Glee: fórmula nova, velhos preconceitos.

Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.
Elenco da 4ª temporada de Glee. FOX/Divulgação.

**Este texto possui spoilers da quarta temporada de Glee, que ainda não foi lançada no Brasil.

Desde que estreou na TV norte-americana, em 2009, o seriado Glee tem sido elogiado e recebido diversos prêmios por seu caráter tolerante e de respeito às diferenças. A história, sobre um clube de coral recém-reativado no colégio William McKinley High School inovou ao relatar a passagem escolar sob o ponto de vista dos alunos “fracassados” e por isso conquistou o carinho de milhares de adolescentes e jovens adultos que de alguma forma também não se encaixam nesse padrão magro, branco e heterossexual de normalidade.

Sua boa dose de humor, performances musicais que surgem do nada e as atitudes questionáveis dos personagens principais evitam que Glee caia no clichê maniqueísta de coitadinhos injustiçados. É muito comum se pegar odiando a estrela do grupo, que lamenta não ter muitos amigos, mas passaria por cima da própria mãe para conseguir um solo, e ao mesmo tempo simpatizar com a bully que se esconde por trás de uma máscara de agressividade para não ter que lidar com os sentimentos não correspondidos pela melhor amiga.

No entanto, está cada vez mais difícil acreditar que o autor Ryan Murphy e sua trupe têm um real interesse em sensibilizar o telespectador sobre as consequências do bullying e mais óbvio ainda que ele apenas explora as demandas de minorias oprimidas para atrair audiência. Ao longo desses três anos Glee tem se mostrado um show de horrores racista, machista, homofóbico, transfóbico e ofensivo a portadores de necessidades especiais, muitas vezes na forma de “piadas” inconsequentes apenas para quem não está na outra ponta da “brincadeira”.

Alguns problemas encontrados na série:

Tokenismo

Tokenismo é quando você inclui falsamente uma minoria historicamente discriminada para ser usada como troféu de que você é tolerante e sem preconceitos. Exemplo: quando um filme apresenta um único ator negro entre dezenas de atores brancos ou quando uma empresa contrata uma funcionária para trabalhar em um ambiente totalmente masculino.

Glee tem um dos elencos mais diversos da televisão norte-americana, com personagens brancos, negros, latinos, asiáticos, gordos, judeus, católicos, homossexuais, cadeirantes, portadores de síndrome de Down e, mais recentemente, transexuais. Ainda assim as principais histórias, aquelas que mereceram continuidade (já que a série parece sofrer também de TDAH) são as que envolvem personagens brancos, heterossexuais e magros.

Na segunda e terceira temporadas dois casais homossexuais ganharam evidência, mas o primeiro (Kurt e Blaine) é formado por garotos brancos e o segundo (Santana e Brittany) por uma latina e uma branca. Todos eles são lindos, mas cada casal só apareceu se beijando em duas cenas, sendo que no caso das lésbicas, apesar delas namorarem desde o início da terceira temporada e de sabermos que elas ficam desde a primeira, o beijo só aconteceu no episódio 13 da terceira temporada.

As demais minorias, se receberam algum destaque, este não passou de um ou dois episódios que depois foram varridos para debaixo do tapete. Rachel, baixinha, “cheinha” lá no início da série e “nariguda” não é o exemplo de beleza hollywoodiana que se espera de uma protagonista, mas ainda assim é heterossexual, branca e está longe de ser considerada feia.

Lesbofobia

Setores conservadores sempre criticaram Glee por ser imoral e promover uma suposta “agenda gay” e mesmo alguns fãs reclamam constantemente que o programa é “gay demais”. Enquanto tais comentários dizem mais sobre quem os vocaliza, não é segredo que a série é famosa e celebrada por relatar os desafios de ser um jovem homossexual como mais do que um simples pano de fundo.

Quando o ex-bully David Karofsky tentou suicídio, após os alunos de sua nova escola descobriram que ele era gay e lotarem seu Facebook de comentários raivosos, todos se sentiram abalados, acreditando que poderiam ter feito mais pelo garoto e que deveriam ter percebido nas suas atitudes um pedido de ajuda. Então, por que quando o menino de ouro Finn Hudson passou um episódio inteiro importunando a Santana para que ela saísse do armário, depois de ter revelado que ela era lésbica em um corredor cheio de gente, todos agiram como se não fosse nada demais, apenas uma prova do grande amigo que ele é?

