10 anos da Caminhada Lésbica de São Paulo

Lembro como se fosse hoje, a primeira vez que participei de uma Caminhada de Lésbicas e Bissexuais em São Paulo. Era 2009 e eu, recém chegada ao movimento lésbico feminista, mal podia acreditar na quantidade de mulheres que estavam ali na Avenida Paulista. Lutando por visibilidade, respeito, igualdade e, principalmente, lutando por liberdade de expressar sua forma de amar. Além da Caminhada, há ainda uma Jornada Lésbica Feminista que é um conjunto de atividades com rodas de conversas, debates, cinema, que visam debater e discutir a cidadania e direitos de mulheres lésbicas e bissexuais

Definitivamente a minha participação nessa Caminhada e Jornada (além de emocionante) foi o motivo que faltava para eu finalmente mergulhar de cabeça nesse movimento junto com tantas outras mulheres lésbicas e bissexuais de fibra e coragem que há 10 anos organizam uma manifestação tão importante para as mulheres lésbicas e bissexuais do Brasil.

Este ano de 2012 serão 10 anos de construção de Caminha e luta contra a violencia de mulheres que ousam viver sua sexualidade e afetividade de forma livre.

Caminhada Lésbica de 2009. Foto da Wikimedia Commons

10 anos da Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo

O ano era 2002. Pela primeira vez mulheres lésbicas e bissexuais ocupavam a Avenida Paulista para celebrar seu amor, mas também para marcar o início da Caminhada que representa hoje um marco nos movimentos de reivindicação a favor dos direitos que historicamente lhes foram negados por conta do machismo, misoginia, lesbofobia e bifobia. Dez anos depois sairemos mais uma vez para homenagear as pioneiras que nos precederam, afirmar nosso direito de amar, comemorar as conquistas e mostrar que ainda há um longo caminho a ser percorrido para finalmente alcançarmos uma sociedade promotora dos princípios fundamentais da igualdade perante a lei, dignidade e todas as garantias que um Estado Democrático tem a obrigação de proporcionar.

Há sim motivos para comemorar! A vitória a favor do Estado Laico obtida no Rio Grande do Sul, onde os tribunais não deverão mais ostentar símbolos religiosos, foi de extrema importância para afirmar o Brasil enquanto um país que respeita o direito à fé, mas defende o princípio da laicidade estatal justamente para garantir que todas as religiões possam ser professadas harmoniosamente no território nacional, sem que nenhuma seja privilegiada ou preterida! E ainda, que as cidadãs e cidadãos que não professam fé religiosa possam ter a certeza que não serão marginalizados por leis e julgamentos fundamentados em princípios contrários à Constituição. Essa fantástica conquista no Rio Grande do Sul foi fruto do empenho das mulheres da Liga Brasileira de Lésbicas e outras organizações, motivadas pela ideia basilar de que um país democrático deve ser orientado por princípios que incluem, jamais excluem por qualquer razão, seja religiosa ou não!

A decisão do Supremo Tribunal Federal a favor da interrupção da gestação de fetos anencéfalos é o reconhecimento, tardio e ao mesmo tempo incipiente, de que as mulheres devem ser as juízas em assuntos referentes aos seus próprios corpos e vidas. O direito mais fundamental e primordial é o da liberdade de dispormos livremente dos nossos corpos! E por mais estranho que esse assunto possa soar para o tema de uma Caminhada Lésbica e de Mulheres Bissexuais, há de se reconhecer que se negam às mulheres a escolha de seguir ou não com uma gestação de um feto que não viverá fora do útero, nega-se também o direito sobre o corpo, e é com o corpo que amamos. Não há condições para a defesa das nossas liberdades e garantias, precisamos ter a opção básica de decidirmos sobre todos os aspectos de nossas próprias vidas, e isso inclui levar ou não até o fim uma gestação de risco, viver plenamente nossos amores com outras mulheres e termos, finalmente, acesso às todas as possibilidades de vivermos plenamente! Somos lésbicas e bissexuais feministas e somos, antes de tudo, mulheres! E como tais, tudo o que diz respeito às mulheres nos dizem respeito também!

Mas mesmo com essas vitórias importantes ainda há muito a ser feito. Grupos contrários a essas conquistas tão elementares se fortalecem alimentados pela dificuldade tacanha de viver com a diversidade e lidar com as liberdades alheias. Querem nos dizer como amar, quem amar, como devemos viver, o que podemos fazer! Proclamaram-se defensores de uma moralidade que eles julgam correta e, portanto, podem agredir, ameaçar e matar quem eles consideram transgressores dos códigos que os próprios elegeram como certos! Nossas conquistas estão sob artilharia pesada e não podemos esmorecer sob pena de perdemos tudo o que conquistamos com tantos esforços. Sim, vamos comemorar as conquistas, celebrar o amor, mas mostrar que estamos vigilantes e não nos contentaremos com nada aquém do que nos é de direito!

Então, venha celebrar conosco os dez anos da maior Caminhada de Lésbicas e Mulheres Bissexuais do Brasil. Venha também protestar contra as injustiças e promover a luta por um país mais equânime!

Que o ano de 2012 seja marcado não pelo fim do mundo, mas pela realização da maior Caminhada Lésbica e de Mulheres Bissexuais da história do Brasil!

Autor: Mariana Rodrigues

Marie, Ma, Mari, Marioca, Mariana ça m'est égal... nunca fui para Patagônia mas ando por ai...

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