louca
que eu sou louca
que isso é coisa da minha mente
que isso é coisa pouca
pouca coisa pra se falar
pouca coisa pra se importar
é pouca coisa
aconteceu comigo
acontece com você
é pouca coisa
coisa pouca
histeria coletiva de mulheres loucas
que não chamam de estuprador só homem de touca
pois sabem bem o peso da cama
de quem matou o amor, não ama.
Sabem o peso da culpa,
que contém a palavra “puta”.

Em 2015 não vai ser tão diferente, eu vou fazer aqui a minha parte. Marcha das Vadias é espaço de luta e espaço de arte, de performance, de música e poesia, é periférica essa harmonia.

Me chamam vadia
Vadia, eu sou
Vadia, eu assumo
Vadia, eu rumo
E vou
caminhar com as minhas irmãs vadias
que berram
e berram
e cerram
os punhos
insistem com murros
e armas – os corpos, as mãos
quebrando correntes
machismos latentes
que matam inocentes
e inocência
Eis a consciência
Tô sem paciência
de tanto chorar
de tanto gritar
e com veemência
Me querem calada
Cabeça abaixada
E na madrugada
Na cama estar
pra ser violada
em casa espancada
pelo amor estuprada
não vão acreditar
que eu disse “não”
Meu “não” vale nada
Sigo amordaçada
Com as mãos atadas
mas com pés no chão
De pé eu enfrento
Estado nojento
O seu julgamento
Não me assusta, não.

Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.
Marcha das Vadias Curitiba/PR 2015. Foto de Ke Sia no Facebook.

Foi assim que começou. Em 2011 as vadias saíram nas ruas para gritar as violências contra as mulheres pela primeira vez. De lá pra cá, eu percebi uma mudança: as mulheres estão cheias. Cheias da sua violência, insistência, dos seus beijos roubados,
do seu “fiu fiu”, de você se fingir de inocente, dizer que é exagero, de usar seu poder pra conseguir sexo forçado, de nos taxar de loucas, histéricas, emotivas, de achar que um “não” pode ser um “sim”, e um “sim” ,afe, muito vadia pra você?

Mulher pra casar, mulher pra trepar, mulher pra comprar, mulher pra vender, achar normal ver corpo padronizado em propaganda, mulher como produto para seu consumo, e cobiça, achar que no meu corpo você manda. Quantos aí vieram só pra ver peitos de fora? Eles não são pra vocês. E é na conquista que vocês são manés e perdem a vez.
Muitas delas já sabem e isso incomoda, aquele que se acomoda nessa posição. E não pense que a falta do consentimento só é quando a mulher disser “não”. Incomoda quem quer submeter as mulheres a seu prazer, dizer o que elas tem que fazer, no que trabalhar, quanto merece ganhar, o que vai vestir, o que vai comprar, e o que vai vender.

Prostitutas, insultas, carregam a culpa do seu pudor. Já dizia Nega Gizza pra quem se incomoda com a presença do dinheiro e a ausência do amor. “Meu corpo, minhas regras”. E isso não é uma piada. O aborto nem vai entrar em pauta nos próximos anos, da maternidade compulsória, a mulher é a culpada, julgada e encarcerada. Com mais de 300 reacionários na plenária, e um presidente, Cunha, misógino, que acha que a Câmara é sua Igreja e escolhe o que vai ser colocado em votação, achar que as mulheres terão vez é muita ilusão. Quantas mulheres mais morrerão?

Elas estão cheias, nós estamos cheias, mas tem outro lado, o lado mais negro, o lado da Cláudia, que morreu arrastada por um camburão. Eu não vou esquecer. Não passarão.
O lado da Maju, a “garota do tempo” que vem sofrendo com os ataques racistas na internet, a violência não é menor porque acontece na web. Eu tô do lado de Verônica, a travesti que foi espancada e humilhada no encarceramento deste Estado violento. E das muitas meninas, mulheres, irmãs que sofrem esses abusos policiais sangrentos.

