Por que as revistas femininas são como são? E como pretendemos arejar esse modelo.

Texto de Marjorie Rodrigues, uma das criadoras do projeto da Revista AzMina.

Cresci lendo revistas femininas. Quando tinha uns 7 ou 8 anos, minha mãe assinava a Criativa e me deixava brincar com as revistas quando terminava de lê-las. Eu escolhia criteriosamente as fotos mais bonitas, recortava-as  e colava-as em folhas sulfite. Nos espaços brancos em volta, escrevia as minhas próprias chamadas e matérias. Depois grampeava tudo e enchia o saco da minha mãe para que ela lesse tudinho. Queria que ela lesse minha revista com o mesmo interesse que lia as que chegavam pelo correio. (Não é caô. Pode perguntar pra ela!)

Também lembro da primeira vez em que comprei uma revista pra chamar de minha. Foi uma Atrevida com a Aline Moraes e a Alessandra Ambrósio na capa. Tinha uns 10 anos. Depois disso, passei a colecionar revistas teen. Quando minha irmã arranjou seu primeiro emprego no SAC da editora Abril, eu achava que ela trabalhava tipo na fábrica do Willy Wonka.

Revistas femininas foram, então, um componente importante no  meu “tornar-se mulher”. Para a Marjorie criança e adolescente, elas tinham um quê de autoridade. Eram tipo uma amiga ou irmã mais velha que ensinava o que era cool. O gosto pelas revistas também foi essencial na escolha da profissão: virei jornalista.

Só que quanto mais eu amadurecia e abria os olhos para o mundo, menos passei a me reconhecer nas revistas voltadas a mim. Durante a faculdade, deixei de lê-las. Nenhuma das minhas amigas também se interessava por elas. Quando caía alguma na minha mão, pensava: “meu deus, que coisa mais boba, quem lê essas merdas? Quem compra essas roupas carérrimas?”. Eu não era daquele jeito. As mulheres à minha volta não eram daquele jeito.

Mas, por que as revistas femininas são assim, tão distantes das mulheres que a gente conhece e seus múltiplos interesses e experiências? Acredito que parte da resposta esteja no próprio mercado jornalístico. Que, como vocês sabem, está em crise. Com a queda nas vendas graças à competição com a Internet, o jornalismo se tornou ainda mais dependente dos anunciantes. Ok, você pode dizer que revistas femininas SEMPRE foram meio bobocas. Mas se você pegar a revista Nova dos anos 1970, por exemplo, verá que ela era bem mais prafrentex para a época do que a Nova atual. E eu acho que isso tem tudo a ver com o mercado.

Revistas femininas e a dependência da publicidade

Hoje, o grosso do lucro das empresas jornalísticas vem de anúncios, as vendas em banca são apenas uma pequena parcela. Com isso, a concepção de mulher que aparece no conteúdo editorial dessas revistas limita-se a ser a mesma da publicidade. Público alvo: classe A, a que tem mais dinheiro pra gastar (o que, no Brasil, significa ser branca), heterosexual (maioria), com acesso ao mercado de luxo. As revistas focam a maioria das matérias em moda e beleza porque é um nicho que tem milhares de marcas para prospectar anúncios.

Não é surpreendente que a concepção de mulher do jornalismo,que por sua vez segue a definição da publicidade, seja tão limitada. O machismo no meio publicitário é gigante, como bem demonstra essa excelente matéria da Agência Pública: Machismo é a regra da casa, por Andrea Dip.

Você que critica as blogueiras de moda por fazerem publieditorial sem sinalização, saiba que as revistas fazem algo semelhante há muito tempo. Não quero dizer que elas também falem bem de produtos e serviços ganhando algo por fora. Disso, nunca ouvi falar. Mas, o que sei que existe, pela minha própria experiência trabalhando em revista, é que o conteúdo editorial já é pensado de forma a captar anúncios. Por exemplo: meu primeiro estágio foi numa revista para mães. E a reunião de pauta era assim: “vamos fazer uma matéria sobre carrinhos, aí podemos pedir anúncio para as marcas de carrinho X, Y e Z”. Certa vez escrevi uma notinha sobre uma pesquisa que destacava os benefícios do leite materno. A diretora de redação mandou cortar, porque uma grande fabricante de fórmulas era a principal anunciante da revista, então melhor não desapontá-los.

