Violência sexual: invertendo papéis

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

É comum comentarmos, por aqui ou em outras discussões feministas, como as autoridades não estão bem preparadas para lidar com casos de estupro. Seja por fazerem parte de uma estrutura social machista, seja por não terem treinamento ou preparação adequados para lidar com essa questão. Parece realmente haver uma deficiência nesse ponto.

As formas de solucionar esse problema são várias e, definitivamente, não passam pela história que será relatada aqui. Ela serve, na verdade, apenas para expor esses defeitos da estrutura policial e/ou judiciária. Ainda que ocorrida em outro país, a verdade do relato e a pertinência dos pontos ali levantados fazem dela uma referência, no mínimo, interessante.

A história foi abordada no jornal inglês The Guardian: Raped policeman: ‘I never thought I would be a victim’. Trata-se do depoimento de um policial, responsável pela investigação de crimes de estupro que, um dia, tornou-se vítima dessa mesma espécie de crime.

Certo que há um componente nessa ocorrência que faz dela fundamentalmente diferente da maioria dos casos de estupro: a vítima é um homem.

O primeiro ponto a ser destacado na história está em como o policial do caso se mostra surpreso por ele, experiente em lidar com casos desse tipo, ter se tornado uma vítima. Após relatar a série de eventos que o levaram a parar em uma casa de pessoas desconhecidas e, horas depois, acordar sendo estuprado por outro homem; ele, que havia passado décadas na tentativa de aplacar a culpa e o sofrimento das vítimas que sempre se perguntam “por que eu?”, “o que fiz para que isso acontecesse?”, sentia-se agora sujo, com raiva, enojado e com medo. Mesmo com toda a sua experiência, não deixava de passar por sua cabeça que era culpa sua ter se colocado naquela situação.

Esse ponto me impressiona por tantos motivos. Se um homem, submetido a essa situação de violência, sente-se culpado por ela, que dizer do estupro de uma mulher? Que, bem diferente da situação tratada, envolve sempre uma relação de poder e, não raro, com a idéia da responsabilidade e da culpa da própria mulher pelo ato, como se o merecesse?

Ainda que envolvendo um homem, o relato serve para identificar a sensibilidade necessária no tratamento desses casos e como, talvez, as autoridades realmente não estejam preparadas. Se não pela ocorrência comum da culpabilização da própria vítima, também pelo fato de que, muitas vezes, a opção pelo desinteresse em levar adiante o processo vem do desejo de manter-se afastado da história, de não querer revivê-la ou se expor. Mais uma vez, deve ser ressaltado que: em se tratando de mulheres vítimas de estupro, o desestímulo em representar contra seu agressor tem vários outros componentes. Contudo, não se pode desprezar justamente esse aspecto: como a investigação e o processo expõem a vítima, novamente, a todo o horror vivido, como relata o policial.

Então, esse é mais um motivo para se alegar a necessidade de reavaliação das práticas policiais e judiciárias no tratamento dos casos. No Brasil, não se deve esquecer, casos de estupro devem ser processados mediante segredo de justiça. Mas a realidade mostra que a regra, ainda que aplicada devidamente, não é suficiente para minimizar o sofrimento da vítima envolvido no processo, muito, repito, pelo despreparo dos agentes envolvidos.

De forma pungente o policial que forneceu o depoimento aqui tratado diz que “somos sempre mais sábios depois do ocorrido” mas, que isso não o ajuda em nada. Não deveria (e não pode) ser necessária uma experiência como essa para abrir os olhos daqueles que atendem as vítimas de crimes sexuais. A sensibilidade, o preparo e o conhecimento para tanto deve vir de outras fontes. E para isso basta querer.