Eu tô do lado das mães, amigas e familiares que sofrem com as revistas vexatórias para ver seus parentes na prisão. E do lado daquelas pessoas que não querem ver seus filhos menores encarcerados como adultos. À redução eu também digo não! Porque encarceradas nossas pequenas infratoras já são. Não sabiam não? Eu tô do lado também das meninas da faculdade que sofreram a agressão exibida em um cartaz que ameaçava de estupro corretivo as sapatão. Eu tô do lado das meninas que se sentem ofendidas com homens gays achando normal dizer que “na hora do pornô lésbico ninguém é homofóbico”. É lesbofóbico mesmo, parça. Nessa você não foi feliz, não.

A mudança que queríamos ver era nas estatísticas. Particularmente, não queria que precisássemos de números pra saber que existe um problema, e que esse problema precisa ser resolvido, mas é assim que funciona o Estado. Se você não mostrar gráficos as pessoas fingem que o problema não existe, mesmo que elas tropecem nele todos os dias, precisam de dados, dados, e mais dados. O Paraná é o terceiro estado brasileiro que mais mata mulheres, Piraquara é a segunda cidade do país que mais mata mulheres. Até um terço das meninas sofre violência na América Latina. Mais de 70% dos estupros acontecem dentro de casa, na ‘desbaratina’. E esses são os casos denunciados. Muitos crimes contra a mulher seguem silenciados. Do abuso, até a mulher conseguir realizar que foi abusada, e conseguir dizer isso em voz alta, existe um longo caminho. Pois quando ela diz é costume da sociedade desacreditá-la, taxa-la de louca, dizer que é exagero, e até burburinho. Não, não é. Moça, você não está exagerando.

Se precisar vou continuar exemplificando. A violência contra a mulher muitas vezes começa com piadas, ele achando que você está a serviço dele dentro de casa, e termina com morte. Moça, seja forte, não estamos com sorte, mas juntas a gente pode. Quantas vocês acham que já apanharam porque não fizeram a janta? Ou que por isso por seus companheiros foram chamadas de “anta”. E quanto mais falamos sobre isso mais querem dizer que estamos loucas. Mas não somos poucas.

Machismo não é invenção, machismo é violência. Leva o mundo todo a decadência. Invenção é dizer que eu faço parte do sexo frágil. Invenção é dizer que mulheres amam cor de rosa, não são boas com matemática, não é reclamar que foi abusada pelo chefe num estágio. Invenção é presumir que homens dirigem melhor. Invenção é acreditar que a mulher no futebol é a pior. Invenção é para mulheres feminilidade, para homens masculinidade. Invenção é achar que o cara sabe tudo, por que é homem ou por causa da idade. E isso tudo é invenção do patriarcado, que também inventou o Estado que nos violenta, homens e mulheres, pessoas transgêneras e quem não quer se encaixar. É no seu nascimento que vão te enquadrar. O mesmo Estado que proporciona que homens continuem decidindo sobre nossos corpos nos submetendo a violência dos abortos clandestinos e à prisão. O crescimento da população carcerária de mulheres é de 256% nos últimos anos, ainda que mulheres sejam menor número nas cadeias, elas estão entrando mais em presídios sem condição. Nem absorvente tem pra sua menstruação. Eu não preciso de dado ou faculdade pra saber que o Estado nos fode,
e se não te fodeu ainda vai foder cedo ou tarde. Porque o Estado continua velando machismo, o Estado é covarde.

Na sua quinta edição a Marcha das Vadias vem pra sabotar este Estado. Suas normas nos punem, mas suas violências nos unem! Em um mundo onde tudo tem um preço saibam que não nos calarão, esse é só o começo.

Autora

A Marcha das Vadias de Curitiba é um coletivo que desde 2011 organiza não apenas a Marcha, mas também outras ações educacionais contra o machismo. Em 2015, a Marcha das Vadias aconteceu no dia 04 de julho com o tema: “Vadias sabotando o Estado”.

