Cultura do estupro e slut shaming

 Ser mulher em uma sociedade patriarcal significa estar sob constante policiamento de  terceiros. Há muitas regras e papéis nos quais as mulheres devem se enquadrar; alguns aspectos, no entanto, são consideravelmente mais constantes e generalizados: entre eles, se destacam a cultura do estupro e o “slut shaming”, respectivamente o enquadramento de mulheres como seres sem agência para negar o ato sexual e o policiamento da sexualidade feminina.

As demonstrações de slut shaming são bastante abrangentes: quantas vezes ouvimos que a roupa de uma mulher é curta demais ou seu comportamento atrevido? Há uma enorme variedade de insultos proferidos contra as mulheres, desde os mais pudicos, como “oferecida”, aos mais agressivos, como “vadia” ou “puta”. A sexualidade feminina e sua expressão são constantemente podadas, julgadas e restringidas.

Se para a cultura do slut shaming a mulher não pode sequer ter sexualidade, muito menos demonstrá-la, para a cultura do estupro a imposição é diferente: a mulher é vista como incapaz de dizer não ao ato sexual, pois está, supostamente, sempre pedindo para ser tocada e abusada. Na cultura do estupro, qualquer comportamento feminino é um convite ao sexo e, mesmo quando há negação, considera-se que a mulher ainda assim quer dizer “sim”. É isso, afinal, que dizem os homens na nossa cultura quando alegam não entender as mulheres: que mesmo quando dizem “não”, realmente gostariam de dizer “sim”. Na nossa sociedade, as mulheres são roubadas do direito de dizer não e são constantemente responsabilizadas por qualquer estupro ou abuso sexual que venham a sofrer.

Foto do Flickr de Ayanami No03, alguns direitos reservados

Analisando o relacionamento entre o slut shaming e a cultura do estupro, é possível visualizar um cenário obscuro para as pessoas percebidas como mulheres: qualquer ato que fuja da normatividade pudica e machista será rotulado como “vagabundagem”, algo imoral, perturbado e atrevido e, portanto, aceitavelmente passível de abuso sexual. Assim, justificam-se estupros a partir do comprimento das roupas, a quantidade de bebida ingerida ou qualquer outro fator contrário ao ideal de mulher adequada e submissa.

Muitas pessoas acreditam que os tempos mudaram e que as mulheres já não mais são privadas da sua sexualidade, mas o equívoco não poderia ser maior: nossa cultura continua encarregada de podar a sexualidade feminina. O papel de carrasco, aliás, nem sempre pertence a um homem; muitas mulheres, devido à internalização de demandas machistas, passam também a policiar e oprimir outras mulheres quando essas saem da linha traçada pelo patriarcado.

A realidade imposta pelo slut shaming e a cultura do estupro é lamentável: a sexualidade feminina não pertence às próprias mulheres – quando existe, é para satisfazer os homens. Mulheres lésbicas são vistas como objetos fetichistas para a masturbação masculina, constantemente questionadas e pressionadas a aceitar homens em seus relacionamentos, resultado de uma imposição falocêntrica que não admite nenhum sexo sem a presença de um pênis. Mesmo que mulheres trans se relacionem com mulheres cis em um relacionamento lésbico, a validação física se dá de modo cissexista e a própria lesbianidade de ambas é posta em dúvida.

Por essas e outras questões, é possível perceber que nenhuma mulher se verá livre para viver plenamente a sua sexualidade enquanto essas expressões de opressão machista estiverem em voga. É preciso trazer ao debate diário a desconstrução do slut shaming e da cultura do estupro, não limitando a conversa somente aos meios feministas, mas levando-a também a outros movimentos sociais. Devemos principalmente buscar uma transformação na base da sociedade, em nossa cultura e diretamente em nossa população.

Autor: Jarid Arraes

Cordelista e colunista na Revista Fórum.

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