A tentativa frustrada de combate à militância feminista na internet

Texto de Talita Santos Barbosa para as Blogueiras Feministas.

Quando escrevi o texto ‘O feminismo na internet também é importante’, abordando as razões pelas quais o feminismo de internet tem tanta importância quanto os coletivos que atuam em cidades físicas, busquei uma forma de explicitar, através de teóricos da comunicação, que o que é feito na internet possui importância dentro de suas particularidades e limitações. Dessa forma, a militância feminista virtual se encontra em diversos blogs, páginas no Facebook, perfis no Instagram, no Twitter, entre outras mídias sociais, como uma ferramenta de difusão de ideias e compartilhamento de vivências, fazendo com que o feminismo seja fortalecido tanto dentro do ambiente virtual como fora.

Apesar do que pessoas machistas ou antifeministas, e até mesmo algumas feministas, dizem acerca da militância na internet não ser válida, contrariando todos os argumentos de que militância na internet é tão eficaz quanto as que são feitas fora dela, pois para essas pessoas,  militância — seja feminista ou não — só pode ser feita na rua, no corpo a corpo. A militância na internet tem crescido, se intensificado e essas pessoas ignoram que a interatividade é o que torna o ambiente virtual um espaço de troca de saberes, onde feministas compartilham experiências da militância e não apenas assistem passivamente aos acontecimentos. A militância na internet não pode ser posta num segundo plano quando várias páginas, perfis, blogs e sites são silenciados por estarem apenas denunciando crimes e a sociedade machista em que vivemos.

Os inúmeros casos recentes de machismo vão desde as mensagens de cunho pedófilo direcionadas à participante do MasterChef Junior, seguido da campanha #PrimeiroAssedio do Think Olga e também após a divulgação de questões da prova do ENEM. Além desses, houve o racismo nos insultos virtuais a atriz Taís Araújo. Esses eventos provam que o feminismo na internet incomoda e não é pouco.

Mensagem de descrição do “Think Olga”.

Foi no ambiente virtual, através de páginas e perfis feministas em variadas plataformas digitais, que casos de naturalização da violência contra a mulher, romantização de relacionamentos abusivos e relativização da pedofilia foram expostos. Foi por meio de coletivos e grupos feministas na internet que muitas mulheres, durante essas semanas, descobriram que a violência também tem força no ambiente virtual e faz-se tão presente quanto nas cidades físicas, logo foi possível perceber o porquê do feminismo também deve existir na internet.

Após a queda de algumas páginas extremamente machistas e que possuem discursos de ódio contra diversas minorias, outras páginas que denunciam casos de machismo e violência contra a mulher sofreram ataques em massa. Através da derrubada do perfil da Stephanie Ribeiro e de páginas como “Feminismo Sem Demagogia”, “Jout Jout Prazer” e a criação de blog fake em nome de Lola Aronovovich, acreditaram que dessa maneira o feminismo perderia força, mas o que se viu foi uma grande reação das pessoas, desaprovando e divulgando o quanto a intolerância precisa ser combatida.

Embora digam que o feminismo virtual não tenha relevância, as pessoas que o combatem entram num paradoxo. Quem é contra o feminismo pode até dizer que o feminismo virtual não tem efeito e acusam as feministas de serem espectadoras passivas de atos de violência, pois só sabem militar no conforto do sofá, entretanto são estas feministas que eles buscam reprimir, combater e silenciar diariamente. Então, como que este feminismo não gera efeito?

Diante deste cenário de ódio ao feminismo e às mulheres feministas, uma frase de Simone de Beauvoir nunca fez tanto sentido: “Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres” (O Segundo Sexo, pg. 18). Os homens que reagem com birra aos discursos feministas, que não questionam seus machismos, seus assédios, suas violências, homens que sequer possuem a capacidade cognitiva de interpretar uma citação da Simone de Beauvoir numa prova e já saem a chamando de “baranga francesa”, entre vários outros adjetivos depreciativos, são eles também que usam a internet para “militarem” contra nós, feministas.

Por fim, o ódio ao feminismo, às mulheres e a toda e qualquer pauta que fira o ego dos privilegiados não é exclusivo do século XXI. Mas, se ainda hoje, é necessário lutar por direitos básicos, isso só prova que o feminismo ainda é relevante. Logo, o feminismo incomoda, toca na ferida e gera tanta revolta dos machistas. E o feminismo na internet incomoda os privilegiados, incomoda tanto que preferem ameaçar, silenciar, expor e reprimir ao invés de promover um debate saudável. Por isso, volto a afirmar: o feminismo na internet também é importante.

Autora

Talita Santos Barbosa é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo. Escreve no blog Oito ou Oitenta.