Sobre empoderamento

Texto de Jussara Cardoso.

Ontem, de fato percebi o quanto ser, hoje, uma mulher empoderada faz diferença na minha vida e o quanto a Marcha das Vadias contribuiu para isto.

Teve uma palestra na faculdade sobre nosso sistema político, dentre os convidados estava um deputado estadual em exercício. Que, em meio a sua fala sobre o quão podre pode ser a política no país e seu desânimo/descontentamento sobre como políticos são vistos, fez uma comparação muito preconceituosa, machista e diga-se de passagem, tosca.

Disse ele algo como: “Já começa com o nome “deputado”. Olha o que tem no meio da palavra. Boa coisa não podia ser”. E repetiu a tentativa de “piada”, acredito que por não ter ouvido risos.

Fiquei putíssima. Tremia de raiva e só pensava: “Quero falar, tenho que falar”. E comecei a pensar em um monte de coisas que podia falar para fazer ele entender o quão problemático era aquilo. Pensei em de fato fazer um PUTA discurso em defesa das mulheres prostituídas. Havia outros debatedores para falar depois dele, o que deu tempo para que me acalmasse.

Não sei se havia outras pessoas que também pensaram em apontar o preconceito na fala do deputado, só sei que era preciso. Abriu o debate e prontamente levantei a mão para me inscrever. Fui a primeira.

Estava quase no fundo da sala, lugar que me sentia confortável naquele instante, porque nem todos os alunos virariam para trás para me ver e ouvir. Sim, sou uma pessoa tímida. As perguntas no microfone teriam que ser perto da mesa, então, respirei e fui. “Seja forte e mantenha a calma” —– era o que pensava.

Peguei o microfone, me apresentei e disse algo assim: “Primeiro gostaria de dizer que ser PUTA, não define caráter, não é errado, não é pecado. Assim como ser Deputado também não. Digo isto porque é importante termos cuidado em nossas falas para não serem carregadas de preconceito, ainda mais com uma minoria que já sofre muita violência em nossa sociedade”.

Fiz uma pergunta sobre o tema do debate e repassei o microfone. Ouvi o auditório em palmas assim que deixei o microfone na mesa e meio encabulada, sem entender se as palmas foram para o fato de ter apontado o preconceito ou pela pergunta. Subi de volta ao me lugar. Subi de volta ao me lugar, tetando novamente não olhar para os rostos, entretanto consegui olhar para algumas pessoas e pude ver um olhar de “ISSO”!

Um dos debatedores começa a responder a minha pergunta e a de um outro aluno. Após sua resposta, o deputado estadual pega o microfone e antes de responder pede desculpas pela fala. De fato ele disse uma abobrinha no meio da desculpas, mas em um todo reconheceu que sua fala tinha sido preconceituosa.

Algumas pessoas vieram me falar que foi muito bom o que fiz e isto junto com as palmas me fez pensar. Há dez anos atrás eu provavelmente nem me atreveria a fazer alguma pergunta em um auditório cheio de gente e ainda mais para uma mesa com debatedores homens, muito provável também, nem perceberia o preconceito da fala. Talvez até risse, concordando com o preconceito.

Há uns 3 ou 4 anos atrás é muito provável que eu perceberia e ficaria com raiva, explodindo de raiva e xingando em pensamento. Xingando muito em pensamento, diga-se de passagem.

Faz 3 anos que milito na Marcha das Vadias e já fazem 4 anos que conheço o movimento. Dentro da Marcha aprendi o que é não se calar, aprendi a não ter medo de falar. Lembro das minhas amigas/irmãs dizendo/encorajando:

– “Pega o megafone. Vai, fala”.

– “Vai, dê a entrevista pro jornal, você”.

“Você precisa falar”… fale, fale, fale… se empodere… pois é, deu certo!

Foto de Antoine Walter no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Antoine Walter no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Essa insistência delas em me encorajar a ver que, sim eu posso e devo ter voz foi e é fundamental. Umas das coisas que mais admiro e defendo na Marcha como um todo é estas relações que criamos. Estas mulheres que encontramos no meio do caminho!

