Mulheres, crack e manicômios

“Não tem ninguém que mereça

Não tem coração que esqueça

Não tem pé, não tem cabeça

Não dá pé, não é direito

Não foi nada, eu não fiz nada disso

E você fez um bicho de sete cabeças”

Bicho de Sete Cabeças – Zeca Baleiro

Segundo informações do Portal Brasil – Crack, é possível vencer, site do Governo Federal, o crack é uma substância obtida a partir da pasta-base da cocaína, que depois de refinada, misturada com bicarbonato de sódio e água, aquecida e decantada, toma forma sólida: a pedra. É fumada, geralmente, em cachimbos improvisados e potencializa a liberação dos neurotransmissores.

No mesmo portal, há dados de que a droga surgiu na periferia dos Estados Unidos, na década de 80, e chegou a São Paulo no início da década de 90, disseminando-se rapidamente pelo país por ser uma droga de baixo custo.

Mesmo não sendo a droga mais usada, nem a que mais mata, o álcool mata 9 vezes mais que drogas ilícitas, vocês repararam na evidência que o crack teve na mídia nos últimos meses? Repararam que, coincidentemente (#não!), o higienismo tomou conta do Estado de São Paulo também nesse tempo? O assunto está em alta, mas é dedo na ferida. Causa grande incômodo, entretanto, pouca reflexão.

Foto de Isabela Casalotti.

Sou psicóloga e trabalho como orientadora com pessoas em situação de rua na região da Luz, em São Paulo, conhecida como Cracolândia, devido a grande concentração de usuári@s da droga (não, a Polícia Militar não fez mágica). Todo dia me deparo com casos difíceis que apontam muito sofrimento e preconceito que essas pessoas vivem. Escolhi três situações verídicas para compartilhar, levantar reflexões e questionamentos sobre a complexidade da condição da mulher usuária de crack. Assunto que merece nossa atenção.

Situação 1

“Existe outra opção além da internação?” “Mas, ‘crackeira’ tem condições de tomar decisões?”, perguntou um jornalista, visivelmente chocado ao me observar orientando uma jovem a buscar o serviço do CRATOD – Centro de Referência ao Álcool, Tabaco e Outras Drogas.

Problema: A visão biomédica de que a dependência é uma doença, portanto orgânica e que deve ser curada, nos leva a crer que a resolução do problema seria a abstinência. Isso explicaria a necessidade de manter a pessoa sob vigilância. A internação geralmente é feita em comunidades terapêuticas isoladas. A mídia também aponta o problema como epidemia, o que justificaria a urgência nas medidas, como a internação involuntária/compulsória.

Ora, se não é do dia para a noite, nem por um único motivo que as pessoas passam a fazer uso abusivo da droga, por que seria assim, de repente, que elas deveriam parar? Não seria mais eficaz discutir exclusão social, saúde coletiva e outros fatores que levam a esse tipo de consumo? CAPS Álcool e Drogas, equipes de consultório de rua e redução de danos, além de serviços da Assistência Social ficaram em segundo plano nos jornais. Porque o resultado não é imediato nessas abordagens. Entretanto, são elas que compreendem os aspectos sociais, os direitos e a autonomia do indivíduo em todo o processo como partes fundamentais. Esquecer-se disso é antidemocrático e um retrocesso da Reforma Psiquiátrica do Brasil e do SUS.

Situação 2

Uma psicóloga, uma assistente social e uma enfermeira que trabalham com essa mesma população e o discurso: “laqueadura nelas!”. Todas com a plena certeza de que mulheres em situação de rua, em especial usuárias de drogas, devem fazer laqueadura por serem incapazes de criar um filho. E, por uma cruel e (oh!) injusta realidade, são mulheres incrivelmente férteis, segundo palavras da psicóloga.

Problema: Esse é um discurso HIGIENISTA, pois insinua que pobre não deveria se reproduzir, FRACASSADO porque assume que aquela mulher estará sempre nessa condição, MACHISTA, pois atribui a responsabilidade da gravidez e dos filhos somente à mulher e, portanto, desrespeita totalmente os direitos humanos.

Qual a condição dessas mulheres? Qual a representação da gravidez e da maternidade para cada uma? Quais são seus desejos, vontades, planos e expectativas? Quais são as opções e como acessá-las? Qual a função de cada profissional na promoção de saúde? O que a sociedade tem (e tem muito) a ver com isso? Penso que seja até antiético ausentar-se dessas questões e é assustadora a quantidade de profissionais que julgam, quando deveriam acolher.

Usuária consome o crack próximo ao local onde a Prefeitura de São Paulo fechava comércios, na cracolândia. Foto de Ayrton Vignola/Agência Estado.

Situação 3

“Ela apanha, mas usa crack” me disse uma pessoa que relatava seu desconforto ao ver um homem agredindo sua companheira. Cenas de horror: gritos, choro, espancamento… E, ao final, a justificativa para tudo isso: “é usuária, vai saber o que faz, né?”

Problema: É fato, sim, que muitas usuárias de droga em situação de rua se prostituem para obter alguma renda. É fato, também, que muitas já cometeram algum delito. No entanto, quando me falam em escolhas, indago: quais são as opções? As escolhas (ou falta de opção) jamais poderiam justificar qualquer agressão ou julgamento moralista. Aqui eu reafirmo algo que é sempre dito nesse blog: a culpa não é da vítima!

Já ouvi muitos relatos de violência das mulheres que acompanho, a vulnerabilidade parece ainda maior nas ruas. No caso que citei, perguntei a um policial que estava próximo ao local e ele respondeu que já estava ciente, porém nada poderia fazer a respeito. Daquele dia em diante, não encontrei essa mulher, infelizmente não tive sequer como ouvi-la.

O sistema social doente

O Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack prevê, entre outras coisas, o financiamento de leitos em comunidades terapêuticas pelo SUS. Contudo, o isolamento, o higienismo e a culpabilização representam o retorno dos manicômios, pois excluem e alienam o indivíduo de sua própria condição. Os muros, agora com outro nome e mais aceitação popular, revelam a antiga dificuldade de lidar com problemas de saúde mental. Escondem que, na verdade, quem está doente é o sistema social. Como o Marcelo Caetano relata muito bem nos textos: “Do manicômio à UnB” e “Eventualmente, loucura”; é difícil compreender a terapêutica da “caixa de concreto”.

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Vídeo: Drogas e Cidadania – Episódio 03

Hoje, dia 18 de maio, é dia nacional da Luta Antimanicomial. Se nós, feministas, lutamos pelos direitos humanos e por uma sociedade livre, entendo que é de extrema importância nos engajar também nessa luta e contra a privatização do SUS. Afinal, violência, desrespeito e exclusão não fazem parte do mundo que queremos.

Quer saber mais sobre o assunto?

Autor: Isabela Casalotti

Feminista em formação, paulista na localização, psicóloga por opção, chata por constatação, apaixonada por dedução e não desisto (nem duvido) do ser humano por convicção.

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