A reunião na escola e o protagonismo materno

Texto de Lays Moreira.

O convite que veio na agenda da minha filha era claro: eu estava sendo convidada para uma noite de “troca de experiências e resgate de relações pessoais”. Assim estava sendo descrito o programa adotado pela escola onde minha filha estuda, elaborado por um dos nomes em destaque no campo da autoajuda.

Lá fui eu para a reunião. Distribuídos na quadra, dezenas de pais e mães aguardavam o início da palestra do programa, adotado pela escola, segundo as palavras de abertura ditas por um dos donos: “para melhorar as relações pessoais entre pais e alunos e formar pessoas melhores e mais felizes” (e com custos devidamente acrescidos na já salgada taxa de material didático, diga-se de passagem). Começou a palestra, que no fim resumiu-se a uma repetição de conceitos já altamente encontrados nos livros de autoajuda direcionados para mães, pais e cuidadores: tempo de qualidade com os filhos, acompanhar a vida escolar, elogiar, responsabilizar. Com direito à música de fundo e apresentação .ppt de fotos bonitinhas ao final.

livros de auto-ajuda

Reconheço que algumas, senão várias, das recomendações da “especialista” mandada pelo programa são válidas. Classificaria mesmo como bons conselhos. Mas o que vivi naquela noite, cercada de mães, pais e cuidadores, estava muito longe do que eu reconheceria como uma “troca de experiências”. Muito menos de “resgate de relações pessoais” (a não ser que uma palestra normativa e unilateral se enquadre na definição). Na verdade, a coisa toda me deixou com um gosto amargo na boca e uma enorme inquietação no peito.

Saí de lá me perguntando em que momento deixamos de construir o nosso conhecimento, a nossa prática em relação à criação e educação das nossas crianças e passamos a seguir quase que cegamente a orientação de “especialistas”. Saí me perguntando o quanto nós, mães, pais e cuidadores assumimos o discurso da incompetência crônica que diversos especialistas em diversas áreas nos incutem. Para os obstetras — a maioria deles — somos incompetentes para parir. Para muitos pediatras e a indústria alimentícia, somos incompetentes para amamentar e nutrir. Para psicólogos, escolas e especialistas em educação, somos incompetentes para educar e instruir. E a cada afirmação de incompetência, vem o oferecimento de um pacote mágico que vai garantir a felicidade, saúde e sucesso de nossas crianças. A preços quase nunca módicos.

Fui criada vendo minha mãe conversar com minha tia pelo muro e com minha avó pela janela que dava para o fundo de nosso quintal. Era uma troca de experiências constante, diária, nervosa, muitas vezes marcada por conflitos, mas que no final construía a forma de maternar e cuidar de cada uma daquelas mulheres. Era uma construção coletiva sobre maternagem, onde cada uma delas era protagonista, tanto de seu fazer quanto da construção desse fazer. Hoje, em um cenário de crescente individualização, não apenas das pessoas, mas também dos espaços (saudade das pracinhas, campinhos, calçadas onde as mães se reuniam enquanto a gente brincava), saem as parentes, as amigas e as vizinhas. Entram os especialistas.

E entram apoiados no discurso do conhecimento científico, apresentado como sendo uma verdade absoluta e incontestável, de forma que não haja questionamentos sobre sua validade. Ora, longe de mim não reconhecer a validade de uma série de informações científicas (não fosse isso, eu não teria optado pela amamentação prolongada, por exemplo) que vieram desmentir velhos mitos e reformular velhas práticas. Entretanto, a ciência está longe de ser uma verdade absoluta, os conhecimentos produzidos por ela estão longe de ser consenso; a ciência é mais método de construir conhecimento (que pode ser contestado ou mesmo refutado) do que verdade absoluta. E, não poderia ser utilizada como forma de impor métodos, padrões, regras únicas para algo tão diverso e complexo quanto formar um outro ser humano. Porque, apesar de todas as promessas de sucesso e felicidade vendidas em pacotes atraentes, não há fórmula única, não há receita, não há poção mágica. Porque cada filho, cada ser humano é único em suas particularidades, em seus sucessos e suas dificuldades. Cada criança a nosso cuidado é uma reinvenção do cuidar, do educar, do nutrir, por ser cada criança um universo inteiro em si mesma.

E no final, o que me sobrou daquela noite foi a sensação, quase uma certeza, de que é um dos papeis do feminismo, ou melhor, uma das lutas do feminismo, recuperar o protagonismo da mãe, do pai e dos demais cuidadores sobre as decisões tomadas em relação às crianças sob seus cuidados. Foi o que aconteceu comigo ao me descobrir, me assumir como feminista, como uma mãe feminista. Reconheci a construção social do papel de mãe e a pressão social para que se assuma o padrão da mãe “comercial de margarina”, embora a atuação materna na sociedade tenha se alterado.

