Isso não é sobre luto ou sentimentos e emoções. É sobre política.

Texto de Jussara Oliveira.

Após um crime ambiental que ocorreu no estado de Minas Gerais, e proporcionou um desastre cujos impactos (no meio ambiente e contra diversas pessoas) ainda não temos como precisar, tivemos uma semana repleta de mais crimes e tragédias, com motivos e motivações diversas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

Daí que é fácil observar que a mobilização sobre cada uma deles difere enormemente.

Todo um conjunto de valores morais, religiosos, culturais fazem com que nos identifiquemos e sintamos empatia por uma determinada situação ou não. Existem também questões sociais e políticas que direcionam esses sentimentos. É sobre essas questões que quero falar.

Por que será que é tão mais fácil se sensibilizar por pessoas que estavam em um estádio de futebol ou um teatro e foram mortas, ou tiveram em algum nível sua vida ameaçada… do que se sensibilizar por outras milhares de pessoas que estavam provavelmente em suas casas e morreram, sumiram ou estão agora sem acesso a água ou mantimentos básicos? Ou ainda de diversas pessoas que moravam em um bairro da periferia de uma grande capital e foram mortas.

Vê-se que proximidade geográfica, condição social ou nacionalidade não parecem ser fatores que direcionam essa indignação seletiva… então, o que seria?

O que é mais fácil acontecer ou acontece com mais frequência no Brasil? Morrer de um crime ambiental? Sofrer com falta de água e mantimentos? Sofrer violência policial ou do crime organizado? Ou sofrer um ataque terrorista?

Será que temos uma noção real do tamanho do impacto, não apenas do “acidente” repentino nas barragens, mas de assassinar um rio da magnitude do Rio Doce? Ainda mais com seu papel enquanto fornecedor de água potável em um momento de crise hídrica no sudeste?

Mulher e criança, desabrigadas após o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, em um abrigo em Mariana, interior de Minas Gerais. Foto de Cristiane Mattos/Futura Press/Estadão.
Mulher e criança, desabrigadas após o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, em um abrigo em Mariana, interior de Minas Gerais. Foto de Cristiane Mattos/Futura Press/Estadão.

Será que temos ideia da vulnerabilidade social e da alta taxa de mortalidade da população preta e pobre que vive nas periferias dos estados do Brasil? E quem tem interesse ou noticia esses acontecimentos, o faz de que forma?

Será que sabemos o risco que adolescentes sofrem ao estar buscando exercer seus direitos de protesto em um estado/país em que os movimentos sociais tem sofrido perseguição e seus trabalhos tem sido cada vez mais criminalizados e punidos de forma completamente injusta e desproporcional?

Que informações temos sobre tudo isso na mídia tradicional? Qual a mobilização que nossos políticos, eleitos ou não, tem demonstrado em favor de cada uma dessas situações? Qual desses assuntos pode gerar algum impacto econômico em grandes empresas? Quem ganha o quê com cada uma dessas situações e com a repercussão disso tudo?

Sinceramente, eu não acho que as pessoas devam se indignar pelas mesmas coisas que eu, ou que devam se mobilizar da mesma forma. Mas todos podemos se fazer as perguntas acima, entre tantas outras, em vez de acreditar que estamos numa competição sobre que morte é mais valiosa ou qual sentimento é mais verdadeiro.

Isso não é sobre luto. Isso é sobre política.

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Publicado originalmente em meu perfil pessoal do Facebook no dia 14/11/2015.