Mexendo na caixa de abelhas

Texto de Luciana Nepomuceno.

“Ponha uma colméia no meu túmulo e deixe o mel encharcar tudo”*

Isto de ser mulher na contemporaneidade é negócio complicado. E difícil. Ser complicado e ser difícil não são sinônimos aqui. São operações que atuam em dois registros diferentes. É difícil ser mulher pelos altos índices de violência de gênero, pelos rigorosos padrões estéticos, pela naturalização dos abusos, pelos maus-tratos culturalmente instituídos, pela distorção na formação das crianças, pelas características do mercado de trabalho, pela supervisão acirrada sobre a sexualidade, pelas pressões sobre a maternidade, pelo silêncio em que tudo isto acima descrito e linkado esteve submetido por tanto tempo.

Mas, eu dizia, ser mulher, além de difícil, é complicado. Porque é um tornar-se sem letreiros, placas, sinalização. O feminino é um furo no discurso fálico, uma tentativa, sempre uma tentativa, de dizer o que não é possível por não ter um significante. Mas é bonito saber que tornar-se mulher é uma invenção individual.

Ser mulher é ser menina, brincar de casinha, fantasiar filhos. Ser mulher é atropelar bonecas com trator e correr nua no jardim. Ser mulher é ser moribunda, tudo ter apenas na memória. É ser recem-nascida e se permitir tudo de novo. Ser mulher é acordar com doces nos olhos e dormir com sal na boca. É dançar na rua, dizer palavrão, chorar de saudade. É cuspir no chão, fazer cafuné, dirigir caminhão. É perguntar, divagar, emudecer. É gargalhar e tocar piano com o cotovelo. Ser mulher é ser não, ser véu, é ser o vazio. Ser mulher é ser tudo e tudo doer. É apegar-se ao externo: colar de pérolas, salto alto, batom. É negar, um a um, cada símbolo de ser mulher e pairar, despida, no imaginário de si mesma. Ser mulher é caminhar, tornar-se, fazer-se. Ser mulher é se adivinhar um dia antes de ser.

É reescrever. É reescrever-se. É desenhar a carvão, mas já definitiva forma. Ser mulher é ser marias, joanas – francesas ou não, ritas, amélias. Ser mulher é saber-se todas e saber-se nada, caleidoscópio do vazio. Ser mulher é agarrar-se aos exemplos e não os repetir, um a um, como um ensaio às avessas. Ser mulher é difícil, tornar-se mulher é complicado. Mas insistimos.

E insistimos em um espaço que nos nega sempre. Em um cotidiano com tantos nãos que é de se espantar que alguma de nós ainda consiga. Tanta dificuldade tem nome: Machismo. O machismo é insidioso. E é tão terrível na sua face ruidosa (estupros, diferençasentresalários, jornadadupla para a mulher) como na sua face discreta (piadassexistas, educação/lazer diferente para meninosemeninas, regrasdecomportamento sexual etc.)

Foto de Marco Cipovic no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Do que estou falando? Vou tentar começar de novo. O espaço social é violento com as mulheres porque é um espaço estruturalmente machista. A violência tem várias nuances, claro. A violência de gênero parece estar profundamente entrelaçada ao preconceito. O preconceito, um tipo peculiar de atitude, possui aspectos cognitivos, afetivos e comportamentais. De maneira bem rasa:

O componente cognitivo se manifesta por estereótipos, crenças e representações de atributos negativos que caracterizariam determinados grupos sociais. Por exemplo, o discurso machista cria a ilusão de inferioridade, dependência, ignorância, coisificação da mulher. Mulher dirige mal. Mulher não entende de lógica. Mulher não sabe fazer conta. Mulher não sabe decidir rápido. Mulher deve ser agradável aos olhos.