I Kissed a Girl foi um dos episódios mais ofensivos que Glee já produziu. Quem é Finn Hudson, um homem hetero e popular, para dizer que a Santana tem que sair do armário? Se ele queria apoiá-la, porque não dar um abraço, dizer que estará ao lado dela e, principalmente, pedir desculpas? E onde estava a Brittany, a namorada da Santana, nesse tempo todo? Se Heather Morris teve duas falas foi muito. E como um episódio chamado “Eu beijei uma garota” não tem, sei lá, duas garotas se beijando?

Uma vez eu li que “I Kissed a Girl” não é uma música sobre uma lésbica descobrindo a própria sexualidade, mas sobre uma mulher heterossexual que decide beijar outra garota para que o namorado possa se masturbar imaginando a cena. E é difícil não acreditar que foi exatamente disso que se tratou o episódio, principalmente se repararmos na expressão dos garotos enquanto as meninas cantavam:

Finn durante a performance de I Kissed a Girl. FOX/Divulgação.

Transfobia

Desde a primeira temporada personagens que não se encaixam nos papéis tradicionais de gênero são insultados e ridicularizados. Vemos isso com Shannon Beiste (cujo sobrenome tem a mesma pronúncia de beast, monstro), a técnica do time de futebol americano que é gorda, grande e “masculina” e até mesmo com Sue, que não corresponde ao estereótipo de mulher delicada e cheirosinha.

Enquanto alguns podem dizer que as dúvidas a respeito da sexualidade de Shannon são algo claramente ofensivo e não defendido pela série, os comentários sobre Sue aparecem geralmente na forma de piadas. Em Bad Reputation, na primeira temporada, um vídeo da treinadora dançando a música Physical, da Olivia Newton John, recebeu um comentário afirmando que “O homem nesse vídeo parece a campeã das Cheerios Sue Sylvester”, seguida de um close na expressão risonha do professor inclusivo Will Schuester. Na terceira temporada, quando Sue informa a decisão de engravidar, duas pessoas perguntam “com a vagina de quem?”.

No episódio The Rocky Horror Glee Show, em homenagem à comédia musical Rocky Horror, algumas músicas tiveram seu conteúdo adaptado, já que a peça dos anos 70 é considerada muito sexualizada. A letra de Sweet Transvestite foi censurada de “I’m just a sweet transvestite, from Transsexual, Transylvania” para “I’m Just a sweet transvestite, from Sensational, Transylvania”. No entanto, neste mesmo episódio, o personagem Mike Chang, que iria interpretar o Dr. Frank-N-Furter, avisa que os pais o proibiram de participar da peça porque não acharam legal ele se vestir como uma tranny, termo altamente pejorativo.

Mais tarde, no final da terceira temporada, somos apresentados a um novo personagem. Wade Adams é seu nome de batismo, mas desde o início ela conta que sua verdadeira identidade é feminina. “Desde pequena eu brincava de ser outra pessoa, a pessoa que eu sonhava ser, quem eu sou de verdade. Eu até tinha um nome diferente: Unique”.

Unique procura Kurt e Mercedes para pedir um conselho. Ela quer se apresentar na competição de corais usando vestido e salto, mas não sabe se deve. Kurt e Mercedes afirmam que não é uma boa ideia, já que Ohio é um estado muito conservador, e vão até a competição garantir que Unique – Wade, como eles insistem em chamá-la, não faça isso. Quando Kurt tenta dissuadi-la, dizendo que sim, ele já havia se vestido com muitas roupas ousadas, mas nunca como mulher, Unique é rápida em responder “É porque você se identifica como homem”.

Mesmo assim, todos continuam a tratar Unique apenas como uma personagem, o alter ego de Wade Adams, chegando ao cúmulo de, no episódio Props, duas vezes se referirem a ela pela forma desumanizadora he/she. Ninguém questiona, ninguém diz que é ofensivo, não há um esforço da série em informar que Unique é uma mulher transexual, e que este não é um palavrão a ser evitado para não ferir os ouvidos sensíveis de jovens adolescentes.

Machismo e Misoginia

Assim como vários outros produtos da indústria cultural, Glee está recheado de falas e atitudes sexistas que nem sequer merecem ser transformados em piada, pois são frutos de um machismo estrutural, disfarçados sob o discurso do “é assim que as coisas são” ou do “você está vendo pelo em ovo”.

São pequenos detalhes que isolados talvez não incomodassem tanto, mas que soam um tanto contraditórios em um programa que se vende como progressista. Como exemplo há o fato de que, ao contrário da Santana, ninguém tenha dito para o Puck que ele só conseguirá um emprego como pole dancer ou que, diferente da Brittany, todos tenham se mobilizado quando descobriram que o mesmo Puck estava prestes a reprovar de ano.

