Livros de autoras mulheres sobre mulheres

Texto de Mari Moscou.

Como as férias se aproximam e aquele friozinho gostoso vem chegando, faço aqui uma listinha de livros. Eu a-dó-go ficar embaixo das cobertas lendo horas a fio, enquanto meu gatón trabalha, lê, joga videogame, lava louça, etc. Sempre escolhi livros de mulheres.

Parece que as experiências delas chegam mais perto de me tocar, não sei. Talvez seja tudo fruto da minha admiração porque, na verdade, eu gostaria era de ser como elas (e quem não gostaria?). Destes, muitos foram justamente sobre… mulheres. Sobre ser mulher, sobre a condição da mulher. Mas a literatura dá uma coisa que livro teórico feminista nenhum dá: imaginação. Espaço pra imaginar, pra reconstruir a partir de suas próprias experiências. Prefiro e, honestamente, acho até mais feminista do que teoria feminista. Mobiliza. Emociona. Dá pra gente se ver ali muito mais do que num texto objetivo cujo único propósito é convencer alguém de algo, provar um ponto. Então, prontofalei, não gosto de ler teoria feminista por isso. Porque parece que não estão falando de algo com o que meu cotidiano possa se relacionar.

Bem, pra animar o debate, aí vai minha lista. Dois desses livros não têm versões em português mas eu precisava colocá-los aqui e quem sabe fazemos um lobby pra alguma editora publicá-los, vai saber.

10 livros essenciais de autoras mulheres sobre mulheres

  • Backwards In High Heels – The impossible art of being female (Tania Kinderslay & Sarah Vine)

Esse livro foi escrito por duas inglesas e, embora tenha em algumas partes um tom de autoajuda, penso que fica muito mais na área da crítica. Através de exemplos do cotidiano dando “dicas” como se fossem uma revista feminina típica, quase caricata, elas vão desconstruindo uma série de mitos sobre as mulheres e abrindo espaço pra pensarmos modelos e mais modelos, versões e mais versões de nós mesmas. Criticam, por exemplo, o mito de que uma mulher não gosta de outra, de uma forma leve, simples e ainda assim crítica. Coisas que só a literatura faz por nós.

  • Três Vidas (Gertrude Stein)

Este outro é um clássico da escritora Gertrude Stein (que dá nome à minha gatinha branca de olhos azuis, com muito orgulho). Ela conta três histórias paralelas em três capítulos diferentes. Cada uma, uma mulher. Cada uma, uma relação com sua condição de mulher. A escrita de Gertrude rasga o coração. Teve sobre mim o efeito de Dogville, do Lars Von Trier: ao final, vontade de sumir do mundo, de não existir. É denso. Mas não é pesado. É belo. Uma beleza triste, mas ainda assim belo.

  • Momentos de Vida (Virginia Woolf)

Nesta belezura que chegou às minhas mãos agora em 2011 estão alguns rabiscos e rascunhos e textos curtos de Virginia sobre sua própria vida. Li com muito carinho “Um esboço do passado” em que reflete sobre suas memórias e sobre como constrói suas memórias ao longo da vida. É essencial, bem escrito, elegante, tocante. É Virginia ela toda.

  • El prestigio de la belleza (Piedad Bonnet)

Piedad Bonnet é professora universitária na Colômbia. O texto tem um quê de autobiográfico e é um estilo Isabel Allende sem a parte histórica (ou quase) e com muito mais acidez e ironia ao relatar os fatos da própria vida. Divertido, nos guia pela trajetória da autora com humor e descrições incríveis da memória visual, táctil, olfativa. Do amor, do terror. Difícil de comprar, achei somente na Libreria de la U (www.libreriadelau.com) mas entregam no Brasil sem problemas por um preço excelente. Corram!

  • Persépolis (Marjane Satrapi)

Se tem um destes livros que você já deveria ter lido é Persépolis. Ele está aqui para desencargo de consciência. “Ah, mas eu vi o filme”. Ok. No caso de Persépolis o livro não é o filme MESMO. As coisas relatadas são diferentes, a linguagem é superdiferente (acho o quadrinho até às vezes mais distante ainda do cinema do que a literatura). É realmente uma outra história. Na série de 4 livros (que pode ser comprada como volume único) a iraniana Satrapi conta uma espécie de autobiografia política ou de obra política autobiográfica, vai saber. Quebra com uma porção de preconceitos de uma vez só, inclusive essa imagem abobalhada que temos aqui das mulheres islâmicas e do Irã. Vale a pena.

