#8demarço – Por que o aborto deve ser legalizado?

Texto de Daiany Dantas.

Qualquer pessoa adulta tem uma história de aborto para contar. Homens e mulheres, quando questionados, conseguem facilmente puxar da memória o caso da prima, tia, irmã, namorada, colega de escola, amiga, cunhada, vizinha, até mesmo das nossas mães. Conhecemos na intimidade ou ouvimos falar de alguém que interrompeu a gravidez — com consequências mais ou menos graves, com alguma notoriedade ou sob as brumas do silêncio clandestino.

Se você é mulher, a história ganha outros contornos. Além de conhecer alguém, pode ter protagonizado pessoalmente um desses episódios. É bem possível que tenha recorrido a um método de interrupção de gestação, quando sentiu que precisava mesmo disso. Ou tenha acompanhado ou aconselhado uma mulher próxima de você, quando ela mais precisou.

Certamente, em nossa voz, a história ganha tons mais vívidos e proporções maiores – que infelizmente não chegam aos ouvidos da sociedade com a força necessária. A penalização relega essa questão à clandestinidade e o que se escuta são ruídos distantes, cochichos de bastidores, que lembram vagamente o relato inicial.

Trazer a legalização do aborto — ou a interrupção da gestação, como atualmente se nomeia, numa das muitas tentativas de romper com o estigma que permeia essa discussão — ao debate público é, antes de tudo, reconhecer a experiência das mulheres sobre o tema. Todas nós deveríamos poder discorrer publicamente e com igual poder de voz sobre a vivência de nossa sexualidade, os limites de nosso corpo, o acesso aos nossos direitos sexuais e reprodutivos e os nossos lugares nos núcleos familiares. Questões que muito diretamente nos dizem respeito, sobre as quais teríamos muito a elucidar e contribuir, se nos deixassem falar…

A contínua luta do movimento feminista e os índices de desigualdade de gênero menos alarmantes impedem que países desenvolvidos sigam mantendo leis que neguem o direito de voz e cidadania às mulheres. 67% dos países desenvolvidos permitem o aborto quando da solicitação da mulher. Este número se eleva a 97% quando a prerrogativa é de risco de vida para a mãe. O quadro muda no que diz respeito aos países em desenvolvimento. A taxa de permissividade no primeiro caso cai para 15%. Quais os reais motivos para essa disparidade no reconhecimento de direitos? As mulheres seriam mais vistas, ouvidas e reconhecidas em sua cidadania em países onde tem maior participação política, melhores recursos financeiros e mobilidade social? Sim, mas esta é só parte da questão.

Tutela, controle e distorções

Felix Guattari, no livro ‘Cartografias do Desejo’, adverte que a prática de tutelar as mulheres é parte do projeto patriarcal, que nos destina o status de cidadãs de segunda categoria, subordinadas ao estado, aos pais e maridos, assim como estão os loucos ou as crianças. Decidir por nós, sem nos dar a capacidade de dialogar sobre outras escolhas possíveis, é uma forma de manter o nosso corpo e nossa sexualidade sob vigilância e controle.

Penalizar apenas as mulheres por uma fecundação – que não ocorre sem a ação de um homem envolvido – é também criminalizar o gênero feminino, assumir que as mulheres que abortam são responsáveis naturais pela continuidade da gestação e o homem está naturalmente isento de qualquer acusação.

É ainda, indiretamente, consentir com a reprodução dessas desigualdades entre as próprias mulheres, já que as de maior poder aquisitivo podem pagar o preço cobrado pelo abortamento assistido por profissionais clandestinamente contratados – muitas vezes seus ginecologistas de confiança, que utilizam métodos de menor potencial ofensivo, como a AMIU – aspiração manual intra-uternina – enquanto as pobres se sujeitam a métodos alternativos, ineficazes e arriscados, cujo resultado muitas vezes é a morte decorrente de hemorragia ou negligência no atendimento do SUS.

Em 2008, uma pesquisa realizada por meio de uma parceria Unb-Uerj identificou que 70% das quase um milhão de interrupções de gestação realizadas no Brasil são feitas por mulheres casadas, jovens, mães, de classe média, letradas e católicas. Dados que contradizem o imaginário popular que projeta o aborto como um método de contracepção e preferido por mulheres solteiras.

A suposta moralidade judaico cristã brasileira – impregnada nos discursos que dificultam um debate laico sobre o tema – não detém mulheres que, quando julgam necessário, decidem optar por isso. A sociedade moralista que convive cotidianamente com suas histórias de aborto guardadas no armário, sabe que não seria ético prender uma mulher porque ela o fez. Tanto porque ela não engravida sozinha, quanto porque qualquer mulher poderia fazer o mesmo, em face das circunstâncias.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as taxas mais altas de mortalidade decorrentes de abortamento em condições inadequadas acontecem em países em desenvolvimento. A América Latina realiza cerca de 4,6 milhões de abortos todos os anos, um quarto destes – 6.000 – resultando em mortes maternas, em sua maioria de jovens, pobres e negras.

