Quando uma feminista descobre que vai ser mãe

Texto de Adriana Mattoso.

Muitos podem dizer que já previam isso. Eu não. Mas posso dizer que sou um pouco devagar, afinal nunca me imaginei casada e cá estou, casada de papel passado e tudo. Outra coisa intrigante para mim foi o meu percurso acadêmico, coisa que nunca me imaginei fazendo. Fiz o meu mestrado com o tema central sobre a repressão sexual entre mãe e filha. Ou melhor dizendo, como as mães reprimem a sexualidade das filhas.

Imagem de Beth Scupham no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Imagem de Beth Scupham no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mas o meu tema não deixava de ser maternidade. Muitas colegas diziam que quando eu fosse mãe eu saberia. Algumas em tom de acusação. Como se o fato de colocar que, mesmo inconscientemente, as mães no geral reprimem a sexualidade das filhas (pelas imposições sociais) me colocasse no hall das feminazis, das feministas intolerantes. Eu trilhei um longo percurso pessoal e acadêmico para perceber que a culpa é mais da sociedade do que da mulher.

Muito aconteceu e eu parei de ver o trabalho como única fonte de realização pessoal. Muitas mudanças radicais na bagagem, um sentimentozinho de não-pertencimento que quer ir embora de qualquer jeito, e então, resultado positivo. Não estava planejando, mas também não posso dizer que estava evitando. Não tomo anticoncepcional há 3 anos. A bomba hormonal e o meu histórico familiar de AVC’s me fez colocar prós e contras na balança. Se eu e o marido estivéssemos tomando mais cuidado, isso talvez não aconteceria.

Mas, por que então eu não evitei? Melhor dizendo, por que nós não evitamos? Pode parecer arrogante, mas acho que o mundo precisa de pessoas melhores. Não querendo dizer que eu seja essa pessoa, mas pelo menos eu tento e não tenho orgulho dos meus preconceitos. Mas na minha cabeça, o mundo precisa de mais homens feministas e mulheres liberais e, porque não dizer: feministas. Mas aí paira o meu maior medo. Será que conseguirei ser esse tipo de mãe? Não acredito, como já disse antes, que a psicanálise seja uma sina, mas sim uma descrição. Mas como fazer para evitar a realidade que ela descreve?

Ao mesmo tempo, como feminista, não posso deixar de me preocupar com a dupla jornada, o mercado de trabalho. Serei eu agora vítima direta do teto de vidro, já que além de mulher, serei mãe? Conseguirei eu realmente voltar a esse mercado, depois de 2 anos ausente? Conseguirei eu manter minha identidade ou passarei a me definir como indivíduo pelo meu papel biológico que se confundirá para sempre com o meu social? Serei a partir de agora Adriana, a mãe de… ou continuarei sendo a pesquisadora, escritora e feminista? Estarei eu feliz com isso?

Será que minha filha poderá viver numa sociedade que não legitime a violência sexual contra ela baseada na sua vestimenta? No horário que sai de casa? Será a minha filha livre? Livre para escolher sua sexualidade sem se achar um monstro? E o meu filho? Saberá ele respeitar as mulheres, olhá-las com igualdade, entender que os papéis sexuais são socialmente determinados e que não devem ser reproduzidos? Será ele também livre para exercer a sexualidade que bem lhe entender, brincar de boneca, colecionar papel de carta?

Tenho, sim, muito medo de ter um filho nesse Brasil que vejo nos jornais, onde apresentadoras cegas incitam a violência contra as maiores vítimas da sociedade. Onde ninguém enxerga os problemas causados pela a associação feita entre dinheiro e prestígio social. Ninguém sabe mais o que são valores, sobretudo aqueles que enchem a boca para falar deles.

Mais ainda: me amedronta ser mãe no país campeão da violência obstétrica, que nega auxílio governamental às mães e ameaça mulheres de cadeia como “política de incentivo” à natalidade, no lugar de buscar medidas para compartilhar o fardo da criação. O país onde 40% das crianças não tem o nome do pai na certidão de nascimento.

Por enquanto são mais dúvidas do que certezas, mas existem algumas sim. Sei, por exemplo, que a criança terá um pai, e feminista. A favor do aborto e que sabe que trocar fralda esporadicamente não é nada. Alguém que sabe o que eu vou sofrer e que pode muito bem ser capaz de trabalhar em casa para cuidar da criança. Não vai ter um pai que “ajuda”, terá um que fará a sua parte. Vai viver num país onde ainda tem gente que se indigna e que faz a sua parte e que sim, são muito necessários.

Não viverá num país onde tudo está previsto e não é preciso ser feito nada. Vai viver num país que ainda é lindo, mas um dia não será mais. Espero que viva para ver a beleza e a alegria que tanto me fizeram falta quando estive longe daqui. Se orientará pelo sol, que sempre nos abençoa, e seu coração baterá nos muito ritmos que temos por aqui: maracatu, afoxé, catira…

Por que eu não desisti de ter um filho? Porque me lembro da minha mãe, antes que a vida a amargasse, no quanto queria ser mais livre, menos presa nas amarras sociais. No meu pai e o quanto seus desejos não combinavam com o machão de classe média que tentava ser. Do meu avô, que me ligava para recitar seus versos de moda de viola e me fazia chorar ao telefone. Da minha avó que dizia: “o emprego é o primeiro marido de toda a mulher”. Da minha outra avó que não conheci e que arranca lágrimas de todos ao ser lembrada, e que dizem, era a minha cara. Do Marcos, que sempre diz: “é a minha opinião” e, em seguida completa com: “eu acho”, para ser bem redundante, mas que tem o sorriso mais lindo e secreto que eu já vi, a alma mais honesta que eu conheci. E comigo, que essa criança terá a tarefa de conhecer por trás do rótulo “mãe” e que se descobrir o ser humano que aqui reside, será bem menos infeliz do que a vasta clientela dos analistas.

E por favor, não respondam as minhas perguntas. A vida está aí pra isso.