Ontem percebi que me sinto empoderada o suficiente pra corrigir o Papa, na frente do Vaticano inteiro, em uma cobertura ao vivo para o mundo, se fosse preciso.

Porque é preciso falar! É preciso apontarmos os preconceitos nas falas das outras pessoas. E é preciso também avaliarmos a situação antes de falar, pensar no que falar.

Tem horas que, confesso, consigo ser extremamente grosseira e juro, era a minha vontade na hora que ouvi aquilo. O que não consigo mais é ficar calada diante de situações dessas, não permito mais que o sistema machista me cale ou cale outras mulheres. Porque né, aprendi muito bem que: mexeu com uma, mexeu com todas.

Sei que não é um processo fácil. É um processo doloroso, cansativo, estressante e muito, muito chato. Porém muito, muito necessário. Precisamos ter voz. Precisamos encorajar mulheres a terem voz e não encoraja-las a ficarem em silêncio. O silêncio nos violenta e aprisiona, nossa fala nos liberta!

Dito isto, quero aproveitar o ensejo e fazer um convite aberto a todas que possam se interessar, venham fazer parte da Marcha das Vadias. Se empoderem e empoderem outras mulheres! É importante, extremamente importante incentivarmos nossas amigas, filhas, primas, mães, tias, avôs e etc a falar! Falar sempre. Ficarmos caladas nunca!

Venham se empoderar na Marcha. Prometo fazer o que fizeram comigo: “Pega o megafone e fala, vai você consegue”.

A Marcha não é um movimento que acontece uma vez só no ano, é um movimento que empodera mulheres a levarem os gritos da Marcha para todo canto. Para o nosso dia-a-dia. A cada resposta que damos, a cada NÃO que falamos, a cada vez que apontamos machismo e todo tipo de preconceito, estamos falando do que a Marcha fala.

Fica o convite, fica meu depoimento e fica meu amor e eterno agradecimento a esse movimento lindo.

Assinando,
Uma Vadia empoderada!

Autora

Jussara Cardoso é estudante de ciências políticas. Vadia de carteirinha, biscate de coração e empoderada. Esse texto foi publicado em seu perfil no Facebook em 12/11/2014.

Marcha das Vadias de Salvador contra a Transfobia

Nós, Blogueiras Feministas, apoiamos e assinamos a carta aberta da Marcha das Vadias de Salvador contra a transfobia e em apoio a Viviane V. 

Viviane V. em ensaio fotográfico para divulgação da Marcha das Vadias Salvador 2014. Foto de Juh Almeida. Edição de Dora Falcão.
Viviane V. em ensaio fotográfico para divulgação da Marcha das Vadias Salvador 2014. Foto de Juh Almeida. Edição de Dora Falcão.

Todo ano é realizada, no dia 2 de julho, a Marcha das Vadias de Salvador, que reúne dezenas de mulheres do estado para levar às ruas suas demandas e questionar as imposições do patriarcado na vida das mesmas. A marcha das Vadias é organizada por mulheres residentes em Salvador, mas também conta com o apoio de algumas companheiras do interior, que se reúnem para discutir o andamento do evento. Em uma dessas reuniões foi discutido o fato de a Marcha das Vadias precisar romper os limites da mulher branca, heterossexual, cisgênera, e de classe média e procurar trabalhar as intersecções para contemplar toda a diversidade de mulheres — sejam elas intersecções de raça, classe, orientação sexual ou identidade de gênero.

