Acordei com vontade de fazer um aborto

Texto de Lis Lemos.

Acordei hoje sem saber se pintava as unhas ou comprava um sapato novo. Fiquei na dúvida e resolvi fazer um ABORTO. É isso mesmo. Sabe o quê que é? Adoro fazer abortos. Sim, é quase um hobby. Adoro ir a um açougue qualquer, pagar muito dinheiro, sempre varia de acordo com o grau de desespero e sua cara, se tem cara de pobre, ou classe média. Você sabe, né, que as madames têm lá os médicos delas que fazem isso rapidinho né? Chamam até de spa. Então, se você for pobre, preta, novinha, tá ferrada. Mas então, eu tenho uma vida de puta mesmo. Adoro sair dando por aí, sem nem ligar pra quem, sem me preocupar, porque aí depois eu faço um aborto e tudo se resolve. Os padres, os bispos, as igrejas é que estão certas de querer proibir o aborto mesmo. Até porque depois que o filho nasce são eles mesmos que cuidam né?

A minha impressão é que os políticos-religiosos enxergam as mulheres como vadias, seja lá o que esse termo queira dizer, que adoram fazer um abortozinho pra relaxar. É a única explicação plausível para hipocrisia em que eles nadam e à qual querem nos condenar. É a única explicação para ignorarem que são feitos em média 1 milhão de abortos ilegais no país e que milhares de mulheres simplesmente morrem por conta disso. E que não cabe a ninguém julgar a conduta sexual dessas mulheres, e que a maioria das mulheres que fazem aborto têm um relacionamento estável e se declaram religiosas. E que proibir, condenar uma mulher à prisão não diminui os números. Talvez seja esse o problema. Quando vemos números achamos normal. Temos que começar a falar das Joanas, das Anas, Gabrielas, Leilas, Carolinas que morrem todos os dias. E, claro, não há dúvidas de que se os homens engravidassem, o aborto já seria legalizado há muito tempo.

“Basta de rosários em nossos ovários. O direito de decidir sobre nossos corpos, não é uma questão de fé. É uma questão de democracia.” Cartaz de Campanha do Grupo Articulación Feminista Marcosur.

Autora

Lis Lemos é jornalista, Relações Públicas, feminista. Não necessariamente nessa ordem.