Em Yes/no Sue sugere que Emma peça Will em casamento, mas ao comentar isso com o namorado, este dá uma risada como se a ideia fosse absurda. Em Nationals, após um ano de relacionamento, o casal finalmente tem sua primeira vez, que Emma resume com um “eu só achei que o meu homem é um vencedor e merece ser tratado como tal”, reduzindo a virgindade de uma mulher misofóbica e que sofre de transtorno obsessivo compulsivo a um mero troféu.

Já em Dance With Somebody, Joe Hart tem uma ereção ao ajudar a colega cadeirante Quinn Fabray na fisioterapia. Confuso e em conflito com a moral cristã que recebeu em casa, onde era muito mais fácil resistir à tentação (mas nem um pouco envergonhado de objetificar Quinn) Joe se aconselha com Sam Evans, que, com um discurso bem próximo ao de estupradores, justifica que na época em que a Bíblia foi escrita tudo era mais fácil. “Não existia internet e as garotas não usavam minissaia. Eu sou um bom cristão, mas não tem como um cara resistir”.

No episódio Props, Tina se cansa de ficar dançando ao fundo enquanto todos os solos são entregues a Rachel e decide não participar das Nacionais. A estrela, então, corre atrás dela e começa a discorrer sobre como é exaustivo ser a Rachel, listando uma série de atividades que precisa realizar todos os dias. Lá, entre ter memorizadas as músicas de artistas como Sondheim, Elton John e Katy Perry e ser a capitã de 16 clubes da escola, ela inclui o dever de manter o namorado interessado e fisicamente satisfeito.

Finn pede para Rachel abandonar o sonho de uma vida para que ele possa limpar piscinas, argumentando que mesmo que ela não consiga um emprego, ele poderá sustentá-la. Dois episódios antes, eles haviam discutido porque Finn se ofendeu quando Rachel deu a entender que ele não teria um trabalho quando se mudassem para Nova York. Rachel acaba aceitando esperar até que o namorado decida o que quer da vida, mas ao invés de fazer um mínimo de esforço, ele joga os panfletos das universidades no lixo antes mesmo de ler, embora continue reclamando que não tem planos para depois da graduação. O episódio termina com a Rachel dizendo que Finn é um herói.

Finalmente, quando Sue informa que decidiu engravidar, a técnica do nado sincronizado, Roz Washington, encontra a oportunidade de despejar uma série de comentários misóginos sobre a sua idade, apresentados como algo cômico e até mesmo merecido. “O que você precisa fazer é acordar e cheirar a sua menopausa. Você está ultrapassada como treinadora e todos esses hormônios tailandeses não mudam o fato de que você está ultrapassada como mulher. Você precisa começar a rezar porque você irá dar a luz uma criança que gosta de comer areia, porque isso é tudo que vai sair desses seios velhos e enrugados”.

Há vários outros problemas na série, mas este texto já está ficando grande. Depois de passar duas temporadas praticamente calados, os personagens asiáticos (que além de serem namorados, têm o mesmo sobrenome – embora uma seja coreana e o outro chinês) finalmente ganharam um destaque todo trabalhado no estereótipo, com direito ao pai exigindo que o filho fizesse exames anti-drogas diários porque tirou um A- (ou zero asiático) na prova de química. E não precisa nem mencionar a única personagem negra. Mercedes às vezes reclama quando os solos são dados para a Rachel, mas fora um relacionamento muito mal desenvolvido com Sam Evans, não sabemos mais nada sobre sua vida.

“Você deve estar se perguntando por que a minha voz se parece com a da rainha da Inglaterra”. FOX/ Divulgação

Também foi com um misto de ultraje e vergonha alheia que eu assisti a atriz Hellen Mirren narrando a voz interior de Becky Jackson, uma aluna com síndrome de Down, interpretada por Lauren Potter. Ou que Sue, ao criticar a prova de álgebra da Brittany, tenha usado a nota da Becky como parâmetro, como se ela devesse sentir vergonha por tirar uma nota mais baixa do que alguém com Down. Aliás, apesar de ser a grande bully da escola, Sue consegue sair ilesa da maioria de suas ofensas porque todos “sabem” que no fundo ela é uma boa pessoa, e porque aparentemente nós devemos achar suas falas engraçadas, tanto que Jane Lynch recebeu diversos prêmios como melhor atriz de comédia.

