As redes sociais e as ruas

Texto de Karen Polaz.

Escrevo as notas a seguir com a intenção de comentar o que tenho visto pelas redes sociais nos últimos dias – e o que se transpôs para as ruas. Devo deixar claro, desde já, que sou dessas que acredita que o pouco já é alguma coisa e já pode ser o princípio de algo maior. Legal ver, mesmo que no Facebook, pessoas que não costumam compartilhar nada relativo ao contexto político dizendo que estavam “arrepiadas” com os protestos no Brasil e com a sensação de que algo pode mudar. Torço para que esse primeiro contato de muita gente com uma manifestação coletiva floresça e se aprofunde. No entanto, embora meus argumentos aqui não representem uma tentativa de jogar água fria nesse encantamento com a política e com a ida às ruas, acredito ser saudável lançar um olhar crítico sobre os protestos e explicitar alinhamentos ideológicos e políticos opostos que parecem estar se embaralhando.

1) Semana passada começaram os protestos em São Paulo contra o aumento de 20 centavos da passagem de ônibus, cujo movimento se ampliou e se transformou em reivindicações mais gerais sobre os direitos das cidadãs e cidadãos às ruas de suas cidades. O movimento teve ecos em outras regiões do Brasil e de brasileiros pelo mundo. Na mesma semana passada, houve avalanches de repreensões da mídia mainstream brasileira (e de conhecidos na minha timeline do Facebook) criticando o vandalismo dos protestos. Da mídia, sabemos que essa é uma antiga estratégia para deslegitimar qualquer movimento. Dos meus colegas de Facebook, acredito que tenda mais para falta de empatia e de total desconhecimento da dinâmica de uma manifestação de rua no Brasil, de nunca ter tido contato com a vida política. Nunquinha mesmo. Se eu tivesse permanecido na pequena cidade do interior de São Paulo em que nasci, vinda de uma família de classe média, talvez eu também nunca soubesse como e o que significa levar meus ideais e minhas reivindicações às ruas. Talvez eu não soubesse nem como direcionar minha fúria por tudo isso aí. Provavelmente, também diria que todos os manifestantes perdem a razão sendo vândalos, porque eu não teria experimentado que, em protestos de ruas, não se tem controle total da situação, não há um líder que comanda cada passo dos manifestantes através de um rádio estilo walk talk. Não poderia notar que a maioria dos manifestantes é veementemente contra atos de vandalismo, mas não detém poder para controlar aqueles que externam sua raiva por meio da violência física e da depredação de patrimônio público.

O mesmo ocorre com os manifestantes que levam bandeiras dos seus partidos políticos. Eu, Karen, sou apartidária, mas antes d’eu nascer, antes de surgir a internet e o Facebook, os partidos políticos já estavam há décadas e décadas lutando por direitos sociais, sabem? Então não vou ser ingrata e querer expulsá-los de qualquer tipo de manifestação, porque autoritarismos não endossam uma democracia sana. E essa ingratidão eu não tenho. Nem sou anti-partidária, porque não apoio a premissa insidiosa de que há ideais compartilhados por todos independente do partido político, essa premissa nefasta de que não há discordâncias significativas. Se fosse assim, por que há partidos que, definitivamente, não me representam? Mas meus colegas não estão inteirados disso, não buscam informações de fontes variadas e, de fato, estão se lixando para militantes históricos.

2) Na semana passada, muita gente, incluindo vários dos meus colegas, acusaram os manifestantes de vagabundos, baderneiros e arruaceiros no Facebook. É que meus colegas não andam de ônibus em São Paulo. Nunca andaram. Não vão andar, porque somente um dia naquele sufoco já basta. Fazem pouco caso dos 20 centavos, mas desconhecessem os dados que expõem que centenas de pessoas não usam o nosso péssimo transporte público porque… não têm como pagar. Muitos desses meus colegas nasceram em berço de ouro, jamais passaram dificuldades na vida e agora trabalham para manter e duplicar, triplicar o patrimônio que já tinham. Eles pensam que tudo o que acumularam foi fruto de trabalho árduo e que se pobre não fosse vagabundo, já teria “subido na vida” faz tempo. Vejam bem, essa é uma mensagem de valorização da meritocracia e de um profundo individualismo, pois se crê que apenas atingem o sucesso financeiro as pessoas que trabalham dia e noite, sem descanso, sem esmolas, sem ajuda do governo, e que “fizeram por merecer” tudo o que conquistaram. Deste modo, se o Eike Batista teve êxito através do seu próprio suor, qualquer um pode ter, não é mesmo? Inclusive quem vem da favela, da periferia esquecida em algum rincão do país. Como era de se esperar, essas pessoas, incluindo meus colegas, são aquelas que criticam qualquer forma de política de compensação social do governo, como o Bolsa Família e as cotas raciais, por exemplo. “Afinal, todas e todos no Brasil têm as mesmas oportunidades. Que privilégio é esse agora de ganhar uns trocos a mais para comer e uns pontos a mais no vestibular? E vão trabalhar, vão estudar, bando de vagabundos!”. Pergunta: e quem sempre viveu de herança, trabalha?

