Em caso de dúvida, não estupre.

Essa semana, após toda a polêmica relacionada ao caso do BBB 12, recebemos no grupo um email de G, que conta uma história muito próxima ao caso Monique e Daniel. Ela nos deu o direito de postar sua história, mantendo sigilo de sua identidade e decidi postar essa história aqui e depois falar um pouco, desabafar, pra ser mais exata.

Daniel e Monique, participantes do BBB 12. Foto: Frederico Rozário/Folhapress

Meu nome é G., e eu fui estuprada.

2009 era um ano promissor. Eu trabalhava em um escritório de Direitos Humanos, e aprendia avidamente sobre como defender os direitos das minorias. Também estava engajada em diversos movimentos sociais, aprendia vagarosamente a luta feminista e entrava de cabeça na defesa das minorias.

Naquela época, cursava o terceiro ano de jornalismo, e via na profissão uma alternativa de construir um mundo igualitário, ou pelo menos, um pouco mais justo àqueles que são marginalizados, agredidos e violentados de seus direitos. Mal sabia eu, que meses depois entraria nas estatísticas.

Na minha faculdade, os cursos nas áreas de comunicação social sempre foram regados a muita bebida. Particularmente, nunca vi nenhum problema nisso, inclusive participava e incentivava o povo que fizéssemos reuniões e festas, que nos confraternizássemos e tivéssemos uma vida mas livre de dogmas. 

Por ser criada dentro de um lar evangélico, beber sempre foi um ato de resistência. Acho que nunca parei muito pra pensar, nas consequências daquilo, muito menos pra ponderar até que ponto eu conseguiria manter a consciência, então beber e cair virou quase um sinônimo de negação a prisão que eu sempre tive da religiosidade.

Era começo de semestre, e resolvemos fazer uma festa pra confraternizar entre calouros e veteranos. Juntamos uma grana, fizemos um bom playlist e conseguimos organizar um grupo que convidasse e interagisse com o pessoal. Tudo estava dentro dos conformes.  A festa era pequena, na casa de um dos estudantes que morava sozinho e trabalhava o da inteiro pra pagar as contas. M. era um cara sério, militante por direitos das minorias e participante ativo dos movimentos sociais. Éramos muito amigos, mesmo com as divergências ideológicas que nos cabem ao longo da vida.

A Festa foi agradável, e reuniu pessoas especiais de vários cursos e graduações. Todo mundo se conhecia e não havia ali – ou parecia haver – qualquer risco iminente diante de tantos amigos. No decorrer da Festa, M. se interessou por mim, trocamos algumas palavras e acabamos nos beijando.

Já era muito tarde, e nós havíamos bebido muito. Então, decidimos ir para o quarto e ali trocamos algumas carícias. Só que eu estava passando muito mal, e pedi a ele que parássemos por ali. Não tinha condições sequer de me manter acordada. M. insistiu muito, me beijou enquanto eu me afastava, e eu insistentemente pedi pra que ele parasse. Adormeci, depois de muita bebida, e acordei tendo as minhas calças puxadas, sem saber o que estava acontecendo. Começava, um dos momentos mais horríveis e que me mostravam claramente, o sentimento de impotência diante dessas situações. Eu não tinha forças pra me manter em pé, pouco conseguia falar, e o pouco que consegui , me esforcei  e pedi pra que ele parasse. M. não parou, continuou se esfregando em mim, como um cão no cio que procura continuar sua espécie. Apaguei novamente, e pouco lembro disso, quando acordei, vi a garota que dormia próximo a mim, brigando com ele, e pedindo pra que parasse. O que ela me relatou, era um caso de estupro, e um caso de conjunção carnal sem consentimento

O outro dia, o estupro era claro em minha mente, mesmo com as idéias conturbadas. A repulsa e o nojo ao próprio corpo acompanhavam a sensação de embriaguez. Eu, tal qual Monique, do Big Brother Brasil, não sabia me situar, sequer responder o que havia acontecido.

É claro que no caso de Monique eu não posso dizer exatamente o que aconteceu. O sexo, em situação de embriaguez ou drogas não é consensual, não há princípios morais ou normas sociais que me façam acreditar nisso. Me espanta muito uma sociedade que tenha em seus valores, que a culpa de ser estuprada enquanto dorme ou enquanto se está dopada é da mulher que sofreu o abuso sexual.

Não quero que esta sociedade me diga o quanto eu devo beber, e qual é o limite razoável e não estuprável de uma mulher. Não quero que ela estabeleça uma centimetrometria da saia responsável por medir o nível de vulnerabilidade ao estupro. Quero uma sociedade onde homens saibam que as mulheres não são suas mercadorias, estando bêbadas ou não. Quero um lugar onde eu possa me comportar como achar adequado, sem que isso me acarrete violência sexual. O processo de construção da mulher jovem, e de seu conhecimento e experimentação ao mundo, não pode estar subjugado pelo medo de ser estuprada a cada esquina.