Engraçado mesmo é que na nova temporada, quando os membros do coral fazem piadas maldosas sobre o tamanho da nova funcionária da cantina, isso é visto como um sinal de que a popularidade talvez esteja sendo uma má influência; mas quando Shannon, depois de ter sofrido violência doméstica, diz que não vai se mudar para a casa de Sue, esta responde que arruinou uma barraca fazendo um buraco para o pescoço da “amiga” e que não sabe o que vai fazer com os nove frangos inteiros guardados em sua geladeira. E nós devemos acreditar que é só a Sue sendo ela mesma.

Aliás, embora meu feminismo tenha gostado de vê-los falando sobre violência doméstica, a forma como abordaram o tema foi, na minha opinião, totalmente equivocada. Sue e Roz se unem para desenvolver um exercício com quatro alunas que riram do olho roxo de Shannon. A lição? Cantar músicas empoderadoras, que deixem claro que, se bater uma vez, não vai haver uma segunda. Aparentemente, daria muito trabalho propor uma campanha ensinando os homens a não baterem.

Enfim, pode não parecer, mas eu (ainda) gosto muito de Glee. Baixo os episódios e as músicas, leio fanfictions, acompanho as páginas do Tumblr, e talvez por isso mesmo seus erros me incomodem tanto. Glee não é como Two and a Half Man ou Two Broke Girls, ou mesmo Zorra Total, para ficar em um exemplo brasileiro. Essas séries nunca tiveram o menor compromisso com a diversidade e não estão nem aí se tem alguém sendo humilhado. Mas outro dia estava passando Glee, o filme na TV e nele vários jovens davam depoimentos sobre como a série os ajudou a encarar momentos difíceis e a superar seus problemas de autoestima, como eles aprenderam que não há nada de errado em ser gay, ou nerd, ou mesmo em ter TOC. E me preocupa que as pessoas possam fechar os olhos para esses preconceitos porque, afinal de contas, “É Glee! Veja o tanto de coisas boas que eles promoveram!”.

Autor: Paula Carvalho

Carioca, jornalista, vegetariana e ateia.

19 pensamentos em “Glee: fórmula nova, velhos preconceitos.”

  1. Concordo com os pontos abordados. Adoro Glee também, mas sei que não é um show perfeito (muito acima da média, mas não perfeito).

    Só para constar, o ponto que eu achei mais machista foi no episódio que eles cantam Like a Virgin e três pessoas supostamente iriam ter sua primeira vez: Finn, Rachel e Emma. Resultado final: as mulheres continuam virgens e só o homem teve sua primeira experiência.

    1. Pois é, Jac, eu também percebi isso na performance de Like a Virgin. E o pior é que Rachel e Emma estavam em um relacionamento com seus parceiros, enquanto Finn não tinha nada com a Santana. Ela até deixou bem claro que só queria transar com ele por causa da tarefa da Sue, de sair com um garoto mais novo. Acho que Glee perdeu uma ótima oportunidade de mostrar que não há nada de errado em um homem querer esperar para ter sua primeira vez.

  2. Na boa? Achei seu texto sem pé nem cabeça. Sou ativista contra as opressões de maneira insistente e discordo de todos os pontos que você levantou. Estamos falando de arte, não de uma cartilha. A Arte não ensina apenas mostrando o mundo idealizado e perfeito, pelo contrário. A arte ensina mostrando todos os lados de uma situação. Engraçado que você não citou o episódio em que os meninos são chamados de machistas e misóginos com todas as letras, ou o episódio em que o pai do Kurt tenta, de maneira desajeitada, conversar sobre sexo com o filho, demonstrando uma enorme preocupação em deixar claro pra ele que pode contar com irrestrito apoio do pai, só pra citar dois exemplos dos muitos de combate claro às opressões. Você cometeu um erro básico, primário, que, de maneira ingênua, talvez, apenas prejudica nosso trabalho cotidiano de combate às opressões: você olha uma iniciativa de extremo valor militante com olhos panfletários, esquecendo da realidade. É a partir da realidade, e não da utopia, que se combate as opressões.