As revistas femininas não representam sequer as próprias mulheres que escrevem suas matérias. Não representam minhas colegas de faculdade e de trabalho. Nas redações das revistas mais bobocas estão muitas mulheres inteligentes, fortes e interessantes. Elas estão longe de só se interessar por futilidades. Até porque, vocês vão me desculpar, mas acho que ninguém entra na faculdade de jornalismo sonhando em escrever: “teste seu estilo de paquera”. Mas, sabe como é, todo mundo tem conta pra pagar.

O projeto da Revista AzMina

Meu trabalho de conclusão de curso da faculdade coroou meu divórcio com as revistas femininas: escrevi uma monografia sobre como o jornalismo impresso retrata a mulher e os temas mais caros ao feminismo. Descendo a lenha no machismo e backlash, claro.

Hoje, cinco anos depois de formada, vejo que faltou à monografia  justamente esse link com o mercado. Para que uma revista feminina com conteúdo realmente diferente possa existir, é preciso não só que ela questione normas arcaicas de gênero, mas que também esteja fora da lógica capitalista — que, hoje, vai inevitavelmente empurrá-la a depender de anúncios para gerar lucro e continuar crescendo. Assim, o único feminismo possível é o de butique. Tomando sempre cuidado para não ousar chocar demais.

Junto com uma equipe de mulheres muito bacanas, algumas das quais eu conheci na faculdade de jornalismo, faço parte de um projeto de revista feminina que visa romper com os padrões da mídia tradicional e represente melhor a diversidade de belezas, experiências e pensamento das mulheres brasileiras. Chama-se AzMina.

Para cortar o mal pela raiz, não seremos uma empresa capitalista, mas sim uma organização sem fins lucrativos. A maior preocupação, portanto, não será como fazer a revista vender cada vez mais (AzMina seria digital e gratuita) ou como conseguir mais e mais anúncios para superar o lucro do último trimestre. A maior preocupação será fazer jornalismo de qualidade. Os custos de produção das reportagens (pagando devidamente todas as profissionais envolvidas, afinal o trabalho jornalístico tem que ser valorizado — principalmente o feminino, que ganha cerca de 30% menos!) e manutenção  do site serão bancados pelas leitoras, através de doações.

Para a primeira edição, fizemos um projeto de financiamento coletivo — ou crowdfunding — estilo tudo ou nada. Depois, dependeríamos de doações espontâneas, sem mediação de um site de financiamento coletivo. Se você gosta do conteúdo e quer que a revista continue existindo, contribua com o que puder. Simples assim. Doe pelo site Juntos.com.vc.

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Revista AzMina: mais colaborativa e mais plural

Também teremos espaço para anúncios, mas não queremos depender deles. Sem visar lucro e com a maior parte da conta sendo paga pelas leitoras, não precisaremos pautar o nosso conteúdo pensando em captação de anúncios. E, ainda poderemos selecioná-los a dedo. Propagandas homofóbicas, machistas, que reafirmem normas arcaicas de gênero, enfim, tudo aquilo que a pesquisadora de mídia Jean Killiborne demonstra lindamente na série de vídeos: Killing Us Softly.  Para tudo isso poderemos dizer: não, obrigada! Assim, estimularíamos e daríamos visibilidade apenas às empresas preocupadas em fazer uma publicidade mais bacana com as mulheres.

Tudo isso nos daria liberdade para fazer jornalismo independente e transgressor. Que fale de você e do que você quer, não do que o mercado quer que você seja. Mas, isso significa que seríamos uma revista perfeita, livre de falhas? Não. Longe de nós sermos tão pretensiosas. Até porque, não existe isso de virar feminista e de repente ver a luz, nunca mais ter inseguranças ou preconceitos de nenhum tipo. Feminismo é um trabalho de desconstrução, questionamento e aprendizado constantes, para vida toda. Nossa revista vai refletir e estimular isso. Não queremos te ensinar como se libertar. Não queremos falar por você. Queremos criar uma mídia onde todas tenhamos voz. Queremos uma revista que olhe para você, ouça você, dê espaço para você falar e que te inspire a descobrir-se livre para viver como quiser.

