É tempo de carnaval. Bora colocar o salto de acrílico!

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Sábado de carnaval, você aí no meio da folia. E carnaval é festa, música, fantasia. Parece ser, até mesmo, o tempo de trocar rótulos por fantasias. E se fizéssemos isso todos os dias: abandonar os rótulos, trocando-os, simplesmente, pela liberdade?!

Nessa onda carnavalesca de liberdade e fantasia, venho defender o Direito Fundamental de Usar Clear Heels. Certo, bora logo explicar o que quero dizer com isso, antes que a interpretação pegue a rua errada.

Foto de Xavier Donat no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A história toda começa aqui, com esse vídeo do Chris Rock. Nele, o comediante se refere aos famosos saltos de acrílico e como eles pareciam ter se transformado em uniforme de prostituta. (ok, sei que o vídeo é bem machista, mas gosto muito desse show inteiro e de algumas colocações do Chris sobre, por exemplo, o american way of life ou a questão racial). A verdade, no entanto, é que passei a adotar os tais saltos de acrílico como simbologia  inversa: símbolo da liberdade feminina. Como o fim dos rótulos e da dicotomia santa-puta. Como a liberação da sexualidade feminina, a significar tão somente a devolução dessa a quem efetivamente sempre pertenceu: A MULHER.

É claro que essa historinha toda acaba remetendo ao caso Sandy. Nem sei se quero falar disso, mas… Recomendo dois textos com visões diversas do episódio. Minha birra com essa história toda está nessa necessidade de pautar toda mulher por sua sexualidade e esquecer que entre Eva e Maria existe, simplesmente, a mulher.

Nessa necessidade de transformar a sexualidade de cada mulher em objeto de discussão do mundo: se está lá para santa, então, “ah, não pode ser, ninguém é assim tão correta e pura”. Se está lá para puta, então, “deus, como ela pode ser assim promíscua, onde o caráter?”.

No final, só penso: que mal haveria em Sandy continuar sendo a boa moça?! Será que ninguém ainda percebeu que há tanta liberdade em declarar-se “moça direita” quanto em declarar-se “prafrentex”, desde que qualquer uma dessas declarações venha da escolha livre e unicamente feita pela própria mulher?! Desde que não seja a representação de uma imposição, de um “tem que ser”?! A minha birra é acreditarem que “temos que ser” ora correta, ora devassa, como condição de aceitação.

Por essas e outras o salto de acrílico deveria ser símbolo: símbolo do direito de escolha de toda mulher. Da defesa do direito de irmos da santa a puta, do sapato boneca ao salto de acrílico, sem que um rótulo venha de presente.

Defesa do direito de que seu salto de acrílico possa ser uma havaiana, uma sapatilha de ballet, um tênis all star, um scarpin Louboutin, uma pantufa; e você, como todas as outras, será, simplesmente, mulher.

Reconhecer a imensa diferença entre o uso da imagem feminina (seu corpo, sua infatilização, sua objetificação)  de um lado e a sua decisão de usar ou não seu corpo e seu sexo de outro. Na liberdade, a diferença. E na liberdade, a dificuldade. Às vezes me pergunto se caberia um habeas corpus pra ser, simplesmente, mulher…

Esse rótulo nós aceitamos.