E se eu não quiser ter filhos?

Texto de Liediani Medeiros de Souza para as Blogueiras Feministas.

Adoro crianças. Acho elas simplesmente fantásticas. Quando estou em algum evento social ou qualquer lugar com muitas pessoas, elas são o meu público favorito. Nossas conversas são interessantes, divertidas, curiosas. Aprendo muito. Crianças são despretensiosas. Passar tempo com elas é sempre enriquecedor e gosto muito. Mas isso não quer dizer eu queira ter crianças, filhos. Na verdade, até esse momento da minha vida, decidi que não quero tê-los. Claro que posso mudar de ideia no futuro, mas até o momento isso não aconteceu.

Há alguns meses, no meio de uma conversa comentei com um dos meus melhores amigos, um homem, que eu não desejava filhos. Isso foi o começo de um longo monólogo. De acordo com ele, existiam vários motivos que impediam que eu aceitasse que queria filhos (nem entrarei no mérito de que eles deveriam ser biológicos e não adotivos). Ou seja, ele partia do princípio que, como mulher, inerentemente, queria filhos, mas não me permitia aceitar isso.

O primeiro motivo era que estava decepcionada com os homens. Ele sabia que eu havia terminado uma relação recentemente e que não havia conhecido homens com quem me via tendo uma família. Isso é verdade, em parte. Não estava decepcionada com os homens enquanto categoria, mas estava cansada do tipo de homens com quem tinha me relacionado até então. Algumas relações foram longas, outras nem tanto, mas nenhuma delas havia criado esse desejo em mim.

O segundo motivo era minha juventude. Ainda não cheguei nos 30, então, obviamente não cedi a necessidade de ter filhos. De acordo com esse pensamento, existe um relógio biológico que vai tocar o alarme quando chegar em uma idade específica (compreendida quando se iniciam os 30) e que ele vai me tornar desesperada para perpetuar a espécie humana na forma de um ser com metade do meu material genético.

O terceiro motivo estava diretamente relacionado ao primeiro, estava solteira. Assim que encontrasse um cara bacana ia querer começar uma família e isso incluía crianças.

No dia que tivemos essa conversa, apresentei meus motivos de maneira mais individual, mas com algum tempo de reflexão, percebi que a percepção que meu amigo tinha dos ideais de família e de feminilidade são muito comuns e até em algum grau estabelecidos. Não se pode ser mulher sem querer se casar na igreja, sem desejar filhos. A mulher tem um ciclo de vida, no qual em algum momento sentirá a urgente necessidade de ser mãe e para isso vai querer uma relação estável que consiste em casamento. Sinto informar, mas essa não é regra e não precisa ser.

Mesmo após anos de luta, as mulheres ainda são colocadas em um padrão de conduta muito limitado, no qual as desviantes se tornam revolucionárias, rebeldes. Ser mãe solteira, não ser mãe, não casar, casar só no papel, entre outras condutas da área afetiva são considerados posicionamentos políticos e, para alguns, rótulos para mulheres feministas radicais ou até pessoas frustradas que não conseguiram ninguém com quem dividir suas vidas.

A primeira pergunta que me vem a mente é: o que você (pessoa que questiona essas condutas) tem a ver com isso? Cada pessoa tem o direito de escolher por si e quando o direito violado é o meu, imediatamente há revolta, luta, discussão, conflito. Somos ensinados a não nos meter na vida alheia e a não desejar que alguém se meta na nossa. Mas quando se trata da vida afetiva de uma mulher e das escolhas que ela faz, essa proposição é invalidada. Muitos se acham no direito (e até no dever) de avaliar, julgar e doutrinar àquela para que se comporte adequadamente, voltando ao modelo. O que isso muda na vida daquele que se intromete? Posso dizer que pouco ou até nada. Se aquela mulher não se casar ou não tiver filhos, Ela não casou e não teve filhos! Você pode fazer essas duas coisas, nada o impede. Surpresa! Somos seres individuais.

A segunda pergunta é: por que o seu desejo tem que ser o meu? Todos temos sonhos, desejos e conquistas que perseguimos. Dependendo do contexto, da situação familiar e politica, das interações de cada sujeito e de tantas outras variáveis, isso se constrói em nós. Alguns desses sonhos, são mais comuns e propagados socialmente, além de alinhados de acordo com um gênero ou outro como adequados. Casar e ter filhos são apenas dois deles e que são, geralmente, entendidos (ou ensinados) como tipicamente femininos. Mas existem tantos outros! Viajar, ter uma carreira, comprar um carro, ser ativista, adotar animais, passar em um concurso publico e ter estabilidade. Um sonho, mesmo quando compartilhado com outras pessoas ao redor do globo é inerentemente individual. Não é porque eu desejo algo, que necessariamente todos tem que querer o mesmo.

A terceira é: por que encontrar uma mulher que não compartilha dos sonhos esperados para ela causa tanto incômodo? Naquele dia, meu amigo e eu brigamos e ficamos duas semanas sem conversar. Ele estava decidido a me convencer e eu decidida da minha posição. Sua intromissão me perturbou, me senti desrespeitada. Creio que quando ensinaram a ele, assim como a tantos outros, o que era uma mulher, explicaram que ela teria cabelo comprido, seios, quadril largo, cintura fina, uma carreira menos importante que a do companheiro (esse item pode variar, desde que ela ganhe menos e faça caber a jornada como dona de casa dentro da rotina), heterossexual, educada, polida, que sonharia em se casar de branco em uma igreja repleta e discutiria com o esposo entre ter dois ou três filhos. A mulher do século XXI não é muito diferente da do século XIX, a não ser pela carreira que seria inexistente e pelo número de filhos (não casar era a mesma coisa que escolher o ostracismo, então nem vale a pena mencionar).

Por ser mulher, mesmo hoje depois de tantas conquistas dos movimentos sociais, ainda não posso ficar “de boa” com a decisão que eu tomar sobre a minha vida afetiva. Bom, até posso, mas isso é questionado. E essa é a grande questão! A liberdade individual, quando não fere a vida de outro, deve ser respeitada. A roupa que uso, a comida que como e com quem e como eu me relaciono, cabe somente a mim. Não estou ministrando que todas as mulheres devem se abster de ter filhos, não casar ou não querer nenhuma dessas coisas. Meu desejo é que a mulher possa decidir fazer o que quiser, e além disso, desejar o que quiser sem questionamentos. E se ela mudar de ideia, tudo bem. Será que é pedir muito?

Autora

Liediani Medeiros de Souza é mulher, jovem, psicóloga, paranaense do interior radicada em Floripa e ativista feminista e ambiental em constante construção. Apaixonada pela minha família, meu trabalho e pela missão assumida de ajudar as pessoas a serem mais felizes a partir da transformação pessoal.

Imagem: Rosa da série Mulheres. Ilustração de Carol Rossetti.

[+] Eu escolhi não ter filhos, e isso não me faz menos feliz ou completa.

[+] 11 mulheres contam como descobriram que não queriam ter filhos.