Glee: fórmula nova, velhos preconceitos.

Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.
Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.

**Este texto possui spoilers da quarta temporada de Glee, que ainda não foi lançada no Brasil.

Desde que estreou na TV norte-americana, em 2009, o seriado Glee tem sido elogiado e recebido diversos prêmios por seu caráter tolerante e de respeito às diferenças. A história, sobre um clube de coral recém-reativado no colégio William McKinley High School inovou ao relatar a passagem escolar sob o ponto de vista dos alunos “fracassados” e por isso conquistou o carinho de milhares de adolescentes e jovens adultos que de alguma forma também não se encaixam nesse padrão magro, branco e heterossexual de normalidade.

Sua boa dose de humor, performances musicais que surgem do nada e as atitudes questionáveis dos personagens principais evitam que Glee caia no clichê maniqueísta de coitadinhos injustiçados. É muito comum se pegar odiando a estrela do grupo, que lamenta não ter muitos amigos, mas passaria por cima da própria mãe para conseguir um solo, e ao mesmo tempo simpatizar com a bully que se esconde por trás de uma máscara de agressividade para não ter que lidar com os sentimentos não correspondidos pela melhor amiga.

No entanto, está cada vez mais difícil acreditar que o autor Ryan Murphy e sua trupe têm um real interesse em sensibilizar o telespectador sobre as consequências do bullying e mais óbvio ainda que ele apenas explora as demandas de minorias oprimidas para atrair audiência. Ao longo desses três anos Glee tem se mostrado um show de horrores racista, machista, homofóbico, transfóbico e ofensivo a portadores de necessidades especiais, muitas vezes na forma de “piadas” inconsequentes apenas para quem não está na outra ponta da “brincadeira”.

Alguns problemas encontrados na série:

Tokenismo

Tokenismo é quando você inclui falsamente uma minoria historicamente discriminada para ser usada como troféu de que você é tolerante e sem preconceitos. Exemplo: quando um filme apresenta um único ator negro entre dezenas de atores brancos ou quando uma empresa contrata uma funcionária para trabalhar em um ambiente totalmente masculino.

Glee tem um dos elencos mais diversos da televisão norte-americana, com personagens brancos, negros, latinos, asiáticos, gordos, judeus, católicos, homossexuais, cadeirantes, portadores de síndrome de Down e, mais recentemente, transexuais. Ainda assim as principais histórias, aquelas que mereceram continuidade (já que a série parece sofrer também de TDAH) são as que envolvem personagens brancos, heterossexuais e magros.

Na segunda e terceira temporadas dois casais homossexuais ganharam evidência, mas o primeiro (Kurt e Blaine) é formado por garotos brancos e o segundo (Santana e Brittany) por uma latina e uma branca. Todos eles são lindos, mas cada casal só apareceu se beijando em duas cenas, sendo que no caso das lésbicas, apesar delas namorarem desde o início da terceira temporada e de sabermos que elas ficam desde a primeira, o beijo só aconteceu no episódio 13 da terceira temporada.

As demais minorias, se receberam algum destaque, este não passou de um ou dois episódios que depois foram varridos para debaixo do tapete. Rachel, baixinha, “cheinha” lá no início da série e “nariguda” não é o exemplo de beleza hollywoodiana que se espera de uma protagonista, mas ainda assim é heterossexual, branca e está longe de ser considerada feia.

Lesbofobia

Setores conservadores sempre criticaram Glee por ser imoral e promover uma suposta “agenda gay” e mesmo alguns fãs reclamam constantemente que o programa é “gay demais”. Enquanto tais comentários dizem mais sobre quem os vocaliza, não é segredo que a série é famosa e celebrada por relatar os desafios de ser um jovem homossexual como mais do que um simples pano de fundo.