    1. Oi, Flávia, entendo seu ponto de vista e confesso que também me peguei duvidando se essas críticas eram válidas, exatamente por se tratar de uma obra de arte. Mas eu não acho que, por ser arte, ela deve ser imune a julgamentos. Glee tem muitos pontos positivos, Burt, que você citou, é um dos meus personagens favoritos e eu realmente acho que a relação dele com o filho foi muito bem construída pela série. Mas alguns acertos não anulam outros erros. De que adianta um episódio lá no início falando sobre feminismo, se o restante da série é permeado de slut shaming?
      Por mais que eu concorde que a arte não precisa mostrar um mundo idealizado e perfeito, a forma como os temas são tratados fazem muita diferença, senão fica parecendo que ela está apenas endossando aquele comportamento. Foram os produtores da série, e não os personagens, que decidiram deliberadamente colocar outra atriz fazendo a voz da Becky, em um episódio em que ela fala como às vezes é ruim ter síndrome de Down, que escolheram quatro mulheres para fazer piada sobre violência doméstica, que acharam ok fazer um drama tão grande com a revelação do David depois de tratar a da Santana de forma tão leviana.

    2. Eu estava aqui pensando e queria complementar. Eu vejo muita gente fazendo essa mesma defesa que você fez da arte e, apesar de concordar, eu acho que há uma grande diferença entre censurar e criticar. Obviamente que eu sou contra proibir qualquer manifestação artística, de Glee até Zorra Total, mas criticar, questionar, problematizar, eu acho que é sempre muito bem vindo. A arte não é um ente sobrenatural e desprovido de contexto. Ela não é neutra. Como qualquer outro discurso, ela quer passar uma mensagem. O que eu me pergunto é, que mensagem Glee está passando?

  3. Lembro também da bifobia de Glee no episódio em que o Blaine começa a questionar sua sexualidade. É simplesmente degradante.

    Parei de ver Glee nessa altura, então não sabia de quase nada que estava na metade do texto pra frente, e estou chocada. Já havia parado de ver porque achava muito racista, misógino, transfóbico e bifóbico, e nem tinha acontecido várias coisas que tu citou! Me caiu os butiá do bolso essa lista.

    1. Pois é, Julia, Glee tem ficado cada dia mais difícil de engolir. Eu mesma só assisto toda semana porque eu quero saber o desfecho de alguns personagens. Obrigada pelo comentário.

  4. Concordo plenamente com tudo! Muitos dos seus exemplos são os que ando dando por aí quando me perguntam sobre glee… E infelizmente não tenho mais saco pra ver glee, depois dessa parada com a Santana e de uma outra piada de estupro que não está no texto e acho que vale a pena comentar: naquele episódio sobre ‘primeiras vezes’ Britanny diz que ela estava em sua barraca num acampamento e de repente a ‘barraca foi invadida’ e assim ela perdeu a virgindade. É feito uma piada com “space invaders”. Se isso não é estupro, não sei o que é, porque ela não sabe descrever como ou com quem aconteceu e não diz que consentiu em nenhum momento, só que “aconteceu”. Fora o tratamento todo de loira burra dado à ela me irrita profundamente. Teve um outro lance nesse mesmo episódio que o Blaine tenta transar com o Kurt a força, (ele está bêbado) Kurt recusa e eles “brigam” e depois quem pede desculpas primeiro é o Kurt.
    Eu não aguento mais glee e acho uma porcaria que só piora…eu me incomodo profundamente com a tendência a humanizar a Sue, principalmente naquele ep. do natal. Ela é uma pessoa horrível que só fala merda e não acho que “mereça” ser humanizada ou se fosse ao menos podia ser numa situação em que ela reconhecesse seus preconceitos – o que não parece ser o caso…
    Enfim, o texto está ótimo e achei mais ótimo ainda abordarem isso, é bom saber que não sou só eu que estou atravessada com glee…

    1. Oi, Hailey, realmente, tiveram esses dois casos que você citou e que eu esqueci de mencionar. Piada com estupro é algo que não desce. Acho que o problema maior de Glee é que eles soltam umas coisas sem problematizar, então fica parecendo que a série apóia essas atitudes.
      Obrigada pelo comentário.

  5. Acho que vc idealizou os personagens no seu primeiro contato com a série e depois foi se decepcionando ao ver que eles não eram perfeitos ema suas atitudes cotidianas. Mas a questão é: Quem é?

    Acho que o seriado não é exatamente sobre um grupo de pessoas perfeitas que incrivelmente estudam no mesmo lugar e resolvem cartar e dançar para celebrar a diversidade. É sobre pessoas que estão em construção, em aprendizado, como somos todos nós, e eles eventualmente erram mas em geral procuram acertar, o que já é bem mais do que a maioria das pessoas faz. Além do mais seria impossível um seriado apenas abordar todas as questões relativas às minorias, incluindo aí as subdivisões existentes em cada minoria.

    Como um todo, passa uma boa mensagem. Não é perfeito, mas não acredito que poderia ser.