Tudo leva a crer que esse é um tipo de individualismo que gera desprezo pelos que têm menos. Digo “desprezo” porque nos irritamos quando os modos de vida dos mais pobres não estão de acordo com o que esperamos que sejam os modos de vida dos mais pobres. Assim, incomodamo-nos que pobres comprem iogurte em vez de leite, que é mais barato, com o dinheiro do Bolsa Família. E quem vê a sociedade de forma individual quase nunca enxerga pelo prisma do contexto social e/ou em perspectiva histórica, ou seja, sentimentos de dó, piedade, compaixão, desprezo pelos que têm menos acontecem na relação personalista na qual se considera apenas o indivíduo e não as condições sociais que produzem a condição do indivíduo. Sem atacar a estrutura social profundamente injusta do Brasil, portanto, não saímos do lugar.

3) Esse individualismo arraigado tende a não gerar consciência coletiva e mobilização política. E, infelizmente, não só a classe média e as elites brasileiras nutrem uma crença aguda pelos valores de meritocracia e de individualismo. Acreditando que ao tomar medidas individuais resolvemos situações que pedem uma baita organização coletiva, não saímos do lugar. Em vez de nos unirmos para lutar contra o não cumprimento de direitos básicos, muitas e muitos de nós partimos para resolver no jeitinho, na sabotagem, até porque desacreditamos que a união faça alguma diferença. Assim, para esses meus colegas e para uma grande parte da população, o pensamento que perpassa todo esse debate pode ser sintetizado a seguir: “se todos trabalhassem duro, votassem nos ‘políticos certos’, dessem uma ‘boa estrutura’ aos filhos e fossem ‘honestos’, o Brasil já seria desenvolvido”. Ora, parece que o maior problema do país se resume à corrupção dos políticos, em particular a dos políticos do PT. Então somente vale a pena lutar por algo quando se luta contra a corrupção stricto sensu. Só para esclarecer: obviamente, eu sou contra a corrupção e me revolto ao ver o estrago que a corrupção faz no Brasil. No entanto, discordo de quem acredita que somente pessoas corruptas aspiram a um cargo político e/ou que os políticos se tornam corruptos quando chegam ao poder. Discordo de quem se autodenomina honesta, mas não perde a oportunidade de levar vantagem sobre os outros, seja pelo motivo que for. Eu mesma faço mea culpa. Conheço muita gente, por exemplo, que rouba supermercado ou rouba o sócio na firma, mas pensa que só os políticos corruptos ou os ladrões de bancos e de galinhas são desonestos. Gente de “boa família”, acima de qualquer suspeita. Enquanto isso, pautas importantes são deixadas de lado – os direitos das mulheres, dos homossexuais, dos indígenas etc, etc -, porque o maior problema do Brasil seria a corrupção.

Para essas pessoas, é confortável a ideia de que existe céu e inferno, o “nós” e o “eles”. Independente do que aconteça, dos erros que cometamos, nós somos o bem, estamos do lado “certo”. Ninguém discorda que o governo tem a obrigação de prezar pelo uso decente do dinheiro público, ainda mais que os cidadãos comuns, como eu e você. Mas apontar o dedo apenas para os políticos e esquecer o quanto cada um/a de nós contribuímos para essa cultura de corrupção, parece a mim um descompasso: como se o político corrupto não fosse cria de uma sociedade corrupta e como se todas e todos nós não retroalimentássemos esse sistema. Vamos nos colocar as seguintes perguntas: A quem serve a corrupção? Quando ela é um “mal necessário” em nossas vidas? Em que medida eu me beneficio dela no meu dia-a-dia? Em que medida eu estou dispostx a perder meus privilégios para seguir regras mínimas de convivência? Recomendo este vídeo aqui, porque mostra como o buraco é mais embaixo.