O feminismo me mostrou a questão da retirada da autonomia feminina em diversos aspectos, inclusive no exercício da maternagem, quando me confronta com o padrão de perfeição imposto. E ao reconhecer esta relação, percebi que não precisava ser perfeita, que não precisava me submeter às verdades de especialistas. Que podia — e devia — construir e buscar minhas próprias verdades, que não podia e nem devia assumir toda a responsabilidade pela criação e educação de minha filha, dado que este não é um papel inerentemente feminino, mas coletivo, de toda a sociedade e de todos os personagens envolvidos: mãe, pai e cuidadores. Descobri que eu podia ver os pacotes prontos e dizer não, não quero. Não, não serve para mim.

Não se trata de negar o conhecimento alheio, de rejeitar tudo o que vem do outro, mas justamente de resgatar a importância do conhecimento construído através da experiência e empoderar a mãe, o pai e os demais cuidadores para que eles possam analisar o que é transmitido e reformular de acordo com suas necessidades, suas experiências e seu contexto. Aceitar, reformular ou até mesmo refutar o que é transmitido, desconstruindo o discurso da incompetência crônica e se assumindo como sujeitos ativos da criação de seus filhos e filhas.

Penso, defendo, acredito que a retomada dos espaços coletivos entre mães, pais e cuidadores seja fundamental para que estes personagens retomem o protagonismo que lhes é de direito. Ainda que sejam espaços virtuais, como os blogs, listas de discussão, murais de internet (embora lamente que muitas pessoas ainda estejam excluídas destes espaços), mas que sejam espaços de troca e construção mútua de conhecimento, para que o pensamento único e normativo não tenha mais tanto espaço. Nem os pacotes prontos de felicidade e sucesso.

—–

Lays Moreira é pedagoga, nerd, ateia, mãe da Elanor e, mais que tudo, uma mulher tentando achar seu lugarzinho no meio de tanta coisa!

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10 thoughts on “A reunião na escola e o protagonismo materno

  1. Lays,

    como sempre, é um prazer te ler.

    Admiro sua coragem, pois confesso que declinei ou simplesmente ignorei convites semelhantes que recebi da escola de Sofia.

  2. O post está muito bem escrito, Lays, muito bom. Essa reflexão dos “especialistas” é importante. Mas também é importante não misturar as coisas. Escritor de autoajuda não é cientista nem especialista em nada. Em geral distorce dados científicos pra provar um ponto de maneira rasa. Então esse é um engano comum, jogar charlatães e cientistas no mesmo balaio. (esses que você cita da amamentação, por exemplo, são estudos científicos mesmo, enquanto os autoajuda da vida não tem nada de científicos, e provavelmente o que foi na escola dos teus filhos tb não…)

    Além disso, eu acho uma pena que o texto não explicitou a relação do assunto com a desigualdade de gênero e a causa feminista (porque há muitas relações possíveis e importantes aí). Senti a mesma coisa com o texto da merenda.

    • Marília, o conhecimento científico é muito importante e a ciência deve sempre ser valorizada. Entretanto, ela não é neutra nem isenta e os especialistas ” de verdade” também estão sujeitos a erros de julgamento e influências diversas. A mesma ciência que produz estudos validando a amamentação também produziu a bomba atômica ou validou o julgamento de tendências criminosas de acordo com a formação cefálica. Temos pediatras recomendando o desmame precoce, a medicalização para casos de TDAH duvidosos, ou GOs indicando cesáreas sem necessidade. Congressos de pediatria são patrocinados pela indústria alimentícia. Ou seja, mesmo no caso de especialistas verdadeiros, de cientistas (lembremos do artigo da Lancet que afirmava que vacinas causavam autismo), temos que manter o senso crítico e analisar a informação recebida. E para isso acredito que a manutenção da rede de troca e construção coletiva de conhecimento seja fundamental. Quanto a questão da desigualdade de gênero, optei por não abordar neste post, porque não conseguiria aprofundar o assunto e provavelmente perderia o foco.

      • Ao ler seu post senti o mesmo incômodo que a Marília. Esses especialistas utilizam leituras para defender uma verdade, mas que de longe o que fazem é ciência.

        Acho que há uma contradição em seu texto. Em uma hora você fala que “a ciência está longe de ser uma verdade absoluta”.

        E depois que “a ciência é mais método de construir conhecimento (que pode ser contestado ou mesmo refutado) do que verdade absoluta.”

        Um dos principais princípios da Ciência é justamente sua refutabilidade e sua inconstância. Sim vivemos em uma sociedade cientifisitsta, ou seja ela tem legitimidade. Mas quem a usa para dar verdades únicas, um só olhar, um só caminho, se baseia muito mais em um pensamento dogmático, uma ideologia cristã de mundo.