Quando o ex-bully David Karofsky tentou suicídio, após os alunos de sua nova escola descobriram que ele era gay e lotarem seu Facebook de comentários raivosos, todos se sentiram abalados, acreditando que poderiam ter feito mais pelo garoto e que deveriam ter percebido nas suas atitudes um pedido de ajuda. Então, por que quando o menino de ouro Finn Hudson passou um episódio inteiro importunando a Santana para que ela saísse do armário, depois de ter revelado que ela era lésbica em um corredor cheio de gente, todos agiram como se não fosse nada demais, apenas uma prova do grande amigo que ele é?

I Kissed a Girl foi um dos episódios mais ofensivos que Glee já produziu. Quem é Finn Hudson, um homem hetero e popular, para dizer que a Santana tem que sair do armário? Se ele queria apoiá-la, porque não dar um abraço, dizer que estará ao lado dela e, principalmente, pedir desculpas? E onde estava a Brittany, a namorada da Santana, nesse tempo todo? Se Heather Morris teve duas falas foi muito. E como um episódio chamado “Eu beijei uma garota” não tem, sei lá, duas garotas se beijando?

Uma vez eu li que “I Kissed a Girl” não é uma música sobre uma lésbica descobrindo a própria sexualidade, mas sobre uma mulher heterossexual que decide beijar outra garota para que o namorado possa se masturbar imaginando a cena. E é difícil não acreditar que foi exatamente disso que se tratou o episódio, principalmente se repararmos na expressão dos garotos enquanto as meninas cantavam:

Finn durante a performance de I Kissed a Girl. FOX/Divulgação.

Transfobia

Desde a primeira temporada personagens que não se encaixam nos papéis tradicionais de gênero são insultados e ridicularizados. Vemos isso com Shannon Beiste (cujo sobrenome tem a mesma pronúncia de beast, monstro), a técnica do time de futebol americano que é gorda, grande e “masculina” e até mesmo com Sue, que não corresponde ao estereótipo de mulher delicada e cheirosinha.

Enquanto alguns podem dizer que as dúvidas a respeito da sexualidade de Shannon são algo claramente ofensivo e não defendido pela série, os comentários sobre Sue aparecem geralmente na forma de piadas. Em Bad Reputation, na primeira temporada, um vídeo da treinadora dançando a música Physical, da Olivia Newton John, recebeu um comentário afirmando que “O homem nesse vídeo parece a campeã das Cheerios Sue Sylvester”, seguida de um close na expressão risonha do professor inclusivo Will Schuester. Na terceira temporada, quando Sue informa a decisão de engravidar, duas pessoas perguntam “com a vagina de quem?”.

No episódio The Rocky Horror Glee Show, em homenagem à comédia musical Rocky Horror, algumas músicas tiveram seu conteúdo adaptado, já que a peça dos anos 70 é considerada muito sexualizada. A letra de Sweet Transvestite foi censurada de “I’m just a sweet transvestite, from Transsexual, Transylvania” para “I’m Just a sweet transvestite, from Sensational, Transylvania”. No entanto, neste mesmo episódio, o personagem Mike Chang, que iria interpretar o Dr. Frank-N-Furter, avisa que os pais o proibiram de participar da peça porque não acharam legal ele se vestir como uma tranny, termo altamente pejorativo.

Mais tarde, no final da terceira temporada, somos apresentados a um novo personagem. Wade Adams é seu nome de batismo, mas desde o início ela conta que sua verdadeira identidade é feminina. “Desde pequena eu brincava de ser outra pessoa, a pessoa que eu sonhava ser, quem eu sou de verdade. Eu até tinha um nome diferente: Unique”.

Unique procura Kurt e Mercedes para pedir um conselho. Ela quer se apresentar na competição de corais usando vestido e salto, mas não sabe se deve. Kurt e Mercedes afirmam que não é uma boa ideia, já que Ohio é um estado muito conservador, e vão até a competição garantir que Unique – Wade, como eles insistem em chamá-la, não faça isso. Quando Kurt tenta dissuadi-la, dizendo que sim, ele já havia se vestido com muitas roupas ousadas, mas nunca como mulher, Unique é rápida em responder “É porque você se identifica como homem”.