Outro ponto imprescindível: não se pode falar em corrupção sem questionar o sistema de financiamento de campanhas políticas no Brasil. Mais do que um problema moral, a corrupção é um problema intrínseco e estrutural que não se resolve com políticos vindos de uma “boa estrutura familiar” ou os mandando tomar vergonha na cara (esse texto da Iara explica melhor o ponto). Vale lembrar, também, que a corrupção não é um apanágio do governo petista e nem do Brasil. Demonizar um único partido político para combater a corrupção boicota o próprio combate à corrupção, porque absolve todos os outros partidos. Para quem quiser consultar o ranking de corrupção por partido, clique aqui.

O desvio da pauta inicial para temas mais gerais, como combate à corrupção, melhoria na educação e na saúde, também me parece arriscado, porque quanto mais geral é a reivindicação do protesto, menor é o desgaste de quem protesta para fazer valer esses objetivos. Afinal, com a falsa impressão de que já estamos fazendo a nossa parte ao exigir avanços gerais e sem rumos definidos na educação, saúde e segurança, acabamos por negligenciar toda a estrutura concreta que coloca, na prática, a gigante máquina política para girar, como os movimentos sociais, instituições diversas, comissões variadas, câmara dos deputados, senado e, pasmem, partidos políticos, por exemplo. Infelizmente, sem conhecer e sem acompanhar a dinâmica do sistema político no Brasil, e se mantendo crente de que lutar por pautas específicas não resolverá o problema, é como querer alcançar a paz mundial indo solicitar a paz mundial no Facebook.

4) O problema é que, em geral (e em geral mesmo), quem só se “mobiliza” quando o assunto é corrupção são pessoas que estão se lixando para quaisquer outros temas e, frequentemente, irritam-se com qualquer forma de manifestações populares (porque atrapalham o trânsito, para vocês verem, e como se o trânsito já não fosse infernal todos os dias). São os ditos reacionários, conservadores ou, na expressão mais recente, coxinhas. Óbvio que nenhum deles atende por esses nomes, ok? De modo geral, essas pessoas querem que os sem-terra se explodam, desejam a redução da maioridade penal para 16, 15, 14, 13 anos, reclamam dos direitos conquistados a duras penas pelas mulheres e pelos homossexuais, rechaçam sistematicamente qualquer política de inclusão social etc, etc, etc. Não perdem a oportunidade de tirar um sarro desses movimentos – e de criminalizá-los quando possível. Não se trata aqui, portanto, de tentar silenciar vozes de quem está querendo falar sobre o que incomoda nas manifestações dos últimos dias, já que corrupção incomoda muita gente, por exemplo. Trata-se de definir as finalidades da luta e para quem se luta.

Difícil construir consenso com quem sempre se coloca contra qualquer tipo de ampliação de direitos, que defende propostas contrárias à melhora da condição e vida das pessoas, propostas opostas à diminuição da desigualdade social. Para termos uma ideia do perigo, teve gente na manifestação clamando pela volta dos militares ao poder! Complicado construir consenso com quem, até semana passada, chamava os manifestantes de vagabundos e hoje aderiu ao movimento com cartazes em mãos pedindo o fim do “Bolsa Esmola” e usando nariz de palhaço. Por isso não me agrada a máxima “o gigante acordou”: quem “acordou” na semana passada? Como bem disse a Maria Luiza no Twitter, “eu não estava dormindo, nem o Movimento Gay nem o Movimento Feminista, nem o Movimento Negro” nem tantos outros. E faz tempo. Difícil construir consenso com quem só reclama quando a violência policial alcança a classe média: a repressão em São Paulo serve, também, para lembrar que essa violência policial atinge cotidianamente quem é pobre e negro no Brasil. O Estado criminaliza a pobreza e a cor da pele através da brutalidade dos policiais, que instauram o terror nas periferias e contam com a garantia da impunidade. Todo santo dia, durante semanas, meses, anos.

Então, se o “Brasil acordou”, acordou para quem? Quando ocorreu a covarde desapropriação do Pinheirinho, onde estavam essas pessoas que acordaram agora? E mesmo quem acordou agora, por que preferem continuar dormindo diante da remoção de casas no Rio para obras da Copa, diante do genocídio indígena para expansão latifundiária? Diante dos Belos Montes espalhados pelo Brasil, da cura gay? Imaginem vocês se não representa uma humilhação às tantas feministas deste país, que não estavam dormindo, ver o Estatuto do Nascituro sendo aprovado na comissão de finanças da câmara, tornando o estuprador um pai de família, em meio ao silêncio, pelo menos até o momento, da primeira presidente mulher. Depois de anos de luta, essas feministas ainda devem ser conclamadas a acordar… agora?

