A maternidade e suas facetas

Texto de Danielle Cony.

Quando me descobri grávida, descobri também a dúvida. Tinha acabado de mudar de cidade, estava num emprego legal, estava com o mesmo companheiro por tempos e não tinha certeza se engravidaria novamente (tinha problemas de ovários com pólipos). Contudo, aquele momento não era planejado. Eu não tinha 18 anos, já tinha 28 e ficava me questionando, se já não era de fato a hora e se realmente eu queria ser mãe.

Mas aconteceu. Não foi planejado e decidimos continuar com a gravidez. Tinha muitas dúvidas quanto a maternidade. O exemplo de maternidade nunca me foi comovente. Minha mãe me culpou a vida inteira por ter “estragado” sua vida (e olha que eu fui planejada). Você chega a conclusão sozinha que nem toda mulher nasceu para ser mãe e algumas de fato não deveriam ser.

Eis que me bateu a maior dúvida do mundo. Serei uma boa mãe? Não sou exatamente uma pessoa muito afetuosa, não gosto de plantas e animais. Gostarei da minha filha? E realmente quando ela nasceu a primeira coisa que me veio na cabeça foi: – Fudeu!.

Eu queria sair correndo da maternidade. Olhava para o bebê e não conseguia saber o que sentir. Não a achava legal, não achava “a coisa mais linda do mundo” e um pavor tomou conta de mim. Eu só queria fugir. Não conseguia identificá-la como minha filha.

O primeiro dia foi um inferno. O bebê ficou comigo o tempo todo. O pai também. O pai era totalmente  babão, encantado, feliz, enquanto eu estava dilacerada, perdida. Era uma sintonia muito distinta. O bebê chorava (e muito) a madrugada inteira e, embora o parto tenha sido feito numa das maternidades de referência no Brasil, também sofri alguns abusos da equipe técnica.

Quando chamava a enfermeira (que apelidei de agente da Gestapo), ela aparecia e dizia com um mau-humor impressionante: – É assim mesmo.

E fechava a porta com força. Não importava meu questionamento, ou minha dúvida em relação a fisiologia do bebê. Naquele momento notei o descaso pela maternidade. Como se trazer uma pessoa para o mundo fosse algo sem importância. E, de fato, a maternidade só é exigida, não é reconhecida. Eu pude dizer que o problema era nosso, porque o pai foi impressionante. Não só segurou a barra de um bebê recém-nascido, como também uma mulher com depressão pós-parto.

Após o episódio e a saída da maternidade, voltei para a minha casa. Uma parte da família estava toda lá. Começou a história da amamentação. Você entende o que é para uma mulher com depressão pós-parto amamentar? E minha filha, simplesmente, nunca estava satisfeita. Era um horror! Horas com a criança no peito e quando eu retirava ela gritava de fome. Amamentei de quase arrancar os bicos e a família inteira dizendo que deveria ser apenas o leite materno, que maternidade era isso mesmo: sofrimento. Eu não conseguia achar aquilo correto.

Até que falo com minha mãe ao telefone e ela me diz: – Filha, não fique neurótica com essa amamentação. Se sua filha não está saciada dê um complemento. Ela está com fome.

E foi aí que pensei. Alternativas existem. Você não deve fazer tudo o que esperam de você a todo momento. É assim em tudo. No casamento, com seu peso, no trabalho e também na maternidade. E foi ali, naquele momento que eu aprendi a ser mãe. Porque descobri que eu seria mãe do meu jeito e não da forma cor-de-rosa-assexuada que o mundo oferece. O modelo de mãe não cabia em mim, assim como o modelo de mulher. Eu deveria então construir meu próprio modelo.

Hoje, sou uma ótima mãe, mas sou uma mãe assumida em minhas deficiências. Adoro brincar com minha filha, passo horas com ela lendo, vendo filmes ou fazendo atividades culturais. Enquanto a parte da alimentação e idas ao banheiro deixo com o pai. Ele é melhor nisso. E assim dividimos as atividades e todo mundo ganha. Ninguém fica sobrecarregado. Mas, sei que meu modelo familiar é exceção e que ainda temos que lutar muito para disseminar a inclusão da paternidade na produção de afetividade e integração com os filhos.

Porque acho que a maternidade é importante sim, mas deve ser exercida com liberdade.