Mesmo assim, todos continuam a tratar Unique apenas como uma personagem, o alter ego de Wade Adams, chegando ao cúmulo de, no episódio Props, duas vezes se referirem a ela pela forma desumanizadora he/she. Ninguém questiona, ninguém diz que é ofensivo, não há um esforço da série em informar que Unique é uma mulher transexual, e que este não é um palavrão a ser evitado para não ferir os ouvidos sensíveis de jovens adolescentes.

Machismo e Misoginia

Assim como vários outros produtos da indústria cultural, Glee está recheado de falas e atitudes sexistas que nem sequer merecem ser transformados em piada, pois são frutos de um machismo estrutural, disfarçados sob o discurso do “é assim que as coisas são” ou do “você está vendo pelo em ovo”.

São pequenos detalhes que isolados talvez não incomodassem tanto, mas que soam um tanto contraditórios em um programa que se vende como progressista. Como exemplo há o fato de que, ao contrário da Santana, ninguém tenha dito para o Puck que ele só conseguirá um emprego como pole dancer ou que, diferente da Brittany, todos tenham se mobilizado quando descobriram que o mesmo Puck estava prestes a reprovar de ano.

Em Yes/no Sue sugere que Emma peça Will em casamento, mas ao comentar isso com o namorado, este dá uma risada como se a ideia fosse absurda. Em Nationals, após um ano de relacionamento, o casal finalmente tem sua primeira vez, que Emma resume com um “eu só achei que o meu homem é um vencedor e merece ser tratado como tal”, reduzindo a virgindade de uma mulher misofóbica e que sofre de transtorno obsessivo compulsivo a um mero troféu.

Já em Dance With Somebody, Joe Hart tem uma ereção ao ajudar a colega cadeirante Quinn Fabray na fisioterapia. Confuso e em conflito com a moral cristã que recebeu em casa, onde era muito mais fácil resistir à tentação (mas nem um pouco envergonhado de objetificar Quinn) Joe se aconselha com Sam Evans, que, com um discurso bem próximo ao de estupradores, justifica que na época em que a Bíblia foi escrita tudo era mais fácil. “Não existia internet e as garotas não usavam minissaia. Eu sou um bom cristão, mas não tem como um cara resistir”.

No episódio Props, Tina se cansa de ficar dançando ao fundo enquanto todos os solos são entregues a Rachel e decide não participar das Nacionais. A estrela, então, corre atrás dela e começa a discorrer sobre como é exaustivo ser a Rachel, listando uma série de atividades que precisa realizar todos os dias. Lá, entre ter memorizadas as músicas de artistas como Sondheim, Elton John e Katy Perry e ser a capitã de 16 clubes da escola, ela inclui o dever de manter o namorado interessado e fisicamente satisfeito.

Finn pede para Rachel abandonar o sonho de uma vida para que ele possa limpar piscinas, argumentando que mesmo que ela não consiga um emprego, ele poderá sustentá-la. Dois episódios antes, eles haviam discutido porque Finn se ofendeu quando Rachel deu a entender que ele não teria um trabalho quando se mudassem para Nova York. Rachel acaba aceitando esperar até que o namorado decida o que quer da vida, mas ao invés de fazer um mínimo de esforço, ele joga os panfletos das universidades no lixo antes mesmo de ler, embora continue reclamando que não tem planos para depois da graduação. O episódio termina com a Rachel dizendo que Finn é um herói.

Finalmente, quando Sue informa que decidiu engravidar, a técnica do nado sincronizado, Roz Washington, encontra a oportunidade de despejar uma série de comentários misóginos sobre a sua idade, apresentados como algo cômico e até mesmo merecido. “O que você precisa fazer é acordar e cheirar a sua menopausa. Você está ultrapassada como treinadora e todos esses hormônios tailandeses não mudam o fato de que você está ultrapassada como mulher. Você precisa começar a rezar porque você irá dar a luz uma criança que gosta de comer areia, porque isso é tudo que vai sair desses seios velhos e enrugados”.