Entendemos que é necessário levar essas demandas para as ruas, visto que o fato de não evidenciarmos as especificidades de cada categoria acarretar no silenciamento e invisibilidade das mesmas. Entendemos que opressões como: racismo, elitismo, lesbofobia e bifobia, assim como transfobia são agravantes das violências as quais estas mulheres estão expostas e, por isso, enfatizamos a importância de abordar esses temas na nossa campanha. Com toda dificuldade, tocamos uma campanha para Marcha de 2014 e buscamos tentar contemplar toda a diversidade de mulheres.

viviane v., mulher trans, é nossa companheira de longa data e esteve conosco na construção da Marcha. Achamos importante que nossas companheiras tenham voz nesse espaço e que tenham o apoio de suas irmãs e assim o fizemos. Ela teve total liberdade para expressar-se. Porém, logo após a publicação de suas fotos, fazendo a divulgação da Marcha, nossa companheira foi alvo de diversos ataques transfóbicos. Seu perfil do facebook foi denunciado diversas vezes por falsidade ideológica e suspenso — uma forma de usar a transfobia cistêmica para negar a identidade de pessoas trans*.

Muitas pessoas surgiram com leituras equivocadas de sua colocação e ao menos se propuseram a reflexão e diálogo sobre o que estava sendo dito. Tomaram posturas extremamente violentas, expondo nossa companheira a uma série de agressões verbais e simbólicas graves, e dignas de todo nosso repúdio.

Queremos dizer abertamente que nós, da Marcha das Vadias de Salvador, jamais compactuaremos com a transfobia e estaremos sempre prontas para receber nossas companheiras trans*, assim como toda diversidade de mulheres, pois entendemos que apenas trabalhando as interseccionalidades destruiremos os pilares de opressões que sustentam o patriarcado e alcançaremos, de mãos dadas, a real igualdade.

Exigimos respeito as nossas companheiras trans*!

Transfobia não passará!

Como reafirmamos a necessidade de dar voz a todas as mulheres para que elas possam falar por si mesmas, segue a carta escrita por nossa companheira viviane v. em relação a sua participação na Marcha das Vadias de Salvador e em resposta aos ataques transfóbicos contra a sua pessoa e, também, a todas nós como irmandade.

Carta aberta de uma transfeminista vadia

Meu nome é viviane v., sou uma mulher transfeminista.

viviane v. O nome em letras minúsculas, por sua ilegalidade, sua deslegitimação cistêmica, por bell hooks e a energia crítica que dela procuro receber com humildade e responsabilidade. Esta responsabilidade: algo que deve incluir uma análise crítica sobre minhas implicações — ancestrais, familiares, contemporâneas, pessoais — na constituição e reprodução do cistema racista, sobre meus privilégios de acessos, sobre as possibilidades e deveres “de inventar a contra-mola que resiste” por todos os meios necessários e em solidariedades.

Mulher. Mulher trans*, “sujeito” de “divergências” nos feminismos. “Divergências” que, por muito tempo, levam a diversos graus de desinteresse e invisibilização, dentre as pautas de feminismos, em se discutirem e enfrentarem os assassinatos de pessoas trans* — em particular, de mulheres trans*, de mulheres trans* prostitutas, de mulheres trans* racializadas — nos quais o Brasil é líder mundial entre as estatísticas disponíveis (ver os relatórios ‘Transrespect versus Transphobia Worldwide’ — “Transrespeito versus transfobia pelo mundo”, em tradução livre), entre tantas outras violências dos cis+sexismos socioculturais.

Assim como meu nome, minha identidade de gênero trans* não tem a mesma importância estatística que as identidades não trans*. As identidades cisgêneras, noutras palavras. “Cisgêneras”?

As aspas têm caráter político: reconhecer criticamente minha ancestralidade (parcialmente) branca é parte da destruição do cistema racista. Dizer-me “branca”, não. Preferir “homens de verdade”, “mulher genética” e quetais ao invés do simples e elegante prefixo oposto a “trans” — cis — significa não somente reificar biologizações não científicas de gêneros atravessados por culturas e sociedades, mas também marginalizar lutas de pessoas trans* por sua dignidade humana.

Transfeminista. As lutas trans* se nutrem (apesar de tantas exclusões) de energias de feminismos, e os vêm trans*formando também. Manter e reificar perspectivas essencializantes e biologizantes de gênero não é somente uma estratégia política a se problematizar (em detrimento, por exemplo, de perspectivas sensíveis às diversidades existenciais, corporais e intersecionais que atravessam corpos auto+identificados como de mulheres), mas também uma posição política potencialmente excludente.