No Brasil, o aborto inseguro é a terceira causa de mortalidade materna. Ou seja, o preço de nossa ambiguidade é a vida de milhares de mulheres que estão na base da pirâmide no que diz respeito ao acesso a seus direitos humanos, sexuais e reprodutivos.

O aborto na legislação brasileira

No Brasil, a lei que regulamenta o aborto não muda desde 1940. Criminaliza a prática com detenção de um a três anos, no entanto, permite a realização do aborto em caso de estupro ou risco de vida para a mãe. Mas, sabe-se que o número de abortos legais realizados é mínimo, enquanto o abortamento inseguro é um problema de saúde pública. Isto também se explica por questões estruturais, culturais e de jurisprudência.

Apenas 60 hospitais realizam aborto legal no país. Mesmo contando com o serviço em sua cidade, algumas mulheres precisam investir em processos morosos para obter o direito a serem assistidas na rede pública. É comum ainda se depararem com médicos que alegam objeção de consciência e declinam da obrigação profissional.

Há ainda o apelo dos “missionários da vida”, padres e pastores que tratam de intervir, às vezes publicamente, em favor do feto, verdadeiros ventríloquos do além, que defendem a crença de vida desde a concepção. Caso emblemático dessa prática é o do Arcebispo de Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou toda uma equipe médica e mãe de uma menina de nove anos, por contribuírem com a interrupção de uma gestação que a colocava em risco de morte – mas absolveu o padrasto “arrependido” que a estuprou.

Tramitam atualmente no congresso uma série de projetos demandando mudanças na legislação. Infelizmente, a maioria deles propõe retrocessos na lei, proibindo o aborto sob qualquer circunstância ou dificultando a sua prática, criando constrangimentos para as mulheres. As cadeiras ocupadas pela direita religiosa no congresso cresceram nos últimos anos e muitos desses líderes utilizam um (falso) discurso de defesa da vida como plataforma política.

Daí advém propostas estapafúrdias, como o Dia do Nascituro – a ser comemorado no 25 de março, 9 meses antes do natal – uma tentativa piegas e forçada de associar as células da gravidez interrompida à imagem de um menino Jesus. Além de uma ofensa às mulheres, um atentado à nossa laicidade, afinal, celebrar o cristianismo não pode ser lei num país que governa sob o princípio da liberdade de crença religiosa.

Há ainda as propostas sutilmente articuladas para dificultar avanços na luta pelo direito ao aborto, como a PL nº 2.185/2007, que impede o financiamento internacional de pesquisas sobre planejamento familiar ou o PL nº 2.504/2007, que prevê o cadastro compulsório da gravidez, cerceando o direito à privacidade das mulheres e colocando-as na perspectiva de uma criminalização iminente.

A primeira versão de um projeto que previa a descriminalização do aborto foi encaminhada em 1991, sendo modificado sucessivas vezes até finalmente conseguir ser votado no Congresso, em 2008 – quando foi rejeitado por unanimidade. As energias agora se concentram pela aprovação de projetos que permitem a interrupção de gestação de feto anencéfalo, como o PLS 227/04. O jogo de forças certamente continua desfavorável. A Cidade do México – capital do país, onde a legilação é estadual – despenalizou o aborto até 12 semanas em 2007. Na Colômbia, existe a possibilidade de interrupção para quaisquer casos de má formação do feto. Mas, aqui, conseguiremos?

Nunca se falou tanto em modificações na legislação brasileira sobre aborto, infelizmente isso não acontece porque a sociedade finalmente atentou para o sofrimento das mulheres, mas reflete os interesses voltados à manutenção de um palanque moralista, historicamente especializado em execrar mulheres. Formados com louvor na escola de “queimação das bruxas”, que tenta deter a decadência dos falsos profetas desde a Idade Média. Claro, é mais fácil mobilizar a detração daquelas que estão em posição mais fraca, sem uma voz suficientemente forte para se contrapor à opressão sofrida.

Por isso o feminismo é tão urgente. E precisa de um coro firme, amplo e numeroso. Por isso precisamos denunciar que nós estamos falando de vida e estamos aqui para garantir que todas as histórias sejam contadas: das mães, irmãs, namoradas, tias, primas, amigas, vizinhas, filhas. E que não sejam vistas como as histórias delas, mas como as nossas histórias, com biografias, cores, rostos e sonhos.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3RQ1d6EWK9E]

Para saber mais…

[ + ] Guia sobre aborto para profissionais de comunicação
[ + ] Site do Ipas Brasil – organização que luta por direitos reprodutivos das mulheres.
[ + ] Blog Aborto em Debate – clipping e opinião
[ + ] Blog Por Todas Nós – notícias sobre a tramitação de projetos no Congresso Nacional

—–

Daiany Dantas é professora, feminista, entre outras coisas.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

Os comentários estão desativados.