        Os princípios científicos estão muito mais pautados na divrgência, no erro, na análise crítica das situações. As descobertas científicas geralmente parte-se da dúvida.
        Canso se ver pessoas criticando a ciência por ter se tornado um dogma. Eu já acho que se utilizassemos o método científico nas nossas escolas, por exemplo, as crianças estariam diariamente quebrando os diversos dogmas da nossa sociedade.

        Você diz que “a ciência produziu a bomba atômica” na realidade o que prosuziu a bomba atômica foi a política belicista, as relações de poder. E isso está na forma de criação que se tem de família hoje. As relações de poder permeam qualquer instituição e campo.

        Sou também pedagoga, e me afasto imediatamente de qualquer desse tipo de leitura dos auto-ajuda da educação, que tem muita escola os utilizando como teóricos. Isso é problemático. No entanto, quanto se entra no campo científico, e aí falo dos estudos acadêmicos em educação de verdade, temos muito mais trabalhos que comprovam o tanto que é absurdo a medicalização e diagnósticos de TDAH. Baseio minhas práticas pedagógicas sim a partir de leituras como o papel da brincadeira em Vigotsky, a relação de diálogo em Paulo Freire. Nesses termos podemos falar de especialistas.

        As trocas que tenho com minhas colegas sobre educação, seja de filhos ou como professora, é fundamental esse embasamento. Me afasta de sensos comuns que são prejudiciais. Me faz compreender melhor a sociedade q vivo.

        Discutindo sobre educação com minha mãe a vejo ela refletindo sobre suas práticas e as questionando. Vendo que muito do que ela fazia experimentando tem discussões profundas e que algumas coisas ela revê e outras ela continua repassando. Isso é debate científico. Trazer nossa realidade, nossas experiências e questioná-las, refutá-las, mudar!!!!

      • Perfeito Lays!

        É um ledo engano achar que há uma enorme diferença entre auto-ajuda e ciência. Muito livro de auto-ajuda é escrito depois de ums pesquisa ou embasado em várias pesquisas científicas – é uma forma de apropriação social do conhecimento científico, às vezes feita sem honestidade, mas às vezes, com seriedade. O ponto não é a crítica a auto-ajuda, mas ao protagonismo das mães na maternagem, em relação as informações que lhe são passadas. Acho que falta confiança mútua entre escola e pais, nesse caso.

        Valeu pelo texto! Muito bom!

        Beijos

  3. Lays, adorei o texto!

    Acho importantíssimo ajudarmos as mães e pais a tomarem as rédeas da criação dos filhxs. Os conselheiros remunerados não-solicitados perceberam (ou criaram?) uma demanda grande das mulheres por essas conversas e estão aproveitando mesmo!

    Espero que o FemMaterna que estamos construindo seja um espaço para “trocas de experiências” reais, úteis e com a única finalidade de ajudar umas às outras.

  4. Desde a revolução industrial temos delegado em demasia nossa vida aos outros. Delegamos as preocupações com a desenrolar dos negócios aos nossos patrões, que nos paga pouco, mas é “sempre no dia certo”, Delegamos à escola a tarefa de educar, aos asilos de idosos o cuidados com os velhos. Pouco a pouco, em nome de uma “qualidade maior” fomos abrindo mão de muitas coisas e hoje temos que dar ouvidos a especialistas, muitas vezes contraditórios uns com os outros, que tem que nos ensinar o que já deveríamos estar sabendo.

  5. Lays, eu curti o texto porque é isso – maternidade, por mais que as pessoas não queiram, é um tipo muito específico de poder – e de saber. E no patriarcado, a maternidade é colocada dentro do espaço privado, e é lá que tem que ficar.

    Se a maternidade chegar pra rua e gritar suas necessidades, olha lá, olha lá a louca que não sabe do que tá falando. Quando uma mãe vem a público e bota o dedo na cara do professor, da escola, ou da ciência, já é automaticamente desqualificada para apontar esse dedo. É a mãe que não sabe diferenciar ciência de auto-ajuda (como se a auto-ajuda não bebesse da ciência), é a mãe que não sabe o que é ciência (claro, a ciência só pode ser refutada por quem é cientista, quem não é cientista que se cale).

    Então, eu acho muito bom que textos como o seu existam e comecem algum tipo de diálogo. Porque mães estão aí pra encher o saco mesmo, pra questionar como a sociedade conduz a criação de um ser humano. Em público! Agora a sociedade patriarcal já se acostumou a pensar que mãe não tem PHD nem para iniciar um diálogo, quanto mais pra contestar alguma coisa mais consistente.