5) Não podemos perder de foco que a gota d´água de toda a onda de manifestações foi o aumento das passagens do transporte público e o pedido para a revogação dos 20 centavos. Reparem que aqueles que procuram descaracterizar o movimento e desviam a pauta para o combate à corrupção não são aqueles que sentem falta dos 20 centavos no bolso e na pele, ou seja, que acham os 20 centavos dignos de luta. Mais do que isso, os polêmicos 20 centavos – e tenham certeza disso -, são um símbolo das prioridades de gasto do governo, do tipo de constituição de cidade que se quer manter e aprofundar. No caso de São Paulo, apesar dos quilômetros diários de congestionamento, está claro que se prioriza o transporte individual. Porque mesmo sendo desgastante e caro passar horas no trânsito dentro de um automóvel, ainda é mais confortável que ser esmagado diariamente no transporte público, o que faz com que grande parte da população não veja a hora de poder comprar um carro e sair daquele sufoco, daquela violência diária. E também adquirir um símbolo de status social. Quando chegamos a este ponto, todo mundo perde.

Curiosamente, muitas das pessoas que chamam os manifestantes de vagabundos são aquelas que viajam para a Europa e voltam maravilhadas com a infraestrutura das cidades, que andam de metrô pela primeira vez na vida lá e ficam para morrer por não haver algo parecido no Brasil. São as mesmas pessoas que clamam por mudança nas redes sociais, mas, na prática, têm horror às mudanças sociais. Não nos enganemos, essas pessoas não se “solidarizaram” com o movimento porque o preço da passagem sobe e o serviço não melhora. Não se “solidarizaram” porque a cidade está cada vez mais segregada, que restringe – pelo bolso! – o direito dos indivíduos de livre circulação urbana. Aposto que muitas das pessoas que se revoltaram com a ideia de uma estação de metrô em Higienópolis são as mesmas que se deslumbram pelo padrão de cidade na Europa rica, esquecendo-se dos séculos de lutas sociais (e muito vandalismo, diga-se de passagem) dos europeus para a aquisição desses direitos. Perguntas: será mesmo que as pessoas que andam de carro não percebem que a melhoria na qualidade e no preço do transporte público beneficia diretamente àqueles que nunca pisaram no metrô, porque seria mais gente utilizando ônibus que sonhando em comprar carro? Ou será que desejam uma cidade segregada, sem pobres circulando pelos bairros ricos e vice-versa (e uma distribuição de renda mais igualitária só é boa na Europa)? Se este é o ponto, de novo: todo mundo perde.

6) Como se constatou, a Polícia Militar está despreparada para conviver com grandes protestos populares e age com violência. Também se torna cada dia mais visível que muita gente está vivenciando estas movimentações pela primeira vez e algumas nem entendem o que está acontecendo, nem sabem como externar o senso de indignação generalizado que sentem pelo país. Uma grande amiga me perguntou se a solução para todos os problemas brasileiros era tirar a Dilma do poder – e vi que está circulando até um chamado para o impeachment da Dilma e propondo a entrada do Joaquim Barbosa. Assim, como se depor um/a presidente eleito/a, sem que ele/a tenha cometido algum crime julgado e comprovado, fosse algo trivial. E o mais impressionante é que representa um efeito do protesto inicial, cuja pauta era a revogação do aumento da tarifa do transporte público em São Paulo! Para vocês verem, existe um desconhecimento dos princípios básicos da democracia, fruto do nosso pensamento individualizante que se distancia de organizações e mobilizações políticas. Com exceção dos oportunistas, falta educação política básica, ausência essa bastante presente ao ver as multidões nas ruas: minha impressão é que a galera parece estar indo aos estádios ver jogo do Brasil na Copa e que a única referência que temos de união do povo por um objetivo em comum é o futebol.

De todo modo, fica a pergunta: vai tirar a Dilma para entrar Michel Temer? Renan Calheiros, então? Ou, quem sabe, Sarney?

Por fim, não quero anular este sentimento novo para muitos, nem silenciar vozes com minhas palavras e desejo menos ainda ditar os rumos do movimento. Eu mesma sou repleta de contradições, troco de opinião, repenso atitudes, cedo, volto atrás, peço desculpas. Já pensei parecido como muitos dos meus colegas e acredito que podemos mudar, afinal, eu mudei muito. Mas desconfio, fico confusa e me preocupo quando existem tentativas de um suposto alinhamento a quem não podemos nos alinhar sob hipótese alguma. Porque fica difícil construir consenso com quem se mostra conservador e reacionário todos os dias do ano e se ofende ao saber que o movimento que culminou com a revogação do aumento da passagem é de esquerda.

Esquerda. Que isso fique bem claro.

Imagem destacada: retirada da página Admiradores Rota no Facebook.

Autor: Karen Polaz

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