Não é admissível que tenhamos que fechar todos os bares e boates, que devemos regular o consumo de álcool para que os homens saibam até onde devem levar suas genitálias. Se você, homem, encontrar uma mulher em situação vulnerável, bêbada, ou se ela simplesmente lhe disser não, faça me o favor de guardar os seus desejos. Mas se ainda sim, você tiver dúvidas se ela está se insinuando, tenha em mãos o seguinte conselho: Em caso de dúvida, não estupre!”

Marcha das Vadias em Capinas. Imagem de Tatiana Oliveira.

O caso de G é muito comum, sei bem que existem inúmeras mulheres que passaram por algo desse tipo. Sei de outras que não bebem demais, mesmo desejando, por medo de que isso aconteça com elas. O que mais me surpreende é que no momento em que uma mulher conta uma história dessas, nem sempre ela tem a comoção das pessoas que se compadecem em um caso estupro visto como mais comum (rua escura, perseguição, arma ou faca ameaçando a vítima…). E o motivo é muito claro: um machismo muito forte. Entre os perfis na timeline dos meus Facebook e Twitter, vi muita gente condenando uma atitude de mulher “fácil” ou de “vadia” que bebe demais, quase transa com um cara e depois recua ou, de acordo com alguns, “finge que vai dormir” e acha que o cara, em seu instinto, não vai continuar. Sabe, acho que tanto nós, mulheres, quanto os homens sofremos com essa ideia. É uma mulher que é julgada como se houvesse alguma falha de caráter (falei tanto disso durante esse caso) e é como se ela merecesse um castigo e que esse castigo fosse o abuso sexual. E é um homem que é julgado como um bicho irracional, sem capacidade de controlar seus instintos. Ou seja, julgamos o caráter de uma mulher e a capacidade de autocontrole de um homem ao acreditar que um caso desses é o normal de se acontecer.

E, na boa, eu não consigo ver homens como seres limitados ou incapazes de lidar com seu próprio instinto. Para mim, um homem que reage dessa forma é porque tem um desvio de caráter, que não consegue enxergar uma mulher como um indivíduo digno de respeito, que tem vontades e que não está ali a serviço dele. Sim, pra mim, machismo nesse nível é um dos piores desvios de caráter que uma pessoa possa ter. Não julgo mulher alguma que exerce sua sexualidade com um@, vári@s ou nenhum@ parceir@s. Não julgo mulher que fica bêbada, bebe pouco e só em ocasiões especiais ou que não bebe nada. E, mesmo vendo esses homens e mulheres machistas como pessoas com desvios de caráter e tendo um ímpeto muito grande de não olhar na cara de pessoas assim (às vezes, meu profissionalismo ou qualquer outro motivo me impede disso), nunca faria qualquer tipo de violência a uma pessoa com essa opinião.

Não acho justo essa comparação que existe entre mulheres “direitas” e mulheres “fáceis”, não acho justo que mulheres precisem ter atitudes específicas para que sejam tratadas com respeito (e, às vezes, nem assim conseguem respeito). Precisamos entender que tudo que é direito do homem é direito da mulher também, sair, beber, fazer sexo quando e com quem quiser. Somos tod@s livres para fazer o que desejamos, desde que não afete a integridade e a liberdade de outras pessoas.

É necessário entender que as piadas, os comentários machistas feitos relacionados a uma mulher que passa por isso, também são uma forma de violência. Monique pode até não ter sofrido um estupro (como ela falou em seu depoimento), mas quando ela sair, ela viverá uma violência muito grande, será olhada com preconceito por muitas pessoas, essas que fizeram piadas, a chamaram de vadia, a humilharam em redes sociais.

Marcha das Vadias em Campinas. Imagem de Danton Yataba

Essa atitude está muito além de militância, feminismo ou machismo, está em respeito, sabe? Não temos nunca o direito de desrespeitar uma pessoa, muito menos uma mulher acuada e assustada com algo tão sério. Acho que é por causa disso que muitas mulheres como G. ficam sem denunciar um caso desses, por medo da segunda violência que passariam, o julgamento das outras pessoas.

Sei que essa semana agi de maneira muito emotiva, entrei em choque e fui passional em muitos momentos, mas eu sempre acabo me colocando no lugar da pessoa que sofre uma injustiça e fico tão magoada quanto se fosse comigo. Sofri a cada momento em que uma pessoa postava uma imagem ou uma frase ofensiva contra ela. E foi por essa empatia com o caso BBB e com a história de G. que desejei muito fazer este post hoje. Pra desabafar um pouco!

Autor: Sara Joker

Artista visual, quadrinista, atriz e cantora. Formada em licenciatura e bacharelado em Artes Visuais, pós graduada em Psicanálise. Nerd de humanas, adora RPG, quadrinhos, filmes cabeça, rock e livros. Se interessa por questões relacionadas as lutas pelos direitos das mulheres, negros e LGBTTs.

Os comentários estão desativados.