Historicamente excludente, aliás. E a possibilidade de trans*formar tais premissas essencializantes e biologizantes de gênero está entre as potências críticas dos trans*feminismos que vêm se formando mundo afora.

Fotografias vadias

No período recente, venho participando da construção da Marcha das Vadias de Salvador, compreendendo-a como situada em um contexto político muito importante: durante um evento de futebol violador de direitos humanos e intrinsecamente associado a projetos cissexistas, e em uma cidade negra de desigualdades e injustiças racistas, elitistas, “democratas” de coronelices e marvadezas.

Marcha das Vadias, eventos onde a presença de pessoas trans* tem sido debatida (nem sempre de maneira bacana, diga-se, mas ainda assim debates politicamente significativos), uma certa exceção à regra de invisibilizações e deslegitimações de gêneros trans* que ocorrem em diversos âmbitos no cistema. Em algumas destas Marchas das Vadias, processos importantes no sentido do fortalecimento de feminismos feitos por pessoas trans*, e particularmente por mulheres trans*, têm acontecido: em alianças e afetos com inúmeras pessoas cis, em diálogos e aprendizados intersecionais de todas nós sobre vivências trans* e cis, nas possibilidades (ainda insuficientes, mas crescentes) de solidariedades entre pessoas trans*. Alianças, diálogos e possibilidades que não se restringem aos espaços das Marchas das Vadias, mas que neles têm se viabilizado com alguma força (relativa).

A partir desta análise do contexto local e geral das Marchas das Vadias é que decidi realizar, com uma pessoa fotógrafa muito querida, algumas fotografias para divulgação da Marcha das Vadias de Salvador. Com elas, quis trazer três temas, fundamentalmente: “Vadiagens Trans*”, com a proposta de que a marcha seja um espaço seguro para que resistências trans* anticissexistas (em solidariedades com todas mulheres) possam ter a Marcha das Vadias como um lugar político interessante de contestação aos processos de culpabilização das vítimas — temas fundamentais desde a primeira ‘Slutwalk’; “Abaixo Assimilações GGGG”, por uma reflexão sobre os processos históricos de marginalização e colonização das lutas LBTQI em prol das demandas políticas de homens cis gays (de classe média, brancos, etc etc.); e “Autodefesas Contra Cis+sexismos”, como uma proposta de debate sobre as estratégias possíveis que mulheres podemos utilizar no enfrentamento a instâncias cissexistas, particularmente aquelas que nos ameaçam a integridade física e a vida, perpetradas eminentemente por homens cis.

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Esta última fotografia (abaixo) é foco das reflexões centrais deste texto.

Esta fotografia foi publicada no grupo de organização coletiva da Marcha das Vadias de Salvador, na página do evento deste ano, e em meu perfil pessoal de forma pública. Junto à fotografia, acrescentei o texto a seguir:

“Marcha das Vadias em Salvador! 2 de julho, a partir das 8h da manhã!

Art. 25 do Código Penal: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.”

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art23

Infelizmente, sabemos que o cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero. Precisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa.

Por todos os meios necessários.”

Os assassinatos apresentados pelo relatório “Transrespeito versus transfobia pelo mundo” são, eminentemente, cometidos contra mulheres trans* e travestis. Estes crimes costumam envolver, com frequência, brutalidade da pessoa assassina e descaso+violências por parte do cistema policial militarizado, racista, elitista. Por sua vez, nas violências perpetradas contra mulheres cis, particularmente nas interseções de raça e classe social, também se repetem processos de brutalidade, descaso e violência institucional.

Estas informações sobre o contexto (de cis+sexismos racistas, cristão-cêntricos, elitistas) em que vivemos é que provocam a proposta fotográfica: se o “cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero” — mulheres cis e trans* e travestis, particularmente –, é importante que reflitamos sobre possibilidades de autodefesa que não sejam tão dependentes do cistema policial ou jurídico, por conta das exclusões e impunidades que institucionalmente promovem.

