Essas pernas são suas, menina!

Pudor.

pu.dor
sm (lat pudore) 1 Sentimento de pejo ou vergonha, produzido por atos ou coisas que firam a decência, a honestidade ou a modéstia. 2 Pejo, vergonha. 3 Pundonor, recato, seriedade.

Recato.

re.ca.to
sm (der regressiva de recatar) 1 Resguardo, cautela, precaução. 2 Honestidade, modéstia, pejo, pudor. 3 Lugar oculto, recolhimento, resguardo. 4 Mistério, segredo. Pôr a bom recato: acautelar para evitar dano; guardar bem, em lugar seguro.

Eu tinha uns 12 anos quando meu pai me apresentou essas palavras. Era quase um ritual para ele, pelo qual passaram também minhas duas irmãs mais velhas. Ele me mandou buscar o pesado Aurélio que ficava na estante da sala, abri-lo na letra p, seguir para a sílaba “pu” e então procurar por “pudor”. Primeiro ele me perguntava se eu sabia que palavra era aquela. Ouvindo a negativa esperada, me pedia para lê-la e então mais uma vez e só aí, tendo a certeza de que eu havia compreendido o que me era possível daquele vocábulo, ele começava um de seus famosos sermões, cheios de uma certeza arrogante sobre os fatos da vida. Fez o mesmo com a palavra “recato”.

Falou-me sobre como eu devia ficar atenta a esses valores e como eles deveriam ser muito caros para a mocinha em que eu estava me transformando. Explicou-me que, na prática, isso significava, por exemplo, que eu não poderia mais sentar-me com as pernas abertas, ou usar saias muito curtas, ou ainda criar laços de amizade profundos demais com meninos. Atentou-me, sem dizer com clareza, para os “perigos” de uma sex

ualidade que eu ainda nem sabia que existia. E ainda fez algumas considerações a respeito dessas coisas que eu sempre tive – e vejam só, nem ele conseguiu aplacar – de falar muito alto, dançar com empolgação e até andar descalça pela casa. E aproveitando a “conversa” sobre os valores que a “mocinha” em que eu estava me transformando deveria cultivar, falou rapidamente também sobre os afazeres domésticos que eu passei a dividir com minhas irmãs e minha mãe, ressaltando a importância de que eu adquirisse habilidade em todas essas tarefas que certamente eu teria que cumprir pelo resto de minha vida.

Eu não preciso nem dizer que meus dois irmãos jamais tiveram que buscar o pesado Aurélio na estante da sala, abri-lo na letra “p” e depois na silaba “pu”, e fazer o mesmo processo com a letra “r” e a sílaba “re”, para então encontrar o ouro do bom comportamento escondido por trás das palavras pudor e recato. Porque bom, homens são homens, e não precisam fechar as pernas ao sentar, dançar com comedimento ou evitar contato com meninas. Homens, em suma, podem chafurdar no seu sagrado direito de, em ultima instância, dispor como quiserem do próprio corpo. Porque é disso que se trata, afinal.

Marcha das Vadias – Brasília/2011 – Foto de Bianca Cardoso no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A história pode chocar alguns, por parecer cerimonial demais, radical demais. Mas, no fundo, a mensagem que eu recebi do meu pai, durante toda a minha vida, e no dia em questão com maior ênfase, não é muito diferente do que a maioria das meninas recebe ainda nos dias de hoje. Atire a primeira pedra quem nunca ouviu ou mesmo disse um sonoro “Fecha essas pernas, menina!” para alguma guria do alto dos seus oito anos, insistindo em sentar no chão de pernas aberta, mostrando ao mundo uma inocente calcinha florida de algodão. Recebem e repetem, quando não têm a oportunidade de entender realmente o que significa cobrar pudor e recato de uma mulher, ou ainda que ela faça o que é “das mulheres” fazer.

Não faz muito tempo fui repreendida por uma das minhas irmãs, por assistir televisão vestindo roupa de dormir, enquanto o namorado dela estava na nossa casa. Ao ouvir minha justificativa plausível de que eu estava dentro da minha casa e, portanto, teria o direito de vestir a roupa que melhor me conviesse, ela fez questão de me relembrar do ritual do “pudor” e do “recato” e ainda perguntou se eu não havia aprendido nada com o nosso pai. “Aprendi”, tive vontade de dizer, “mas, felizmente, não aprendo mais.”

Há algumas semanas penso em escrever sobre essa história, mas há alguns dias, quando comecei a pensar em que produção irei fazer para a Marcha das Vadias, que acontece neste sábado, dia 26, em diversas cidades do Brasil, ela me pareceu ainda mais apropriada. Porque vai ser mais uma oportunidade para que eu rompa com o ritual do “pudor” e do “recato” que me assombrou por tantos anos, acompanhada de muitas que fazem o mesmo e convido tod@s a fazerem também.

Quero ir para a Marcha dizer que ninguém pode mandar-me fechar as pernas, porque as pernas são minhas, assim como a vagina que há no meio delas, e ninguém pode estuprar-me ou bater-me, ou violentar-me de forma alguma, porque o resto do corpo também é meu, assim como cada corpo, dentro da Marcha e fora dela, pertence unicamente e apenas a cada mulher. Quero insistir para quem quer que ainda não tenha ouvido que saias curtas, danças sensuais ou o batom vermelho – esse, já está decidido, irei usar – não são justificativas para que outra pessoa se aproprie do meu corpo, para os fins que sejam. Quero dizer para o “pudor” e o “recato” do Aurélio, ou de qualquer outro vernáculo, que vão à merda e me deixem caminhar, a mim e a todas as outras, com a minha liberdade.

Autor: Tâmara Freire

Blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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