Porém, temos consciência de que nossa equipe tem muitos privilégios. Somos todas de classe média (até porque as formações necessárias para fazer uma revista exigem curso universitário, e quem faz universidade no Brasil?). Não somos todas brancas, mas, por conta da classe, muitas vezes gozamos de privilégios como se brancas fôssemos. O negro é visto como mais negro quando mora na favela do que quando está na universidade. Algumas de nós são lésbicas ou bissexuais, mas gozam do privilegio cisgênero. Enfim, sempre tem um privilégiozinho aqui e ali e tudo isso influencia nossos pontos de vista. Por isso, se Azmina existir, talvez falhe algumas vezes em ser tudo o que pretende. Afinal, ela é feita por seres humanos.

Aliás, mal começamos e já temos um exemplo disso: para nosso vídeo promocional, usamos a música “All About That Bass” da Meghan Trainor, que nos pareceu uma canção divertida e que fala sobre ser gorda de uma forma positiva. Aí, a Gizelli Sousa — que escreve sobre gordofobia no Nefelibata e fez o projeto Gorda & Cabelinha — nos alertou: “perceberam que nesse trechinho da letra ela chama as magras de stick figures, fazendo body shaming com as magras? E diz que homem tem que ter coisa pra apertar?”. Fuén. Porra, Meghan!

Então, não podemos prometer que vamos ser uma revista que nunca vai escorregar. Sabe por quê? Porque ninguém pode prometer isso. Todo oprimido é socializado com a ideologia do opressor. O lance é perceber, desconstruir e seguir. O que podemos garantir para você é que a primeira edição nasce tendo o feminismo interseccional no seu DNA; com a intenção de ser anti-caga regra e diversa, celebrando em vez de sufocar as diferenças.

No propósito de abarcar a maior diversidade possível, o grupo fundador da revista não será o único a trabalhar nela. Contrataremos freelancers, dando prioridade sempre a mulheres e minorias. Seremos também a primeira revista com um conselho editorial formado por leitoras. Dependendo do valor que você doar para o nosso financiamento coletivo, poderá fazer parte do conselho editorial e assim sugerir pautas, dizer o que gostou e não gostou, conferir os bastidores da produção das reportagens, enfim, orientar a equipe para sempre melhorar a revista. Não será uma publicação vertical, na qual a gente sobe num pedestal para te dar o passo-a-passo, o tutorial, as dicas. Partimos do princípio de que você pode nos ensinar muito também. Estamos todas e todos aqui para aprendermos em conjunto. Sororidade é isso.

Acredito que o futuro do jornalismo vai por esse caminho: mais colaborativo, mais plural e com formas alternativas de financiamento. Não sei se AzMina é uma revista que vai existir. Precisamos arrecadar R$50 mil em dois meses. Mas, se não for o nosso projeto, logo deve surgir outra coisa. Tem que surgir. Do jeito que está, não dá mais. E até as próprias revistas femininas tradicionais já estão percebendo isso, como a Nova (que virou Cosmopolitan) fazendo matéria sobre machismo. E a Elle colocando Ju Romano na capa, blogueira de moda que posou mostrando as gorduras e sem photoshop. Mas, o modelo de negócios dessas revistas não permite que esse tipo de conteúdo seja mais do que pontual, mais do que uma edição especial.

Desde que fui convidada a participar desse projeto, tenho me sentido tão empolgada quanto a menininha que fazia revistas para a mãe. Posso voltar a amar revistas. Posso fazer uma que seja mais legal. Afinal, não é o formato em si que é ruim. Revistas são divertidas, coloridas, têm brecha para mais criatividade no texto… Enfim, tudo o que me fez me apaixonar por elas quando criança. O que se fez do formato que é ruim. Mas a gente pode repensá-lo, a gente pode recortar, colar e fazer tudo de novo.

Vamos nessa? Doe, participe e divulgue AzMina!

Vídeo – Apoie: Revista AzMina – Para mulheres de A a Z.

Autora

Marjorie Rodrigues é jornalista formada pela ECA-USP e mestre em estudos de gênero pela Central European University (Budapeste) e Universiteit Utrecht (Holanda). Diploma que ela só conseguiu obter graças a um crowdfunding. Trabalha como assessora de comunicação em uma ONG holandesa de saúde reprodutiva e é uma das criadoras do projeto AzMina. Facebook: Revista AZmina – para mulheres de A a Z. Twitter: @revistaazmina.