Os crimes de Denise Leitão Rocha

Denise Leitão Rocha é o nome dela. Enquanto os canais de notícias preferem desumanizá-la, transformá-la em “musa” e “furacão da CPI”, faço questão de começar este texto afirmando que: Denise Leitão Rocha é uma pessoa, uma mulher. E, vejam só, a tal “assessora do senado” tem até nome! Ela se chama Denise Leitão Rocha.

Denise Leitão Rocha é assunto nacional desde que um vídeo amador de sexo, em que ela aparece, “vazou” na internet. Vocês sabem como as coisas funcionam nesse nosso mundinho: poucas horas é tempo mais do que suficiente para que um conteúdo se viralize rede afora.

Denise Leitão Rocha é tão pessoa que fala, apesar de muitos não quererem que ela tenha voz. Ainda que com uma voz que “transparece sofrimento” como afirma a matéria do site Extra, logo em seu início, ela conta que está muito abalada com o “vazamento” do vídeo e, imagino eu, com a enorme repercussão do caso.

Pudera, há quem ligue para o Senado para perguntar quanto custa um programa com as assessoras da Casa. Fotos e mais fotos “sensuais” de Denise foram divulgadas em diversos sites. Jornalistas intrépidos questionam colegas de Denise, se ela realmente trabalhava. E seu chefe, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), já revelou que considera demiti-la, mesmo elogiando sua atuação profissional.

Mas o que Denise Leitão Rocha fez de tão ruim, afinal?

Sexo.

Denise Leitão Rocha, assim como eu, você e boa parte das pessoas adultas do mundo, fez sexo. Porém, infelizmente neste caso, foi filmada ou deixou-se filmar (não vi o tal filme e me recuso a saber detalhes, mas tampouco importa) e alguém achou uma boa ideia divulgar, sem seu consentimento, tal registro na internet.

Denise Leitão Rocha, em foto tirada em maio, no Piauí. Foto de Yala Sena / Arquivo Pessoal / G1

Por que tanto alvoroço se Denise Leitão Rocha não fez nada que eu, você ou boa parte das pessoas do mundo faz em seu dia a dia? Porque, Denise Leitão Rocha cometeu o grave crime de ser mulher em um mundo machista. E às mulheres não é reservada solidariedade.

Pouco importa se o verdadeiro criminoso é a pessoa que divulgou, sem o conhecimento de Denise, um vídeo com cenas íntimas dela. A mulher que ousa não ser santa, jamais será vítima. Se Denise fez sexo e deixou-se filmar, certamente foi porque queria que todos vissem. Se não deixou, deveria ser mulher direita, ao invés de sair fazendo sexo com qualquer um por aí, se expondo ao risco de ser filmada.

E para tal crime não há perdão. Como bem lembrou o deputado Domingos Dutra (PT-MA), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara do Deputados, (@ únic@ parlamentar que vi se pronunciar publicamente sobre o caso), é provável que Denise fique marcada por um bom tempo com a marca indelével de uma mulher que sabidamente faz sexo, enfrentando as dificuldades que a nossa sociedade machista impõe para tais mulheres.

Na opinião do parlamentar, Denise pagou o pato pelo machismo que impera na sociedade brasileira.

– Se fosse um homem, será que a reação da sociedade, do senador e da mídia seriam a mesma? Eu acho que não – analisa o deputado.

Para Domingos Dutra, a exoneração da advogada teria sido precipitada, a reboque da repercussão nas redes sociais e na imprensa:

– Não vou entar no mérito que levou o senador a demiti-la, mas foi uma decisão apressada que só reforça o preconceito existente hoje sobre a mulher, que ainda é muito forte no país. Esse caso a marcará para o resto da vida. Certamente, ela terá dificuldades para arranjar um namorado, um emprego, circular em seus meios sociais.

Na mesma matéria do Site Extra, Rogéria Peixinho da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) fala dos preconceitos existentes no Congresso Nacional:

– Esse é mais um sinal de como a nossa sociedade é machista. Se fosse um homem, seria enaltecido como um garanhão. Como é mulher, julgam-na como piranha – critica Rogéria Peixinho, coordenadora regional da Articulação de Mulheres Brasileiras, movimento nacional que luta pelos direitos femininos.

De acordo com ela, o Congresso Nacional atuou como um reflexo desse preconceito tupiniquim:

– Ela foi uma vítima do vazamento desse vídeo e a repercussão chegou a esse ponto porque ela é mulher. O Congresso é muito retrógrado, a ver pela quantidade de mulheres e negros eleitos. Referência: Demissão por conta de video picante é contestada dentro do próprio Congresso Nacional.

Se parece ridículo é porque verdadeiramente é. Se é razoável pensar que grande parte das pessoas adultas fazem sexo, ninguém quer ter a certeza disso. Sexo é assunto de foro privado, exceto para os homens cissexuais e heterossexuais, que podem gritar aos quatro ventos quantas mulheres “comeram” na semana que se passou, sem qualquer julgamento. Ninguém parece estar preocupado em saber quem é o homem que está no vídeo com Denise. Foi aventada a possibilidade de ser um assessor de outro senador, mas os holofotes procuram sempre condenar Denise.

Mulher que fala de sexo é feio. Mulher que gosta muito de sexo é vulgar. Mulher que procura por sexo é piranha. Se é para fazer, minha filha, seja discreta. Não é para deixar todo mundo saber! O crime de Denise foi o de deixar todo mundo saber, mais do que isso, deixar que todo mundo visse, mesmo que Denise não tenha culpa alguma pelo tal “vazamento.”

Pois, saiba você que há um culpado pelo tal “vazamento”, que de vazamento não tem nada. Porém, enquanto tal pessoa não é descoberta e punida, todos os que distribuem e assistem o vídeo de Denise Leitão Rocha também a agridem, continuamente. Afinal de contas, o caso não teria alcançado tamanha proporção, não fosse pelos sites que divulgaram o vídeo e por todas as pessoas que o compartilharam.

Não caia nesta ilusão da internet, de que por ser apenas mais um em milhões, o seu posicionamento não faz diferença. Faz para o bem, e também faz para o mal. Não seja mais um agressor de Denise Leitão Rocha. Não a condene por apenas exercer sua sexualidade. Até porque, o deputado Ciro Nogueira, ao decidir por demitir Denise, ignorando seu desempenho profissional, ao invés de apoiá-la, já está fazendo isso por você.

Autor: Tâmara Freire

Blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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