Cis+sexismos, aliás, talvez seja o conceito-chave para afastar quaisquer dúvidas sobre minhas propostas. Em um artigo acadêmico que escrevi no período recente, “Explorando Momentos de Gêneros Inconformes – Esboços Autoetnográficos”, sobre uma experiência profissional minha analisada autoetnograficamente, faço um esforço para contribuir às reflexões sobre o que poderia ser este conceito (uma busca simples por ‘cissexismo’ também traz, como primeiro resultado, este link que dialoga bastante com minha definição):

O termo ‘cis+sexismo’ é uma tentativa de caracterizar a complexa interseção  entre a normatividade sexista de gênero (produtora cultural das diferenças homem-mulher) e a normatividade cissexista de gênero (produtora cultural das diferenças cis-trans). A cisgeneridade, de forma bastante breve, pode ser caracterizada como as posições normativas/coerentes no segmento ‘sexo-gênero’: são as identidades de gênero binárias, definidas a partir de ilusões pré-discursivas (como a que pressupõe a existência de dois ‘sexos biológicos’ objetivamente identificáveis), e tidas como permanentes. É costume, em nosso contexto histórico, referir-se a pessoas cisgêneras como homens/mulheres ‘biológicxs’, ‘de verdade’, ‘naturais’, ‘cromossômicxs’, etc.

Neste sentido, dada a evidência de que a proposta política de minha fotografia é de que “[p]recisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa”, e sabendo também que o cistema atua contra nós (ao deslegitimar nossos gêneros trans* ou os corpos negros de mulheres cis, por exemplos) inclusive neste eventual exercício de direito, o centro de minhas preocupações foi (e é) de que dialogássemos sobre que estratégias nos podem ser úteis, enquanto mulheres, para o enfrentamento de todas instâncias cis+sexistas.

As armas brancas com que faço a fotografia demarcam os limites a que esta legítima defesa pode, eventualmente, chegar. Homens cis assassinam covarde e cruelmente mulheres trans* e cis mundo afora, e é por isto que, quando penso em autodefesas, penso em CeCe McDonald, injusta e inadequadamente encarcerada pelo cistema prisional estadunidense ao se defender de violências físicas cis+sexistas e racistas, e em todas as violências de gênero contra mulheres cis que vão sendo silenciadas (às vezes até por conveniências políticas ‘de esquerda’, veja só) por um cispatriarcado normatizante.

As armas servem para nos lembrarmos de que, diante de atentados contra nossas vidas (fundamentalmente perpetrados por homens cis), não devemos excluir a possibilidade de estabelecermos formas de resistência críticas: o corpo que, se necessário/inevitável, reage e se coloca, materialmente, diante da injustiça, em suas possibilidades e limitações. CeCe, mulher trans* negra, é inspiradora neste e em tantos outros sentidos.

Finalmente, gostaria de apresentar dois pontos importantes, reflexões a partir do que venho escutando aqui e ali:

1) Às pessoas trans* que consideram que eu possa ser uma “mulher trans* elitizada”, “diferente de nós”, e que “não nos representa”: primeiramente, quero afirmar meu compromisso de vida em não procurar ‘representar’ ninguém — não no sentido reducionista e colonizatório que busca nos simplificar a todas nós a partir de supostas ‘representantes’ de um ‘grupo social’ com alguma ‘condição’ ‘esquisita/bizarra/diferente/extravagante’. É por isto que meu esforço analítico se propõe intersecional: minhas experiências de vida enquanto mulher trans* de classe média alta, branco-asiática, que teve acesso a recursos financeiros, educacionais e de saúde compõem **uma** experiência trans* entre tantas outras, que não podem ser limitadas a um ‘universo trans’ ou o que seja.

