Feminismo e BDSM

A sexualidade humana ainda se encontra distante de deixar de ser tabu: expressões sexuais precisam passar por um criterioso filtro que avalia quais delas são normais e saudáveis, assim como o ponto onde estão na escala de “vulgaridade”. É quase impossível manter uma atividade sexual sem que isso lhe torne vulnerável ao julgamento categorizador da sociedade, que impõe quais são os modos aceitáveis de se lidar com a sexualidade.

Embora muitas pessoas se identifiquem com essa dificuldade e já tenham sido de alguma forma oprimidas pela normativização sexual, a maioria jamais teve de parar para refletir sobre o modo como certas expressões de sexualidade carregam estigmas. O BDSM é um grande exemplo, sendo-lhe frequentemente atribuído o valor de doentio.

Crédito da Imagem: Captain.Orange no Flickr, em CC.

BDSM é uma sigla cujo significado reúne os termos “Bondage e Disciplina”, “Dominação e Submissão” e “Sadismo e Masoquismo”. Nas relações BDSM, as pessoas costumam assumir papéis opostos de acordo com suas preferências sexuais; por exemplo, uma pessoa sadista e dominadora que se relaciona com alguém masoquista e submissa. Assim, ambas podem sentir prazer e ter as suas necessidades atendidas.

É fundamental compreender que a prática ou vivência do BDSM requer grande responsabilidade. O principal fundamento do BDSM são as regras “SSC” – São, Seguro e Consensual. Ou seja, para praticar BDSM – tanto em sessões esporádicas sem comprometimento com outras pessoas, quanto em relações monogâmicas – todas as pessoas participantes precisam estar cientes do que estão fazendo. A parte dominadora ainda deve ter preparo para a utilização prática de todos os brinquedos sexuais e um profundo conhecimento das medidas preventivas de segurança – o que significa um grande consumo de tempo e dedicação para treinar o manuseio dos equipamentos e estudar as reações do corpo e da mente da parte submissa. Além disso, todos devem consentir e estar de pleno acordo com os limites estabelecidos: isso quer dizer que bebidas alcoólicas ou outros tipos de substâncias não têm espaço no BDSM, assim como nenhuma espécie de atitude abusiva ou manipuladora.

No BDSM, é possível encontrar uma infinidade de práticas, fetiches e fantasias, que podem estar presentes dos mais diversos modos na sua essa sexualidade ou estilo de vida. Se você consegue imaginar uma fantasia, muito provavelmente já existe um termo específico para ela, além de comunidades entusiastas com compartilhamento de extensivos materiais de discussão, medidas de segurança ou mesmo práticas ou brinquedos específicos.

As implicações de consentimento e liberdade que envolvem o BDSM, na verdade, são também muito úteis para outros tipos de relacionamentos. Todo ato sexual requer consentimento: tanto para um simples beijo quanto para uma penetração sexual, para que essa relação aconteça, é preciso haver concordância de todas as partes envolvidas. Qualquer ato sexual praticado sem consentimento é abuso sexual e crime. O BDSM não ignora essa premissa: cada sessão ou relacionamento BDSM é solidificado em diálogos onde todas as partes devem conversar sobre o que gostam e não gostam, combinar uma safeword – palavra de segurança para parar o ato em casos de emergência – e estabelecer limites. Todo esse acerto muitas vezes é até transformado em um contrato informal, onde as pessoas participantes devem expressar seu consentimento.

No que diz respeito ao Feminismo, há uma grande controvérsia a respeito de mulheres que resolvem se submeter sexualmente a homens. É importante lembrar, no entanto, que homens, mulheres ou qualquer outro gênero podem ocupar tanto a posição de dominação quanto a de submissão. O BDSM não é uma prática sexual que se dedica a subjugar a mulher: todas as pessoas, independente de seu gênero, são livres para expressar e viver suas fantasias, fetiches e desejos. Se é da vontade de uma mulher ser dominante e sadista, sua escolha deve ser respeitada, tanto quanto deve-se respeitar o desejo de ser a submissa ou masoquista de outras. Toda pessoa possui suas próprias necessidades e preferências sexuais; a sexualidade é subjetiva, sendo construída e transformada diariamente. Somente uma pessoa pode falar por si mesma, reservando-lhe os direitos de fazer somente o que a agrada e de negar tudo aquilo que a ofende ou violenta.

Crédito da Imagem: Captain.Orange no Flickr, em CC.

Infelizmente, praticantes de BDSM sofrem represália e discriminação de toda a sociedade e têm suas fantasias frequentemente atribuídas a doenças, especialmente pessoas submissas e maquistas. Pessoas sadistas ainda sofrem com uma forte associação de imagem com a criminalidade. Existe um grande estigma sobre qualquer tipo de atividade sexual inconvencional e isso faz com que a maioria das pessoas praticantes omita a sua sexualidade, muitas vezes de forma envergonhada ou amedrontada por riscos de perda de emprego ou hostilização familiar.

O Feminismo tem se transformado e, com isso, englobado a luta por uma pluralidade maior de pessoas que necessitam de liberdade sexual: pessoas trans, travestis e mulheres cis, bem como pessoas de todos os gêneros que vivem sexualidades consideradas marginais. É papel dos movimentos feministas e LGBT – que, por sinal, luta por uma comunidade bastante familiarizada com o BDSM – lutar pela destruição desses estigmas. A reinvindicação por liberdade sexual não pode contemplar apenas as sexualidades normatizadas pela sociedade; ela deve abraçar todas as sexualidades e práticas sexuais, desde que feitas com pleno consentimento de quem as pratica.

Mesmo que não nos identifiquemos com certas escolhas, ou não consigamos nos imaginar naquelas posições, é de exímia importância o respeito pela vida pessoal de outras pessoas. Devemos nos despir de toda a postura colonizadora que tenta invalidar e deslegitimizar as decisões alheias, buscando conhecer e educar não somente a sociedade que nos cerca, mas a sociedade que é construída por nós.