    1. Não, meu problema nunca foi o comportamento dos personagens em si. Como eu mesma disse no texto, são essas atitudes questionáveis que evitam que a série caia em um clichê entendiante. Meu problema é a forma como a série lida com essas questões. Não faria sentido, por exemplo, eu reclamar que o Karofski ameaçou matar o Kurt porque Glee nunca deu a entender que isso era algo legal, muito pelo contrário. Em compensação, a série tratou sim a atitude do Finn no episódio I Kissed a Girl como algo positivo. Eu não sei como pode haver um aprendizado, dos personagens ou dos telespectadores, se ninguém aponta esses erros.

      E concordo que seria impossível um seriado representar todas as minorias, mas então que não dê a entender que é isso que ele faz. Mas Glee fez até um filme para mostrar o quão aberto e tolerante eles são. E eu acho muito simbólico que, já que não dá para falar de todos, eles resolvam falar sobre os mesmos grupos de sempre. Com exceção, talvez, dos homossexuais.

      Obrigada pelo comentário

  6. eu adoro glee. concordo com algumas coisas, outras nao. e procuro ver o bright side pq, com certeza, é BEM acima da média dos seriados. mas enfim, são só pontos de vistas diferentes.
    mas, reparando no jeito q o ryan murphy faz suas séries, é desse jeito que ele cria os personagens: mostrando que não são perfeitos. quase uma inception. tipo, tem o estereotipo, aí mostra q é caricatura e tb faz a caricatura da caricatura pra mostrar que é caricatura (?). tipo a tina e o mike. por exemplo, tô vendo the new normal e lá tem sido abordado assuntos tabus, mas ao mesmo tempo tem preconceito dos personagens “bonzinhos” e a história por trás do preconceito da “vilã”. e eu acho bem legal isso. concordo com a flávia tb, q apesar de falar de assuntos que são ignorados pela mesmice, não pode servir de cartilha.
    mas acho que fã tem que ser assim mesmo, saber ver os defeitos! 🙂
    só uma coisa que lembrei: no episódio contra a violência doméstica, depois que elas cantam a música de chicago, elas levam uma mijada dizendo que não é bem assim, aí entendem e cantam novamente, dessa vez shake it out.
    e nessa temporada, a unique está sendo tratada como unique. tomara q abordem mais, mas tb tem aquilo, privilégio é mais fácil ver qdo não se tem.

  7. Acho que você podia ter falado sobre os atores de Glee, que fazem uma luta muito bonita contra tudo que você disse acima, e foram responsáveis por melhoras na vida de muitos adolescentes

    Como a Dianna Agron (Quinn) que acaba de se tornar embaixadora do GLAAD Spirt Day , já usou uma camisa ‘I like girls’ no show e escreveu um texto emocionante sobre isso, a Amber Riley (Mercedes) na aceitação do seu corpo, Max Adler que fez videos emocionantes sobre bullying.

    Então, concordo que Glee comete muitos erros, mas acho injusto não comentar todo bem que a série provocou.

    1. Oi, July
      Eu não acompanho a vida dos atores de Glee, de vez em quando eu leio uma ou outra notícia, mas não tinha conhecimento sobre essas ações da Dianna e da Amber.
      De qualquer forma, eu não acho que qualquer boa ação fora das telas anule a mensagem passada pela série, até porque, assim como eu, muitas pessoas também não sabem o que esses atores fazem em sua vida pessoal.
      Mas eu comentei sim o bem que a série provocou, lá no último parágrafo. Não entrei em detalhes porque já é meio consenso, para quem conhece Glee, que a série promove (até certo ponto) a aceitação das diferenças e porque já tem um texto no blog sobre isso, da Renata Correa (http://blogueirasfeministas.com/2012/02/glee-e-a-subversao-do-sonho-adolescente/)
      Obrigada pelo comentário.

