Amor, ciúme, loucura? Não, machismo

Texto de Daiany Dantas.

João amava Maria, que amava João. Um belo dia eles se casam… e não são felizes para sempre. Cinco anos depois, João matou Maria com dois tiros e se suicidou em seguida. O motivo: ciúme. Essa triste história que dilapida o alegre ideal ensinado pelos contos de fada, infelizmente, não é uma obra de ficção. A estimativa, com base no banco de dados do SUS, é de que 10 mulheres sejam mortas por dia no Brasil, vítimas da violência doméstica.

Marias, Anas, Mércias, Cláudias, Sônias, Vanessas, Elizas, Sandras, entre tantas outras, são assassinadas todos os dias por seus parceiros. Por aqueles namorados que conheceram numa festa da faculdade, seus vizinhos de rua, amigos de longa data. Os que mandavam flores e bombons. Com quem dividiram todos os sonhos e festejos do amor romântico, como a gente o conhece dos filmes e dos livros.

Talvez por isso, mesmo com a nossa percepção acostumada a tantas e tantas mortes enquadradas em close nas lentes da mídia, ainda nos perguntamos o porquê de tanta torpeza. Especialistas em qualquer coisa se apressam em dar declarações com diagnósticos estapafúrdios: amor demais, álcool demais, loucura enciumada. Será mesmo?

O discurso de que o ciúme leva à loucura e esta, por sua vez, induz ao homicídio é uma forma simples de maquiar o problema. Exime o ciúme de qualquer problematização, isenta o assassino de uma condenação pública compatível com o mal causado por ele, reafirma a honra, a posse e, tristemente, deprecia enormemente o valor da vida da mulher silenciada.

Distorções como estas só funcionam por que o machismo funciona. Funciona em manter as coisas como estão. Uma imbrica o outro numa conexão vantajosa. Assim, não se discute desigualdade de gênero, mas amor, ciúme, loucura, conceitos que são construídos pela nossa cultura, possuem uma função social que vitaliza o quadro já existente.

Foto de iviestyle no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A questão da honra

À parte disso, há o esforço de inúmeras pesquisadoras, que em suas teses, dissertações e pesquisas institucionais se desdobram na tentativa de problematizar as relações violentas. Uma questão importante a ser levantada é a forma como as relações afetivas são identificadas pela sociedade, que afirma a necessidade de um núcleo familiar formado por um casal e filhos. Uma estrutura que historicamente está fadada a hierarquizar as relações, predestinando ao homem a figura de provedor e à mulher a de cuidadora (da casa, do marido, dos filhos).

Lia Zanotta, em seu artigo ‘Os espelhos e as marcas‘, menciona o contrato conjugal – a união, o casamento sob o mesmo teto – como um elo que tende a consolidar os papéis de gênero dados ao homem e a mulher. E a violência doméstica como o elemento disciplinador que garante a aplicabilidade desse contrato. Sendo assim, uma mulher que queima o feijão, que teima em fazer luzes no cabelo, que insiste em trabalhar fora, pode ser regrada pelo poder punitivo da violência.

A forma como a nossa sexualidade é construída também desempenha um papel crucial. A virilidade masculina, sua honra e conseqüente bem estar no grupo social, não depende apenas de seus sucessos no mundo público. A ‘paz’ no privado, assegurada na sexualidade domesticada da esposa e das filhas, deve ser mantida. Um homem traído ou um provedor destronado – algo muito comum hoje em dia, com o crescente número de mulheres que sustentam as famílias – é um homem sem honra, portanto, um pária, alvo de deboche em sua comunidade.

Se pequenos conflitos são regulados pela violência, o que fazer com os grandes? Como a separação, que é a dissolução de todo o contrato e, consequentemente, a negação de qualquer papel de gênero previsto pelo machismo? A morte parece ser a alternativa lógica para essa sorte de pensamento.

Eu sem você não tenho porquê

A antropóloga feminista Analba Brazão Teixeira, em seu livro ‘Nunca você sem mim‘, aborda o espinhoso tema dos homicidas-suicidas em nossa sociedade, para isso, investiga a literatura sobre crimes de honra e violência doméstica e entrevista longamente familiares das vítimas de cinco casos exemplares de homicídio seguido de suicídio, na tentativa de recompor o quadro, as histórias de vida que levaram às tragédias.

A corajosa obra de Brazão é um livro forte, doído. Mas que deveria ser lido por todos e todas nós, em caráter preventivo. Confronta-nos com a triste realidade de uma cultura que ensina a rimar amor e dor e premia a morte com a justificativa da honra. Sem separações, sem traições, sem mulheres que negam um gênero essencialista, pelo jeito, assim, teríamos paz. A falsa paz da clausura, do patriarcado que confina mulheres e homens num padrão insustentável fora das fronteiras da hipocrisia machista.

Ao reconstruir a história dos amantes mortos, percebemos o quanto os homens, algozes, também são, em alguma medida, vítimas do machismo. Chamou a minha atenção o caso de Cris e César (nomes fictícios), um casal jovem, muito apaixonado, com uma história que, a não ser pelo desfecho, poderia sustentar qualquer trama de novela global – longos anos de um namoro que sobreviveu à distância.
Passados os primeiros e entusiasmados anos do casamento, o quadro era outro. César estava em depressão porque sua empresa havia falido, enquanto Cris progredia profissionalmente e sustentava a casa com seus três empregos. Sem o brilho dos primeiros anos, o casamento se desfazia aos poucos. Este é o momento em que o ciúme se manifesta. Cris era enfermeira e César montava guarda em frente ao Hospital, nas noites de plantão, imaginando que ela o traía com um médico. Depois de uma viagem, César matou Cris com dois tiros na nuca e se matou com um tiro no peito e outro no ouvido. Deixou um bilhete, endereçado ao pai dela, pedindo que ambos fossem enterrados no mesmo túmulo.

Loucura? Não. Amor? Menos ainda. Ciúme? Talvez, se chamarmos de ciúme essa manifestação de posse que surge em decorrência da perda da honra, da desestabilização de uma hierarquia social, fragilizado que ele estava por não ser o provedor. Machismo? Sim. Infelizmente, arraigado em nossa cultura, cheio de sutilezas e palavras que o atenuam. Castrador e diluidor de muitas vidas possíveis, de tantas mulheres e alguns homens que ainda deveriam estar por aqui.

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Daiany Dantas é professora, feminista, entre outras coisas.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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