Há vários outros problemas na série, mas este texto já está ficando grande. Depois de passar duas temporadas praticamente calados, os personagens asiáticos (que além de serem namorados, têm o mesmo sobrenome – embora uma seja coreana e o outro chinês) finalmente ganharam um destaque todo trabalhado no estereótipo, com direito ao pai exigindo que o filho fizesse exames anti-drogas diários porque tirou um A- (ou zero asiático) na prova de química. E não precisa nem mencionar a única personagem negra. Mercedes às vezes reclama quando os solos são dados para a Rachel, mas fora um relacionamento muito mal desenvolvido com Sam Evans, não sabemos mais nada sobre sua vida.

“Você deve estar se perguntando por que a minha voz se parece com a da rainha da Inglaterra”. FOX/ Divulgação

Também foi com um misto de ultraje e vergonha alheia que eu assisti a atriz Hellen Mirren narrando a voz interior de Becky Jackson, uma aluna com síndrome de Down, interpretada por Lauren Potter. Ou que Sue, ao criticar a prova de álgebra da Brittany, tenha usado a nota da Becky como parâmetro, como se ela devesse sentir vergonha por tirar uma nota mais baixa do que alguém com Down. Aliás, apesar de ser a grande bully da escola, Sue consegue sair ilesa da maioria de suas ofensas porque todos “sabem” que no fundo ela é uma boa pessoa, e porque aparentemente nós devemos achar suas falas engraçadas, tanto que Jane Lynch recebeu diversos prêmios como melhor atriz de comédia.

Engraçado mesmo é que na nova temporada, quando os membros do coral fazem piadas maldosas sobre o tamanho da nova funcionária da cantina, isso é visto como um sinal de que a popularidade talvez esteja sendo uma má influência; mas quando Shannon, depois de ter sofrido violência doméstica, diz que não vai se mudar para a casa de Sue, esta responde que arruinou uma barraca fazendo um buraco para o pescoço da “amiga” e que não sabe o que vai fazer com os nove frangos inteiros guardados em sua geladeira. E nós devemos acreditar que é só a Sue sendo ela mesma.

Aliás, embora meu feminismo tenha gostado de vê-los falando sobre violência doméstica, a forma como abordaram o tema foi, na minha opinião, totalmente equivocada. Sue e Roz se unem para desenvolver um exercício com quatro alunas que riram do olho roxo de Shannon. A lição? Cantar músicas empoderadoras, que deixem claro que, se bater uma vez, não vai haver uma segunda. Aparentemente, daria muito trabalho propor uma campanha ensinando os homens a não baterem.

Enfim, pode não parecer, mas eu (ainda) gosto muito de Glee. Baixo os episódios e as músicas, leio fanfictions, acompanho as páginas do Tumblr, e talvez por isso mesmo seus erros me incomodem tanto. Glee não é como Two and a Half Man ou Two Broke Girls, ou mesmo Zorra Total, para ficar em um exemplo brasileiro. Essas séries nunca tiveram o menor compromisso com a diversidade e não estão nem aí se tem alguém sendo humilhado. Mas outro dia estava passando Glee, o filme na TV e nele vários jovens davam depoimentos sobre como a série os ajudou a encarar momentos difíceis e a superar seus problemas de autoestima, como eles aprenderam que não há nada de errado em ser gay, ou nerd, ou mesmo em ter TOC. E me preocupa que as pessoas possam fechar os olhos para esses preconceitos porque, afinal de contas, “É Glee! Veja o tanto de coisas boas que eles promoveram!”.

Autor: Paula Carvalho

Carioca, jornalista, vegetariana e ateia.

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