O componente afetivo apresenta-se em avaliações e sentimentos negativos a respeito do grupo discriminado. Mulher é incompetente, não GOSTO de trabalhar com elas. Ah, mas ela era vagabunda, mereceu! Não confio em mulher no trânsito. Claro que quem vai governar é o Lula, mulher não tem jeito pra isso…

O aspecto comportamental materializa-se na tendência à prática de atos hostis ou persecutórios aos membros do grupo alvo do preconceito. Eu pago menos a uma mulher do que a um homem que realiza o mesmo trabalho. Eu empresto a chave do carro pro amigo, mas não pra amiga. Eu faço piada sobre a situação da mulher na sociedade. Eu bato, estupro, mato a mulher.

Não importa se o sexismo se manifesta de forma hostil (sua vaca!) ou benevolente (tadinhas, não têm um homem, são mal-amadas). Não importa, repito, é violento. Ainda não consegui me fazer entender? Se um homem acredita que a mulher é um objeto para sua satisfação, uma coisinha a lhe dar prazer – seja estético, sexual ou conforto no lar – ele sente que ela lhe pertence, não vai sentir empatia, mas senso de propriedade e, na lógica capitalista de que um bem seu é seu para dispor como quiser, o comportamento violento emerge sem nenhuma censura. Assim os “crimes de honra” são repetidamente desculpados.

Considero violento todo pensamento, sentimento e ação que priva alguém da sua humanidade. Matar uma mulher é uma violência (matar um homem também, mas foco no assunto, tá). Esmurrar, chutar, bater, sacudir uma mulher é uma violência. Cuspir em uma mulher é uma violência. Gritar com uma mulher é uma violência. Privar uma mulher do direito de ir e vir é uma violência. Tirar o direito de escolha de uma mulher é uma violência. Escrever uma reportagem sobre quantos parceiros sexuais uma mulher tem porque seu nome termina em A, isto é uma violência.

Todas essas ações são legitimadas e potencializadas pelos processos de socialização que reificam as mulheres tais como os padrões moralistas de comportamento sexual, os valores ligados à aparência física, as demandas de posturas submissas, as exigências de convergirem com modelos de “boa mãe”, “boa esposa”, “boa amiga”…

Então, é assim: não dá pra começar tudo de novo. Temos que reconhecer o que está e procurarmos mudar, de fora pra dentro e de dentro pra fora. Criar espaços e formas de afirmação para, na concretude das experiências, novas subjetividades se constituírem. Concomitantemente, são as novas subjetividades que possibilitarão mais espaços e mais ações de igualdade de opções e direitos.

Não é porque eu não ajo de forma machista, violenta, preconceituosa que eu estou à parte do problema. A violência contra a mulher permanecerá enquanto a sociedade mantiver a idéia de mulher como acessório, complemento, costela, parte do homem.

Eu, Luciana, posso até nunca ter sido alvo de preconceito por ser mulher, mas vivo em uma sociedade que associa valores negativos a pessoas do meu gênero (raciocínio adaptado do lindo texto da Juliana sobre racismo). E isso é inaceitável, indesculpável, intolerável (obrigada pelas palavras, Joana, elas dizem tão bem).

E eu só fico esperando que, em algum dia desses que ainda vão chegar, seja muito comum, simplesmente isso: cada um e cada uma, poder dizer sim e não. Mas poder de verdade, sem ficar com medo de ser chamada de “fácil” ou que “ele” não telefone de novo. Sem ficar com medo de apanhar. Sem ter medo de ser demitida. Sem ter medo de ser “desleixada”. Sem ter medo de ser “péssima mãe”. Sem ter medo de ser “encalhada”. Sem ter medo de ser ridicularizada. Sem ter medo de sorrir e ter rugas. Sem ter medo de comer, de beber, de rir, de amar. Sem ter medo de ser a mulher que quiser ser. Sem ter medo.

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Agradecimento especial à amiga Camilla que teve paciência comigo na discussão do batismo do post.

* Citação do delicado filme A Vida Secreta das Abelhas, linda resenha aqui.

Autor: Luciana Nepomuceno

Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Sou crédula. E cínica. Pode? Gosto do repetir dos dias. Sou grata pelas pequenas coisas. E pelas grandes, claro, como respirar. E café. E coca-cola. E beijo na boca. E o Flamengo.

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