Vozes

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

O que uma mulher procura? Não faço a menor ideia, meu caro. Você, por acaso, acha possível, justo ou correto reduzir a vontade de todo e cada homem a uma fórmula única? Imagino que não. A redução do pensamento/comportamento feminino a um modelo válido para todas é responsável pela supressão da diferença e da individualidade.

As vozes femininas são muitas, múltiplas e até dissonantes.  As vozes do feminismo assim também o são. E não há nada de errado nisso. Nossa defesa não representa a intenção de tornar todos iguais. Queremos mesmo que todos sejam tratados de modo igual, sem que para isso seja necessário excluir características particulares.

Por tudo isso, não se assuste se perceber que a voz feminista fala também de vocês, homens. A desconstrução da estrutura social patriarcal e machista passa pela aniquilação das amarras conceituais que prendem tanto mulheres quanto homens.

Foto de Nationaal Archief no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Não parece haver dúvidas de que essa forma de organização social, em maior medida, impôs exigências a mulher, conferiu-lhe um papel e colocou-a em posição prejudicada. Não se pode esquecer, contudo, que essa mesma sociedade, ainda que em menor medida, também impôs ao homem um papel.

Virilidade, sexualidade pronunciada, valentia, agressividade, ser provedor, másculo, protetor e toda essa reza que se repete, de família em família, de pais para filhos; dentro e fora de casa, no ambiente profissional, nos relacionamentos, aqui, ali e em todo lugar.

Criou-se também um modelo de comportamento masculino e aí, o prejuízo vem acompanhado também de preconceito. Todo ato de um homem que se distancie desse padrão de conduta previamente determinado e se aproxime, de alguma forma, de características supostamente femininas leva à infame frase “seja homem!”

Não há, no entanto, razões que justifiquem a atribuição das características X ao homem e Y a mulher (ou o contrário, se a fidelidade cromossômica assim exige), a não ser a construção dessa estrutura patriarcal. Não há nada que impeça a mulher de ser agressiva, a provedora da casa ou mesmo ter sua sexualidade bem resolvida. Nem mesmo pode se dizer haver algo de errado no homem que se mostra frágil, avesso à agressividade e de sexualidade comedida ou até não exercida.

Muito dessa aversão à presença de características supostamente femininas em um homem revela o ódio e o preconceito ao feminino. Essa qualificação do masculino como o bom atributo e do feminino como o atributo ruim faz parte da cultura machista. “Isso é coisa de mulherzinha”, acompanhado do sempre presente (de novo!) “seja homem”. E, assim, o menino que se mostra sensível, vulnerável, avesso aos esportes e inclinado a profissões “femininas” é condenado e logo recebe a pecha de “mulherzinha”, “fraco”, “viadinho” e tantas outras denominações.

Começa aí um longo ciclo de forçada redefinição da subjetividade do tal menino. E nem preciso aqui entrar na discussão da discriminação pela homossexualidade. A desqualificação do homossexual também acompanha a desqualificação do feminino, como inferior, pior e indesejado. A presença dessas características ditas femininas em um homem, homossexual ou não, e a consideração desse homem como inferior são a representação daquela qualificação do feminino como o ruim e do masculino como o bom.

O ódio ao feminino e o ódio ao homossexual andam juntos e, por certo, precisam ser superados. A luta feminista, cada dia mais, é a luta pelo reconhecimento das individualidades e o desejo de tratamento igualitário a todos.

Não sei se me fiz entender. São muitas as vozes.