  8. Olha, eu realmente adoro Glee mas sou obrigada a concordar com quase tudo o que você disse, cerca de 80%.
    Glee realmente tem grandes falhas, uma delas que você não comentou e talvez aquela que me incomode mais é a algumas cateterísticas na construção do personagem da Santana que acabam reforçando o esteriótipo que se criou a respeito dos latinos; ela é pobre, briguenta, teve uma infância difícil e usa o tempo todo a sensualidade e o corpo como ferramentas.
    Acredito também que Finn seja um personagem extremamente machista, assim como Sam, Artie e até Will, que não merece o protagonismo que tem. Realmente, o achei patético durante todo episódio ” I kissed a girl” . Na minha opinião, um dos poucos personagens masculinos que foge esta linha é justamente, Puck, que apesar de cometer diversos erros durante a serie ( na minha opinião, o mais grave fora sex-tar com Santana enquanto Quinn estava grávida), sempre consegue se redimir e aprender com os erros ( ao contrário de Finn que parece ter amnésia e repetir as mesmas bobagens a cada 4 episódio), para mim, o Bad boy foi quem mais cresceu ao longo das 3 temporadas, de forma razoavelmente coerente. Tanto que em diversas oportunidades ele se mostrou uma pessoa muito mais digna e aberta do que o próprio Finn, vale lembrar que foi ele o primeiro menino do Glee club a partir em defesa de kurt, partiu dele a iniciativa de aconselhar Rachel a amar-se tal como ela é quando ela pensou em fazer a plastica no nariz alem de ter cuidado de Quinn quando a mesma estava em surto após o reencontro com Shelby e Beth. O dueto com Beist foi uma das cenas mais emocionantes e belas de todo o show,
    Existem também na serie mulheres que reforçam o comportamento machista. São os casos de Quinn e Emma ( embora acredito que a primeira seja justamente uma sátira da tipica garota interiorana Americana extremamente religiosa que foi criada sob padrões conservadores), ainda que, as duas sejam machistas de formas diferentes, enquanto Emma é apenas uma mulher insegura e submissa, Quinn é uma mulher forte e ardilosa que realmente acredita nos padrões morais católicos e chega a ser intolerante quando seus ideais são contrariados.
    A falta de beijos entre os casais homossexuais também me irrita muito, não há desculpa plausível, é claramente preconceito
    Contudo terei que defender Rachel Berry e Kurt Hummel que pra mim são personagens brilhantes. Rachel em sua essência é uma personagem extremamente forte, mesmo que, ao longo da serie tenha se perdido em alguns momentos ( para mim, foi o cúmulo quando ela cogitou atrasar um ano sua entrada em NYADA para poder se casar com Finn, o que graças aos bons céus, não aconteceu) que ensina o quão fundamental é ter força, determinação, persistência e confiança. O mais fascinante sobre ela é que, personagens assim antes, só haviam sido retratadas como vilãs de comédias românticas Hollywoodianas, ( Sharpay Evans, por exemplo) enquanto as ”mocinhas” eram sempre frágeis, doces, extremamente inseguras e de personalidade fraca.
    Já Kurt para mim é um personagem que transcende a questão da homossexualidade, na verdade, acho que isto é mais merito do ator Chris Colfer, mas acho que o personagem usa este plano de fundo, mas abrange todo tipo de insegurança, mostrando como é importante orgulhar-se de si mesmo, e se tornar uma pessoa digna, mesmo quando o universo esta contra voce. O personagem já mostrou varias vezes possuir um caráter admirável, em ocasiões como a eleição para presidente da turma, a questão sobre o solo em Defying Gravity e todo o rolo com David. Entretanto, o Hummel também esta longe de ser uma pessoa fraca e ”bobinha” , longe do esteriótipo de bom moço, Kurt é ambicioso, ardiloso, forte, luta por seus sonhos com fervor e persegue seus ideais.
    Isto só pra começar, sim o show possui INÚMERAS falhas, mas também tem alguns pontos positivos que aparentemente vem dando forças e esperanças para jovens e adolescentes que se sentiam oprimidos pela sociedade e talvez, por enquanto, isto baste. Só lamento pois, talvez se a serie fosse feita com mais compromisso, por um autor de fato preocupado com a questão dos diversos tipos de preconceitos sociais e não passasse em uma emissora tão reacionária quanto a Fox americana, Glee poderia atingir e ajudar mais profundamente um número muito maior de excluidos,

    1. Oi, Ana Elisa, obrigada por comentar
      Realmente, concordo com quase tudo o que você disse, principalmente em relação à personagem Santana. Eu só não sei se ela é realmente pobre. Em um episódio ela é toda agressiva porque veio de Lima Highs, no outro ela é filha de um “médico de verdade” (Britney_Brittany) e, portanto, tem um bom plano de saúde e tal. Mas isso eu acho que é só mais um dos vários problemas de continuidade da série.

      O Kurt e seu pai Burt são para mim os personagens mais humanos da série. Os mais bem desenvolvidos. E eu adoro a Rachel, pelo menos a Rachel do início da série. Ela era egoísta, arrogante, convencida, mas pelo menos sabia o que queria e aos poucos estava aprendendo com os próprios erros. Mas agora para mim ela é só mais uma dessas adolescentes dependentes, que acham que manter o namorado babaca é mais importante que seguir a carreira dos sonhos.