  • As boas mulheres da China (Xinran)

Já falei e falo muito deste livro, que está entre os que mudaram minha vida. Xinran foi radialista e percorreu a China coletando e contando histórias das mulheres chinesas que sofreram a revolução cultural. Assim como a obra de Satrapi, é uma obra feita em exílio. Li quase tudo da autora e digo que este livro é o mais denso, o mais emocionante, o mais tocante. É trágico e desesperador. Mas alerta para nossa condição de mulheres, estejamos na China ou em qualquer lugar da sociedade ocidental. Segurem o fôlego e embarquem.

  • A mulher que matou os peixes (Clarice Lispector)

Clarice é Clarice. Há quem ame, há quem odeie. Eu gosto bastante mas pessoalmente prefiro Virginia. São diferentes. Enquanto os “grandes livros” de Clarice são bem conhecidos, comecei a notar que este aqui pouca gente conhece. Minha mãe leu pra mim pela primeira vez quando morreu um peixinho lá em casa. De uma forma que só ela sabe, Lispector fala da morte. Do começo ao fim, é só morte. Mas ao contrário das boas mulheres da China, que é só vida, este não é nem de longe um livro trágico. Deixo-as na curiosidade.

  • Minha história das mulheres (Michelle Perrot)

Ok, confesso que esse aqui não é de literatura. Perrot é historiadora e trabalha com a questão de uma história das mulheres. Neste livro faz uma espécie de resumão das questões mais relacionadas na história das mulheres: corpo, trabalho, ocupações, família, maternidade e por aí vai… Curtinho e com edição em português por preços bons, não tem mais desculpa, galera, já pra leitura.

  • Os garotos da minha vida (Beverly D’Onofrio)

Há quem discorde mas este livro pra mim é megafeminista. Talvez você conheça o filme com a Drew Barrymore (minha ídala; se não conhece vai já pra locadora que em qualquer Blockbuster e afins tem). Esta é uma autobiografia, de Beverly. Beverly conta da difícil relação com a família, com a própria sexualidade e construção da autonomia através do grande baque de sua vida: uma gravidez aos 15 anos. É um livro emocionante, lindo e, ver no making of do filme ela mesma ajudando a Drew a construir os personagens depois, ah, é demais. Lembrete do dia: passar na locadora, hein?

  • Ariel (Sylvia Plath)

Não podia excluir a poesia dessa lista. Amo este tipo de texto e amo mais ainda as mulheres que o fizeram em grande estilo, como é o caso de Sylvia Plath ou Emily Dickinson. Como Clarice e Virginia ela se suicidou (gentê, será que isso é um sinal pra mim? rê rê rê, brincadeirinha). Era casada com um poeta que com qualquer coisinha obtinha super sucessos enquanto ela penava pra dar conta de toda a família e ainda escrever, publicar, enfrentar os editores que achavam que seu estilo não era de mulher… Sylvia é obscura. É um corvo que corta o ar na direção exata das entranhas que devora. Não me canso de suas palavras. Tem um filme sobre a vida dela, com a Gwyneth Palthrow, que ganhou meu respeito por conta disso, devo dizer (tá bom, Grandes Esperanças também é uma adaptação bacaninha, vai).

  • Dicionário crítico do feminismo (Helena Hirata – org)

A pesquisadora Hirata é nome obrigatório pra quem estuda gênero e trabalho hoje em qualquer lugar do mundo ocidental. Bem, este livro que ela organizou é uma espécie de coletânea com artigos excelentes que mapeiam TODA a produção feminista sobre alguns temas muito comuns entre pesquisadoras feministas. Tem um capítulo sobre família, um sobre sexo, outro sobre conceito de gênero, outro sobre maternidade, etc. Pra começar a discutir qualquer tema em qualquer lugar com algum conteúdo e buscar referências para depois se aprofundar, é uma obra essencial. Fikdik, zêntchi.

Autor: Mari Moscou

Socióloga, blogando firme desde 2005. Mestranda na Unicamp, escorpiana, atéia.

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