Mulheres militantes: a luta por movimentos sociais mais feministas

Texto de Priscilla Caroline.

Em meados do século XX, o movimento feminista começou a fazer barulho na luta por mais direitos para as mulheres. Mais de um século depois, ainda travamos uma luta cotidiana e acirrada contra diversas estruturas machistas que insistem em se fazer presentes. E o pior é que essas coisas estão lá, firmes, mesmo nos espaços que se dizem mais inclusivos, como os movimentos sociais.

Isso não significa que mulheres não participem de movimentos sociais. Pelo contrário, elas costumam ser maioria nos movimentos populares, as mais dispostas a reivindicar melhores condições de vida. A aparente informalidade do modo de fazer política dos movimentos talvez atraia as mulheres, mais do que os espaços institucionalizados, como os do legislativo e do executivo.

Manifestação na Rodoviária de Brasília. Foto de Paula Andrade/ENAMB 2011 no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

O problema é que apesar de serem fundamentais na composição dos movimentos ainda é raro ver mulheres assumindo a liderança dos protestos. O “pegar no microfone” e aparecer publicamente parecem ser atitudes muito masculinas ainda. Para muitas mulheres, os homens parecem ser mais bem preparados para exercer as funções do espaço público.

Além disso, outra barreira muito comum para a emergência de lideranças femininas é o machismo embutido nas diversas práticas dos movimentos sociais. Segundo Orna Sasson-Levy e Tamar Rapoport [1], autoras de um estudo sobre questões de gênero em protestos de Israel, o machismo é tão persistente que mesmo em movimentos que pretendem ser inclusivos diversas distinções de gênero se fazem presentes na mobilização, nas estratégias e nos padrões de liderança.

Os protestos das meninas do MPL contra uma situação de violência e aquela discussão chata sobre o termo feminazi mostraram que ser de esquerda não significa ser feminista. Aliás, este é um equívoco bem comum nas posições de diversos companheiros progressistas.

A divisão de tarefas no movimento é um exemplo comum. Quem faz ata, os cartazes, cuida da organização do espaço de reuniões? Quase sempre as mulheres. E quem é reconhecido como representante do grupo, que faz a maior parte dos discursos? Geralmente os homens.

No caso do movimento estudantil, por exemplo, onde estudantes geralmente tem mais tempo para dedicar à militância, a renovação é maior e há uma permeabilidade maior às pautas de outros movimentos sociais, ainda acontecem absurdos como no dia das eleições do CONUNE na PUC-RS.

E mesmo quando não é escancarado, tem sempre aquilo que fica no olhar, na piada, no jeito de falar. Uma das meninas que entrevistei para a minha monografia disse que o dia que ela se sentiu a pior militante do planeta foi quando ela chegou numa reunião e alguém disse que ela tinha chegado para enfeitar o ambiente. E a coragem de subir no carro de som vestindo uma saia?

Se é assim no movimento estudantil, imagina em movimentos como o sindical, em que é comum a construção de carreiras políticas longas e as mulheres tem que lidar com a dupla jornada cotidianamente. Que tempo que sobra para a atuação política em um mundo onde os cuidados da casa são responsabilidade quase única das mulheres?

Apesar de todas essas dificuldades, as mulheres vêm conseguindo disputar espaços importantes dentro dos movimentos, por mais machistas que eles sejam.

Para continuarmos dispostas a conquistar esses espaços, devemos nos lembrar de todas as que vieram antes de nós. Nesse sentido, homenageio Dandara, pela luta contra a escravidão, Bárbara de Alencar, a primeira presidenta do Brasil, Anita Garibaldi, pela sua imensa coragem, Olga Benário, pela luta comunista, Maria do Espírito Santo, por acreditar num mundo mais sustentável, e tantas outras companheiras que superam todas as barreiras e se tornam verdadeiras referências para a nossa luta cotidiana.

Os movimentos sociais precisam ser mais feministas.

[1] SASSON-LEVY, Orna e RAPOPORT, Tamar. Body, gender, and konowledge in Protest Movements: The Israeli Case. Gender and Society, Vol. 17, No. 3, Jun., 2003; pp. 379.

Autor: Priscilla Brito

Priscilla Brito é brasiliense é escritora e cientista política formada pela UnB. Atualmente mora no Rio e faz mestrado em sociologia e antropologia na UFRJ. Também constrói o projeto colaborativo da Universidade Livre Feminista, de formação feminista online, e apoia o Agora Juntas, proposta de uma casa feminista na cidade do Rio.

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