      Mas tenho que discordar quanto ao que você disse do Puck e da Emma. Me irritou muito todo o caso Puck – Quinn – Shelby, não pelo comportamento dele em si, que eu até achei admirável, mas porque Glee parece sempre precisar colocar um homem para trazer uma mulher ao bom senso (assim como o sorriso total “male aproval” do Mike para a Tina no final do episódio Props). E eu não consigo esquecer que foi ele quem falou para o Finn, quando fez a proposta de limpar piscinas, que estava na hora da Rachel fazer algum sacrifício pelo namorado (e eu estou até agora tentando lembrar de um único sacrifício que o Finn tenha feito pela Rachel). Mas, realmente, o Puck teve sim atitudes bem melhores que Finn, Sam e Artie (que toda vez que abre a boca é para falar de alguma “pesquisa” sobre comportamento feminino).

      Quanto à Emma, eu sou suspeita para falar porque ela é a minha personagem favorita, mas, fora essa fala do “meu homem é um vencedor”, eu não acho ela muito mais machista que os outros personagens da série. Alguns dos panfletos que ela entrega são bem ofensivos (So you are a two timing ho), mas não acho que é ela é pior do que o restante dos personagens. Ela é sim insegura, mas eu acho que, com todos os problemas dela, não tinha como não ser, não acho que isso é fruto de um machismo internalizado. Mas posso estar enganada. Eu não sei se você está assistindo a quarta temporada, mas eu gostei muito, muito, muito da atitude dela no episódio 4×04 (The Break-Up).

  9. Sim entendo, adoro a Emma também mas para mim ela é submissa ao Will, apesar disso acho ela incrível em outros aspectos. Realmente ela agiu certíssimo no episódio 04×04 , alais estou gostando muito da quarta temporada que está ”concertando” alguns erros da série que me irritavam muito, é o caso da Emma sempre sendo ”a boa mulher” do Will e da Rachel correndo atras do Finn como uma desesperada. O único detalhe que não me agradou foi a representação de Sam e Britanny durante as eleições, mas eu nunca crio muitas expectativas quando shows adolescentes americanos decidem abordar política. Fora isso, acho que a quarta temporada trouxe vários benefícios a série principalmente se analisarmos o núcleo de Nova York.
    Realmente, eu havia me esquecido que fora o Puck quem aconselhou o Finn com relação a LA, acho que no fundo, nunca levei isso muito a serio porque me pareceu completamente fora do personagem e incoerente com o que havia sido apresentando até agora, mais um dos tão famosos erros de continuidade na série. Ainda assim, de fato essa sugestão foi absurda.
    Outros personagens que. pra mim, caso fossem melhor explorados. poderiam ter sido verdadeiros diamantes na serie são Sebastian e Jesse.
    Com relação ao Wade, gosto da idéia, gosto do personagem, mas concordo com você o tema foi abordado de forma superficial e satírica, contudo a aparição dele já gerou processos e manifestações contra a série, acredito que isto seja um grande empecilho para que se desenvolva o personagem de forma mais profunda.
    Burt e Kurt e sua relação é realmente algo revolucionário e inspirador, um dos grandes ponto altos da serie e uma das razões pelas quais eu ainda a assisto.
    Acho que a questão é que, Ryam Murphy é obviamente sexista e isso influencia o show de varias formas

    1. O problema que eu vejo com a Emma é que até agora ela não teve uma storyline só dela, ela foi sempre a namorada/interesse romântico do Will, mas eu não sei se consigo vê-la como submissa. Ela é boazinha e quer sempre ajudar, mas bateu de frente com o Will em Bad Reputation e em Britney_Brittany, e também em Dance With Somebody, quando ele quis realizar o casamento em um acampamento e tal. Eu acho muito pior quando ela aguenta calada as ofensas da Sue (como quando ela disse que a Emma parecia um mico leão dourado).

      E realmente, eu também estou gostando da quarta temporada, que eles estejam concertando alguns erros. Eu gostaria muito que a Rachel ficasse um pouco sozinha, antes de um possivel relacionamento com o Brody, para ela reavaliar quem ela é.

      Mas a aparição da Unique gerou processos de transexuais ou de gente conservadora? Eu não estou sabendo disso, porque se for dos transexuais, acho uma ótima oportunidade deles ajeitarem seus erros.

      “Acho que a questão é que, Ryan Murphy é obviamente sexista e isso influencia o show de várias formas” [x1000]

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