Somos mais que os estereótipos e classificações que nos fazem engolir diariamente. Somos todas diferentes entre nós: não há a travesti, a mulher transexual, a pessoa não binária ‘padrão’. Nossas múltiplas experiências dentro do cistema formam uma diversidade de estratégias de sobrevivência e de luta. Meus privilégios sociais, por sua vez, me colocaram em um cenário específico: um cenário em que, por exemplo, a chave de fenda que carrego em minha bolsa para autodefesa nunca tenha precisado ser utilizada. Para tantas outras mulheres trans* e travestis, suas armas e corpos resistem já desgastados pelas violências cistêmicas. Precisamos de autocríticas e empatias para lutarmos, aprendermos e colaborarmos umas com as outras.

É por estas razões que minha proposta é de que pensemos em solidariedades sobre nossas estratégias de autodefesa: nossa segurança pode se potencializar em coletividade, recusando o paradigma do ‘super-herói invencível’ (uma imagem e epistemologia do cispatriarcado). Quero que meus privilégios sociais sejam mais munição para as lutas contra o cistema, e que as experiências e vozes trans* mais marginalizadas também tenham como encontrar alianças de resistência e expressão: este é um de meus objetivos centrais enquanto acadêmica, e venho tentando seguir neste aprendizado e construção apesar de minhas tantas limitações, apesar das tantas distâncias que colocam entre nós.

Espero, verdadeiramente, que possamos dialogar mais e a partir de perspectivas solidárias e de coletivização dos esforços de resistência. Que façamos mais o exercício crítico de analisar que grupos políticos têm intere$$e em nos dividir e em nos cooptar para ganhar poder e influência política (ventos sopram ‘gggg’), ao mesmo tempo em que nos dão migalhas de cidadania e direitos e exigem louvações de agradecimentos acríticos.

Espero, enfim, que notemos as diversas (infinitas?) formas que o cistema/cispatriarcado nos violenta a cada dia, e vejamos nas outras pessoas trans* uma possibilidade de aliança, não uma competição pelos ‘agradinhos’ do cistema vindos das pessoas cis, brancas e cristãs.

2) Às feministas trans*-excludentes de diversos tons e matizes: espero, sinceramente, ter afastado quaisquer das hipóteses de que eu, uma mulher, estaria ameaçando outras mulheres (cis ou trans*) ao empunhar uma faca de cozinha e uma chave de fenda e ao propor autodefesas contra cis+sexismos.

Espero que tenha ficado mais explícito, por exemplo, que as violências cis+sexistas contra as quais fosse preciso utilizar uma faca de cozinha e uma chave de fenda são fundamentalmente perpetradas por homens cis. Neste sentido, enquanto proposta fotográfica, minha postura como mulher que enfrenta cis+sexismos através de autodefesas é a de refletir sobre casos como o de CeCe McDonald, avaliando criticamente possibilidades e cautelas de considerarmos estas estratégias em nossas vidas.

Finalmente, acredito que seja relevante enfatizar que quando penso que nossas estratégias devem se debruçar sobre “todos os meios necessários”, isso vale tanto para pensar nos nossos ‘limites máximos’ (a resistência armada, talvez), quanto para considerar reações proporcionais e estratégicas às violências cometidas contra nós. Ou seja: contra um cistema brutal, até as resistências armadas devem ser consideradas, mas precisamos também pensar em outras estratégias inteligentes (vídeos, posts em blogs, conversas pessoais) para enfrentar todos os tipos de violência que nos ocorrem.

Os meios necessários à destruição do cistema/cispatriarcado são inúmeros, e talvez nunca os tenhamos suficientemente. Entretanto, para argumentar contra as perspectivas trans*-excludentes de diversas feministas (várias delas autodenominadas “radicais”), bastam-nos honestidade intelectual e visão crítica.

Já estamos vencendo algumas injustiças cistêmicas, com e sem perfil de facebook. E, vencendo ou não, seguiremos resistindo. Se não por nós, pela memória das lutas de tantas de nós, trans* de tantas interseções.