A cantora que amava gigantes e as meninas que odiavam seus corpos

Eu conheci Kimya Dawson como creio que a maior parte do seu público brasileiro, através da trilha sonora do filme Juno (que, aliás, carrega uma discussão sobre aborto e gravidez na adolescência que valeria a pena retomar). As canções de Kimya – algumas solo e outras com suas antigas bandas, The Moldy Peaches e Antsy Pants –  não são meros panos de fundo, mas parte integrante da construção da narrativa de Juno. Encantada com elas, fui atrás da obra da moça e me apaixonei pelo disco Remember that I love you, que contem as faixas que estão em Juno. Os arranjos simples de violão, um ou outro instrumento de corda ou sopro e no máááximo uma percussãozinha quase inaudível ao fundo, a voz meio infantil da Kimya e seu jeito muito natural de cantar lembram canções infantis (ela gravou em 2008 um disco infantil, o Alphabutt). Mas o interessante é como ela combina nas letras essa simplicidade aparente com assuntos dos mais diversos, abordando algumas questões bem obscuras sem nunca perder o tom leve e engraçado (e às vezes muito irônico), numa certa forma positiva de ver as bizarrices da vida.

Capa do álbum “Remember that I love you”. Imagem: divulgação.
Nesse ponto vocês devem estar se perguntando porque eu estou aqui fazendo propaganda gratuita dessa moça, se talvez tenha confundido o Blogueiras com algum site de reviews musicais. Respondo: Esse folk fofinho (ou “anti-folk”, como diz no site dela, seja lá o que isso queira dizer) que Kimya Dawson faz tem um conteúdo super feminista. Em geral, as letras do Remember that I love you, ainda que tenham uma carga bastante auto-biográfica (parecem muito com escrita de diário ou de cartas), parecem encontrar unidade numa espécie de recado pra todo mundo, independente de gênero, que se sente meio loser, meio deslocado dos padrões:
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So if you wanna burn yourself
Remember that I love you
If you wanna cut yourself 
Remember that I love you
If you wanna kill yourself
Remember that I love you
Call me up before you’re dead
We can make some plans instead
Send me an IM, I’ll be your friend
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Esse trecho é da canção Loose Lips, que aparece em Juno. Ele mostra bem como Kimya lida com uma situação de auto-destruição e depressão extremas combinando de forma genial apoio, carinho e uma leve zoação. Algo como: “se você pensar em se matar, me dá uma ligada antes ou me manda uma mensagem no chat, a gente pode fazer outros planos e tal”.
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Kimya também questiona com naturalidade os estereótipos de gênero, tanto nas letras quando na vida dela. Pra uma cantora com Grammy e disco de platina, é notável que ela tenha a aparência que tem: é uma moca baixinha, considerada gordinha, com o cabelo desgrenhado, roupas largas, sem maquiagem alguma. Como muitas de nós, ela conta nas canções que passou por maus bocados por conta disso. Uma música bacana pra entender como ela lidou com problemas de auto-estima e com as constantes críticas que ela sofreu ao longo da vida  (“gorda, feia e burra, você realmente deveria ter vergonha”) é The Competition, na qual ela diz que tinha dias em que se sentia tão mal, mas tão mal que não conseguia nem sair da cama e ficava só tocando violão e compondo. Foi aí que veio a surpresa, a quantidade de pessoas que se identificou com as músicas e a que a agradeceu por cantar as coisas que elas não sabiam como dizer: “Eu fiquei boa em me sentir mal, e é por isso que eu ainda estou aqui”.
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Cartaz da campanha Love Your Body desse ano. Imagem: Now Foundation.
Por fim, uma canção em especial, considerando que ontem foi o #loveyourbodyday, “dia de amar seu corpo”, campanha que rodou a internet, principalmente nos EUA. Pode parecer uma iniciativa boba, sem propósito, mas, como Kimya diz, “todas as meninas se sentem grandes demais às vezes, independente de seus tamanhos”. Por mais batido que seja o discurso de que somos cotidianamente massacrados por modelos de corpo inatingíveis e por acusações cruéis de que o nosso corpo, por diferir do modelo (e sempre difere) é feio, errado, problemático, etc., ele é monstruosamente real. No caso das garotas “grandes”, Kimya fala especificamente da gordofobia, que travestida em discurso em favor da saúde, é um problema grave que a nossa sociedade não deseja enfrentar. I Like Giants conta a história de uma giganta (sim, aquele ser mitológico grandalhão) que morava num penhasco e que estava considerando se matar por ser “grande demais”. O termo “big” é usado em inglês como eufemismo para gordo, “big girls” seriam então garotas gordas. Kimya brinca misturando o sentido do eufemismo com o sentido de altura, fazendo com que a big girl em questão seja uma giganta. E assim ela consola a giganta e acalma a si mesma: grande é o céu, são as estrelas; nós somos apenas pontos pequeninos perto disso, fazendo parte de um todo, esse sim gigante:
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If you ever hear someone say you are huge
Look at the moon, look at the stars, look at the sun
Look at the ocean and the desert and the mountains in the sky
Say: I am just a speck of dust inside a giant’s eye
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Então quando você estiver se sentindo mal, siga o conselho de Kimya: pare o carro no meio da estrada, quando tudo estiver bem escuro, olhe pro céu estrelado e se sinta pequenininho, integrado ao todo, “grounded, humble and one with everything”. De qualquer modo, é possível tirar da história da Kimya uma lição mais geral, essa combinação agridoce de leveza e ironia que ela usa pra lidar com toda a pressão social pra que sejamos perfeitos, tenhamos bons trabalhos, sejamos competentes, bonitos, sarados e bem sucedidos. A vida pode ser bonita se é possível transformar toda essa porcaria em arte, uma arte carinhosa e feminista, no caso de Kimya Dawson.